Antero de Quental – Numa noite de Primavera

Esta quadra d’amor quanto nos punge,
Com tão doce pungir! Como sorrindo
Nos mata de desejos; nos esmaga
Sob o peso infinito dos anhelos,
Que esta vida e mil outras não fartaram!
Esta quadra d’amor, com seus sorrisos,
Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!

Tal é a essencia do Amor; tal Deus ha posto
Um veneno no mal, na flôr um áspide!
Prazer e dôr, sereis talvez um unico,
Unico sêr, que nos penetra e abraza
N’um fogo que nos doe, mas que é tão doce?
Punhal, que ferindo o peito, nos consola,
Mas, que a affagar nos vae roubando a vida,
Antegosto do que é o céo e o inferno?
Será isto o amor? será?… quem sabe?

Talvez! Se é laço universal e unico
Deve o bem como o mal juntar n’um todo;
Se é vida é tambem morte; se é saudade,
É desejo tambem; e se algum anjo
O creou, ha demonio que o perturba;
Se é um sol que nos brilha dentro d’alma,
Tambem queima e devora, tambem mata!
E é isto amor? será! será! quem sabe?

De vida mais completa é antegosto,
De melhor existir que além começa:
Talvez! então o amor será a morte?
Triste noiva, é mistér esp’rar-lhe a vinda
Para amar e gozar e viver muito?!
Celebre-se o hymeneo sobre uma campa:
Aguarde-se a hora extrema, como aurora
De um bem, que além da vida só começa;
E contando os momentos como sec’los,
O primeiro dos dias seja o ultimo…
Mas será isto amor? será!… quem sabe?

Talvez!… Mas quando a lousa funeraria
Rangendo, cobre um corpo estremecido:
Quando a terra só pode dar-lhe os osc’los,
Que inda ha pouco lhe davamos convulsos,
Que vem, que vem aos olhos? Vem só lagrimas
E ao peito vem só dôr! O lucto, o pranto
Se assentam sobre as campas, não a esp’rança!
E será isto amor? será!… quem sabe?

Mas as lousas são frias. Quem pernoita
Na deveza onde só o eterno somno
Se dorme… não! ninguem por lá pernoita!
As dôres, como gazes, se evaporam;
No ambiente da vida os ais não podem
Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima,
Tantas consolações para os que soffrem!
Não duram, não!… a mão que enchuga o pranto
Beija-se… e mais… e mais… encontra-se a alma
Com quem se casa a pobre solitaria:
E a outra! a outra lá! partiu-se o laço…
E é isto amor? será! será?… quem sabe?

Feliz do que viaja em mundo novo!…
Triste do que ficou sobre uma lousa
Assentado a chorar: o que é da esp’rança?
Nunca sahiu da campa voz amiga
A consolar a dôr! Fica-lhe apenas
Um premio, triste premio! o das lagrimas:
Esse—se foi constante—hade cingir-lhe
A fronte com a c’roa… do martyrio…
E será isto amor? será!… quem sabe?
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2.^o FRAGMENTO

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Será! será! Que importa, se é tão doce,
Se mata com um sorriso, entre caricias!
Vae, razão fria! vae… isto ou aquillo
Que importa seja o amor?! É sempre bello
—Um momento sequer—gozar a vida.

É bello o amor; é bella a vida; é bello
Tudo aonde o Senhor a mão ha posto…
E o Senhor fez o mundo! e a ti, ó noite,
Noite de primavera, deu-te estrellas,
Que são almas no espaço a procurar-se;
A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio
De matar ou dar vida… e a mim, sim!—creio—
Inda hade dar-me uma hora de ventura!
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Oh! dae-me a taça do veneno doce,
Que mata embriagando! Dae-me prestes
Uma taça de amor aonde libe!…

Abril, 1861.

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