José Maria Eça de Queiroz – A Festa das Crianças

A mais engraçada festa das crianças de que me lembro foi em Inglaterra, na casa de campo dos meus amigos Birds, no país de Cornwall. Era uma mascarada reproduzindo em miniatura a corte de el-rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. E o que tornava interessante a ressurreição deste mundo heróico e gentil, popularizado por Tennyson, é que nós estávamos ali justamente na região de Cornwall, onde viviam, entre saraus e batalhas, Artur, a sua rainha Guinevra e os doze valentes da Távola. A pouca distância do parque dos Birds, numa colina coberta de carvalheiras, a tradição coloca os paços de Artur e a maravilhosa e sombria cidade de Caerleon. O rio em que pescavam trutas era o velho Usk. Nas suas frescas margens erguera-se outrora o mosteiro onde o irmão de Percival, uma noite, da janela da sua cela, viu passar numa nuvem cor-de-rosa, entre aromas de junquilhos, o vaso de Santo Graal cheio de sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. E das varandas da sala de jantar podiam avistar-se em dias claros, lá ao longe, na costa e entre as rochas, as ruínas desse Castelo de Tentival, que aparece em todas as baladas do rei Artur, negro e triste junto ao mar de Cornwall.
A corte começou a reunir-se cedo, à hora do lanche, no grande salão branco, sobre o jardim. Era o filho dos Birds quem esplendidamente recebia, vestido de rei Artur. O primeiro personagem da lenda que chegou, acompanhado pela sua governanta, foi o feiticeiro Merlin, um adorável bebé, gordo e embezerrado com a coroa de hera, uns cabelos louros e umas enormes barbas proféticas enchendo-lhe a bochecha cor-de-rosa. Depois, seguidos das mamãs, vieram entrando todos os outros figurões da romântica crónica, cavaleiros de cinco anos armados e emplumados, mongezinhos nédios do Convento de Clerical, bispos quase de mama com os seus báculos nos braços, bardos rabugentos, mesteirais vestidos de seda e fadas mais lindas que as fadas. As três rainhas místicas do Walhalla chegaram por último, gravezinhas, todas três pela mão, cobertas de véus negros, escoltadas por um grande lacaio empoado.
Pouco a pouco o salão ficou animado como o velho Caerleon numa manhã de torneio. O pequeno Bird, de rei Artur, com seu manto bordado de ouro, os cabelos frisados saindo em anéis de sob a coroa carregada de pedras, passeava majestoso, entre os seus irmãos de armas. Uma senhora encantada quis dar-lhe um beijo. Ele repeliu-a asperamente, como teria feito o casto rei-Artur. Mais orgulhoso do que ele, só o bravo Lancelote do Lago, a quem tinham pintado um buço, e que, revestido de armas negras, com uma longa pluma escarlate ondeando-lhe desde o elmo até ás esporas de ouro, não tirava a mão da espada. E o que parecia ensoberbecê-lo mais era a sua faixa de gaze branca, passada sobre a couraça e feita, em rígida obediência à epopeia, de um véu da rainha Guinevra. Essa era a grande beleza do sarau, a rainha Guinevra, uma irlandesazinha com as duas tranças negras e os olhos verdes como os prados de Em. Séria e fria, envolta na pesada capa de cetim azul, conservava-se no meio de um sofá, imóvel, com um sorriso que lhe punha uma covinha no queixo, indiferente aos madrigais, insensível às proezas dos cavaleiros, e sempre de olhos baixos, ou por ela os bardos firam as harpas, ou por ela se batam os vassalos junto ao mar de Cornwall.
Um escudeiro anunciou o lanche tocando uma buzina de prata, tal qual como no Caerleon. E pelo corredor, aos pares, toda a corte seguiu à sala de jantar o rei Artur, que levava pela mão, com uma graça solene, a linda rainha Guinevra. Depois, mas não sem alguma confusão em que necessariamente as mamãs tiveram de ser enérgicas com os cavaleiros, ficou completa a Távola Redonda, ornada de baixelas e flores. E nada faltava do que mandam as poéticas crónicas.
Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos génios, lá se achava o velho feiticeiro Merlin, a quem a governanta, para ele comer com limpeza a sua sopa, tirara as barbas proféticas. Não havia um javali assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto roast-beef. Mas o rei Artur levantava o seu copo de água, misturada de uma gota de Bordéus, com a nobreza com que o outro, há tantos- centos de anos e naquela mesma colina, erguia a taça de hidromel em dias de vitória. De resto a sala, com o seu tecto de carvalho lavrado, tinha o severo aparato de Outras eras, e através da janela lá estavam, como nos versos da Morte de Artur, as ruínas do Castelo de Tentival, negro e triste junto do mar de Comwall.
A corte mostrava tanto apetite como à volta de uma batida aos lobos nos bosques que avizinham o Usk. Até as fadas devoravam. Sir Galahad, esse que possuía a força de mil, porque o seu coração era virgem, já por duas vezes reclamara pudim de batatas, batendo furiosamente com o garfo sobre o seu morrião de prata, posto ao lado da mesa, entre os cristais.
Fora preciso, por causa da sua magnífica túnica de cetim verde, atar um guardanapo ao pescoço do cavaleiro Bors, essa radiante flor de bravura cristã. No meio de toda a alegria o forte Percival, incomodado com a sua armadura, permanecia manso e corado com o ar de estar pensando (como o outro Percival) em se recolher ao Mosteiro de Wik. Depois, de repente e inexplicavelmente, rolou a baixo da cadeira, entornando todo o molho nos joelhos do intrigante Malverne, o mais violento cavaleiro da Távola.
Modred despropositou e arrepelou os cabelos de ouro de Percival. A tia do herói acudiu assustada, e então, como o famoso Lancelote do Lago se estava tornando turbulento, foi arrancado da Távola Redonda ignominiosamente, nos braços de um escudeiro, aos berros.
Depois do lunch, a corte de el-rei Artur voltou ao sarau a regozijar-se com danças. Sarau delicioso! Havia dois monges extraordinários de buréis brancos, tão pequenos e tão trôpegos que as senhoras tinham de os segurar pelos braços nas quadri-lhas e que queriam constantemente dançar, mais joviais que os cavaleiros, prontos a atirar-se sempre aos bracinhos das camponesas toucadas de flores.
O puro Sir Galahad, já sem broquei e sem morrião, galopava doidamente com uma ligeira fada, chegada nessa manhã da Bretanha, das florestas de Broceliane. Um bardo, com a coroa de folhas de carvalho enterrada até aos olhos, chorava por ter perdido a sua harpa. Havia também um príncipe do mar do Norte, um castelão de Erin e o bravo cavaleiro Bors, que se tinham refugiado a um canto, por detrás de um sofá, onde, sentados no chão, continuavam na sua divertida merenda com bolos, dando gritos, quando as senhoras queriam pôr cobro àquela gula tão imprópria de paladinos cristãos.
No corredor o pai Bird teve de suster um rechonchudo abade, que arregaçava as vestes sacerdotais e ia furioso sovar o intrigante cavaleiro Malverne. E não foi possível realizar a parte mais picante da lenda, fazendo com que Lancelote do Lago cortejasse Guinevra. O bravo Lancelote (bem diferente do outro) parecia de coração duro e sem gosto pelo sorrir das damas. Terminou mesmo por ter uma hedionda perrice e caiu nos joelhos da mamã, com duas grossas lágrimas nas pestanas e a sua bela pena escarlate caída no chão, como numa tarde de derrota.
Cedo os bebés começaram a estar cansados. Eu mesmo, no meio da festa tive de levar ao colo o venerável bispo de Blackemburg, com a sua mitra e com o seu rico báculo. Os seus doces olhinhos azuis fechavam-se de sono. Deitei-o no sofá, junto da mais pequenina das rainhas do Walhalla, que já ali dormia sob o véu negro, com os cabelos de ouro soltos e o lírio do Paraíso entre as mãozinhas cruzadas…
E o santo bispo candidamente adormeceu ao lado da mística rainha.

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