José Maria Eça de Queiroz – A Literatura de Natal

Uma das coisas encantadoras que nos traz o Natal são esses lindos livros para crianças, que constituem a literatura de Natal.
Não falo desses extraordinários volumes dourados publicados pelos editores franceses, em encadernações decorativas como fachadas de catedrais, que custam uma fortuna; contêm um texto que nunca ninguém lê e são oferecidos às crianças; mas realmente servem para obsequiar os papás. Os pobres pequenos nada gozam com esses monumentos tipográficos; apenas se lhes permite ver de longe as gravuras a aço, sob a fiscalização da mamã, que tem medo que se deteriore a encadernação; e o resplandecente volume orna daí por diante a jardineira da sala, ao lado do candeeiro vistoso.
Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui, apenas o bebé começa a soletrar possui logo os seus livros especiais: são obras adoráveis, que não contém mais de dez ou doze páginas, intercaladas de estampas, impressas em tipo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assunto é uma história em seis ou sete frases, e decerto menos complicada e dramática que O Conde de Monte Cristo ou Nona; mas, enfim, tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral e a sua catástrofe.
Tal é, para dar um exemplo, a lamentável tragédia dos Três Velhos Sábios de Chester: eram muitos velhos e muito sábios; e para discutirem coisas da sua sabedoria meteram-se dentro de uma barrica, mas um pastor que vinha a correr atrás de uma ovelha deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas ao ar os três velhos sábios de Chester!
Como estas há milhares: a Cavalgada de João Gilpen é uma obra de génio.
Depois, quando o bebé chega aos seus oito ou nove anos, proporciona-se-lhe outra literatura. Os sábios, a barrica, os trambolhões, já o não interessariam; vêm então as histórias de viagens, de caçadas, de naufrágios, de destinos fortes, a salutar crónica do triunfo, do esforço humano sobre a resistência da Natureza.
Tudo isto é contado numa linguagem simples, pura, clara – e provando sempre que na vida o êxito pertence àqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espírito da criança para o país do maravilhoso – não há nestas literaturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escamas de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se fala de anjos ou de fadas é de modo que- a criança, naturalmente, venha a rir-se desse lindo sobrenatural, e a considerá-lo do género boneco, com os seus próprios cameirinhos de algodão.
O que se faz às vezes é animar de uma vida fictícia os companheiros inanimados da infância: as bonecas, os polichinelos, 0ç soldados de chumbo. Conta-se-lhes, por exemplo, a tormentosa existência de uma boneca honesta e infeliz ou os sofrimentos por que passou em campanha, numa guerra longínqua, uma caixa de soldados de chumbo. Esta literatura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a criança – mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e misérias atravessaram aqueles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas baionetas torcidas ela todos os dias endireita com os dedos: e assim pode ficar depositado num espírito de criança um justo horror da guerra.
As lições morais que se dão deste modo são inumeráveis, e tanto mais fecundas quanto saem da acção e da existência dos seres que ela melhor conhece – os seus bonecos.
Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze anos: popularizações de ciências; descrições dramáticas do universo; estudos cativantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a história; e, enfim, em livros de imaginação, a vida social apresentada de modo que nem uma realidade muito crua ponha no espírito tenro securas de misantropia, nem uma falsa idealização produza uma sentimentalidade mórbida.
É no Natal principalmente que esta literatura floresce. As lojas dos livreiros são então um paraíso. Não há nada mais pitoresco, mais original, mais decorativo, que as encadernações inglesas: e as estampas, as cores leves e agudas, oferecem quase sempre verdadeiras obras de arte, de graça e de humor.
Não sei se no Brasil existe isto. Em Portugal, nem em tal jamais se ouviu falar. Aparece uma ou outra dessas edições de luxo, de Paris, de que falei, e que constituem ornatos de sala. A França possui também uma literatura infantil tão rica e útil como a de Inglaterra: mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobília, sim; para educar o espírito, não.
A Bélgica, a Holanda, a Alemanha, prodigalizam estes livros para crianças; na
Dinamarca, na Suécia, eles são uma glória da literatura e uma das riquezas do mercado.
Em Portugal, nada.
Eu às vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças. Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões quando os infelizes mostram inclinação pela leitura.
Isto é tanto mais atroz quanto a criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas – quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio: e estou certo que se existisse uma literatura infantil como a da Suécia ou da Holanda, para citar só países tão pequenos como o nosso, erguer-se-ia consideravelmente entre nós o nível intelectual.
Em lugar disso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamo-la sob grossas camadas de latim! Depois do latim acumulamos a retórica! Depois da retórica atulhamo-la de lógica (de lógica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!
Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever essas fáceis histórias: não é necessário o génio de Zola ou de Thackeray para inventar o caso dos três velhos sábios de Chester. Há entre nós artistas, de lápis fácil e engraçado, que comentariam bem essas aventuras num desenho de simples contorno, sem sombras e sem relevo, lavado a cores transparentes… E quantos milhares de crianças se fariam felizes com esses bonitos livros – que para serem populares e se poderem despedaçar sem prejuízo devem custar menos de um tostão!
Eu bem sei que esta ideia de compor livros para crianças faria rir Lisboa inteira. Também não é a Lisboa que eu a ofereço. Lisboa não se ocupa destes detalhes.
Lisboa quer coisa superior; quer a bela estrofe lírica, o rico drama em que se morre de paixão ao luar, o fadinho ao piano, o saboroso namoro de escada, a endecha plangente, boa facadinha à meia-noite, o discurso em que se cita o Gólgota, a andaluza de cuja – enfim, tudo o que o romantismo português inventou de mais nobre. Educar os seus filhos inteligentemente, está decerto abaixo da sua dignidade.
Mas, enfim, se estas linhas animassem aí no Brasil, ou entre a colónia portuguesa, um escritor, um desenhista e um editor a prepararem alguns bons livros, bem engraçados, bem alegres, para os bebés – eu teria feito ao império um serviço colossal,.que não sei como me poderia ser recompensado.
Uma boa fazenda, de rendimento certo, numa província rica, com casa já mobilada e alguns cavalos na cavalariça, não seria talvez de mais. Se a gratidão do Governo imperial quisesse juntar a isto, para alfinetes, um ou dois milhões em ouro, eu não os recusaria. E se me não quisessem dar nada, bastar-me-ia então que um só bebé se risse e fosse alguns minutos feliz. Pensando bem – é esta a recompensa que prefiro.

 

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