José Maria Eça de Queiroz – Acerca de livros

Outubro chegou, e com este mês, em que as folhas caem, começam aqui a aparecer os livros, folhas às vezes tão efémeras como as das árvores, e não tendo como elas o encanto do verde, do murmúrio e da sombra.
Estamos com efeito em plena book-season, a estação dos livros.
Estes dois meses, Setembro e Outubro (e eles merecem-no porque como cor, luz, repouso, são os mais simpáticos do ano), têm acumulado em si as mais interessantes seasons, as estações mais fecundas da vida inglesa.
A London-season, a célebre estação de Londres, quando a aristocracia, maior e menor, os dez mil de cima, como se dizia antigamente, o folhado, como se diz agora, recolhe dos parques e palácios do campo aos seus palacetes e jardinetes de Londres – passa-se em Abril, Junho e Julho, verdade seja. Mas essa é uma vã e oca estação de trapos, de luvas de vinte botões, de lacaios, de champanhe, de batota e de cotillon. Enquanto que as outras!…
Olhem-me para estas sábias, úteis, viris, solenes seasons, que abundam nestes dourados meses de Setembro e Outubro. Isto sim! Aqui temos, por exemplo, a congress-season, a estação dos congressos.
Que espectáculo! Toda a verde superfície da Inglaterra está então de norte a sul salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação. Há-os de metafísicos e há-os de cozinheiros.
Aqui, duzentos indivíduos carrancudos e descontentes elaboram uma nova ordem social; além, uma multidão de sábios, acocorados, semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, não podem chegar à conclusão se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da câmara nupcial da rainha Guinevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leitão, esse amor!
Os congressos mais notáveis este ano foram – o de medicina em Londres, a que assistiram mil e trezentos congressistas médicos e cirurgiões dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometeu à humanidade, para daqui a anos, a supressão das epidemias pelas vacinas; o da British Association, a grande Sociedade das Ciências (congresso anual celebrado este ano em York), em que o presidente, Sir John Lubbock, esse amável sábio que tem passado a existência a estudar as civilizações inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploráveis oligarquias de abelhas – ocupou-se desta vez, dando um balanço à ciência durante os últimos cinquenta anos, a mostrar algumas das estupendas habilidades desse outro efémero insecto, o homem: e, enfim, um congresso anual da Igreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitários eclesiásticos, teólogos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, o mais douto e literário da Europa; entre outros assuntos discutiu-se a «influência da arte na vida e no pensar religioso..: mas, quanto a mim, o resultado mais nítido foi o revelar incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminui de um terço todos os dez anos, ao passo que o espírito de religiosidade cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das formas caducas e perecíveis das religiões.
Neste momento há outros congressos – o dos metalurgistas, o das ciências sociais, o dos telegrafistas, o arqueológico, o dos gravadores, o dos… Enfim, centenares. Até o dos browninguistas. Não sabem o que são os browninguistas? Uma vasta associação tendo por fim estudar, comentar, interpretar, venerar, propagar, ilustrar, divinizar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo neste país de arrebatados entusiasmos intelectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem dúvida, com Shelley, Shakespeare e Milton, um dos quatro príncipes da poesia inglesa: mas tem o inconveniente de estar vivo. Ele próprio assiste, materialmente, com o seu paletó e o seu guarda-chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assunto: e fatalmente, pelo efeito mesmo da sua presença, a admiração literária tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake-hands que ele distribui começam naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que ele escreveu. Por isso mesmo que o divinizam, o amesquinham: não é então o grande poeta de Inglaterra, é o ídolo particular dos browninguistas, deixa assim de ser um espírito falando a espíritos– para ser apenas um manipanso aterrorizando supersticiosos.
Mas continuando com as estações. Temos ainda ayachting-season, a estação náutica, das regatas, das viagens em iate. Hoje em Inglaterra ter um iate é como entre nós montar carruagens, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das formas mais triviais do conforto luxuoso. Um iate não é só um frágil e airoso barco de cinquenta toneladas e vela branca; pode ser um negro e ponderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. Neste último caso, em lugar de bordejar gentilmente em redor das flores e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar nessas prodigiosas paisagens marinhas do alto Norte da Escócia, vai dar a volta ao mundo, car-regado de bíblias para os pequenos patagónicos e de champanhe e de amor para as lindas missionárias, vestidas de marinheiras. A vida de iate tem os seus costumes especiais, a sua etiqueta, a sua fraseologia, a sua moral própria e, sobretudo, a sua literatura. A literatura de iate é vasta – William Black, o autor das Asas Brancas, do Nascer do Sol, da Princesa de Thude, o seu romancista oficial: um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua pena todo o vigor do pincel de um Jules Breton.
Temos igualmente neste mês a shooting-season, a estação da caça ao tiro, que abre no primeiro de Setembro com uma solenidade tal, e no meio de um interesse público tão intenso, tão fremente – que me dá sempre ideia do que devia ter sido nas vésperas da Grande Revolução a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão desta abominável comparação – mas a carne é fraca e eu considero esta estação sublime. E nela que se caça o grouse, e é durante ela que se come o grouse. Não sabem o que é o grouse? É um pássaro, do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençoe) nos moors, ou descampados da Escócia… Agora deixem-me repousar um momento e ficar aqui, num êxtase manso, pensando no grouse, com as mãos cruzadas sobre o estômago, o olho enternecido, lambendo o lábio… Não imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve falar nas coisas boas sem veneração. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos o exemplo quando, tendo mencionado num dos seus livros o ortolan, esse outro delicioso pássaro, acrescentou que o peitinho gordo do ortolan é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais perturbador que os lilases e o sabor da sua febra melhor que o sabor da verdade: pode-se dizer o mesmo do grouse.
Continuando, temos a burglary-season, a estação dos assaltos e roubos às casas. Esta começa também em Setembro, quando a gente rica sai de Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um velho e sonolento guarda-portão. Os salteadores de Londres, corpo social tão bem organizado como a própria policia, procede então sistematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos meios científicos, ao arrombamento e ao saque dessas propriedades abarrotadas de coisas ricas…
Temos a lecture-season, ou estação das conferências. O seu nome explica-a e seria longo detalhar-lhe a organização. Basta dizer que nesta estação não há talvez um bairro em Londres (quase podia dizer uma rua), nem uma aldeia no resto do país, em que se não veja cada noite um sujeito, com um copo de água, dissertando sobre um assunto, diante de uma audiência compacta, atenta, interessada e que toma notas. Os assuntos são tudo – desde a ideia de Deus até à melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes são todo o mundo – desde o professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sobe à plataforma a contar as suas impressões de viagem às ilhas Fiji, ou as aptidões curiosas que observou no seu cão…
Há ainda outras estações que basta enunciar: a hunting-season, a estação da caça à raposa (isto é todo um mundo); a cricket-season, a estação em que se joga o críquete – e em que se vêem destes edificantes espectáculos: doze cavalheiros vindos do fundo da Austrália, outros doze partindo dos altos da Escócia, e encontrando-se em Londres a jogar ao desafio uma tremenda partida que dura três dias, na presença arrebatada de um povo em delírio! Isto é um grande país!
Temos também a angling-season, a estação da pesca à linha, instituição nobilíssima a que a humanidade deve o salmão e a truta. E o desporto favorito da alta burguesia culta, da magistratura, dos homens de sapiência, daquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solene respeitabilidade e de alto cerimonial – pesca à linha. Talvez por isso, de todos os desportos ingleses, a pesca à linha é um dos que têm produzido uma literatura mais considerável – tão considerável que a sua bibliografia, a simples enumeração dos seus tratados, ocupa um livro de duzentas páginas! Ai observo com respeito a notícia de um ponderoso estudo sobre a pesca à linha entre os Assírios… Isto é um país imenso!
Só esta semana a literatura da pesca à linha nos deu já dois livros, segundo as listas: A Carteira de Um Pescador à Linha; Pela Beira dos Rios.
Temos ainda a travelling-season, a estação das viagens, quando o famoso turista inglês faz a sua aparição no continente. Nesta época (Setembro e Outubro) todo o inglês que se respeita (ou que não podendo em sua consciência respeitar-se pretende ao menos que o seu vizinho o respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os países do sol, do vinho e da alegria. Os anjos (se o não sonharam, como diz João de Deus) devem assistir então do seu terraço azul a um espectáculo bem divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover – e daí sucessivamente partirem longos formigueiros de turistas, riscando de linhas escuras o continente, indo alastrar os vales do Reno, negrejando pela neve dos Alpes a cima serpenteando pelos vergéis da Andaluzia, atulhando as cidades da Itália, inundando a França! Tudo isto são ingleses. Tudo isto traz um Guia do Viajante debaixo do braço. Tudo isto toma notas. Isto às vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma amiga da cunhada, uma conhecida desta amiga, sete filhos, seis criados, dez cães e outros cães conhecidos destes cães: e isto paga por tudo isto sem resmungar! Não: não digo bem, resmungando sempre. Esta viagem de prazer passa-a quase sempre o inglês a praguejar (mentalmente – porque nem a Bíblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).
A verdade é que o inglês não se diverte no continente: não compreende as línguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras, toilettes, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar; tem a vaga crença de que os lençóis nas camas do hotel nunca são limpos; o ver os teatros abertos ao domingo e a multidão divertindo-se amargura a sua alma cristã e puritana; não ousa abrir um livro estrangeiro porque suspeita que há dentro coisas obscenas; se o seu Guia lhe afirma que na catedral de tal há seis colunas e se ele encontra só cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o pais que percorre, como um homem a quem roubaram uma coluna; e se perde uma bengala, se não chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compor uma carta para o Times, em que acusa os países continentais de se acharem inteiramente num estado selvagem e atolados numa pútrida desmoralização. Enfim, o inglês em viagem é um ser desgraçado. É evidente que eu não aludo aqui à numerosa gente de luxo, de gosto, de literatura, de arte: falo da vasta massa burguesa e comercial. Mas mesmo esta encontra uma compensação a todos os seus trabalhos de turista quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como esteve aqui e além, e trepou ao monte Branco, e jantou numa table-d’hôtel em Roma, e, por Júpiter!, fez uma sensação dos diabos, ele e as meninas!…
Que mais estações temos ainda? A speech-season, a estação dos discursos, quando, nas férias do parlamento, todos os homens públicos se espalham pelo pais discursando, perante enormes meetings, sobre os negócios públicos. E uma das feições mais curiosas da vida política em Inglaterra.
Há outras muitas estações em Setembro e Outubro, mas não me lembram agora. E enfim, para não ser injusto, devo mencionar também o Outono.

De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante é a book-season, a estação dos livros.
Isto não quer dizer que fora desta estação (Outubro a Março) se não publiquem livros em Inglaterra – longe disso, Santo Deus! Como não quer dizer que fora da London-season se não dance, ou fora da travelling-season se não viaje. Significa simplesmente que as grandes casas editoras de Londres e de Edimburgo reservam para as lançar nesta época as suas grandes novidades. Um livro de Darwin, um estudo de Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de George Meredith serão evidentemente guardados para a estação. De resto, durante todo o ano não se interrompe, não cessa essa publicidade fenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo uma outra crosta de papel impresso em inglês.
Não sei se é possível calcular o número de volumes publicados anualmente em Inglaterra. Não me espantaria que se pudessem contar por dezenas de milhares. Aqui tenho eu diante de mim, no número de ontem do Spectator, a lista dos livros lançados esta semana: noventa e três obras! E isto é apenas a lista do Spectator. Apenas o que se chama aqui «literatura geral… Não se contam as reimpressões; nem as edições dos clássicos, em todos os formatos, desde o fólio, que só um hércules pode erguer, ao volume-miniatura, cujo tipo reclama microscópio, e em todos os preços, desde a edição que custa cinquenta libras até à que custa cinquenta réis: não se contam as traduções de livros estrangeiros, sobretudo as literaturas da Antiguidade; não se conta, enfim, essa incessante produção das universidades, essoutra levada de gregos e latinos, de comentá-rios, de glossários, de in-fólios, que lançam de si, aos cv” Hì ub ó
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?? VD literatura geral uma espécie de que o Inglês não se farta – a literatura de viagens. Já não falo nos romances: isso não constitui hoje uma produção literária, é uma fabricação industrial.
Na vida doméstica inglesa, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade, como a flanela ou as fazendas de algodão: e, portanto, toda uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo por grosso e tão depressa quanto a pena pode escrever, arremessando para o mercado as páginas mal secas no ansioso conflito da concorrência.
Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é também considerável, e de resto bem explicável numa raça expansiva e peregrinante, com esquadras em todos os mares, colónias em todos os continentes, feitorias em todas as praias, missionários entre todos os bárbaros, e no fundo da alma o sonho eterno, o sonho amado de refazer o Império Romano. Isto produziu um outro industrial–o prosador viajante.
Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o homem que visitava países longínquos, se se achava em aventuras pitorescas, à volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a pena e ia revivendo esses dias numa agradável rememoração de impressões e paisagens. Hoje, não. Hoje empreende-se a viagem unicamente – para se escrever o livro. Abre-se o mapa, escolhe-se um ponto do universo bem selvagem, bem exótico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um dicionário. E toda a questão está (como a concorrência é grande) em saber qual é o recanto da Terra sobre que ainda se não publicou livro! Ou, quando o pais é já toleravelmente conhecido, se não terá ainda alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir trezentas páginas de prosa…
Quem hoje encontrar, em algum intrincado ponto do globo, um sujeito de capacete de cortiça, lápis na mão, binóculo a tiracolo, não pense que é um explorador, um missionário, um sábio coligindo floras raras – é um prosador inglês preparando o seu volume.
Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens publicados em Londres nestas duas últimas semanas.
É claro que eu não os li, nem sequer os enxerguei. Copio os títulos, somente, da lista de dois jornais de crítica: o Atheneum e a Academy. Note-se que estes livros são quase sempre bem estudados: dão o traço e a linha que pinta, a paisagem com a sua cor e luz, a cidade com o seu movimento e feições; são gráficos e são críticos; têm a geografia e têm a observação; e mais ou menos fazem reviver com o detalhe característico o povo visitado, na sua vida doméstica, a sua religião, a sua agricultura, o seu desporto, os seus vícios, a sua arte, se a tem. Calcule-se, pois, a importância desta literatura, que se toma assim um inquérito sagaz, paciente, correcto, feito ao universo inteiro.
Aqui está, com os títulos traduzidos, o que se publicou nestes quinze dias: A Minha Jornada a Medina; Entre os Filhos de Han; Nas Águas Salgadas; Longe, nas Pampas; Santuários de Piemonte; O Novo Japão; Uma Visita à Abissínia; Vida no Oeste da Índia; Pelo Mahakam a cima, e pelo Bania a baixo; A Cavalo pela Ásia Menor; Cenas de Ceilão; Através de Cidades e Prados; No Meu Bungaló; As Terras dos Matabeles; Fugindo para o Sul; Terras do Sol da Meia-Noite; Peregrinações na Patagónia; O Sudão Egípcio; Terra dos Magiares; Através da Sibéria; Notas do Mundo do Oeste; Caminhos da Palestina; Norsk, Lapp e Finn (onde será isto Santo Deus!); Guerras, Peregrinações e Ondas (Que título, Deus piedoso!); A Linda Atenas; A Península do Mar Branco; Homens e Casos da Índia; A Bordo do «Raposo» Desporto na Crimeia e Cáucaso; Nove Anos de Caçadas na África; Diário de Uma Preguiçosa na Sicília; A Leste do Jordão…
Ainda há outros, ainda há muitos – e em quinze dias!
Seria curioso dar paralelamente a lista de poemas, livros de poesias, odes, baladas, tragédias, anunciados ou já publicados na primeira quinzena da estação – mas não tenho paciência em revolver todo esse lirismo. Há uma «grande sensação»: o livro de Dante Rosseti, um dos mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóis.
Não menos espessas, nem menos compactas, são as listas dos livros de teologia, controvérsia, exegese, etc. – exalando de si uma melancolia de cemitério. Em metafísica há o costumado sortimento – maciço e vago, como diria Herbert Spencer. Em história, biografia, crítica, as listas bibliográficas vêm riquíssimas… Enfim, ao que parece, é uma formidável e grandiosa estação de livros. Aos romances, nem aludo: montões, montanhas – e monturos!
Uma pastora meio selvagem das Ardenas, que nunca vira outro espectáculo mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Paris, quando no bulevar passava, com a tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzela fez-se branca como a cera, e só pôde murmurar numa beatitude suprema:
– Jesus!, tanto homem!
Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridículo desta pastora, e balbuciando, com a boca aberta, como se chegasse também das Ardenas:
– Jesus!, tanto livro!
Mas não é este grito, como o da pastora, natural?
O beduíno do deserto do Oeste que, passando a serrania líbica, avista pela primeira vez, imenso, lento, enchendo um vale, o rio Nilo, exclama espantado:
– Alá!, tanta água!
A água é a sua preocupação: todas as tristezas das areias que habita vêm da falta da água: mais que ninguém sente as maravilhas que a água produz; e no seu grito há uma tímida repreensão a Alá! «Tanta água aqui e tão pouca lá donde eu venho…..
Assim eu venho… Mas o resto da comparação complete-a, antes, o leitor astuto..

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