Jose Maria Eça de Queiroz – O inverno em Londres

Eis aí o Inverno. Já todos os dias o encontro e, agora mesmo, lhe ouço fora na rua, sob a névoa tristonha desse fim de Outono, a voz dolente e vaga: não é o velho semideus de atributos mitológicos, com a barba em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o clássico feixe de lenha a tiracolo: é um rapagão enfarruscado, de casquete e chicote em punho, que vai conduzindo uma carroça negra, com um forte percheron aos varais pelo macadame já endurecido da geada, e soltando de porta em porta o seu pregão melancólico: «Coals!, coals!» (Carvão!, carvão!)
Estão, pois, findos os dias purpureados do lindo Outono inglês! Nada iguala o encanto suavizador e meigo dos meados de Outubro nestes condado do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pitorescas margens do Severn, ou ainda ao longo do Avon, riba que a memória de Shakespeare torna quase sagrada, ou pelas colinas amáveis de Surrey, é o mais belo, o mais útil repouso que pode ter o espírito sobressaltado, cansado dos livros, ou do duro movimento da vida.
Tem-se aqui alguma coisa daquela «paz etérea» que os poetas pagãos sonhavam nas perspectivas inefáveis dos Eliseus: somente a natureza particular do Norte, as linhas da arquitectura saxónia, o arranjo das culturas, dão a feição romântica e elegíaca que falta à paisagem latina.
Caminha-se numa luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento quase magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das árvores seculares e aristocráticas, solenes, isoladas, imóveis num recolhimento religioso, leva a alma insensivelmente para alguma coisa de muito alto e de muito puro: há um silêncio de uma extraordinária limpidez, como por sobre as nuvens, um silêncio que não existe na paisagem dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas, muito forte, parece fazer um vago rumorido, um silêncio que pousa no espírito com a influência de uma carícia, e a cada momento são fundos encantadores de paisagem, de um vaporizado azul, com alguma torre de abadia coberta de heras que surge de entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se entrevêem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a histórica arquitectura de um castelo, de bandeira feudal na torre, que de repente aparece numa elevação, com os seus terraços de mármore escuro, os grandes prados onde pastam ou repousam os animais de luxo, os faiscantes meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da profundidade dos arvoredos…
Daqui a dias, porém, por colina e vale só haverá a triste névoa calmosa que dura meses, ou a neve redemoinhando ao vento…
Esta monotonia que começa escurecendo os campos desde Novembro vai causar este ano uma inovação excelente nos costumes sociais da Inglaterra. Vai haver de Dezembro a Maio uma estação de Inverno, em Londres.
Como sabem, Londres só é habitado desde os começos de Maio até aos primeiros dias quentes de Agosto. O resto do ano, Londres é a caída Palmira ou a tenebrosa planície do deserto da Petreia. Ficam lá, é verdade, entre três a quatro milhões de humanidade: mas é uma humanidade subalterna, feita de barro vilão, sem valor social em Inglaterra: é a humanidade que não tem castelos, nem parques de três léguas, nem o seu nome no Livro de Ouro, nem iates de luxo para bordejar nas costas da Escócia; é a humanidade que não tem nas artérias o famoso sangue normando, esse sangue invejado, mais precioso que o de Cristo, cantado por todos os poetas da corte, e que foi importado pelos brutamontes cobertos de ferro e peludos como feras que acompanharam a essas ilhas Guilherme da Normandia. E enfim a humanidade que Carlos Stuart, o Bem Amado, chamava a canalha, e que o grande sacerdote da Bela Helena, o pobre Offenbach, designava, com tanto critério, pelo nome de vil multidão – é o trabalhador, o artífice, o artista, o professor, o filósofo, o operário, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.
É esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade superior, os dez mil de cima, como aqui tão pitorescamente se diz, partem para os seus castelos, as suas vilas à beira-mar, ou os seus iates – Londres, apenas habitada pela turba abjecta, torna-se sobre a face da Terra como a lamentável Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em Janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, pior, por um filósofo, um poeta, um desses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castelo e sem matilha de cães, que nenhuma lady quereria ter no seu «rol de visitas».
Se um gentleman, tendo negócios instantes em Londres, é forçado a vir a este deserto de plebeus, guarda um incógnito severo; não chegará talvez a pôr barbas postiças; mas só se arrisca pelas ruas no fundo escuro de um cupé com os estores descidos, e o paletó rebuçando-lhe a face. Todavia uma aventura tão poderosa poucos a ousam!
Pois bem, tudo isto se vai reformar! E este ano será moda passear em Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall Mall, em pleno Janeiro, na espessura dos nevoeiros. Esta revolução considerável foi, como todas as fecundas revoluções, tramada, pregada, popularizada pelas mulheres.
Havia longos anos que estes anjos sofriam com impaciência a melancolia da vida do campo, durante o longo Inverno saxónico. Ainda nos primeiros, depois de deixar as glórias de Londres e os esplendores da seuson, a existência era tolerável. Havia as regatas elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois vinham as festas da abertura da caça; seguia-se a época dos iates, as viagens às costas da Noruega, às Hébridas, às praias elegantes da Normandia; depois, quando a corte está na Escócia, vinha a caça do veado, os bailes de gellies das montanhas. Enfim, vivia-se.
Mas, com a chegada de Dezembro, da neve, uma formidável lei social, a fashion, obrigava os dez mil de cima a recolherem-se aos seus castelos, à solidão do campo. E aí começava para as damas o tédio memorável!
Quando se não tem um château o parque como os de Inglaterra pode parecer um sonho de paraíso o viver nessas faustosas residências, entre maravilhas de arte, acumuladas por gerações, com mobílias de duzentos contos, um serviço de setenta criados, vinte cavalos na cocheira e um parque de três léguas, um parque de romance para passear sobre a neve dura quando o céu brilha claro. Mas a desgraçada dama, desde o seu primeiro dente acostumada a tantos esplendores, já lhes não encontra encanto; uma simples corrida, num velho fiacre de Londres, de loja em loja, é-lhe cem vezes mais doce.
Depois a vida do castelo é de um vazio pardo e tristonho. Os homens, esses, de manhã, têm a caça, os galopes furiosos, devorando prados, saltando sebes atrás de uma raposa espavorida, ao grito bárbaro de hally-ho! Depois à noite, tomado o banho e vestida a casaca, têm o grogue forte no fumoir. Mas as desgraçadas damas? Todas bebem grogue – mas raras são as que caçam. O dia é-lhes lúgubre. Uma burguesa, em Inglaterra, tem sempre uma ocupação, mesmo nas existências ricas, borda, pinta em porcelana, faz camisas para os pequenos patagónios, ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memórias ou corresponde-se com um teólogo sobre pontos difíceis de doutrina. Mas um dama das dez mil não faz nada; os seus grandes talentos, a toilette, a graça de receber, a intriga política, o brilhante da conversação, o chique estético, coisas em que prima, não lhe servem no isolamento relativo do castelo, sob as torrentes da chuva. O seu palco natural é o salão de Londres. Ali no campo, nas longas galerias onde pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou Poitiers, ou, se os avozinhos nunca invadiram a França, as bandeiras compradas no antiquário da esquina, mylady boceja; ou estendida num sofá, na sua robe-de-chambre de brocado branco de Génova, com uma novela caída no regaço, olha os flocos de neve empoando os grandes carvalhos do parque…
Depois vem a noite. O pior. Os homens, que fizeram talvez cinco léguas de galope atrás das raposas ou que se estiveram adestrando em jogos atléticos, têm sono. De gardénia na casaca e pérola negra na camisa, estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo Nocturno de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, são tão inúteis para a flirtation, o espírito, a intriga, o amor, como se fossem empalhados.
Debalde as pobres damas fizeram uma toilette de duzentas libras: debalde resplandecem às mil luzes de cera os seus ombros de deusas. De nada vale. O gentleman anseia por deixar a sala, ir reconfortar-se com o seu brandy and soda, estirar aqueles membros que a raposa cansou em lençóis bem perfumados e bem bassinés, e ressonar forte.
Esta situação era intolerável.
E os homens mesmo sofriam. Galopar num cavalo de preço sobre a terra dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manhã de brisa fria – tem encanto. Mas pode-se isso comparar à delícia de ir tagarelar para o clube, ter todas as noites três ou quatro bailes, fazer frases sobre a questão do Oriente, cear com Miss Fanny num quente boudoir de veludo, enquanto fora a plebe patinha na lama de Londres! Não, não se pode comparar.
E por isso veio o momento psicológico, como diz esse ilustre homem de prosa, o senhor de Bismarck, em que ladies e lordes concordaram que o Inverno no campo era bom para os lobos; e que, para pares de Inglaterra, Londres era preferível. E aí está como se vai ter esta coisa inesperada na vida inglesa – o Inverno de Londres.
E, todavia, Deus sabe que ele não é agradável, esse Inverno de Londres! De manhã, ao acordar, tem-se diante da janela uma sonora opaca, espessa, parda, arrepiadora e sinistra: é necessário fazer a barba com o gás flamejando; almoça-se com todas as velas do candelabro acesas, e a carruagem que me conduz é precedida de um archote. Ao meio-dia esta decoração de inferno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações odiosas, ganha um amarelo de oca e começa a exalar um vapor fétido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso húmido sobre a pele, os edifícios que nos cercam aparecem com as linhas vagas e quiméricas das cidades malditas do Apocalipse e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrépito, que deve há em cima incomodar a corte do céu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor num subterrâneo.
Depois, à noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, mole gorduroso, desfaz-se em chuva… Em chuva, digo eu? Em lama em lama mal líquida, que escorre, pinga! Vem babada de um céu negro.
O gás parece cor de sangue; como todo o mundo, para combater esta névoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, há nas ruas um vago vapor a álcool, que passa os hálitos: isto excita, irrita, impele a turba ao vício. O ruído intolerável das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flamejar das vitrinas dão uma aceleração brutal ao sangue, uma vibração quase dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com ímpeto, deseja-se com furor; a besta humana inflama-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a luta, o excesso, a gula, o abrasado do conhaque, a paixão. Londres numa noite de Inverno, exala violência e crime. E pode-se afirmar que em cada uma das tipóias que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, com relampejar rubro de lanternas, vai um cidadão ou uma cidadã cometendo ou preparando-se para cometer, com excepção da preguiça, um dos sete pecados mortais.
De uma coisa se pode ter a certeza: é que não há-de faltar, aos que vão fazer o seu Inverno a Londres, assunto de cavaco. Além dos livros que se anunciam, dos escândalos que não hão-de faltar, das modas que sempre se inventam, a política, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa na Irlanda; processo por alta traição dos chefes da Liga da Terra, deputados da Irlanda; nova guerra no Afeganistão, onde Cabul se insurreccionou; toda a África do Sul em rebelião; complicações sinistras do lado do Oriente; desinteligências estridentes entre os radicais no poder… Enfim, um encanto.
Era em circunstâncias idênticas que o famoso Ganville, o homem das Memórias, olhando num começo de Primavera para todos os lados do horizonte político e social, e não vendo (em 1830) senão presságios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a pátria, dizia, banhado em júbilo, quase em êxtase:
– Meu Deus, que deliciosas noites se vão passar no clube!

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