The Project Gutenberg EBook of Amor de Perdição, by Camillo Castello Branco This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Amor de Perdição Memorias d'uma familia Author: Camillo Castello Branco Release Date: August 3, 2005 [EBook #16425] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR DE PERDIÇÃO *** Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net AMOR DE PERDIÇÃO. AMOR DE PERDIÇÃO (MEMORIAS D'UMA FAMILIA). ROMANCE POR CAMILLO CASTELLO BRANCO. * * * * * Quem viu jámais vida amorosa, que não a visse afogada nas lagrimas do desastre ou do arrependimento? D. Francisco Manoel, (_Epanaphora amorosa_). * * * * * PORTO EM CASA DE N. MORÉ--EDITOR, PRAÇA DE D. PEDRO. A mesma casa em Coimbra, Rua da Calçada. Casa de Commissões em Paris, 2 bis, Rua d'Arcole. 1862. PORTO: 1862--TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA. Rua do Almada, 641. AO ILLUSTRISSIMO E EXCELENTISSIMO SENHOR *ANTONIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO* DEDICA O Author. _Ill.^mo e Ex.^mo Snr. Ha de pensar muita gente que V. Ex.^a não dá valor algum a este livro, que a minha gratidão lhe dedica, porque muita gente está persuadida que ministros do estado não lêem novellas. É um engano. Uma vez ouvi eu um collega de V. Ex.^a discorrer no parlamento ácerca de caminhos de ferro. Com tanto engenho o fazia, de tantas flôres matizára aquella árida materia, que me deleitou ouvil-o. Na noite d'esse dia encontrei o collega de V. Ex.^a a lêr a Fanny, aquella Fanny, que sabia tanto de caminhos de ferro como eu. Que V. Ex.^a tem romances na sua bibliotheca, é convicção minha. Que lá tem alguns, que não leu porque o tempo lhe falece, e outros porque não merecem tempo, também o creio. Dê V. Ex.^a, no lote dos segundos, um logar a este livro, e terá assim V. Ex.^a significado que o recebe e aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado de V. Ex.^a Na cadêa da Relação do Porto, aos 26 de Setembro de 1861. Camillo Castello Branco_. PREFACIO. Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartorio das cadêas da Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte: _Simão Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na occasião de sua prisão na cidade de Vizeu, idade de dezoito annos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castello-Branco, estatura ordinaria, cara redonda, olhos castanhos, cabello e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, collête de fustão pintado e calça de panno pedrez. E fiz este assento, que assignei. Filippe Moreira Dias_. Á margem esquerda d'este assento está escripto: _Foi para a India em 17 de Março de 1807_. Não será fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito annos lhe havia de fazer dó. Dezoito annos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em fructos, e todo se embalsama no perfume das flôres! Dezoito annos! O amor d'aquella idade! A passagem do seio da familia, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as caricias mais dôces da virgem, que se lhe abre ao lado como flôr da mesma sazão e dos mesmos aromas, e á mesma hora da vida! Dezoito annos!... E degradado da patria, do amor, e da familia! Nunca mais o ceo de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem rehabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste! O leitor de certo se compungia; e a leitora se lhe dissessem, em menos de uma linha, a historia d'aquelles dezoito annos, choraria! Pois não? A olhos enchutos poderia ouvil-a a mulher, a creatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz comsigo do ceo um reflexo da divina misericordia, essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdêra honra, rehabilitação, patria, liberdade, irmãs, mãe, tudo, por amor da primeira mulher que o despertou do seu dormir de innocentes desejos?! Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobresalto que me causaram aquellas linhas, de proposito procuradas, e lidas com amargura e respeito e, ao mesmo tempo, odio. Odio, sim... A tempo verão se é perdoavel o odio, ou se antes me não fôra melhor abrir mão desde já de uma historia que me póde acarear enojos dos frios julgadores do coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de homens, feitos barbaros, em nome de sua honra. * * * * * AMOR DE PERDIÇÃO. PRIMEIRA PARTE. I. Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes, fidalgo de linhagem, e um dos mais antigos solarengos de Villa Real de Traz-os-Montes, era, em 1779, juiz de fóra de Cascaes, e n'esse mesmo anno casara com uma dama do paço, D. Rita Thereza Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castello-Branco, filha d'um capitão de cavallos, e neta de outro, Antonio de Azevedo Castello-Branco Pereira da Silva, tão notavel por sua jerarchia, como por um, n'aquelle tempo, precioso livro ácerca da Arte da Guerra. Dez annos de enamorado mal succedido consumira em Lisboa o bacharel provinciano. Para se fazer amar da formosa dama de D. Maria I minguavam-lhe dotes physicos: Domingos Botelho era extremamente feio. Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda, faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres d'elle não excediam a trinta mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de espirito não o recommendavam tambem: era alcançadissimo de intelligencia, e grangeara entre os seus condiscipulos da universidade o epitheto de «brocas» com que ainda hoje os seus descendentes em Villa Real são conhecidos. Bem ou mal derivado, o epitheto _brocas_ vem de _brôa_. Entenderam os academicos que a rudeza do seu condiscipulo procedia do muito pão de milho que elle digeria na sua terra. Domingos Botelho devia ter uma vocação qualquer; e tinha: era excellenle flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se sustentou dois annos em Coimbra, durante os quaes seu pae lhe suspendeu as mesadas, porque os rendimentos da casa não bastavam a livrar outro filho de um crime de morte[1]. Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fôra para Lisboa lêr no desembargo do paço, iniciação banal dos que aspiravam á carreira da magistratura. Já Fernão Botelho, pae do bacharel, fôra bem acceite em Lisboa, e mórmente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabeça em risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano sahiu das masmorras da Junqueira illibado da infamante nodoa, e bem-quisto mesmo do conde de Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do primor de sua genealogia sobre a dos Pintos Coelhos do Bomjardim do Porto: pleito ridiculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense fizera de sua filha ao filho de Sebastião José de Carvalho. As artes com que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de D. Maria I e Pedro III não as sei eu. É tradição que o homem fazia rir a rainha com as suas facecias, e por ventura com os tregeitos de que tirava o melhor do seu espirito. O certo é que Domingos Botelho frequentava o paço, e recebia do bolsinho da soberana uma farta pensão, com a qual o aspirante a juiz de fóra se esqueceu de si, do futuro, e do ministro da justiça, que muito rogado fiara das suas letras o encargo de juiz de fóra de Cascaes. Já está dito que elle se atreveu aos amores do paço, não poetando como Luiz de Camões ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa provinciana, e captando a bem-querença da rainha para amollecer as durezas da dama. Devia de ser, a final, feliz o «doutor bexiga»--que assim era na côrte conhecido--para se não desconcertar a discordia em que andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura que ainda aos cincoenta annos se podia presar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma serie de avoengos, uns bispos, outros generaes, e entre estes o que morrêra frigido em caldeirão de não sei que terra da mourisma; gloria, na verdade, um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do general frito se assignaram _Caldeirões_. A dama do paço não foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da côrte, das pompas das camaras reaes, e dos amores de sua feição e molde, que immolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porém, não impeceu a reproduzirem-se em dois filhos e quatro meninas. O mais velho era Manoel, o segundo Simão; das meninas uma era Maria, a segunda Anna, e a ultima tinha o nome de sua mãe, e alguns traços da belleza d'ella. O juiz de fóra de Cascaes, solicitando logar de mais graduado banco, demorava em Lisboa, na freguezia da Ajuda em 1784. N'este anno é que nasceu Simão, o penultimo de seus filhos. Conseguiu elle, sempre blandiciado da fortuna, transferencia para Villa Real, sua ambição suprema. A distancia de uma legua de Villa Real estava a nobreza da villa esperando o seu conterraneo. Cada familia tinha a sua liteira com o brasão da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no feitio, e as librés dos criados as mais surradas e traçadas que figuravam na comitiva. D. Rita, avistando o prestito das liteiras, ajustou ao olho direito a sua grande luneta de oiro, e disse: --Ó Menezes, aquillo que é?! --São os nossos amigos e parentes que veem esperar-nos. --Em que seculo estamos nós n'esta montanha?--tornou a dama do paço. --Em que seculo?! o seculo tanto é dezoito aqui como em Lisboa. --Ah! sim? Cuidei que o tempo parára aqui no seculo doze. O marido achou que devia rir-se do chiste, que o não lisonjeára grandemente. Fernão Botelho, pae do juiz de fóra, sahiu á frente do prestito para dar a mão á nora, que apeava da liteira, e conduzil-a á de casa. D. Rita, antes de vêr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais refalsada seriedade, se não haveria risco em ir dentro d'aquella antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não tinha ainda cem annos, e que os machos não excediam a trinta. O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza--velha nobreza que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa--fez que o mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim: «Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.» Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou á Senhora de Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepção dos sinos era a mais estrondosa e barata. Apearam á porta da velha casa de Fernão Botelho. A aia do paço relanceou os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si: «É uma bonita vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.» Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mêdo de ser devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os tectos estavam a desabar; que as paredes não resistiriam ao inverno; que os preceitos de uniformidade conjugal não obrigavam a morrer de frio uma esposa delicada e affeita ás almofadas do palacio dos reis. Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e começou a fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os alicerces: escreveu á rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva fez á sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva é um testemunho até agora inedito da demencia de D. Maria I. Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita, porém, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era tarde, porque já a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado não podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de seu brasão. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita victoriosa[2]. O juiz de fóra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga dobrou-se até aos grandes da provincia, ou antes houve por bem levantal-os até ella. D. Rita tinha uma côrte de primos, uns que se contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O mais audacioso não ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que não será estranha figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante sentinella da sua virtude. Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para cabalmente encher o coração de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas suffocava os suspiros, receando que Rita se désse por injuriada da suspeita. E razão era que se offendesse. A neta do general frigido no caldeirão sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriçavam e empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam estrepitosamente na calçada os seus ginetes, fingindo que os picadores da provincia não desconheciam as graças hippicas do marquez de Marialva. Não o cuidava assim, porém, o juiz de fóra. O intriguista que lhe trazia o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e conhecia Rita cada vez mais em flôr, e mais enfadada no trato intimo. Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um só lhe mortificava a memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avêsso, e vinha a ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rêdes que o ferreiro coixo fabricára para apanhar os deuses adulteros, e assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que, erguido o véo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varára em terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fóra era entendido com muito superior intelligencia á que revelava na comprehensão do Digesto e das Ordenações do Reino. Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de fóra empenhára os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e graças de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se repetem. Duas contarei sómente para não enfadar. Acontecèra um lavrador mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se não desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher á loja a vitella e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a mãe. Outra vez, deu-se o caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O juiz de fóra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dôces, que valiam dez patacões, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como ornato da bandeja. E assim é que ainda hoje, em Villa Real, quando se dá um caso analogo de ficar alguem com o conteúdo e continente, diz a gente da terra: «Aquelle é como o doutor brocas.» Não tenho assumpto de tradição com que possa deter-me em miudezas da vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a comarca, e ameaçava o marido de ir com os seus cinco filhos para Lisboa, se elle não sahisse d'aquella intratavel terra. Parece que a fidalguia de Lamego, em todo o tempo orgulhosa d'uma antiguidade, que principia na acclamação de Almacave, desdenhou a philaucia da dama do paço, e esmerilhou certas vergonteas pôdres do tronco dos Botelhos Correias de Mesquita, desprimorando-lhe as sãs com o facto de elle ter vivido dois annos em Coimbra tocando flauta. Em 1801 achamos Domingos José Correia Botelho de Mesquita corregedor em Vizeu. Manoel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois annos, e frequenta o segundo anno juridico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em Coimbra. As tres meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua mãe. O filho mais velho escreveu a seu pae queixando-se de não poder viver com seu irmão, temeroso do genio sanguinario d'elle. Conta que a cada passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o dinheiro dos livros, e convive com os mais famosos perturbadores da academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e provocando-os á luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu filho Simão, e diz á consternada mãe que o rapaz é a figura e o genio de seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que déra Traz-os-Montes. Manoel, cada vez mais aterrado das arremettidas de Simão, sáe de Coimbra antes de ferias, e vai a Vizeu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pae outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavallaria. De Vizeu parte para Bragança Manoel Botelho, e justifica-se nobre dos quatro costados para ser cadete. No entanto Simão recolhe a Vizeu com os seus exames feitos e approvados. O pae maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagancia por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manoel, e elle responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente. Os quinze annos de Simão tem apparencias de vinte. É forte de compleição; bello homem com as feições de sua mãe, e a corpolencia d'ella; mas de todo avêsso em genio. Na plebe de Vizeu é que elle escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição que faz, Simão zomba das genealogias, e mórmente do general Caldeirão que morreu frito. Isto bastou para elle grangear a mal-querença de sua mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte no desgosto d'ella, e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante Rita, a mais nova, com quem elle brincava puerilmente, e a quem obedecia, se lhe ella pedia, com meiguices de criança, que não andasse com pessoas mecanicas. Finalisavam as ferias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um de seus criados tinha ido levar a beber os machos, e por descuido ou proposito deixou quebrar algumas vasilhas que estavam á vez no parapeito do chafariz. Os donos das vazilhas conjuraram contra o criado, e espancaram-no. Simão passava n'esse ensejo; e, armado d'um fueiro que descravou d'um carro, partiu muitas cabeças, e rematou o tragico espectaculo pela farça de quebrar todos os cantaros. O povoleu intacto fugira espavorido, que ninguem se atrevia ao filho do corregedor; os feridos, porém, incorporaram-se e foram clamar justiça á porta do magistrado. Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que o prendesse á sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como mãe, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem detença, fugisse para Coimbra, e esperasse lá o perdão do pae. O corregedor, quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se zangado, e prometteu fazel-o capturar em Coimbra. Como, porém, D. Rita lhe chamasse brutal nas suas vinganças, e estupido juiz d'uma rapaziada, o magistrado desenrugou a severidade postiça da testa, e confessou tacitamente que era brutal e estupido juiz. II. Simão Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convicções da sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o estrepito dos cantaros a final, Simão deliciava-se n'estas lembranças, como ainda não vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas relembra os lourós de cada uma, e esmorece, a final, estafado de espantar, quando não é de estafar, os ouvintes. O academico, porém, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As recordações esporeavam-no a façanhas novas, e n'aquelle tempo a academia dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que por estudo. Os apostolos da revolução franceza não tinham podido fazer reboar o trovão dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros dos encyclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebêra a peçonha que sahiu no sangue de noventa e tres, não eram de todo ignorados. As doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns timidos sectarios em Portugal, e esses de vêr é que deviam pertencer á geração nova. Além de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sôgas de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons portuguezes que se queriam antes alliançados com a França, Estes eram os pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porém, exprimiam mais a paixão da novidade que as doutrinas do raciocinio. No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal. Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de nada os dezeseis milhões que o diplomata offerecia ao primeiro consul. Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de Hespanha e França. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafões, não chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, negociara ignominiosa paz em Badajoz, com cedencia de Olivença á Hespanha, exclusão de inglezes dos nossos portos, e indemnisação de alguns milhões á França. Estes successos tinham irritado contra Napoleão os animos d'aquelles que odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e irriquieta academia, era voto de grande monta Simão Botelho, apesar dos seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins, e muitos outros algozes e martyres do grande açougue, eram nomes de soada musical aos ouvidos de Simão. Diffamal-os na sua presença era affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas á cara do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos tyrannos não erguesse mais uma das suas mil cabeças sob a clava do Hercules popular. Estes discursos, arremêdo d'alguma clandestina objurgatoria de Saint-Just, afugentavam da sua communhão aquelles mesmos que o tinham applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simão Botelho tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o delataram ao bispo-conde, reitor da universidade. Um dia proclamava o demagogo academico na praça de Sansão aos poucos ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mêdo, outros por analogia de boças. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir, aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braços musculosos da cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico, d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu pae e dos parentes de D. Rita Preciosa. Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simão. O corregedor repelliu-o da sua presença com ameaças de o expulsar de casa. A mãe, mais levada do dever que do coração, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o á mesa commum. No espaço de tres mezes fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. As companhias da ralé despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os sitios mais sombrios e êrmos eram o seu recreio. Nas dôces noites de estio demorava-se por fora até ao repontar da alva; e aquelles que assim o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o chamavam para a mesa. D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido d'ella, ao fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra. Simão Botelho amava. Ahi está uma palavra unica, explicando o que parecia absurda reforma aos dezesete annos. Amava Simão uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira, regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto é que elle a vira a primeira vez para amal-a sempre. Não ficara ella incolume da ferida que fizera no coração do visinho: amou-o tambem, e com mais seriedade que a usual nos seus annos. Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze annos, como paixão perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos é uma brincadeira; é a ultima manifestação do amor ás bonecas; é a tentativa da avesinha que ensaia o vôo fóra do ninho, sempre com os olhos fitos na ave mãe que a está da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe. Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepção no seu amor. O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afóra isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte. E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e fallaram-se tres mezes, sem darem rebate á visinhança, e nem sequer suspeitas ás duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se não tivessem outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para, senhora sua, lhe dar com o coração o seu grande patrimonio. Espanta discrição tamanha na indole de Simão Botelho, e na presumivel ignorancia de Thereza em coisas materiaes da vida, como são um patrimonio! Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O allucinado moço ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes, soluçava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue á cabeça; contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da jaula. Teve tentações de se matar, na impotencia de soccorrêl-a. As restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança com os calculos. Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal modo desfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado d'elle, foi ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse febril. Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para Coimbra, e esperar lá noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente fallar com ella. Ajuizadamente discorrêra elle, que a sua demora aggravaria a situação de Thereza. Descêra o academico ao páteo, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar a mão do pae, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em novas extravagancias. Quando mettia o pé no estribo, viu a seu lado uma velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na palma da mão, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moço; e, a poucos passos distante de sua casa, leu estas linhas: «Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de responder á tua pobre Thereza.» A mudança do estudante maravilhou a academia. Se o não viam nas aulas, em parte nenhuma o viam. Das antigas relações restavam-lhe apenas as dos condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe não dava, e sua mãe escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem já d'alli formava as bases do futuro renome e da posição por elle merecida, bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu segredo, senão ás cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina escrevia-lhe a miudo, e já dizia que a ameaça do convento fôra mero terror de que já não tinha mêdo, porque seu pae não podia viver sem ella. Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simão, chamado em pontos difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado. A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragança, destacado no Porto, licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a noticia do reviramento que se déra em seu irmão. Foi viver com elle; achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da separação um desgraçado amor de Manoel Botelho a uma açoriana casada com um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illusões do cego amante. Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em outro relanço d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio. No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Thereza. No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forçára a filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima surpreza para o academico, convertido aos deveres, á honra, á sociedade e a Deus pelo amor. III. O pae de Thereza não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de um e o desprêso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho, e o visinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se invulneravel á detracção; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e é de crêr que, se o não contivessem considerações de familia, soffreria menos, desabafando pela bôca d'um bacamarte, arma da predilecção dos Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se. Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simão, e viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia Thereza que era aquella menina a mais querida irmã de Simão, e a que mais semelhança de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial indifferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas fugiu logo da janella, porque sua mãe tinha prohibido ás filhas de trocarem vistas com pessoa d'aquella casa. No dia seguinte á mesma hora, levada da sympathia que lhe causára aquelle sorriso e aceno, tornou Rita á janella, e lá viu Thereza com os olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim, ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu, acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vêrem repetiram-se successivos dias, até que, perdido o maior mêdo de ambas, ousaram demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simão, contava á menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia de ser ainda sua irmã, recommendando-lhe muito que não dissesse nada á sua familia. N'uma d'essas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz que foi ouvida d'uma irmã, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira á visinha. Tanta foi sua cólera, que, sem attender ás razões da esposa, que viera espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simão, e viu ainda Thereza á janella. Ólé!--disse elle á pállida menina--Não tenha a confiança de pôr olhos em pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um digno genro de seu pae. Thereza não ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a cólera d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada, bateu no rosto do visinho, que não ousou replicar-lhe. Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa á sanha de Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de Thereza, admoestando-a a que não voltasse áquella janella. Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho, de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia. Cuidava o velho, presumpçoso conhecedor do coração das mulheres, que a brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao esquecimento d'aquelle pueril amor a Simão. Era maxima sua que o amor, aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia de seis mezes. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As excepções tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no especulativo como na sciencia positiva. Não era muito que Thadeu de Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma maxima póde ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres incomprehensiveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas ás outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infallivel. Ahi está Thereza que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em causa independente do coração: é porque Thereza não vai á sociedade, não tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso d'outros galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor nas palavras que a convencem de que ha um coração para cada homem, e uma só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe estonteasse o espirito? Não é facil, nem preciso decidir; e vamos ao conto. Ácerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse como convinha a um enamorado de feição, que mutuamente se apaixonassem e promettessem auspicioso futuro ao casamento. Por parte de Balthazar Coutinho a paixão inflammou-se tão depressa, quanto o coração de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia, a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade é que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe désse resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, affoitou-se o ditoso noivo a fallar assim á melancólica menina: --É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a ouvir-me? ---Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar. A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convicções do fidalgo, respeito á innocencia, modestia e acanhamento de sua prima. Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade não poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou: --Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as nossas casas se unam. Thereza impallideceu, e baixou os olhos. --Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!--proseguiu Balthazar, rebatido pela desfiguração de Thereza. --Disse-me o que é impossível fazer-se--respondeu ella sem turvação--O primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo pensava em tal. --Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?--atalhou corrido o morgado. --Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não devo ser esposa d'um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não seria só minha... --Muito bem... Posso eu saber--tornou com refalsado sorriso o primo--quem é que me disputa o coração de minha prima? --Que lucra em o saber? --Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... é exacto? --É. --E com tamanha paixão que desobedece a seu pae? --Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu não disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava. --Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!... quem pensaria que os seus dezeseis annos estavam tão abundantes de palavras!... --Não são só palavras, primo--retorquiu Thereza com gravidade--são sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu mentisse ficaria mais bem vista de meu primo? --Não, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo. Ora, olhe, não duvída declarar quem é o ditoso mortal da sua preferencia? --Que lhe faz saber isso? --Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me vêr vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo? --N'essa conta é que eu o não posso já ter...--respondeu Thereza, sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras. --Pois nem para amigo me quer?! --O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em diante meu inimigo. --Pelo contrario...--tornou elle com mal rebuçada ironia--muito pelo contrario... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir casada com algum miseravel indigno de si. --Casada!...--interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a réplica d'este modo: --Casada com algum famoso ébrio ou jogador de páo, valentão de aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos encarcerado nas cadêas de Coimbra... Visivel é que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza. Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez antes de destinar-lh'a esposa. Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e erguêra-se respondendo assim com altivez: --Não tem mais que me diga, primo Balthazar? --Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. Não cuide agora que está fallando com o namorado infeliz: convença-se de que falla com o seu mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade de seu pae, uma ou outra vez conversára da janella com o filho do corregedor. Não dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de sobra Simão Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeição ao academico, pasmei da boa fé da priminha; depois entendi que a sua mesma innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo, cumpunjo-me de a vêr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho. Não se recorda de ter visto Simão Botelho sociando com a infima vilanagem d'esta terra? Não viu os seus criados com as cabeças quebradas pelo tal varredor de feiras? Não lhe constou que elle, em Coimbra, abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de estradas, proclamando á canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e á religião de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura? --Ignorava parte d'isso, e não me afflige o sabêl-o. Desde que conheci Simão, não me consta que elle tenha dado o menor desgosto á sua familia, nem ouço fallar mal d'elle. --E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de costumes? --Não sei, nem penso n'isso--replicou com enfado Thereza. --Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simão Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos ataques do seu demonio, eu farei vêr ao valentão que a victoria sobre os aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fóra da casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque. --Então o primo quer-me governar?--atalhou ella com desabrida irritação. --Quero-a dirigir em quanto a sua razão precisar de auxilio. Tenha juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima Thereza. Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no coração e direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a. Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar ao pé de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era sua vontade casal-a com o primo; porém que elle já sabia que a vontade de sua filha não era essa. Ajuntou que a não violentaria; mas tambem não consentiria que ella, sovando aos pés o pundonor de seu pae, se désse de coração ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha, que elle já considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para depois ser desgraçada á sua vontade. Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a vontade de seu pae; porém que se não privasse elle de a ter em sua companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mèdo de que sua filha praticasse alguma acção indigna, ou lhe desobedecesse no que era virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens, menos para seu pae. Thadeu ouviu-a, e não lhe replicou. IV. O coração de Thereza estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao coração! Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha de Thadeu de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de caracter, orgulho fortalecido pelo amor, despêgo das vulgares apprehensões, se são apprehensões a renuncia que uma filha faz de sua vontade ás imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que não, e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive attribuir-lhe uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca é trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, não o era. A mim me basta para crêr em sua distincção a celebridade que ella veio a ganhar á conta da desgraça. Da carta que ella escreveu a Simão Botelho, contando as scenas descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao academico omittiu ella as ameaças do primo Balthazar, clausula que, a ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios e ferocidade para mantêl-os. Mas não é esta ainda a carta que surprendeu Simão Botelho. Parecia bonançoso o ceo de Thereza. Seu pae não fallava em claustro, nem em casamento. Balthazar Coutinho voltára ao seu solar de Castro-d'Aire. A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, e este, alliando ás venturas do coração as riquezas do espirito, estudava incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifício de futura gloria. Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada para ir com seu pae á primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebêl-a com muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza era interrogador. --Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. É preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pae. Logo que déres este passo difficil, conhecerás que a tua felicidade é d'aquellas que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida filha, que a violencia de um pae é sempre amor. Amor tem sido a minha condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, não. Esperei que o tempo te aclarasse a razão, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico prestigio do maldito, que acordou o teu innocente coração. Não te consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraçar teu pae, e agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando sempre a hora de te encontrar digna do seu amor. Thereza não desfitou os olhos do pae; mas tão abstrahida estava, que escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas. --Não me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente as mãos. --Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?--balbuciou ella. --Dás-me o que te peço? enches de contentamento os poucos dias que me restam? --E será o pae feliz com o meu sacrificio? --Não digas sacrificio, Thereza... A'manhã a estas horas verás que transfiguração se fez na tua alma. Teu primo é um composto de todas as virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moço lhe falta, como se a riqueza, a sciencia e as virtudes não bastassem a formar um marido excellente. --E elle quer-me, depois de eu me ter negado?--disse ella com amargura ironica. --Se elle está apaixonado, filha!... e tem bastante confiança em si para crêr que tu has de amal-o muito!... --E não será mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae...--continuou ella, chorando, com as mãos erguidas--mate-me; mas não me force a casar com meu primo! E' escusada a violencia, porque eu não caso!.. Thadeu mudou de aspecto, e disse irado: --Hás de casar! Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás para sempre, Thereza! Morrerás n'um convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame ha de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e espera que d'ahi te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol. Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto. Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe: --Não te posso dar minha filha, porque já não tenho filha. A miseravel, a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ella. Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias, tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simão Botelho lhe tinha o coração da filha. Não approvou a reclusão no convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinião publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse que o filho do corregedor viesse de Coimbra. Ponderaram no animo do velho as razões de Balthazar. Thereza maravilhou-se da quietação inesperada de seu pae, e desconfiou da incoherencia. Escreveu a Simão. Nada lhe escondeu do succedido; nem as ameaças de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe as suas suspeitas de alguma nova traça de violencia melhor agourada. O academico, chegando ao periodo das ameaças, já não tinha clara luz nos olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias frontaes arfavam-lhe entumecidas. Não era sobresalto do coração apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. Já preparado, a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se meia hora, e o seu bom anjo, n'este espaço, vestido com as galas com que elle vestia na imaginação Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu coração. Nenhuma d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe apparecesse a fortalecêl-o para vencer os tédios da continuada applicaçao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoções desusadas. «E ha de tudo acabar assim?»--pensava elle, com a face entre as mãos, encostado á sua banca de estudo.--«Ainda ha pouco eu era tão feliz!...»--«Feliz!»--repetiu elle erguendo-se de golpe--«quem póde ser feliz com a deshonra d'uma ameaça impune!... Mas eu perco-a! Nunca mais hei de vêl-a... Fugirei como um assassino, e meu pae será o meu primeiro inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingança... A ameaça só ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza, pelos insultos do miseravel, talvez que ella os não repetisse...» Simão Botelho releu a carta duas vezes, e á terceira leitura achou menos affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o atormentava: eram expressões ternas, supplicas ao seu amor como recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade. Quando o arreeiro bateu á porta, Simão Botelho já não pensava em matar o homem de Castro-d'Aire; mas resolvêra ir a Vizeu, entrar de noite, esconder-se e vêr Thereza. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e não conhecia em Vizeu senão os estalajadeiros. Simão achou de aproveitar o parentesco do homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa de sêda escarlate, á conta de maiores valores promettidos, se elle o bem servisse n'uma empreza amorosa. No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante. Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro. Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope. Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella iria ao quintal, e lhe abriria a porta. Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam. Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são sentimentos congeniaes. Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez, sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma, são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao menos. Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas, nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho, com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as pancadas do coração sobresaltado. V Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam, aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos. Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle deixasse livre o coração. O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes, presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos. O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação. Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral. Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire, compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas, que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala. Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal, abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala. No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa, Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via. Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso, ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa, e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo. --Que tens, minha filha?--disse-lhe o pae--Já duas vezes sahisteda sala, e vens tão alvoroçada! Tens algum incommodo, Thereza? --Tenho uma dôr: preciso de ir respirar de vez em quando... Nada é, meu pae. Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dôr; só o não disse a seu sobrinho, porque o não encontrou, e soube que elle tinha sahido. Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar, resolução de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu á porta, onde a esperava Simão, abriu-a, e com a voz cortada pela anciedade, apenas disse: --Vai-te embora: vem ámanhã ás mesmas horas... Vai, vai! Simão, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rédeas do cavallo entre umas pedras, para ficar desembaraçado, se o estudante se não podésse haver com o inimigo. Simão Botelho não se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avançado a meio caminho do patrão, quando lhe este disse que não se aproximasse. E, caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe: --Isto aqui não é caminho. Que quer? O fidalgo não respondeu. --Parece-me que lhe abro a bôca com uma bala!--tornou Simão. --Que lhe importa o senhor quem está?!--disse Balthazar--Se eu tiver um segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado a confessar-lh'o?! Simão reflectiu, e replicou: --Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família, e uma só mulher. --Estão n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite--redarguiu o primo de Thereza--Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra. --Quem é o senhor?--tornou com arrogancia o filho do corregedor. --Não conheço a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos cada um com o nosso incognito. Boas noites. Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: «que partido tem uma espada contra dois homens e duas pistolas?» Simão Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador. O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar levemente alteração de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de commoções, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que deu rebate ás outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irmãs, que ficaram hospedados em casa de seu tio, com tenção de se demorarem oito dias em Vizeu. Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia dos seus terrores, e pedindo-lhe perdão de o ella não ter advertido do baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de se encontrarem na seguinte noite não havia alteração na carta. Isto espantou o academico. A seu vêr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite. Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado; receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno porte de um amante corajoso. Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que pensar em tal era mais covardia que prudencia. O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso triste, o respondeu: --Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma desgraça está para lhe succeder. --A menina não dizia isso--replicou Simão--sem saber alguma coisa da minha vida. --Alguma coisa sei...--tornou ella. --Ouviu contar ao arreeiro? --Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer... --Porque? --Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire. Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por outra porta. --Com sua licença--disse mestre João. Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca. --Ora, meu fidalgo--continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem sabe as exigencias da ceremonia--ha de desculpar que eu viesse assim em mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta... --Está muito bem, senhor João--atalhou o academico. --Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta. Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar. João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da egua, e continuou: --Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma damnada!--disse-lhe eu--pois tu vês que o teu macho me aleijou esta egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!? --E o tiro acertou-lhe?--atalhou Simão. --Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu. Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca. Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa, disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor, e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!? --Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma. --Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar. Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!... --Conheço de nome. --Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto não é um matador de officio, acho eu, não é assim? --De certo...--respondeu Simão, adivinhando o remate da historia--quem era o homem que elle queria morto? --Era v. s.^a... Ó homem!--disse o ferrador com espanto--O senhor nem sequer mudou de côr! --Eu não mudo nunca de côr, senhor João--disse o academico. --Estou pasmado! --E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo--tornou Simão. --Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina. --E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar? --Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual. --Diga. --Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso. Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu. Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também, estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios. --Obrigado, meu amigo--disse Simão--Aproveitarei os seus bons serviços, quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo. Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões». N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e disse com meiguice a Simão Botelho: --Então sempre é certo ir? --Vou, porque não hei de ir? --Pois Nossa Senhora vá na sua companhia--tornou ella, sahindo logo para esconder as lagrimas. VI. Ás dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois: --Não convém que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem o passo, até o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe d'aqui. --Mas...--atalhou um--quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e hoje vem a pé? --E' verdade! - accrescentou o outro. --Se elle vier a pé, eu lhes darei aviso para o seguirem depois até o terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocês?--disse Balthazar Coutinho. --Sim, senhor; mas se elle sáe de casa do pae, e entra sem nos dar tempo? --Tenho a certeza de que não está em casa do pae, já lh'o disse. Basta de palavriado. Vão esconder-se atraz da igreja, e não adormeçam. Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro. Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o ouvido á porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da folhagem sêcca que Thereza vinha pizando. Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecêra, um vulto assomou do outro lado a passo rapido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que formava a juncção da capella mór, e sobre o qual cabiam as sombras da torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu; mas elles disseram entre si, depois que elle desapparecêra: --É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!... --Que fará a esta hora por aqui?! --Eu sei! --Não desconfias que elle entre n'isto? --Ágora! Se entrasse, era por nós. Não sabes que elle foi mochila do nosso amo? --E tambem sei que pôz a loja com dinheiro do nosso amo. --Pois então que mêdo tens? --Não ha mêdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da forca... --Isso que tem! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o filho cá está... --Assim será; mas não estou muito contente... Elle é homem dos diabos... --Deixal-o ser... tanto entram as balas n'elle como n'outro... A discussão continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador. Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as pistolas, e o arreeiro uma clavina. --Não ha novidade--disse o ferrador--mas saiba v. s.^a que já podia estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito. O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse: --És tu, João? --Sou eu. Vim primeiro que tu. Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido: ---Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado. --Nas occasiões é que se conhecem os homens--redarguiu o ferrador.--Ora vamos... não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera. --Tenho?--disse Simão. --Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v. s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente. --Olhe que eu não tremo, mestre João--disse o filho do corregedor. --Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos. Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem. Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse. Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a réplica. --Faça o que eu lhe digo, fidalgo--disse elle com energia. João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede. --Vamos sobre elles--disse o ferrador--que lá passaram para o adro da igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra; depois voltaremos para lhe guardar a sahida. N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as pistolas aperradas na direcção da porta. Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada, que se esplainava depois n'uma alamêda sombria. Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou, recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o academico chegava á porta do quintal. --Agora está seguro--disse um. --Se lá não ficar dentro....--respondeu o outro, vendo-o entrar, e fechar-se a porta. --Mas além vem dois homens...--disse o mais assustado, olhando para a outra entrada da alamêda. --E vem direitos a nós... aperra lá a clavina... O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes. Vamos embora d'aqui... Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes: --Vocês a que fogem, seus poltrões? Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes. João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles, bradando: --Alto ahi! O ferrador disse ao cunhado: --Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça. --Quem manda fazer alto?--disse o arreeiro. --São tres clavinas--respondeu Balthazar. --Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia--disse João da Cruz ao ouvido do arreeiro. --Pois nós cá estamos parados--replicou o criado de Simão.--Que nos querem vocês? --Quero saber o que tem que fazer n'este sitio. --E vocês que fazem por cá? --Não admitto perguntas--disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns passos vacilantes para a frente.--Quero saber quem são. Mestre João disse ao ouvido do cunhado: --Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas. O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou. Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse ao cunhado: --Vem comigo, que elles conhecem-me. Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada, como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles, momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes. Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado o casamento, que não havia panno para mangas. Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia; mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse ao filho do corregedor: --Vá por onde veio, e não olhe para traz. Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão, dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para não forçar os homens a aligeirar o passo. --Vá como quizer--disse mestre João--que nós vamos por fóra do caminho. E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com a estrada. --O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo--disse o ferrador ao cunhado--hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa... E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o pontilhão de um córrego. --Já não vamos a tempo--disse afflicto o João da Cruz--os homens vão atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz. E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado o outeiro, em cujo valle corria a estrada. --Os homens vão atirar-lhe...--disse o ferrador. --Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante. --Já não é tempo... Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos. Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois tiros. --Arriba!--exclamou João da Cruz--que não vão elles metter-se á estrada, se mataram o fidalgo. Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas. Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado. --Elles ahi vem!--disse o arreeiro. --Nós cá estamos--respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um cômoro.--Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles. Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos, e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes. --Atira ao da esquerda!--disse João da Cruz. Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal onde se embrenhára. A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria ao ponto onde ouvira os segundos tiros. --É v. s.^a, fidalgo?--bradou o ferrador. --Sou. --Não o mataram? --Creio que não--respondeu Simão. --Este desalmado deixou fugir o melro--tornou João da Cruz--mas o meu lá está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas... O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o cadaver, dizendo: --Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o inferno! --Anda d'ahi!--disse o arreeiro--deixa lá esse diabo, que o senhor doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a escorrer-lhe. --Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e cuidei que eram vocês--disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.--Parei o cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam, saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar ferido... --Isto é uma arranhadura--disse João da Cruz--olhe que eu sei d'isto, fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas. --Nos burros, mestre João?--disse o ferido, sorrindo. --E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que alli está a escutar a cavallaria. N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha saltado o companheiro do morto. João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou: --Querem vocês vêr que ellas se armam!... Dar-se-ha caso que o outro ainda esteja por alli a tremer maleitas!... O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem chilreando. --O homem está alli!--tornou o ferrador.--Passe-me cá uma pistola, senhor Simão! Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre as moitas de codêços e urzes. --Elle estrinça lenha como um porco do monte!--exclamou o ferrador.--Ó cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da moita!... Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro. --Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!--bradou Simão ao ferrador. --Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo! Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do trabalho, disse ao arreeiro: --Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado. O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito, quando Simão lhe reteve o braço. --Não se bate assim n'um homem!--disse o moço--Levanta-te, rapaz! --Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para a minha vida. N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou: --Pois este tratante ainda está vivo! E correu sobre elle com o podão. --Não mate o homem, senhor João!--disse o filho do corregedor. --Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... eim? --Com a forca!?--atalhou Simão. --Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu, que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço. Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem... --Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha não nos póde fazer mal. --O quê?--redarguiu o ferrador--v. s.^a saberá muito, mas de justiça não sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro. --Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para Castro-d'Aire--exclamou o homem. --Deixe-o ficar, João da Cruz... vamos embora... --Isso!--acudiu o ferrador--chame-me João da Cruz, para este maroto ficar bem certo de que sou o João da Cruz!... Com effeito, não sei o que me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um tiro para o matar! --Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me não resistem. --E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor doutor! --Vamos embora--tornou Simão--deixemos para ahi esse miseravel. Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com descontentamento: --Vamos lá... Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a estrada, quando o ferrador exclamou: --Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho já. O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos. Conjecturou com certeza o que era. --O João lá está a fazer justiça!--disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu amo, que elle é homem que sabe o que faz. João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão ensanguentado. --Você é cruel, senhor João!--disse o academico. --Não sou cruel--disse o ferrador--o fidalgo está enganado comigo; é que diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho. Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha consciencia socegada. A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo. Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se ter ligado com tal homem. VII. O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão Botelho. Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda, precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a determinadas pessoas. Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza: «Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender... Tua mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto... Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no corredor, e solta uns ais muito altos. Ó meu querido Simão, que será feito de ti?... Estarás tu ferido? Serei eu a causa da tua morte? Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa situação. Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação.... Chega a pobre: não quero demoral-a mais... Perguntei-lhe se se dizia de ti alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.» Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o, assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas. Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções. Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo algum. Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local em que o tinham assaltado. Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta. Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção temporaria d'ella n'um convento de Vizeu. Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho, que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu, tomando uma capa e um lenço. --Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus appellidos--disse com severidade o velho. --Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á noite...--disse Thereza. --E a senhora sabe para onde vai? --Não sei... meu pae. --Então vista-se, e não me dê leis. --Mas, meu pae, attenda-me um momento. --Diga. --Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo... --E d'ahi? --De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso. --Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento. --Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes. --Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas esperam-a para a acompanharem. Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto, relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem. --Lá irá ter--respondeu elle.--Se tivesse tanta vergonha como devoção, seria mais feliz do que ha de ser. Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe: --Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta casa... --Qual remedio?!--perguntou Thereza com artificial seriedade. --Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar. --O primo Balthazar não me quer--replicou ella, sorrindo. --Quem te disse isso, Therezinha? --Disse-m'o meu pae. --Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem. Queres tu que eu lhe falle? --Para que? --Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós. --Estás a brincar, prima!--redarguiu Thereza.--Eu hei de ser tua cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça. --Então, vamos?!--disse o velho. --Estou prompta, meu pae. Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se a porta, exclamou, com grande espanto das monjas: --Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo. As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração» uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor. --Que diz a menina?!--perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho. --Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora. --Não diga minha senhora--atalhou a escrivã. --Como hei de dizer? --Diga «nossa madre prioreza.» --Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem. --Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir bem--tornou a nossa madre prioreza. --Não?!--disse Thereza com sincera admiração. --Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a. Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando. A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae escolheria aquelle convento ou outro. --Que importa que seja um ou outro?--disse Thereza. --É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica das bentas ou bernardas. --Professe!--exclamou Thereza.--Eu não quero ser freira aqui, nem n'outra parte. --A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja. --Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!--recalcitrou Thereza. --Isso assim é--retorquiu a prioreza--mas como a menina tem de noviciado um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma. --Mas a nossa madre--tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe fosse habitual--já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir bem... --É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas. Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças: --Que grande impostora! --E que estupida!--acudiu a outra.--A menina não se fie n'esta trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo a fazer missões, e a curar indigestões. Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no dizer da madre prioreza. Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras. --Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?--disse ella a Thereza. --Pareceram-me muito bem. A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido, e regougou: --_Hum!_... está feito, está feito!... Ainda não são das peores; mas, se fossem melhores, não se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos. --Eu não cômo nada, minha senhora--disse Thereza. --Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste. Paixões!... que as leve o porco-sujo!... As mulheres é que ficam logradas, e elles não tem que perder!... Que eu cá de mim, até ao presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o olho em cima, estragava-me as raparigas... Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo vinho estomacal com que todas as noites era brindada. --Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a mestra--disse a prioreza. --Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas, que não perdoam a ninguem. --Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?--disse a prelada. A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das risadas. No entanto dizia a prelada a Thereza: --Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer _ss_, que é mesmo uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua amiga. É verdade que ás vezes... (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes, quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu, quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!... Boa rapariga é ella... Se não fosse aquelle maldito vicio... Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um convento!» --Está sósinha?--disse a escrivã. --Estou, minha senhora. --Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem se vê que é filha de funileiro!... Pois tinha tempo de ter prática do mundo, que tem andado por lá que farte... Pois eu havia de ir ao côro; mas não vou para lhe fazer companhia, menina. --Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha--disse Thereza, com a esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção. --Não vou, não!... A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim? --Não, minha senhora, pelo contrario... --Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas. --Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira. --E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!... A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou: --Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos, não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro, papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição. --Muito agradecida, minha senhora--disse Thereza, animada pelo offerecimento.--Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora no bêcco do... --O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada. Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma... Fallemos n'outra coisa... A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim: --Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa... Ai! eras tu, menina? Olha, se estivessemos a fallar mal de ti! --Eu sei que tu nunca fallas mal de mim--disse a prelada, piscando o olho a Thereza.--Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a dizer das tuas boas qualidades... --Pois o que eu disse de ti--respondeu soror Dionizia da Immaculada Conceição--não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo coisa de peccado. --Então não vaes ao côro, nini?--tornou a prioreza. --Já agora é tarde... Tu absolves-me da falta, sim? --Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho... --Do estomacal? --Podéra... Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a prelada na sua hora de oração. Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique. Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa. D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de fugir d'alli! A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova separada, com cortinas de cassa. Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se tivesse tinteiro e papel na cella. Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo _Padre-Nosso_ cabeceava de modo que já não atinou com a primeira _Áve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar. Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel. A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos d'aquelle dia. A carta rematava assim: «Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto é triste, meu querido amigo!... Adeus.» VIII. Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as feiras e romarias. --Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou o casco á navalha--disse o ferrador.--Pelo que vejo o sangue do fidalgo deu volta ao estomago da rapariga!... Estamos então bem aviados! Eu tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu doente.... És ou não és, rapariga?--disse elle á filha, quando ella abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza. --Serei com muito gosto, se o pae quizer. --Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida; vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa. Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de ceremonia, nem me diga a Marianna--a menina isto, a menina aquillo. É--rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as compressas--e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra, vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas. --Se vocemecê tem uma casinha soffrivel--atalhou Simão--póde, querendo, casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira. --Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou. Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas sublime de poesia e naturalidade. João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes termos: --Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como quem é, e como se fosse teu irmão ou marido. O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu, natural como todas, da bôca de seu pae. A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão. --Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!--disse o academico--Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam.... --Que se me dá a mim d'isso!--respondeu ella, sacudindo o avental, e baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça. --Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse... Vá buscar a sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na carteira. --Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever...--replicou ella, sorrindo. --Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas. --Veja lá o que faz...--tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis--Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo... --Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?! --Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua amizade a uma menina fidalga da cidade? --Disse; mas que tem isso? --Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente falla n'uns homens que appareceram mortos. --Que tenho eu com os homens que appareceram mortos? --Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores trabalhos... --Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que tivemos... --E Deus queira que seja o ultimo!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remedio a essa paixão!... O peor futuro eu que ainda está por passar... --Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa. --Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos; mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz... -Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido--pelo bem que me deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade. --Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu--disse ella, limpando as lagrimas.--O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando elle estava na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle, ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas como um doido... Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar, porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito funda... --Isso são sonhos, Marianna... --São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella, e mais ainda viveu dois mezes... A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas Deus sabe o que isto é... Ahi vem meu pae... Senhor dos Passos! não vá ser alguma má nova!... João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e perguntou: --É noticia má! --Tu és muito atrevida, rapariga!--disse João da Cruz. --Não é, não--atalhou o estudante.--Não é má a noticia, Marianna. Senhor João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que sabem avaliar os amigos. --Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz. --Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão estava afflicto quando lia. --E não se enganou--tornou o doente, voltando-se para o ferrador.--O pae arrastou Thereza ao convento. --Sempre é patife d'uma vez!--disse o ferrador, fazendo com os braços instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço. N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna um clarão de innocente alegria. Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza espontaneamente lhe chegou, dizendo: --Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver. «É necessário arrancar-te d'ahi--dizia a carta de Simão.--Esse convento ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe, avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta. Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as forças do coração.» Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador, e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta. Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra. Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna: --Desconfio d'uma coisa, rapariga. --Que é, meu pae? --O nosso doente está sem dinheiro. --Porquê? o pae como sabe isso? --É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser... --Eu pensarei n'isso, meu pae--disse Marianna reflectindo. --Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu. --E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto. --Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_. Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de _escrupulos_ ou _repugnancia_. Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em profundo scismar. --Pois não toma o caldinho?--disse ella com tristeza. --Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido. --Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar. Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas. Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas não lhe disse palavra alguma. E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho. Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha, porque me dizem que ha tudo. Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado. A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos: Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz? Com que agradeceria os desvelos de Marianna? Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos! Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante ferrador. As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle dia. Má situação! Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho? Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario para a jornada até Coimbra. Péssima situação! Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno profundo. E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta, aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé. Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil. Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a, contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que, a final, disse: --Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo. Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae. João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do doente. Acordou Simão. --Não sabe!?--exclamou ella com semblante entre alegre e assustado, perfeitamente contrafeito. --Que é, Marianna? --Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está. --Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse? --Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae. --Isso espanta-me!... E não me escreveu? --Não, senhor!... Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu... Poderá ser? --Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar da morte dos homens. --Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a scismar n'isso... Vou-lhe buscar o caldinho, sim? --Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã. Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o rosto do mancebo exprimira. Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a par da travessa com meia gallinha loira de gorda. --Tanta coisa!--exclamou, sorrindo, Simão. --Coma o que podér--disse ella córando.--Eu bem sei que os senhores da cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da outra. --Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade. --Mas coma por eu lhe pedir... Perdôe o meu atrevimento... Faça de conta que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse... --Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã... --Pois ahi está... Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós graduamos o que valemos em nossa consciencia. Não desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de Thereza. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza, que é toda galas no ceu, no mar, e na terra, é toda incoherencias, absurdezas, e vicios no homem, rei da creação chamado! IX. Duas horas se detivera João da Cruz fóra de casa. Chegou quando a curiosidade do estudante era já soffrimento. --Estará seu pae prêso?!--dissera elle a Marianna. --Não m'o diz o coração, e o meu coração nunca me engana--respondêra ella. E Simão replicára: --E que lhe diz o coração a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos ficarão aqui? --Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão... mas não digo... --Diga, que lh'o peço, porque tenho fé no bom anjo que falla em sua alma. Diga... --Pois sim... O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no comêço... Simão ouviu-a attentamente, e não respondeu. Assombrou-lhe o animo esta ideia torva, e affrontosa á singela rapariga:--«Pensará ella em me desviar de Thereza para se fazer amar?» Pensava assim, quando chegou o ferrador. --Aqui estou de volta--disse elle com semblante festivo--Sua mãe mandou-me chamar... --Já sei... E como soube ella que eu estava aqui? --Ella sabia que o fidalgo estivera cá; mas cuidava que v. s.^a já tinha ido para Coimbra. Quem lh'o disse não sei, nem perguntei; porque a uma pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa; mas eu, cá como pude, accommodei-a, e não ha novidade. Perguntou-me o que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fôra para o convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quéda que dera do cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu disse que não sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; não sei quanto é. --E não me escreveu? --Disse que não podia ir á escrivaninha, porque estava lá o senhor corregedor--respondeu com firmeza mestre João--e tambem me recommendou que não lhe escrevesse v. s.^a, senão de Coimbra, porque, se seu pae soubesse que o menino cá estava, ia tudo razo lá em casa. Ora ahi está. --E não lhe fallou nos criados de Balthazar? --Nem um pio!.. Lá na cidade ninguem já fallava n'isso hoje. --E que lhe disse da senhora D. Thereza? --Nada, senão que ella fôra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar a egua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traz-me cá a manta. Em quanto Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da estranha liberalidade, Marianna, abraçando o pae no repartimento visinho da casa, exclama