The Project Gutenberg EBook of Os fidalgos da Casa Mourisca, by Júlio Dinis This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia Author: Júlio Dinis Release Date: August 4, 2005 [EBook #16428] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA *** Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA CHRONICA DA ALDEIA POR *JULIO DINIZ* *VOLUME I* *PORTO* TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO Rua Ferreira Borges, 31 1871 OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA I A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas. Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É, porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos. Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a palavra magica. Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os descobrir. Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a lendaria e mysteriosa época dos mouros. Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos, que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos Fidalgos da Casa Mourisca. Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte. Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me imponham a obrigação de descrevel-a miudamente. Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa, quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o. Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto d'aquella residencia, sempre magestoso e severo. Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro, abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita: e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma serie de melancolicas reflexões. E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus primeiros e espontaneos juizos. Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes, Jorge, ainda não completára vinte e tres annos. A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco, embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos, desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e os muros de circunscripção das quintas. Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte. Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse para morgado. Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que o tractavam com uma deferencia excepcional. Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna, casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa corte, encarregado de negocios politicos. Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas scenas politicas d'essa época. Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe amarguraram o resto da vida. Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal. D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava. O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á perseguição. O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos generosos e juvenis. Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão, não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas. Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle rancor. O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa emancipação politica. Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia inscrever o seu nome. A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D. Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas. Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos da humanidade. O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova organisação social. Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia. A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava assim. A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade, com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se encarniçára o odio do implacavel realista. Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a quem tanto queria. D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo. Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão que fallecêra. Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos d'aquella familia. Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia, cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre os seus caracteres infantis. Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão retirado da provincia, como aquelle era. Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano. A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia. Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente, seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos dos mestres. Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo, costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario. Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão. O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo ultimo suspiro recolhêra. As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural. As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial de tantos feitos heroicos. E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos, encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de os amarem de reflexão. Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia. A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos sacrificios. D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um obstaculo áquella ruina. O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores. Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio, que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas, homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que fizessem os administradores da casa para a manter no costumado esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação. Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia só. Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo. Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas. D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem. O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos, se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos, queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com tanta força sabia odiar. E não era só o pae que experimentava essa influencia. Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo, que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos, lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo. Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o continham nos desvarios. Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião. Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos labios, e prostrou-a exanime no tumulo. Fez-se então devéras escuro no espirito do pae. Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada fulmina inesperada cegueira. Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos, das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem. Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava. Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia. O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da sua antiga côrte. Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado. O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com impaciencia as horas da comida. Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta, com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo a familia inteira. D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano, satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os remoques encapotados do procurador. Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae procural-a a nossa narração. Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum prático. D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre! Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida, cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas. Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos; porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia mais a differença se pronunciava. Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido. Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae, o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo. As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes podem vir perigos desconhecidos. Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso. Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias tinha uma memoria ingrata. Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe haviam imposto como dogmas. A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro. Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia; deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão. Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente. Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não passaria ella tambem desapercebida. Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade. O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito. Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria, o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio, correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e melancolico. Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no espirito de Jorge o espectro que o entristecia. O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos, passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo. Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco? Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores. II Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos. Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade, de que já fallamos. Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via. Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina. O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro. E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão desapercebidamente lhe ia correndo a manhã. Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça, que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com latidos e cabriolas. Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão, exclamando jovialmente á distancia de alguns passos: --Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não desespero de te vêr um dia fazer versos. Jorge respondeu, encolhendo os hombros: --Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então... --Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás, sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas, quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_? Avez vous quelque fois, calme et silencieux, Monté sur la montagne en presence des cieux? E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos cuidados seus. Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do monte. Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu: --Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias! Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas. E acrescentou, suspirando: --Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez! Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes, arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações. Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo: --Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves. --Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte. --Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado. --Qual era então? --Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella gente toda a trabalhar, a vida que alli vae! --Ora adeus!--exclamou Mauricio--é justamente o que me não roubaria um momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo! Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar, vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia. Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente: --Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça; e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até, para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são. --Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de muito longe. --Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar prejudica a belleza d'esta paisagem? --Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle fundo que lhe fazem os castanheiros! --Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas realidades--observou Jorge, suspirando. Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o fitou, Jorge correspondeu, dizendo: --Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto. Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza, Mauricio? --Pobreza?! --Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae. Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões. Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão: --Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia... oh! essa deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira da opulencia. --Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de enthusiasmo e de fé no futuro. Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou erguendo-se e com affectado estouvamento: --Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é... é... é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia! --No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!--acudiu Jorge--Mas antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos, trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão. --Não o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar. --O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes. --Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá; lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É bom para dissipar visões. --Não estou hoje para caçar. --Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações? --Não, vou reatal-o acolá. --Vaes á Herdade?! --Vou. --Fazer o quê? --Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres. --Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé? --Sei. É um preconceito. Elle não o saberá. --Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero vêr-te ao jantar de melhor aspecto. --Adeus, Mauricio. E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a Herdade. III Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde desejar-se. «Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a alegria. Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle. Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o Porto, chamado por negocios relativos á lavoura. Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os desalentos. Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã. Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois; sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem. Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas eiras e quinteiros da Herdade. E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas, sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada. --Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça... Ó meu maluco, não reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo isso, que eu não quero nada desperdiçado... Está quieto, João, vae para casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois, menino! Ai que tu... Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles homens.... Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje não posso olhar por isso... Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle milho que eu te disse; corre... O moleiro já veio? Pois as azenhas já moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora... Ó Manoel, arreda esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio? Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro; elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano. Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas? Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje. Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho. No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou: --Ai, ó Thomé, olha quem alli está! O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina. Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos. Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em casa do fidalgo. Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com elle. Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não voltarem lá. Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a mulher: --Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de morrer. Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade. --Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada. Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar, é melhor entrar lá para dentro. --Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou sentado. --Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge? --Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli de cima: por isso desci. --Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles meninos, que conheci tão pequerruchos como estes. E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com grandes olhos para Jorge. --São todos seus?--perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos joelhos. --E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade. --Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora? --Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e nada mais. --Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim. --Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia--acrescentou olhando para o sol--d'aqui a nada vae esta gente jantar e... Para onde levas tu esse carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos... Eu attendo-o já. E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e encaminhou o carro na direcção conveniente. --Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge--disse elle, regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho. Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge. --Como está crescido e fero--dizia ella, olhando-o com curiosidade e complacencia--e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na ponte do Giestal. Pareceu-me bom. --E como está seu pae, snr. Jorge?--perguntou Thomé gravemente. Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta. Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa: --Venham jantar. Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada. --São horas do seu jantar, Thomé--disse Jorge, levantando-se para sahir. --Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar uma volta por os campos emquanto elles jantam... --Se lhe não causar incommodo... --Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que mandei abrir lá em baixo. E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois. E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar, onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas. Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de lavoura. E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade; acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber. Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas informações. Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital exigido para a elevar a esse grau de florescencia. Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia. A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora: --E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de ortigas e saramagos, Thomé? Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia até o fundo do pensamento de uma pessoa. --Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?--perguntou elle logo depois, com um tom de voz serio e quasi triste. --Quero, sim. --É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos. Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou: --É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás terras--acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a allusão, que não escapára a Jorge. --Mas como se explica isto, Thomé?--continuou Jorge com a docilidade de um discipulo--os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura; passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje... --Isso lá... Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças, não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo? --Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de que--proseguiu Jorge pensativo--n'aquelles tempos, as classes privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado as condições sociaes, e agora ao acordarem... Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero: --E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda? Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia. --Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá. --Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas arvores--observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado solar e para os bosques seculares que o rodeavam. --Talvez deitasse--disse Thomé--póde bem ser que o fizesse, porque lá amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu, que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes negras, porque alli passei um tempo... mau era elle de certo... mas emfim... sempre tinha vinte annos..., eu, que me não atreveria a deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que esteve. Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se para a Casa Mourisca: --Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não destruir na reforma. Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com dignidade: --Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes, que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos? --Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria. --Senhor Jorge--acudiu Thomé com um ar quasi solemne--resolva-se devéras a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os capitaes, chegará o credito. --É uma esmola que me offerece, Thomé?--perguntou Jorge, mas sem o menor signal de irritação. --Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo, menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso, mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem emprestado? --Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar. --Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?... Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois se tenho razão no que digo. E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou: --Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida, que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito, que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos açudes e o palheirito que fica ao lado? --Bem sei. --Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como, mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto. --Ainda tenho uma ideia de o vêr. --Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas, as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar. --Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto. --A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor Menezes. --E elle? --Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro, ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu proximo.» --Bella alma!--exclamou Jorge commovido pela narração. Thomé continuou: --«Em todo o caso--disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor--você fez hoje um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o capital e hoje arranjou-o. --Que queria elle dizer n'isso? --Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle, porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez, mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que tractar.» --E que lhe queria elle?--perguntou Jorge, cada vez mais attento. --No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé, sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo: «Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas, disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem, torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se não esfomeassem a terra. --Mas esse homem era um grande philosopho!--observou Jorge. --«Vá você para lá--continuou elle--tracte-me bem d'aquillo, e os capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia apostar que ambos havemos de lucrar. --E o Thomé foi? --Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador. Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé, dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco, juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso. --Mas a final sempre comprou? --Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr. doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque, emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e remir a divida. Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos radiantes proseguiu, suspirando com desafogo. --Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim! Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu! Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros, que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final.... quer que lhe diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra! beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o, em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr. Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino. Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado: --Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram. Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças. --Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer missas, porque depois... --Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu pae... Thomé da Povoa não o deixou concluir. --Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca, eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites. Jorge disse finalmente com resolução: --Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir. --E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar. A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o jantar esperava por elle. Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção, que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter com o pae. Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro. A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar voltou para a eira, cantando. Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa. IV Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu capellão-procurador frei Januario dos Anjos. Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração. Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era para se devassar de prompto. D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas--a liberdade de imprensa--; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido. De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida pelo governo, que nunca tinha razão. Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico, as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com que eram fulminados os homens da época. Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações, voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha. Os intervallos das refeições eram para elle seculos! --Humh!--disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado com o que lêra--Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço de estrada de Valle-escuro! --Fartos sejam elles de estradas!--acudiu logo frei Januario--Para esta gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja? Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do tempo tempo vem. Vontade não lhes falta. Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a elle não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom, acrescentou: --Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já. E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do jantar. D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do padre, que entrou indignado. --Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito errado... Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando não... D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas. D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião abatêra, resultando muitas victimas. A indignação do padre exaltou-se. --Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram os homens da Carta! Isto é bonito! E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim subsidios e de lhe dar importancia demasiada. A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra. D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e contrahida synthese: --Isto vae cada vez melhor, frei Januario. --Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma--secundou o padre. --O peior é o futuro--tornou o fidalgo, assombrado. --Ai, o futuro ha de ser fresco!--repetiu o procurador, fungando uma pitada. --Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta torrente. --E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira por que vão as coisas... --Ai, pobre Portugal!--exclamou melancolicamente D. Luiz. --Que vaes á vela--concluiu o padre.--Desde que puzeram a cabeça á roda a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que governe... Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se servidos! O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação. --O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada, aos pobres rapazes!--disse o fidalgo, suspirando com escuras apprehensões sobre a posição precaria da familia. --Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes homens!--exclamou com vehemencia o padre--É não fazer como a sobrinha de v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles. Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo. --É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se em parte preparado por nós--insistia o fidalgo.--Tambem peccamos. --Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o dinheiro. --O Thomé da Herdade!--repetiu D. Luiz com amargura--Esse é que prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo! --Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de alguem? --A Bertha? --Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve para algum dos seus filhos. D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros. --Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me dirá v. exc.ª? --Todos hoje teem aspirações a subir--reflectiu D. Luiz com ironia.--A maré sóbe. --Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje todos por lá tem excellencia! N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio, cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente para ir vêr se o jantar estava servido. Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo. Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado. D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o capellão. Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada. D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou, apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago. --Então os senhores não ouviram a sineta? --Os senhores ainda não vieram. --Nem Jorge?--perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de Mauricio. --Nem um, nem outro. --O snr. D. Mauricio--observou o padre, que temia um adiamento do jantar--sahiu para a caça; quando virá elle agora? E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo. --E Jorge?--insistiu o pae. --O snr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja ahi por alguma parte. O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar a jantar sem elles. O jantar correu em silencio. O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo ao dialogo. Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala. D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar. Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu silencioso. Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge: --Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o que viu por esses campos? --Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural--respondeu Jorge. --Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado. --Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não vejo o movimento dos outros? A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre. --Causou-me sensação isto hoje--proseguiu Jorge.--Quem subir ao alto do outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens. --Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas mudaram. Quem não está por o que elles querem... --Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas? --O que os outros fazem, diz elle! Os outros... os outros... e quem são os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os cavallos e a cavar nos campos d'esta casa. --Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam. --Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos, para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa é muito boa! --E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria? --Á miseria... á miseria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje! Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e... As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com energia e irritação: --Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade, quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me responda, snr. frei Januario. --Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo? --E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que por ahi se arruinam? --Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a certa gente! --O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não diz que eram uns miseraveis? --Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer. --Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que nos enleia e que nos ha de afogar a todos. --Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa! --Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de administração? --Os meus planos?!... Ora essa!... Então que planos quer que sejam os meus? Systema de administração!... isso é phrase de côrtes... Humh! tenho entendido... É o que eu digo... Ó snr. Jorge, ora falle-me a verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã? ora diga. --Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a grandeza do mal que nos opprime. --E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça? --Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis, que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util pelo trabalho honrado. --Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia! --Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe. --Que vae fazer, snr. Jorge? --O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos. --Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora... ora... ora... ora esta não está má! --Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo, que ainda temos, para comprar dois bois. --Mas... --Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto. --Mas... Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi assustado, o chamou. --Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem; e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa, d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde que os liberaes... --Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!... Os liberaes o que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco, ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel. --Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua casa devia ser muito bem servida com ellas? --Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente administrada não póde pois perder com ellas. --Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos, ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia de gostar--argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem apanhava em falso o seu adversario. Jorge respondeu serenamente: --E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance politico. --Ai... ai... ai... O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!... Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais illustres do reino... Ai, como elle está!... --Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei. Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde saberá das consequencias d'elle. E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira. --Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho... já estou de pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é uma coisa muito appetitosa... Será, será, mas eu, por mim, se pudesse deixar de trabalhar... Ah! ah! ah. Aqui bocejava o egresso. --Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde estou. Como elle fallou nos morgados!... Provará que é tão pateta que, sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae... Não declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o deixem... O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim, contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade, quem puder deixar de trabalhar... Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos. Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados angulos da Casa Mourisca. V Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia. A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma applicação pratica qualquer. Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica. Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente consultava. A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi ao fechar da tarde. Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação. Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte, sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril. Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do irmão, interrogou-o: --Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra? --Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de raiva? --Contra quem? --Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota! --Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles. --É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha sangue nas veias e pundonor no coração. --E sangue tambem no coração--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem é lá preciso. --Não rias, Jorge! Por quem és!--tornou o irmão despeitado.--Bem vês que fallo seriamente. --Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações. --Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado, mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento de fallar nas dividas da nossa casa? --Quem as contrahiu e não procura pagal-as--respondeu, triste mas placidamente, Jorge. E logo depois acrescentou: --Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã. --O que foi? --Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis. --Inevitaveis?! Eu te juro... --Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso que me fez pensar. --Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano? --Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles. --Sim, mas de que maneira? --Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos. --Queres então fazer-te lavrador? --Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos. Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós? Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza. O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores genealogicas; desengana-te. --Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves? --Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos desprezar do que nós a elles. --Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio. --Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito. Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos, e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder, Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão? --Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que... --Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos salvar, se quizermos ser homens. --E como? --Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa. --Mas... --D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente, pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda certa. --Mas que entendes tu de administração? --Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer. Mauricio ficou pensativo. A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa duração. Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com uma impetuosidade juvenil: --Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos, a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo. Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso, e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua habitual serenidade: --Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes ficar a montear por estas aldeias. Mauricio sorriu, objectando ao irmão: --És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas devezas, valles e ribeiras. --Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que não a vias lá. --Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham? --Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados; vi-a eu que estava de fóra. --E quem deu a Thomé sentidos para a vêr? --A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos, impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o. Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter, e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo momento a D. Luiz. A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto o fidalgo devia estar só no seu quarto. Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas sombras da quinta. Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da perspectiva, e o pensamento... ai, quem sabe porque melancolicas paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias, festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao desapparecer lh'a deixou escura e desencantada... que outras podiam ser as visões presentes áquelle espirito sombrio? Pobre velho! Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos. VI Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira hesitação. D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera, abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos seus habitos. Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne. A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi instinctiva timidez. Jorge bateu á porta com intimo sobresalto. Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia. Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o reposteiro, entraram. Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco cresciam para o interior. Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não podia pois conhecer quem entrava. A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem poder conjecturar de quem fossem. A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes silencio. A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade. D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e perguntou-lhes admirado: --O que é que pretendem? Jorge foi o que respondeu. --Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe. --Fallar-me?!--repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado. --Sim, senhor. --É singular! E a proposito de quê? --Do nosso futuro. --Ah!--exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua crescente irritação.--Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar. --Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me inquieta. D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia: --Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro? --Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez--respondeu-lhe com firmeza o filho interrogado. D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge: --Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui. E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira. --Meu pae--principiou Jorge--perdoe-me a liberdade que tomo de fallar n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de nossa familia se conserve sem mancha... que... O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella. --E quem o manchou?--rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia. --Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a sciencia do trabalho--respondeu placidamente Jorge á violenta interpellação do pae. --Então já sabes que te baterá á porta a miseria?--inquiriu o fidalgo amargamente. D'esta vez foi Mauricio quem respondeu: --Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa Mourisca estão empenhados. D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo: --No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam então, pelo menos, os rapazes das nossas familias. --Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever, não--contestou-lhe Jorge. --Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e... e o que mais?... Ah, sim... e mais o dever. Jorge, sem se perturbar, acudiu: --Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel; mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento, destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae, diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida ociosa e inutil que passamos aqui. --Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida; veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os... arrumar? O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico. --Não, meu pae--insistiu Jorge--vimos apenas lembrar a v. exc.ª que chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a permissão para realisal-os. D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando: --Está bem. Então tu o que queres ser? Jorge respondeu promptamente: --Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa. D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára: --E tu? Queres ir para o Brazil? Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar as primeiras repugnancias e desillusões. D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas, como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros: --Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão. Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa casa prosperaria? --Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei Januario. --É um homem experiente. --Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós, saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta. --E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?--objectou já sem ironia o pae.--Os tempos actuaes são de prova para familias como as nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros tempos. --Deixe-me tentar, meu pae. --Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes? --Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é defeza a ninguem. --Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes, miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza? --Procuraria d'entre esses os de mais educação. O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando: --Educação! Elles! --Porém, meu pae--argumentou Jorge com mais vehemencia--é uma triste necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama. --E depois, meu pae--acudiu Mauricio--que dôr não seria o vêr devassado por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida Beatriz? A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça assim que lhe ouviu o nome, e murmurou: --Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro. --E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá legar a seus filhos uma herança d'essas?--interpellou-o Jorge. O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de Jorge. Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr, que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado. --Não--acudiu elle impellido por aquelle sentimento--o interior da nossa casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós juramos evitar essa humilhação. D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos filhos para que se sentassem junto de si. Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo: --Jorge--ponderou elle--a tarefa que queres emprehender não é facil. É verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias. Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos que nas excellencias dos teus. --Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero resolvêl-as; além d'isso... auxiliado... quando necessario fôr... dos conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras. Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a exposição dos seus projectos economicos. Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa. D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado pela Providencia para ser o restaurador da sua casa. E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D. Luiz. O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas. Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé; nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado. Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o pae acabou por dar o consentimento pedido. --Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia. --Prometto-lhe que não o envergonharei. --A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario. --Por certo que não prescindirei das suas informações. --Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora...--acrescentou D. Luiz--vamos ao resto... E Mauricio? Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse por elle: --Tambem pensei em Mauricio. --Ah! tambem?--disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que lhe estava impondo Jorge. Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão. --Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia, onde não tem em que se occupe. --Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu guarda-livros... --Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar improductivos. D. Luiz fez um gesto de duvida. --Humh!--objectou elle--que carreira póde n'estes tempos seguir na capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje governa? --Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem poderá fornecer-nos valiosas indicações. --Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!--accentuou sarcasticamente o fidalgo.--Ora adeus! Uma doida... --Tem-se mostrado sempre nossa amiga--corrigiu Jorge--e ainda por occasião do fallecimento de Beatriz... --Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos entre a gente, que a fez orphã. --Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o comprehenderá e lhe dará as informações pedidas. Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente. Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus artigos sanccionado o projecto de Jorge. VII Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho. Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o costumado--_licet_?--E sem esperar resposta o padre frei Januario foi entrando. --Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?! --Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta; respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto. --Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da noite... --A noite está que parece de maio. --Sim? mas sempre os vapores dos campos... Eu acho mais prudente accender luz e fechar as janellas. --Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar. --Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª --Pois, muito bem. Vamos a isso. Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a conferencia.