The Project Gutenberg EBook of Uma família ingleza, by Júlio Dinis This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Uma família ingleza Scenas da vida do porto Author: Júlio Dinis Release Date: August 5, 2005 [EBook #16443] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UMA FAMÍLIA INGLEZA *** Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net UMA FAMILIA INGLEZA UMA FAMILIA INGLEZA SCENAS DA VIDA DO PORTO POR JULIO DINIZ Terceira Edição Porto Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor 18--Rua dos Caldeireiros--20 1875 TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO Rua Ferreira Borges, 31 UMA FAMILIA INGLEZA I ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAÇÃO AO LEITOR Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente inglezes, do que Mr. Richard Whitestone. Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras praças da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente provada. Nos livros de registro do _Bank of England_, bem como nos de alguns _Joint-Stock banks_ e dos banqueiros particulares da _City_ ou de _West-End_, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este credito florescente. Não era Mr. Richard homem para seguir sómente caminhos batidos, nem para empallidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a sós com os seus esforços e tenacidade. Por vezes arriscára capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e positivos e sempre desconfiados a respeito de innovações. Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades tão frequentes na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone, respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard, com o esplendor tradicional; emquanto que não sorriram fados tão propicios ás de muitos meticulosos e precatados, não obstante egoistas abstenções. Era o caso de mais uma vez repetir o _Audaces fortuna_... de já estafada memoria. Esta immunidade, em parte devida á lucida intelligencia, com a qual Mr. Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em parte a não sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confiança entre todos, com quem o negocio o ligava, confiança da qual, nem em circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario. O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praça--nome que entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de transacções do alto commercio portuense--festejavam-o benevolentes sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante amabilidade e affectuosos _shake-hands_, segundo o mais ou menos adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle. Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstrações de estima, ou as impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do commerciante britannico, ou--como de preferencia opinarão os que melhor conceito formam dos homens--um longo passado sem mancha, uma rectidão e cavalheirismo, aquilatados todos os dias. Mr. Whitestone não se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos seus confrades, aliás merecidas. Decididamente não era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa especie de incenso moral, que tão bem formadas cabeças atordôa, não sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da razão, n'elle pouco sujeita a esvaîmentos. Os gêlos d'aquelle coração, formado e desenvolvido a cincoenta e um graus de latitude septentrional, não se fundiam com tão pouco. Lôas, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de veneração a todo o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar certa agradavel e voluptuosa titillação da alma--se me admittem a phrase--que em quasi todos os filhos de Eva,--primeira e mal estreiada victima da lisonja--produzem sempre os panegyricos do merecimento proprio, entoados por bôcas alheias. A mesma indifferença, a mesma, se não absoluta impassibilidade, estabilidade de razão pelo menos, com que, uns após outros, esvasiava copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de _rhum_, de _cognac_, de _kummel_, de _gingerbeer_, e até de absintho, libações, que a qualquer pessoa menos inglezmente organisada ameaçariam, em pouco tempo, com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa mesma indifferença e impassibilidade oppunha ao effeito, não menos inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos. A eloquencia cortezã dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affectação, o nacional _God save the queen_, ao qual marcava compasso com a cabeça ou com a bengala. Não se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone terreno ingrato para tal genero de cultura; não vingavam lá. A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares convencionaes, muito á moda nas salas e que variam com as épocas, hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado. A delicadeza que elle praticava não era de facto essa. Fazia-a consistir toda, a sua, nos sentimentos e nas acções inspiradas pelos eternos e invariaveis dictames da consciencia e da razão, superiores portanto ás fluctuações caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural. Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, ás vezes rude, mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa personificação do typico John Bull. Alheio e pouco propenso á metaphysica, não o namoravam as transcendentes questões de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias da época; todo votado á contemplação da face positiva da vida, se não se arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas meditações sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o pensamento. Possuia em compensação Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de espirito, que, segundo Sterne, se diz _obstinação_ nas más applicações e _perseverança_ nas boas. Outra apreciavel disposição de animo caracterisava ainda o nosso commerciante:--era a de não ser sujeito a longas mortificações, ou pelo menos--e com mais rigor talvez--a de não as manifestar nos gestos ou por quaesquer signaes exteriores. Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de estoicismo lhe encrustára o coração, libertando-o da influencia dos estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de tão numerosas sympathias. N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christãos grangearam o titulo lutuoso e elegiaco de _Valle de lagrimas_, não sabia successo possivel, catastrophe realisavel, com força de alterar por muito tempo a costumada expressão physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer o colorido vigoroso, ou,--como julgo se lhe chama em linguagem technica,--o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de satisfação, despertador das mais justificadas invejas. Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias ás nossas praias, é este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa. Cada uma d'essas figuras britannicas vale por um protesto mudo, mas eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escriptores meridionaes. Teimam de facto estes em que são indispensaveis os vividos raios do nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento peninsular, onde não tem, como a de Londres--_a romper a custo um plumbeo céo_--para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o reflexo d'ellas; imaginam fatalmente perseguidos de _spleen_, irremediavelmente lugubres e soturnos, como se a cada momento saíssem das galerias subterraneas de uma mina de _pit-coul_, os nossos alliados inglezes. Como se enganam ou como pretendem enganar-nos! É esta uma illusão ou má fé, contra a qual ha muito reclama debalde a indelevel e accentuada expressão de beatitude, que transluz no rosto illuminado dos homens de além da Mancha, os quaes parece caminharem entre nós, envolvidos em densa atmosphera de perenne contentamento, satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente, satisfeitos de si. Nem é para admirar que o romancista inglez James ousasse abrir o primeiro capitulo de um romance seu com a seguinte exclamação: «_Merry England! Oh, merry England!_» Alegre Inglaterra! oh! alegre Inglaterra! E por que se não ha de chamar alegre á Inglaterra? Como se generalisou a infundada crença de que o inglez é por força melancolico? É uma d'estas abusões, para lhe não dar nome peior, contra as quaes ninguem se precavê com sufficiente criterio philosophico. Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colonia ingleza, á qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e verá que nem só nos tempos em que a civilisação e a industria não tinham ainda arroteado as densas florestas britannicas, seria cabido o jovial estribilho da canção que o supracitado romancista pôz na bôca do legendario Robin Hood, seu heroe:--«_Ho, merry England, merry England, ho_»; póde ainda cantar, através dos nevoeiros e do fumo das fabricas, o inglez moderno, fiel depositario d'aquelle folgado caracter nacional. Eu tenho ha muito como ponto de fé, que ainda que o _spleen_ seja doença indigena da Gran-Bretanha, não domina tão fatalmente sob o céo Londrino, como muitos parece imaginarem. Dryden affirma que as comedias inglezas possuem sobre as de todo o mundo incontestavel superioridade. E querem saber a que attribuem alguns esta superioridade da comedia ingleza? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrario, tantos accusam de fomentador de hypocondrias e suicidios. O clima inconstante da Inglaterra, explicam aquelles, é proprio para favorecer o desenvolvimento d'esses caracteres excepcionaes e extravagantes, precioso e inesgotavel pábulo do espirito comico da Gran-Bretanha.--A jovialidade dá-se muito bem n'aquelle poderoso imperio. Tom Jones e o proprio Falstaff são typos mais inglezes talvez do que uns sombrios caracteres, que Byron pôz á moda. Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do _Times_, o inimigo declarado da França, apesar de certa seriedade de convenção, era metal inglez, livre de toda a liga. Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmatica ingleza o constrangia, lá lhe estava o gesto a denunciar, que era artificial tudo aquillo. Emquanto ao physico..., emquanto ao physico era Mr. Whitestone caracterisadamente inglez. Não supprirão estas palavras mais circumstanciada descripção? Não ha entre nós quem, ao ver por ahi, nos maiores e mais mesclados ajuntamentos, certa ordem de typos masculinos, hesite em attribuir-lhes por patria a velha Albyon, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a terra dos _meetings_, dos _puddings_ e de muitas cousas mais? Pois bem, todos esses caracteres, todos esses signaes distinctivos dos mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de Mr. Richard Whitestone, como certidão de naturalidade, limpa da menor viciação. Era aquella conhecida tez, quasi côr de tijolo; aquelles olhos azues, á flor do rosto, a resplandecerem como saphiras; aquelles cabellos e suissas ruivas, que, sem grande violencia de imagem, poder-se-hia talvez comparar ás lavaredas do fogo, que lhe inflammava constantemente as faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de perolas, e alvos, como os caramélos das montanhas; a postura erecta; os movimentos promptos, e no rosto o tal continuado ar de satisfação. Do vestuario podia dizer-se quasi o mesmo.--Não falseava o typo. Era ainda inglez de lei. Um pequeno fraque de panno azul, fabricado nas melhores officinas de Yorkshire ou do West of England; as calças, curtas e estreitas, dentro das quaes as descarnadas tibias podiam fazer o effeito do embolo em corpo de pneumatica; as botas esguias e compridas, onde a elegancia era sacrificada á solidez; gravata e collete alvissimos, como os de um lord do parlamento, e, de inverno, vestidura completa de _gutta-percha_ que, n'estas épocas utilitarias e prosaicas, veio substituir as impenetraveis armaduras da idade média--taes eram as peças principaes do guarda-roupa do honrado negociante. Coroava finalmente tudo isto o chapéo, aquelle chapéo de fórma invariavel, castello roqueiro inaccessivel ás ondas destruidoras da moda; baluarte inabalavel no meio dos ventos encontrados dos humanos caprichos; o chapéo, cujo molde classico dá a um grupo de inglezes um aspecto, que é só d'elles; o chapéo, expressão symbolica da indole industrial e fabril da famosa ilha, pois desperta lembranças das chaminés, que ouriçam o panorama das suas mais manufactureiras cidades. Respirando, havia mais de vinte annos, a atmosphera perfumada do nosso clima meridional, e bebendo, em todo este tempo, da propria fonte o predilecto das mesas britannicas, o genuino _Portwine_--esse nectar, cujo aroma, ainda mais que os da nossa atmosphera, é grato ás pituitarias inglezas, Mr. Richard Whitestone não conseguira, ou melhor, estas influencias, com todos os outros feiticeiros attractivos da nossa terra, ainda não haviam conseguido de Mr. Richard Whitestone dois importantes resultados:--a adopção dos habitos de vida peninsular, contra os quaes antes reagia sempre com a inteira inflexibilidade de suas fibras britannicas, e o respeito á grammatica portugueza, que, em todas as quatro partes, maltratava com uma irreverencia, com um desplante de bradar aos céos e de desafiar os rigores da férula mais indulgente. Não desmentia Mr. Richard a asserção do auctor das _Lendas e Narrativas_, quando affirma que sempre que um inglez, em casos desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro Kimbri. De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na sepultura sempre que Mr. Whitestone fallava, porque as regras mais triviaes de regencia e de concordancia eram por elle atropelladas com uma frieza de animo, com uma fleugma, com uma impassibilidade, somente comparaveis ás de um membro do _Jockey-Club_, ao passar com o cavallo por cima do corpo de algum transeunte inoffensivo ou competidor derrubado na arena. Não era mais feliz a prosodia, a alatinada prosodia d'este recanto peninsular. As combinações grammaticaes de Mr. Richard, ao fallar a nossa lingua, saíam marcadas com um verdadeiro cunho britannico. Venus, a propria Venus, perderia aquellas illusões, que nos refere o cantor dos _Lusiadas_, se porventura ouvisse o portuguez que elle pronunciava. Transparecia de alguma sorte nas orações do seu discurso o credito liberal de um verdadeiro cidadão de Londres. O espirito conciliador e ordeiro, o constitucionalismo arreigado n'aquelle animo inglez, e adhesão aos principios interventores adoptados no seu paiz, parecia haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da syntaxe portugueza, levando Mr. Richard, n'um excesso de tendencia harmonisadora, a tentar n'ella concordancias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e insuperavel repugnancia de generos e de numeros; e a modificar a constituição grammatical de um paiz alliado, como a Inglaterra gosta de modificar a sua constituição politica. O effeito reunido d'aquella prosodia e syntaxe era ás vezes de uma resultante comica que não actuava impunemente sobre os ouvidos, aliás não muito pechosos, dos collegas commerciaes, em cujos labios sorrisos de malicia mal disfarçada vinham por instantes afugentar a sisudez de profissão. Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era completamente indifferente ao que percebia e suspeitava. Se o contradissessem na pronuncia de uma palavra ingleza, embora das mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circumstantes, na occasião em que elle estivesse fallando a patria lingua, então sim, então era possivel que chegasse a exaltar-se a ponto de quasi ameaçar o imprudente com uma irreprehensivel applicação da nobre sciencia dos _boxers_, quasi divina arte do sôco, que, desde Jack Brougton, tem sido cultivada em Londres «com fanatismo e ensinada com talento»--textuaes palavras de um escriptor _ex-professo_. Mas os sorrisos, que lhe valiam as atrocidades praticadas por elle nas grammaticas estrangeiras, esses, soffria-os com impassivel indifferença e não sei até se com certos vislumbres de orgulho e regosijo. II MAIS DUAS APRESENTAÇÕES, E ACABA O PROLOGO O honrado chefe da casa Whitestone tinha dois filhos: uma gentil _lady_, mimosa planta do Norte transplantada, aos dois annos, para o nosso clima, e um rapaz, mais novo do que ella, e nascido já em Portugal. Eram Jenny e Carlos. Jenny era uma d'estas jovens inglezas, cuja suavidade e correcção de contornos, alvura e delicadeza de tez e puro dourado dos cabellos, lhes dão uma apparencia tão subtil e vaporosa, e, quasi direi, tão celestial, que se espera a cada passo vel-as desprenderem-se da terra e dissiparem-se, como instantanea visão luminosa, diante dos olhos, que por momentos offuscaram. Delicadas, como o arminho, que chega quasi a subtrahir-se á sensação do tacto, de delicado que é, estas poeticas organisações septentrionaes possuem tanto de vago, tanto de immaterial, que, junto d'ellas, apodera-se de nós, entes profanos e grosseiros, certo invencivel constrangimento, como se receiassemos com um sôpro desvanecel-as, crestal-as com o olhar, maltratal-as com o gesto. Os desejos não vôam até alli; rodeia-as uma atmosphera de virginal castidade, no seio da qual esses filhos alados da imaginação abatem-se asphyxiados. Bellezas, como ella, foram por certo as que inspiraram as imagens de virgens dos cantos de Ossian ao espirito de quem quer que foi seu auctor, d'aquellas virgens, que o bardo comparava á neve da planicie e cujos cabellos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do occidente. Se no azul meigo dos olhos de Jenny se não concentrava o fogo das paixões de um coração ardido, nem se descobria a scintillação denunciadora de phantasias exaltadas, havia n'elle não sei que mysteriosa e suave luz, como se de reflexo levado para alli do mais intimo da alma; os labios, delgados e levemente comprimidos, não se agitavam sob o imperio de tumultuosos sentimentos, mas fixavam-se em continuo sorriso, expressivo de affabilidade e de brandura, promettedor de placidas, mas duradouras felicidades; o seio, sempre modestamente afogado no vestido liso e singelo, embora não tivesse o arfar voluptuoso, que arrebata as imaginações, animava-se da ligeira ondulação, denunciadora do sereno sentir da mulher, a quem Deus confia os destinos da familia; d'esses sympathicos vultos de mãe, de irmã e de esposa, por todos encontrados ou sonhados ao menos uma vez na vida, astros inaccessiveis ás violentas tempestades, que tantas vezes ameaçam o horizonte domestico, anjos pacificadores entre os seus, que com todos repartem carinhos e afagos, que com lagrimas e sorrisos a todos consolam e recompensam; se, vendo Jenny, podia ainda lembrar o amor, era o amor da mulher sempre casta que, ao estender a fronte candida aos beijos affectuosos do esposo, baixa ainda os olhos, córando com todo o pejo de uma primeira entrevista, e fita-os no berço do filho adormecido sob a vigilancia dos seus cuidados. A estatura esbelta da joven ingleza, o andar, sem os requebros languidos das nossas elegantes, a fronte pura e de gracioso modelo, coroada por um diadema de formosos e desadornados cabellos louros, o olhar entre affavel e melancolico, a voz meigamente sonora e cadenciada, tudo emfim, de modo inexplicavel como variadas phrases da mysteriosa linguagem da belleza, denunciava os encantos, as doçuras d'aquelle caracter feminino, tão alheio a fraquezas mundanas, que mais se dissera angelico. Sentia-se, vendo-a, que para ella nunca o amor seria um passatempo, um capricho apenas, gosado entre risos, terminado sem lagrimas. Talvez nunca tão violenta paixão a chegasse a dominar até; porém, se nascesse, seria como essas plantas, que mal se desentranham em galas de folhagem e de flores, mas que se prendem por tenazes e penetrantes raizes ao solo d'onde brotaram. Em Jenny, a paixão de amante, a ter de lhe inquietar o coração, difficilmente se revelaria, a não ser adivinhada; mas depois, se o fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de mãe, ou lentamente a consumiria; ser-lhe-hia fatal, se por não comprehendida, não chegasse a realisar essa santificada evolução. Almas assim estão talhadas ou para a felicidade celeste ou para a maxima tortura; que eu não sei de outra maior, do que a d'aquelles que concentram em si o soffrimento e suffocam todas as manifestações de dor, quando ás vezes a revelação lhes poderá dar lenitivo. Mas o céo de Jenny era ainda limpido, e amena a corrente da vida. Um rapido e imperceptivel movimento de labios, um desvanecido contrahir de fronte e--a não ser illusão isto,--um como escurecer do puro azul d'aquelles olhos amoraveis, eram os unicos vestigios das raras luctas travadas entre a sua razão poderosa, bem que de mulher, e os impulsos de diversos affectos, lucta sempre decidida pela victoria da primeira. Mas eram raras essas nuvens, tão raras como diaphanas, tão diaphanas como passageiras. Estava-lhe quasi sempre no seio aquella mesma placidez que se lhe lia no semblante. E nem porisso se julgue frio e insensivel o caracter d'ella; animavam-o tambem os raios vivificadores dos sentimentos, que nos prendem á terra; mas, com o influxo da vida, não transmittiam esses raios a lavareda que destroe. Será menos energico e abençoado o calor do sol, porque não inflamma os bosques e as cidades, como o incendio que a mão do homem ateia? Mas um cobre de verdura os prados e de flores os ramos, e alumia o hemispherio inteiro; o outro calcina as plantas que abraça, e a pouca distancia estende a sua claridade fatal; qual será mais poderoso e effectivo? Em Jenny os affectos do coração pareciam-se com as chammas dos lampadarios sagrados, que, em honra de Deus, illuminam o interior dos templos. O vel-as luzir eleva o pensamento a meditar cousas do céo. Ha entes assim, que tudo santificam; paixões, que n'uns acalentam vicios, são n'elles efficazes impulsos para sublimes virtudes. O calix, que, em mãos profanas, preside aos banquetes e ás orgias, consagrado no altar, transforma-se em symbolo mysterioso da mais augusta religião. Deus desce tambem a muitas almas, para tornar em holocausto digno de si as paixões originarias d'ellas. Carlos era, sob muitos respeitos, differente da irmã. Inglez pelo sangue, meridional pelo clima, onde vira, a primeira vez, a luz do dia, onde passára a infancia, onde sentira as primeiras commoções da adolescencia, o despertar da vida do coração, tinha um caracter que se ressentia d'esta, de alguma sorte, dupla nacionalidade. Da peninsula recebera o enthusiasmo, a viveza de imaginação, a impetuosidade de sentimentos, que raras vezes reprimia; vinham-lhe da Gran-Bretanha a força de vontade, a pertinacia, o estoicismo, com que, em certas occasiões, surprendia a quantos julgavam conhecel-o; vinham-lhe até, da mesma fonte, algumas excentricidades de manifesta herança paterna--efficaz inoculação de britannismo, que não lhe consentiria mentir á origem, se alguma vez o tentasse. Ainda que algum tanto estouvado, não deixava porisso Carlos de possuir um generoso e compassivo coração, alma sensivel a todos os infortunios, olhos a que a piedade não permittia serem estranhas as lagrimas. Se, por acções mal refreadas, por palavras irreflectidas, as fazia tambem verter, era elle o primeiro a accusar-se, a compadecer-se, a procurar enxugal-as por toda a qualidade de sacrificios. Capaz de heroica abnegação em bem dos outros, se frequentemente se esquecia de beneficios recebidos, como se poderia censural-o, quando, habituado a realisal-os maiores, não exigia tambem dos favorecidos a gratidão em recompensa, parecendo até desconhecer os direitos que tinha a ella? Corajoso até á imprudencia, liberal até á prodigalidade, sincero até á rudeza desattenciosa, os seus maiores defeitos não passavam de nobres qualidades, levadas ao excesso. O que elle não sabia, ou não podia, era conserval-as no ordeiro meio termo, tão respeitado pela sociedade. O sangue dos vinte annos fazia doudejar aquella cabeça; os instinctos generosos faziam o tormento d'aquelle coração, porque se uma, em momentos de exaltação, conseguia romper com as generosas repugnancias do outro, a reacção era infallivel, e este, mais tarde, obrigava-a a arrepender-se, descobrindo, e exagerando até as nem sempre remediaveis consequencias dos seus desvarios e caprichos. Carlos era d'estes homens, que encerram e alimentam no proprio seio o seu principal inimigo. Entre Carlos Whitestone e o pae existia um cordial e puro affecto, ainda que disfarçado, em ambos elles, sob apparencias de frieza e de reserva da mais genuina indole britannica. Raras vezes se procuravam os dois, e sempre que, nas occasiões ordinarias, se viam juntos, poucas palavras trocavam. Quando mais solta se desenvolvia a loquacidade de Mr. Richard na presença do filho, era ao saborear os ultimos calices, depois do jantar de familia; mas, ainda então, a conversa quasi se reduzia a uma especie de extenso e variado monologo, recitado por aquelle e interrompido por este apenas com algumas phrases de assentimento, em que predominavam os _Yess_, ao mesmo tempo que os labios se armavam de um sorriso de complacencia--nem sempre segura fiança de attenção. Carlos respeitava o pae, amava-o até com extremos capazes de lhe inspirarem os maiores sacrificios, e comtudo evitava-o, como se, junto d'elle, se não achasse á vontade. E não achava, de facto. Possuia Carlos um d'estes genios, que não supportam constrangimentos; ou hão de romper com elles ou evital-os. Calava-se, onde não podia abandonar-se aos caprichos de uma conversa futil; entristecia, onde lhe fossem estranhadas as expansões de uma alegria infundada, de um d'esses irresistiveis jubilos de creança, que, como tal, em puerilidades se revela. Dessem-lhe a liberdade de poder ser estouvado, vel-o-iam talvez sisudo; mas, forçado a isto, tornava-se sombrio e de mau humor. Ora a austeridade de costumes de Mr. Richard Whitestone, a rigidez dos seus principios de decoro e de respeito ás praxes da etiqueta ingleza, exerciam sobre Carlos uma influencia, contra a qual não tinha coragem de revoltar-se; e porisso fugia-lhe. No pae via quasi sempre um juiz severo e inflexivel, prompto a julgal-o e a condemnal-o talvez; e Carlos, que habitualmente trazia na consciencia algum peccado de juventude a remordel-a, e que não confiava no seu poder de dissimular, furtava-se, quanto podia, ás investigações do jury paternal, sempre antevistas por elle e bem longe ás vezes do intento de Mr. Richard Whitestone. Este, de seu lado, não amava menos extremosamente o filho; para as verduras da mocidade era indulgente, como, em tempos passados, desejara e precisara que fossem tambem comsigo; Deus sabe que esforços lhe custavam até estes sisudos ares de convenção, tão oppostos ao fundo de desafogada jovialidade do seu caracter, e que não conseguiam dissipar o sorriso, que tinha como que stereotypado nos labios. Julgava elle, porém, do dever de pae e natural mentor, que era de Carlos, conservar sempre certo ar de hombridade e de quasi rudeza para com o estouvado, que, não raro, lhe estava dando motivos para mais severas penas. Á sua precisão britannica repugnavam longos discursos de moral e prolixas catecheses. Laconico, n'estas cousas, por systema e por espirito nacional, nunca usava de parabolas para chamar ao aprisco a ovelha tresmalhada. Um unico «Ho!» mas pronunciado com aquella expressão, que só a larynge britannica lhe sabe dar, um _ho_ aspirado, guttural, eloquente, inglez emfim, combinado a um abanar de cabeça rapido e desapprovador, e a dois ou tres particulares estalidos de lingua, eram os signaes de impaciencia e de desagrado que Mr. Richard manifestava, e dos quaes mais se temia Carlos, do que se temeria de qualquer menos concisa formula, sob que podesse revelar-se a censura paternal. Dia, em que aquelle fatal «_oh!_» lhe tivesse soado aos ouvidos, já não se confiava despreoccupado a inteiro prazer; passava-lhe uma nuvem no firmamento azul da juventude, limpido como o de poucas. Promettia então emendar-se; solemnemente a si proprio o promettia, mas cêdo a promessa era esquecida até que nova e similhante occasião a renovava. Outro era o sentir de Carlos para com a irmã. Jenny era o seu anjo bom, e o anjo bom da familia toda, a meiga, a benigna fada, cujo olhar serenava as tempestades, e desanuviava o sol. Com sorrisos decidia, para o bem, os combates de paixões. Debil e delicada era aquella mão, mas quantas vezes Carlos a encontrára interposta entre si e o precipicio, para lhe servir de amparo! Delgado e vacillante imaginar-se-hía aquelle braço, mas firme o sentia ella sempre ao ter de sustentar o irmão na quéda imminente, ou de eleval-o até si. Branda e suave lhe saía dos labios a voz, mas só ella se fazia escutar dos ouvidos, quando o tumulo das paixões os ensurdecia. Não havia segredo entre os dois. De pequeno se costumára Carlos a vir contar a Jenny quasi todas as acções da sua vida, boas ou más que ellas fossem. Referia-lhe, um por um, e com sincera ingenuidade, os pensamentos dominantes do dia, e mais do que uma vez conseguira vencer-se, quasi ao ceder á tentação de actos menos generosos, só para não ter de os confessar depois a este affectuoso juiz, e merecer-lhe uma amigavel reprehensão entre sorrisos ou o mal reprimido movimento de desgosto d'aquelles bonitos labios, o que devéras o magoava. Nem menos o affligiriam os remorsos, se procurasse subtrahir-se á pena, não denunciando o delicto. A consciencia costumava censurar-lhe tambem estas faltas, nas raras vezes que as commettia. Jenny, igualmente attendida pelo irmão e pelo pae, servia-se d'esta duplicada influencia para harmonisar toda a familia, nos momentos de receiada discordia. Com uma palavra extinguia qualquer irritação, que as extravagancias de Carlos podessem ter produzido no animo de Mr. Richard; com outra dissipava no irmão as menores tendencias á insurreição, tão naturaes á idade e temperamento d'elle contra alguma medida repressiva, posta, de quando em quando, em pratica pelo pae, como em ultimo recurso. Frequentes vezes o pequeno erario de Jenny abrira-se a solver dividas, imprudentemente contrahidas por Carlos, e a remediar todas as más consequencias das suas leviandades. Estava sempre prompta a advogar-lhe os pleitos, a minorar-lhe as culpas. Mas tambem o que ella não conseguisse de Carlos, ninguem mais na terra o conseguiria. Deixar adivinhar desejos, era formular pedidos; uma supplica, timidamente expressa, valia por uma ordem imperiosa. E comtudo Jenny nunca procurava tornar apparente este predominio; antes se esforçava por o dissimular. Conhecendo, mais por muito reflectir do que por experiencia, que não a tinha, os mil mysterios e caprichos do coração humano, toda a sua admiravel diplomacia feminina estava em saber fazer-se obedecida, brincando; em aceitar e agradecer, como concessões espontaneas, o que lhe dizia a consciencia ser o resultado de suas insinuações e pedidos. Desenvolvia-se de ordinario uma perfeita tactica, e engenhosamente tecida da parte de Jenny, em quasi todas estas conferencias intimas entre os dois irmãos. Virtuosa e sympathica hypocrisia, com que Jenny, para dominar, se humilhava! Quando os anjos nos imitam na dissimulação, ainda então não perdem a sua candura. São sempre anjos. Roçam com as azas pelo lôdo do mundo, mas levantam-se immaculados. Quem ensinára a Jenny, cuja vida se deslisára quasi toda no tracto intimo de sua pouca numerosa familia, esta sciencia do coração, que dizem só adquirir-se no muito lidar com os homens e com o mundo? Já o indicamos:--a sua indole pensativa, os seus habitos de reflexão. Mais se aprende na leitura meditada de um só livro, do que no folhear levianamente milhares de volumes. Assim tambem no estudo dos caracteres. Observadores ha, que, após annos e annos gastos a viver com os homens, morrem em ingenua ignorancia a respeito d'elles; outros que, na solidão do gabinete, perscrutam no proprio coração os segredos dos mais, decifram-os, porque, descobertas ahi as leis principaes e communs a toda a natureza humana, facil é adivinhar depois as secundarias, d'onde procedem as differenças. Surprende devéras quando se vê saír d'esses cantos obscuros um homem a todos desconhecido, e que a todos parece conhecer. Como e onde aprendeu este homem tudo isto? Pela observação desapaixonada em si, ou, quando muito, nos seus mais proximos; depois a intelligencia, vigorada por este ensino, abalançou-se, guiada por vestigios na apparencia insignificantes, a inducções fertilissimas. Carlos não sabia resistir muito tempo á irmã. Sem suspeitar que cedia, recuava passo a passo. Aproximava-se do fim, onde a habil contendora o queria levar, e, ao attingil-o, ficava surprendido de haver realisado, com tão pouco custo, suppostos sacrificios, cuja ideia só, momentos antes, o tinha feito desanimar de emprehendel-os. Por não differentes processos, cada dia se vergava, por assim dizer, ás mãos de uma creança o caracter geralmente considerado inflexivel de Mr. Richard Whitestone. E com tal habilidade aprendera Jenny a occultar estas pequenas, mas importantes victorias, que a todo o instante obtinha sobre os seus, que mal vinha á ideia do bom _gentleman_, quando, muito convencido do que dizia, se jactava de ser firme nas suas resoluções, e pouco propenso a revogar projectos formados, que, n'aquelle mesmo momento talvez, lhe estavam dando seus actos solemne desmentido. Taes eram os principaes membros da familia Whitestone, com quem travaremos mais intimo conhecimento nos varios capitulos d'esta singelissima historia, em cujo decurso, desde já o declaramos, para não alimentar illusorias esperanças, a acção prosegue desimpedida de complicadas peripecias. III NA AGUIA D'OURO Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855. Havia menos estrellas no céo, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau humor; mas, embora; o folgazão entrudo ria-se de taes severidades e dançava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que se levantavam do sul. Graças á cheia do Douro, a cidade baixa podia bem prestar-se n'aquella época a uma parodia do carnaval veneziano. Á porta dos theatros apinhava-se a multidão; os altos brados dos vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas lojas circumvizinhas aos principaes salões de baile, pendiam vestuarios correspondentes a todas as épocas e a todas as nações, e alguns, aos quaes não era possivel assignar época, nação, classe ou condição social conhecida. Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposições de mascaras á venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi impraticavel. Era uma fascinação analoga á que produz um conto de Hoffmann em imaginações excitaveis, e exercida n'elles por tantas mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de expressão e de gesto lembrava um enxame de cabeças mephistophelicas, surgindo á luz para se rirem das loucuras da humanidade. Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si, desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjeição pouco harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades no andamento da sua grave e benefica tarefa. Só então, e ainda a custo, se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de novo. Se é licito comparar as grandes ás pequenas cousas, veremos n'estes a imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas. A animação era geral na cidade. Todos corriam com ancia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam. Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anciã das nossas casas de pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos, particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para lá os olhares de quem passava. Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas, o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das vozerias tumultuosas, e dos _hurrahs_ ensurdecedores rompiam, como uma torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por muito tempo essa torrente, á maneira do que succede com a das aguas dos rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda, através do grande rumor, que enchia as ruas. Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham com promessas os impacientes convivas da sala. No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade estomacal convidára a ir ceiar a humilde costelleta, principal trophéo culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se sorrateiro e cabisbaixo. Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada de não sei que magestade, condigna do seu emblema. A luz escassa de um lampeão da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que corôa a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais brilhantes do que os do costume. Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem já dado que entender a ministerios e a emprezarios lyricos, não podia haver duvida. Cá em baixo, os serventes do café fallavam a meia voz e mostravam no olhar certo ar de preoccupação, certa importancia no gesto, como se effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima. O café contrastava porém com a animação que se percebia nas salas da hospedaria. Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes ainda então existiam, e ameaçavam perpetuar-se, reproducções, em lona, dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz amortecida dos candieiros não dissipava as sombras dos recantos. O marcador do bilhar cabeceava com somno. Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli até os homens politicos. N'aquella noite as discussões sobre a guerra da Crimeia, então na ordem do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros. Não é pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu pretendo demorar o leitor. Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e corredores, penetremos na sala d'onde provém o ruido de festa que já noticiamos. O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades architectonicas não requerem tambem as fadigas da descripção. É um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir. Chegamos, porém, tarde. O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante. Ha já calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas as posições, algumas indescriptiveis. A vozeria é atordoadora. A confusão póde dar uma ideia de Babel. Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transições fazem-se com uma rapidez, que surprende e embaraça os proprios interlocutores; attenção, que se desvie um segundo, é attenção perdida; não encontra depois já o dialogo onde o deixou; ás vezes a conversa generalisa-se; momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos; mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasiões, todas as bôcas fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por instantes fazer-se escutar de todos, até que um áparte, um incidente, um gesto, restabelece a independencia primitiva. Dão-se tambem verdadeiros encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a expressão do pensamento. Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto, discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares da época; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com tão agradavel prática, o dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas e ovações; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria philosophia allemã fornece alimento á animação dos discursos; e tudo isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclamações em todas as linguas. Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos reunidos alli. Ha-os das mais diversas condições; desde o joven padre, que põe a tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfarçar, quanto for possivel, os vestigios da tonsura, até o official do exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para quem a mesma caça é occupação barbara e afflictiva da sensibilidade; ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda imberbe e embriagado com as primeiras commoções da vida de adolescente, até o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de lhe ir contando os annos, deixa passar a geração, contemporanea sua, e insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas circumstancias monetarias, desde o capitalista, que vê correr descuidado a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confiança no inesgotavel manancial que a alimenta até á classe dos _encostados_, verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a imaginação a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora á custa de humiliações n'aquella atmosphera, fóra da qual já não sabem respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputação nas lettras, até o analphabeto, cujas sandices são saudadas com gargalhadas que ninguem procura reprimir na presença d'elle proprio. Finalmente, esta reunião de elementos, debaixo de todos os pontos de vista tão heterogeneos, é uma porção da sociedade, que pretenciosamente se decora com o titulo de elegante e para pertencer á qual é difficil fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria elegancia--na verdadeira accepção do termo--é dote generico dos seus membros. O motivo do jantar... O jantar não tinha motivo e era esta outra circumstancia que o caracterisava. Um jantar póde muito bem ser motivo de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em linguagem philosophica, que tem em si a «razão sufficiente da sua existencia». Na companhia encontraremos alguem já conhecido nosso. E como, até agora, só tenho apresentado ao leitor tres pessoas, não será prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres será. Effectivamente é Carlos Whitestone um dos convivas e não dos mais sisudos. Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes conseguira encaminhar a um fito unico todas as attenções e modificar a assembleia a ponto de se lhe poder referir o _conticuere omnes_ da _Eneida_;--verdade é que não tão completamente o fizera como o heroe troyano, pois nem tinha destruição de Ilion a descrever, nem a paciencia dos tyrios a escutal-o. Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e escandalosos, de que sempre e em toda a parte é tão sôfrego o paladar social. Por isso o escutavam todos com prazer. Sinto que não chegassemos a tempo de ouvir o principio da narração, que elle levava em meio. --O nosso homem--dizia Carlos, accendendo um charuto no de um jornalista; seu vizinho--apesar do aviso que recebera, resolveu na melhor das boas fés... --Então é a boa fé dos maridos--commentou a meia voz um padre, que, atrazado nas operações gastronomicas, investia com denodo contra um tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:--Não sei de outra, que a exceda. --Regula por essa a dos amantes ingenuos--acudiu Carlos ao commentario. --Mas é de menos consequencias--respondeu o outro. --Silencio, padre Manoel!--bradaram algumas vozes--Vamos lá, Carlos; e depois? --Depois--proseguiu Carlos--enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se, frisou-se... --E tingiu-se; que não esqueça--acrescentou do fim da mesa uma voz. --E tingiu-se; sim--disse Carlos--e feitos todos estes aprestos, caminhou para a entrevista. --E como se realisava essa entrevista?--perguntou um militar. --De uma maneira muito singular;--proseguiu Carlos--o conselheiro, todas as noites, depois de pousar na relva o chapéo, a bengala e as luvas, trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e... --Ora! Impossivel!--exclamaram alguns, rindo. --Palavra! --Isso é contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo...--principiou a dizer um estudante da Universidade. --Pelo contrario;--atalhou outro--é exactamente o bojo que o faz subir. Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos... A quéda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de physica... --Divertida...--annotou uma voz. --Como exemplificando as leis da quéda dos graves... um tão _grave_ personagem--concluiu o primeiro. Estes sujeitos guindavam o _calembourg_ ao supremo grau da escala do espirito. --Então? deixem fallar Carlos; e depois?--disseram alguns curiosos. Carlos continuou: --N'aquella noite, porém, estava reservada ao conselheiro a mais triste surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro. --Com o Victor? --Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocês o soberbo dialogo, que se seguiu ao encontro. --Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes! --O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe: _Tytire, tu patulæ recubans sub tegmine fagi Formosam resonare doces Amaryllida silvas_ --Protesto contra o _recubans_. A posição de Victor era menos commoda. --_Mutatis mutandis_, já se sabe. --Ó padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posição em que estava o Victor. --Não interrogues o padre. Não vês que elle está, como os antigos agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade do acto. --Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias? --As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro... N'este ponto, a narração de Carlos foi interrompida por o criado da hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta. --Com a sua permissão, meus senhores,--disse Carlos, preparando-se para abril-a. --Bravo!--exclamou o jornalista--temos carta de algum Ecco impaciente. --_E un foglio a me lasció_--cantarolou um _dilettante_, voltando as costas da cadeira para a mesa. --É a proposta de capitulação de alguma Troya sitiada--disse o militar. --Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim. --Antevejo então uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos escaparemos. Carlos sorria, ao abrir a carta. --Ó Carlos, olha que são perigosos para as digestões os sobresaltos de coração--notou o estudante de medicina. --Socega; é um excitante a que já estou habituado--respondeu Carlos. De repente tornou-se serio. --Má nova!--disseram alguns. --O caso complica-se. --As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver? --Não é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia, e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos. Carlos não os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa. Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a resposta, diziam: --Meu anjo, se no céo... --Vôo nas azas do amor... --Qual outro Leandro, eu, naufrago... --Minha Heloïsa; se o infortunio de Abeillard... --Julieta, quando o rouxinol... Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao criado. Esforçava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esforço era visivel, circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito. --Que é isso?--disse o militar, que lhe ficava defronte--respiraste a peste n'essa carta? --O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de um conde de Luna?--disse o _dilettante_. --Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de despejo aos... --Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma avultada conta de enfeites. --Um dominó leva a sua ingratidão até... --Já vão numerosas as hypotheses--disse Carlos, enchendo um calix de vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio da noite; depois acrescentou:--Este bilhete era para me recordar... --Ai! recordações!... _Te souviens tu, de même, De nos transports brulants_... --Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos--concluiu Carlos. --Devéras! --É o que eu te digo. _Quan tu m'as dit: «je t'aime!» J'avais alors vingt ans_. --E estavas calado com isso. --Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, não me teriam aqui. --Então? Receber-nos-hias em tua casa? --Tambem não. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de familia. --Oh! oh! sentimentalismo! --Britannico! Pés no _fender_, _punch_ na mesa, _Times_ na mão. E de quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjeição, que produz na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso! --Deve ser um céo aberto! --Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros. --E de carvão de pedra. --Não esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico. --E umas variações vocaes sobre motivos do _God save_. Carlos sorriu, respondendo: --Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado assim. Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se não todos, sentiam a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de fazer tão claro, e em plena ceia de carnaval, tal confissão. Que querem? não está em moda trazer o coração á vista. É costume tratar, como ridiculas, todas as manifestações de sentimento; consideram-se como pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na discrição das quatro paredes do nosso quarto. Carlos porém não sabia dissimular; com verdadeira convicção e franca ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allusões epigrammaticas ao que elles chamavam «respeitabilissima tendencia para pae de familias». O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado devéras Carlos, era da irmã e dizia apenas: «Charles. É hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O pae esperava-te. Adeus. _Jenny_.» A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas: «Jenny. Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. Não me succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justiça d'essa supposição, não é verdade? Agora não posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim companheiros tão doudos como eu; e, quando os deixasse, não sei se ainda iria em estado de poder, sem profanação, sentar-me ao teu lado, á santa e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o dia, em que veio ao mundo mais uma cabeça leve. Ámanhã te pedirei perdão... Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de entrudo?! Teu mau irmão _Charles_.» A final, após algumas explicações mais, um dos convivas levantou-se e empunhando o calix: --Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos--bradou, em tom de brinde. --Apoiado--responderam todos, imitando-o. --Carlos--continuou o primeiro--bebo aos teus vinte annos! Contes pelos trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as paixões que fizeres nascer; e possas tu... --Não se admittem longos _speeches_; olá! Bebamos!--disse uma voz. --É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que sáe--acrescentou outra. --Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais _sabe_. --Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil digestão dos teus _calembourgs_. --Então? Bebamos!--insistiu o côro. E o brinde foi geral. Carlos correspondeu constrangido áquella saudação. Parecia-lhe estar vendo Jenny a olhal-o com uma expressão de amigavel desgosto; Jenny, a unica a fazer companhia ao velho negociante, que não pouco devia ter sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já não era para o pobre rapaz dissipar completamente aquella impressão penosa. Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso de se ver alli; e este effeito, se não lhe distrahia completamente a attenção dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discussões, nem o occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros. Á placa da camara escura, não preparada na officina photographica, é comparavel o pensamento, em occasiões assim. Lá se gravam ainda as imagens das cousas exteriores, mas, não as fixando a attenção, dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram. D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observações feitas por Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi forçado a dar. Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem escutar; a qualquer d'estes assumptos não costumava Carlos, nas ordinarias disposições de espirito, recusar attenções, nem esquivar a concorrencia propria. O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupação em que o viu. Ora uma observação qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper. --Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi apopletico. Coragem! É negocio de coração? Alguma loura e nevada _miss_? hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo _to flirting_!--d'aquelle _flartar_, como, com tanta razão, traduz Garrett, á falta de melhor vocabulo. E elle ahi principiava: --Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas _Viagens_, hein? Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de Xavier de Maistre. Que eu não participo da admiração geral por Xavier de Maistre; é preciso que saiba. Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma asserção mais arrojada, a pausa era de rigor. Carlos, já se sabe, não redarguiu. N'este intervallo, pôde ouvir o conviva proximo, que dizia: --Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis; ia d'aqui a Paris; depois... O jornalista proseguiu: --Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a grande distancia d'elle. A _Viagem sentimental_, sim. Oh! A _Sentimental journey_. É um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O _humour_ morreu com Sterne.--Pausa.--A demasiada philosophia gela a inspiração litteraria. Ahi tem Pope. É frio, é árido, é marmoreo.--Pausa.--Os poetas francezes não teem tanta tendencia para se deixarem _philosophicar_, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás vezes... Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubiçasse o _Childe Harold_. Força de contrastes! Aquelle _Childe Harold_! aquelle _Childe Harold_! Que me diz você áquelle _Childe Harold_? É o unico poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até hoje.--Pausa.--Perdôo-lhe o _Poor, paltry slaves_! com que nos mimoseia. E note que eu não sou admirador cego do Byron. Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto. Carlos continuava calado. Percebeu então que n'um grupo vizinho se dizia: --Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias. --Melhor é a do Manoel Galveias. E mais adiante: --Perdão, menino; mas para mim a synthese não é uma mera condensação dos factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a força que vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os principios evidentes; Kant... O jornalista continuava: --Eu não me regulo pela critica convencional. É o meu systema. Não me resolvo a entoar _amen_ á opinião dos povos.--Pausa.--Por exemplo, tenho a sinceridade e a coragem de confessar que não me fascina Dante. Grande pausa. --Padre Manoel--dizia n'esta occasião, do fundo da mesa, um dos convivas, apontando para o calix, que levava aos labios--_Ecce Deus qui lætificat juventutem meam_. O padre sorriu, mas não disse nada. Comia. --Porque a final de contas--proseguiu o discursador--você ha de concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a _Divina Comedia_, senão o compendio das crenças religiosas d'aquelle tempo? Pausa. --O que ha a respeito da revolução carlista em Pamplona?--ouviu Carlos perguntar. --Nada mais se sabe por emquanto, apenas que estão implicados alguns sargentos, cabos e paizanos--respondia outra voz. E continuava a dissertação litteraria: --O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem elle. Logo os primeiros versos: _Nel mezzo del cammin di nostra vite_... Acho porém dotes superiores em Boccacio.--Então que quer? É um espirito encarnado em corpo de menor vulto, mas... você já leu o _Decamaron_? Deve ler. É um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As imitações de La Fontaine são pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella côrte não podia existir a verdadeira inspiração. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto Luiz XIV e o seu seculo.--Pausa.--Molière salva-se, mas porque? Porque o genero comico tem uma índole especial. Não é a inspiração que o regula; é a analyse, é a reflexão philosophica. --Eu aposto--berrava um politico--que se os alliados se metterem a dar o assalto a Sebastopol, não fica um só vivo. --Veremos--questionava outro.--Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens. O jornalista continuou: --Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem. --É a _Biblia_, os _Lusiadas_ e o _Paulo e Virginia_. Já sei. É o costume--disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, apreciações criticas, cotejos e citações, que saíam, em tom categorico, da palavrosa bôca do vizinho. --Não ha tal--respondeu este, porém, tomando-lhe o braço e levantando-se igualmente.--Esses são a formula dos tres grandes sentimentos da alma--o da religião, da patria e do amor;--bem o sei; mas confesso-lhe, o que, por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das paixões, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais. A creação de Pantagruel e Gargantua é famosa! --Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?--exclamou, voltando-se, um _dilettante_, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle momento..--Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisação! Que sentimento! --Ahi tornas tu com a Ponti--disse um velho rapaz, pronunciado adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal das companhias escripturadas.--És capaz de sustentar que vae bem na _Norma_. Se ouvissem a Rossi-Cassi... --A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! Não sacudas reputações cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade. --Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um assento de baptismo feito pelo menos em 1800. --Nego--bradou embespinhado o velho rapaz. --_Parce sepultis_--disse o padre. --_Lascia la donna in pace_--trauteou outro _dilettante_. Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no _Ei fu_! do _Cinque maggio_... etc., etc., etc... Carlos foi retido agora pela mão de um rapaz, junto do qual tinham chegado. --Aqui está quem nos póde informar--dizia o que o segurava.--Ó Carlos, dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas? --Não--respondeu Carlos, distrahido. --Conheces por força. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que comprou a quinta do Pedroso. --E então? --Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga? Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez. --Não tem que ver; o Viegas não lhe póde dar mais de nove contos. --Triplique, e não lhe faz favor nenhum--disse, do alto da mesa, o padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre os mais disparatados assumptos. --Ora ahi tens!--disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de valia provada. O padre limpava tranquillamente os beiços e enchia um calix de malvasia. --Então diz o padre Manoel que o Viegas... --O Viegas tem pelo menos...--dizia de lá o padre, elevando o calix entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de completar a phrase, levou-o á bôca e despejou-o de um trago. Depois continuou: --Tem pelo menos ... pelo menos... Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu: --Sessenta e sete contos de réis. --Ora! Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista, que lhe ía dizendo: --É a questão do dia--O dinheiro--A litteratura resente-se... E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de Ponsard ... etc., etc... --Deixa-te d'isso;--dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios--a Emilia Victorina é outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do barão de Tavares, me encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha, uma mulher distincta, esplendida. --Foi, foi; já não é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em ti appareciam os primeiros dentes. --A idade...--dizia outro. --Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter. --Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter a idade que tem. --Barbaro! Ó Carlos, que dizes tu? --Digo que sim--respondeu Carlos, que nem attendera á discussão. --Está esta creança do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina á Marianna Prazeres. --E prefiro, repito. --Não sejas impio. Quem não acha admiravel aquella bonita cabeça da Marianna? --E a mão? Aquella mão comprida e delgada, onde as veias se desenham em azul; a verdadeira mão artistica, aristocratica. --No assumpto «mãos», peço licença para citar a primeira...--das provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva--lembrou um individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra. --Apoiado!--entoaram muitas vozes. --A proposito da Clementina Rialva--exclamou uma chronica viva de boatos do dia--sabem que o Chico da Lousã, sempre a tira por justiça? --Devéras?! --Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle. --Terrivel catastrophe! --Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae, tem influencia e, feitas as pazes do estylo... --Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas. --Que influencia tem o Rialva?--perguntou, encolhendo os hombros, um mallogrado aspirante á eleição popular. --Não. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino... --E o ministerio deve-lhe serviços. --Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos serviços eleitoraes do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao Roboredo. --Como não arranjou? Ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo? --Quem levou lá o Roboredo, foi... --Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio, mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e que não obteve, abandonou a regeneração... --Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh que alarve! --Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que nunca se pôde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que até lhe fazia mal pensar na posição incommoda, em que haviam de viver esses pobres diabos, se existissem... --E um dia em que elle... Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia. Todas as attenções e todos os olhares convergiram para alli. Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido, poucas disposições para expansão igual. --É impagavel este homem!--dizia um dos que riam. --Que foi? que foi?--perguntavam os que não faziam parte do grupo, rindo já com anticipação tambem. O dos ares constrangidos respondeu: --Não façam caso; são doudos. --Que foi? digam--insistiam todos na sala. --É aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas. --Eu disse...--tentou este interromper. --Silencio!--bradaram muitos a um tempo. --O Claudio!--continuou um dos que mais ria--ouvindo aqui o Lourenço fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro, observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas. --Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse. A justificação foi suffocada por um côro geral de gargalhadas. --O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a Hollanda a uma geral inundação. --Que terrivel capricho estomacal! --Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a Volney! E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confusão subia de ponto com isto. Até que emfim uma voz dominou o tumulto. --Reparem que são onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada solemne nos bailes de mascaras. Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo o calix: --Ás nossas conquistas d'esta noite! --Apoiado!--disseram todos, imitando-o.--Ás nossas conquistas. E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade. Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas. Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia. Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas aspirações no tubo do volumoso cachimbo. --Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho... Por isso vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso... Eu gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um coração para ecco. Almas de sensitiva... Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho poetico e improvisador do que fallava assim. Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a plenos pulmões o duetto da Lucia: _O' sole più rapido a sorger t'apresta_ O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era muito para produzir ecco nos corações: No centro dos circulos De nuvens de fumo, Um deus me presumo, Um deus sobre o altar! Nem d'outros thuribulos Me apraz tanto o incenso, Como o d'este immenso Cachimbo exemplar! Em divans esplendidos, Cruzadas as pernas, Fuma, horas eternas, O ardente Sultão. Subindo-lhe ao cerebro O magico aroma, Esquece Mafoma, Houris e Alcorão. Longe, oh! longe o opio, Que os sonhos deleita Da misera seita Dos Theriakis! Horror ao narcotico Que vem das papoulas! E ao que arde em caçoulas, No altar do Caciz! Que a raça gentilica Das zonas ardentes Consuma as sementes Do arabio café. Despejem-se as chavenas Da atroz beberagem Da côr do selvagem Da adusta Guiné. E a tal folha exotica, Delicias da China, Por nossa má sina Trazida de lá, Servida em familia, N'um morno hydro-ínfuso?... Anathema ao uso Das folhas do chá! Nem tu, ó alcoolico Humor dos lagares, Terás meus cantares, Meus hymnos terás. Embora das amphoras Vasado nas taças, Aos outros tu faças A lingua loquaz. Cerveja britannica, De furor espuma! De cousa nenhuma Me podes servir. Quando ouço do lupulo Gabarem proezas, Ás bôcas inglezas, Desato-me a rir. Nem venha da camphora Prégar maravilhas O das cigarrilhas Famoso inventor. Raspail é scismatico E eu sou orthodoxo, O seu paradoxo Não me ha de elle impôr. Meu canto é da America, Paiz do tabaco, Perante o qual Baccho Seu sceptro partiu. A Europa, Asia, e Africa E a terra hoje toda Este heroe da moda De fumo cobriu. Até na Laponia, Da gente pequena, Se fuma; e no Sena, No Tibre e no Pó, No Volga e no Vistula, No Tejo e no Douro; Que immenso thesouro Se deve a Nicot! Meus áridos labios Mais fumo inda aspirem Que os parvos suspirem Por beijos, aos mil. Não quero outros osculos, Não quero outra amante. Qual mais doudejante Que o fumo subtil? Tornadas Vesuvios, As bôcas fumegam. De nuvens que cegam Vomitam montões. Fumar! Oh delicias! Prazer de Nababo! E leve o diabo Do mundo as paixões! --Bravo!--disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a musa do recitador. O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a dissipar-se-lhe a nuvem. --Quem compra uma senha?! --S. João! quem quer? --Doze vintens, meus amos, doze vintens. Com estes analogos pregões caiu um bando de negociantes de senhas sobre os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor maneira possivel. Cêdo entravam no salão do theatro, onde já centenares de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas, apertadas, esmagadas quasi, aos encontrões dos mascaras, arrebatados n'um galope vertiginoso. O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem, com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez a operação, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos fazem;--uma das mais poderosas razões dos nossos actos na vida. Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diversão fóra dos seus habitos, provavelmente mais pacificos--o que fiz só por a necessidade que tinha de mostrar em acção o caracter do nosso heroe e exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual--concordo em que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem consolam, nem divertem. IV UM ANJO FAMILIAR Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda. Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer aventura incompleta do baile da vespera? A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para sonhos e repouso. O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia. Esta nossa cidade--seja dito para aquellas pessoas, que porventura a conhecem menos--divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por physionomias particulares. A região oriental, a central e a occidental. O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brazileiro; o occidental, o inglez. No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias modernas que revestiu. O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo--azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi sempre algum capitalista ocioso. O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o _habitat_ d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto... até de preto!--Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.--Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças de cabellos louros e de babeiros brancos. Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas, e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em 1855. É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr. Richard, e sua familia. O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições mal sofridas em terras, onde todos se conhecem. A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado. Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos, retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza. A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão, ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade. Era n'este pavilhão o quarto de Carlos. Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo _confortable_, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez. Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio, tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes. Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo depois do meio dia. Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão, circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse constrangimento prevía utilidade. Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias novas. Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o. No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera. Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a denunciar-lhe o acordar. Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía inspeccionar e dirigir os preparativos do _lunch_ de Mr. Richard, cujas horas se aproximavam já. N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão, encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny. A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle perguntou-lhe: --Como está sua mãe, José? O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu: --Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal. --Hoje não sabe?!--exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do corredor, que marcava onze horas e meia--Não sabe, e é perto de meio dia! --Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde... --Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!... Sabe lá a falta que lhe estará fazendo? --Mas, se... --Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá. --Então muito agradecido, minha senhora,--disse o rapaz, sensibilisado com a bondade da sua joven ama. Jenny continuou passeiando. Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado. O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo. --Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?--perguntou ella a um criado, com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor. --Varreram, sim, minha senhora--respondeu este. --Repare--acrescentou Jenny.--A fallar verdade são bem pouco cuidadosos. Veja esse corrimão cheio de pó. --É que se tornou a sujar. O vento... --Seria; mas não tira que se limpe outra vez. --De certo; eu vou já. --E olhe--continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o jardim--passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços e dê lustro aos metaes dos fechos. --Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim; depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso--lembrou o criado, como todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos outros do que em cumprir as suas. Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala de jantar. Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha, brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza. Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia. --Pedro--chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira, destinada a Mr. Richard. O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento. --Então onde pôz a mostarda? --Ai! é verdade. O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da cozinha britannica. --Veja como dobrou esse guardanapo. O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada. --Aquelle pão não é o que o pae quer para os _lunchs_. Bem sabe. --Tem razão, minha senhora. O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza. --Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não; chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou. Ficou peior agora. Assim. Ponha o _Times_ ahi ao lado. Está bom. Póde ir. Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo, attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e voltou de novo ao corredor. Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos baixos e maneiras enleiadas. --Que tem, Luiza?--perguntou-lhe Jenny. --Venho dizer adeus a _miss_ Jenny, porque me vou hoje embora. --Como vae embora! Quem a mandou? --Ninguem, mas... --Não está bem? --Se estou, mas... --Então? --A _miss_ Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega? Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á enfermeira?... Quem pensa n'isso? Assim vou eu... e, quando ella se achar melhor, se a _miss_ Jenny me quizer outra vez... --A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora. --Mas... --Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi. --Ó minha senhora... --Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante. --Seja por amor de Deus... --Olhe, Luiza--apressou-se a interrompel-a Jenny--vá ver se me aprompta aquelles punhos que eu lhe disse, vá. --Vou já fazel-o, minha querida senhora--disse a rapariga, a quem palpitava o coração alvoroçado de contentamento. N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza. Vinham do andar superior aquelles gritos. O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a sorrir: --É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente! --Pobre Kate!--murmurou Jenny, suspirando--e subiu com ligeireza as escadas, que conduziam ao mirante. Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora, paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse. --Cães!--bradava ella agora, n'aquelle estranho _imbroglio_ linguistico, impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a seguravam--Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas deixem estar que em vindo Dick... Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me! Dick! Dick!--Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr. Richard.--Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer? Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu... Olha que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios, que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer? Larguem-me! E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no rosto encarquilhado e contrahido. N'isto entrou Jenny no quarto. A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao alcance da mão. Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e aproximou-se d'elle. --Cuidado, _miss_ Jenny!--disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára. --Cautela, menina!--repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos arredores da Maia--Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões. Jenny não as attendeu. Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos, delicadas e debeis. A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador. --Bons dias, Kate--disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto, risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio. Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira. --Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces? A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não desviava de Jenny os olhos espantados. --Não me conheces, ama?--continuou esta, em tom mais affectuoso--Kate, então? Já nem queres conhecer a Jenny? O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo, que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão soltou a faca que ainda segurava. --Eu logo vi que me conhecias--dizia Jenny, afastando-lhe compassivamente os cabellos da fronte enrugada.--E has de estar quieta, não has de? --Sim, sim--dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza. --Sim, sim, _poor thing_; sim--repetia muitas vezes, cingindo-a a cada momento mais a si. --Ai, _miss_ Jenny, _miss_ Jenny!--dizia a despenseira aterrada. Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a saír. A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente Mr. Richard Whitestone. Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava: Dorme, filho, que eu vigio, E emquanto dormes, sorri; Que a tua porção de lagrimas Eu as chorarei por ti. Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do caracter do somno final, que não vem longe. Adormeceu entoando em voz já mal percebida: A tua porção de lagrimas... Eu as chorarei... por ti... Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu. No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto entre as mãos e soluçando. --Que é isso, Manoel? O velho ergueu-se com sobresalto. --Ai, menina Jenny, é que... veja. E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso de porcelana com uma preciosa begonia. --Como foi isto?--perguntou Jenny. --O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e tanto cuidado me recommendou! e vae eu... veja a minha desgraça, logo ao descer a escada escorrego... Valha-me Deus, valha! --Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito... --Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor. Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para apresentar-se diante de Mr. Richard. A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa. --Onde vae, menina?--dizia o jardineiro admirado. Jenny não lhe respondeu. O velho seguiu-a. Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz: --Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque... Ai! Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á entrada da estufa. --Oh!--disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia. --Vêem, vêem!--dizia Jenny, fingindo-se consternada--como Deus me castiga a presumpção! --É verdade--disse Mr. Richard agachado--um vaso tão bonito! Creança! Olhem para esta pobre begonia! Como ficou! --Está vingado, Manoel--continuou Jenny.--Eu a desconfiar de si, e vae... O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde retiral-a a tempo. Era meio dia. --Vamos,--disse Jenny a Mr. Whitestone--perdôe-me a culpa e venha ao seu _lunch_. Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando, a sorrir: --Estouvada! buliçosa! No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra, que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto. --Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra... --Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram. --Agora não, que são horas do seu _lunch_. Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos preparativos d'esta refeição matinal. V UMA MANHÃ DE MR. RICHARD Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida domestica. Logo pela manhã, depois de uma leitura de _Biblia_ e de uma revista á preciosa collecção de aves e de insectos de Inglaterra, que possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie, e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das bellezas matutinas e a exercer a sua paixão florista, cavando, mondando, semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupação matinal de Mr. Richard, forçoso é confessal-o, não era demasiadamente favoravel ao horto, para com o qual elle tinha aliás as melhores intenções d'este mundo. Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros de botanica e de horticultura desde a _Flora Londinensis_ de Curtis e as obras completas de Lindley, até ás publicações periodicas das varias sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel, ensaiava ás vezes processos, não referidos nos manuaes de jardinagem, com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisição, por todo o preço, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente no _Covent-Garden market_ e no _Pantheon de Oxford Street_. A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da arte do velho commerciante. Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era exclusivo nas affeições floristas. A uma unica planta dedicava, em cada época do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram as begonias as suas predilectas. Ia um destroço n'ellas, occasionado por tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devéras affeiçoado ás plantas. Mr. Whitestone ensaiára nas pobres uma especie de rega, á qual grande numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composição indigesta, e em que elle procurára reunir todos os elementos, que julgára mais proprios para lhes desenvolver a vegetação. --Isso queima-lhe as folhinhas!--aventurára-se a dizer Manoel, vendo Mr. Richard a temperar aquella caldeirada. --Cala a bôca, tolo. Verás como ficarão viçosas. Á vista do resultado, Mr. Richard teve porém de abandonar o processo, mas sem se dar por vencido. --É que estes vasos são pouco porosos... Hei de mandar vir de Londres uns. Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situações apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era. N'estes entretenimentos levava pois o tempo até á hora do _lunch_. Voltava então a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer refeição d'estas. O mercado do Porto a custo póde satisfazer as exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O _roast-beef_ á ingleza, ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de consistencia pastosa forneciam tambem estes _lunchs_, accommodados á robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto seculo da era christã eram antropophagos--segundo affirma o auctor da _Viagem de Jersey a Gran-ville_. Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr. Richard gostava de ver o filho junto de si, em tão solemnes momentos, comquanto não trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o _Times_ e acompanhar o acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro prato. Porisso a ausencia de Carlos n'esta manhã cavou-lhe uma ruga de descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre dentes vinha trauteando ao entrar na sala. Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria em Londres a multidão ávida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar as proprias composições, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas, nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na America do Norte, lê-se em noticias d'essa época, repetiam-se as composições d'este musico notavel, cujo caracter nacional se aperfeiçoara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso, diz-se, o cunho da originalidade. De entre a collecção de melodias, ou cantos populares, publicadas n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroço pelos amadores nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala. Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez, para justificar de sobra esta preferencia. É um canto de animação aos numerosos bandos de emigrados, que de todos os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares, á procura da riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do berço natal, que todavia amam com fervor. Se é licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da sociedade actual para conquistar a riqueza, póde ainda incidir um raio d'aquelle esplendor épico, de que se illuminam os trabalhos analogos do mythologico Jason, de certo os inglezes são os heroes d'essas epopeias modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi com fanatismo--a patria e a familia--, aquella coragem estoica, que os alenta nos revézes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita os somnos perigosos, dão a esses argonautas do commercio um prestigio respeitavel, que certas ridiculas exterioridades não podem suffocar. Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos aqui a traducção dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles afinado pelo sentir do honrado negociante. Era esta mesma canção a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia, durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular, milhares de espectadores cantavam unisonos: _Cheer, boys!, cheer..._ que são as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim: «Eia! rapazes, eia! Longe de nós a ociosa tristeza. Almas varonis, a coragem nos alentará no caminho! A esperança impelle-nos para diante, e mostra-nos um esplendido ámanhã; esqueçamos portanto a escuridade de hoje. Adeus, pois, ó Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como nós te amem. Nós enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois, adeus, Inglaterra! adeus para sempre. Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!--Eia, rapazes! a vontade forte imprime vigor ao braço. Eia! a riqueza recompensa o trabalho honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz! Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a recompensal-as; além a abundancia sorrirá ás nossas penas; e nossas serão as planicies e as florestas, e o grão dourado amadurecerá para nós em campos sem limites.» Foi pois a musica correspondente a esta canção que Mr. Richard interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher estava preparada a mesa. --Carlos está ainda na cama?--disse, voltando-se para Jenny e n'um tom, em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor. Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e até segundo as regras de uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu. Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmão junto de Mr. Richard, que, já bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de indolencia filial. Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concessões, tratava sempre como inimigo. Á interrogação paterna, Jenny respondeu: --Ainda. --Ho!--acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural interjeição de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume. Jenny acrescentou: --Charles teve de se recolher hontem mais tarde... --Escolheu bem o dia. --Não se lembrava... --Exquisito! --Creia que se não esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho, do anniversario do pae. Mr. Richard sentou-se e pôz-se a ler o _Times_. Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa. --E, como se deitou tarde--proseguiu ella, passado tempo--e eu receei que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o não chamassem. --Então veio muito tarde? --Julgo que ... ás duas horas...--balbuciou Jenny. O criado, que começára a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio corrigindo: --Perdão, miss Jenny, passava já das quatro. --Ho!--repetiu Mr. Richard. Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a inconveniencia da correcção. --Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos...--disse ella--e só soube o dia que era, quando já não ia a tempo de recusar. Mr. Richard não precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas censuras. Tinha já perdido o habito de discordar da filha. Porisso só respondeu, lendo o _Times_: --Sim, sim. Está bom. O mal d'essas extravagancias é d'elle e porisso... N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos cães felpudos, pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos exterminadores d'esta raça perseguida. --_O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?_--exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão predilecto, que lhe estendeu a pata como para um _shake-hand_. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de fiambre, o que o inglez não indeferiu. O pequeno quadrupede sentou-se então com familiaridade na cadeira devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justiça ás sobras do _lunch_, que lhe cabiam em partilha. Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a particularidades, futeis de mais para merecerem a observação do criado ou de outrem, que não fosse uma filha. N'uma d'estas occasiões, Mr. Richard, como se não tivesse perdido ainda o fio da conversa anterior, disse a meia voz: --É que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e ... é feio isso. Jenny não respondeu. Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o mesmo pensamento occupára o espirito de ambos. Receio que os redactores do _Times_ não tivessem d'esta vez conseguido captivar a attenção do seu leitor. Levantou-se por fim o inglez. Lavando as mãos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do jardim, murmurava ainda: --Parece mal. É mau costume. E saíu da sala para o gabinete. Jenny acompanhou-o. --E demais nem tanto custa--dizia elle ainda, pelo caminho. Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mãos de Jenny o chapéo e a bengala, continuou no mesmo tom: --Dá logar a que se diga ... a que se repare... Calçando as luvas de pellica côr de canna, por uma exquisitice patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda: --Não sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio. E, passado um momento: --É feio, é feio. Parecia emfim disposto a saír, mas Jenny, costumada a observal-o, descobria-lhe certa hesitação, como se se travasse n'elle uma lucta entre duas resoluções encontradas. --Até logo, Jenny--dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir. --Não sei o que me esquece!--murmurou depois com manifesta perplexidade. Jenny correu os olhos pelo quarto. --O lenço?--perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador. --Ah! o lenço, sim ... o lenço... Era evidente que não estava satisfeito ainda. --Agora ... não me falta nada; adeus. Jenny julgou que d'esta vez sempre saíria. --Ah! sim--continuava elle, parando novamente. Jenny fitou-o com olhar interrogativo. --Não sei o que... Ah!... Então... então Carlos... não se levanta esta manhã? --Se quer que o chame? --Não, não... É que... E depois, interrompendo-se: --Não é nada. --Deseja que lhe dê algumas ordens? --Não... mas... Emfim, o que é tem tempo. --Mas diga; Charles não deve tardar a erguer-se... --É que... E Mr. Richard, com certo modo embaraçado, aproximou-se da secretária, abriu-a e tirou de lá um magnifico relogio e corrente, de construcção ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para presentear o filho no dia dos annos d'elle. A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso intento. Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeição resistido inteira ao delicto filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para reprimir as expansões d'ella. --Ahi está--dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido tirar ás palavras a menor sombra de affecto.--Se quizeres, pódes dar isso a teu irmão. Para elle é que eu o destinava, se hontem... Jenny tomou o relogio das mãos do pae, a quem agradeceu com um sorriso de ternura. Mr. Richard proseguiu: --Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço... --O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor. Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de inveterado scepticismo, que não lhe saíu muito expressivo. Jenny acrescentou: --E de mais preço ainda, se das suas proprias mãos o recebesse. --Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de me aceitar as minhas prendas?--perguntou o pae com certo azedume. --Mas se... logo ao jantar... --Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia. --Oh! se Carlos soubesse... --Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres. E, dizendo isto, saíu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco tempo transpunha o portão da rua. O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda: --Parece muito mal. Mas, chegando á rua, já ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao favorito _Butterfly_ phrases de cordial affecto e trauteava por entre dentes o popular--_Cheer, boys, cheer!,..._ VI AO DESPERTAR DE CARLOS Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o pensamento porém não acompanhava o olhar. Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a dissimulal-as. Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico. Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre Carlos tambem. E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria debalde. Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella preoccupação. Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o irmão. André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já ao collo os dois filhos do inglez. --Vá,--disse Jenny--diga a Charles que eu o espero na bibliotheca. Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno, livre de pesadelos e de sonhos importunos. O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução, bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que entreabriu. Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo tapete. Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala. Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do _Genesis_, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo. A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção. Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite, entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia, deslocados da natural situação. As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de cidade conquistada. Nas mesas, nos sofás, em _voltaires_, no chão, por toda a parte emfim, menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas, calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis; alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos, retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim; pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata, transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi debaixo da cama. Um _abat-jour_ de cartão envernizado com figuras extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile; defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos combates dos anjos e demonios, o sublime Milton. Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza, obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha mascarada. No meio de toda esta confusão, um enorme _terra-nova_, de ventas leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado. Imagine-se o resto. André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a acordal-o de dormir tão tranquillo. Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições, paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a crença dos seus biographos. André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem desejava não ser escutado. --Snr. Carlos--disse elle. Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra para o despertar. Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal distincta: --Bons dias, André. Que horas são? --Meio dia. Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso. --_Save us!_--exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas. --Pois não me parecia--continuou Carlos, ao acabar de contal-as.--Ia até estranhar-te a madrugada, sabes tu? E... e... o pae? --Saíu já. --E... e que disse? André encolheu os hombros, respondendo: --Nada. Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera. Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada. --Toca a pôr a pé, que são horas!--dizia o André, occupando-se a levantar alguns dos objectos que via pelo chão. --Deshumano, cruel, que me recordas?--respondeu-lhe Carlos em tom de recitação tragica. --Vamos, vamos, preguiçoso. Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal _terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas linhas distrahido. --Então?--insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se--Fica ahi? --Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem. --Então quer almoçar aqui? --E julgo que é uma resolução muito louvavel. --Mas... --Mas o quê?... Que objecções lhe pões? Falla. --É que miss Jenny espera-o na bibliotheca. Carlos de um salto sentou-se na cama. --Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa--chega-me d'ahi esse robe-de-chambre.--Isso não... não vês que é um dominó?... Anda... avia-te... Aquelle lenço... O outro... Bem... Vae... Dize a Jenny que n'um momento estou com ella. E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro _toilette_ de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava. Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras, objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr. Richard Whitestone. --Bom dia, Charles--disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou affectuosamente. --Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube dizer-me logo que tu... --Desculpa mandar-te acordar, mas... --Fizeste bem; senão, dormiria até á noite. --Vieste hontem muito tarde, Charles--disse Jenny, abaixando-se disfarçadamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitára aos pés. --Pois ouviste-me? --Ouvi. --Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém... sempre sou um desastrado! --Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda. --Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny? --Não, mas... Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos. --Querem ver que foi por minha causa?... Então que te tenho eu dito, Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a ponto de... --Não, não foi por canceira, é que... --É que tu és uma teimosa e o que merecias... --Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo? --Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois... depois verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de... Tens-te enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena? --Ora, não fallo por mim; mas... é que... isso faz-te doente por certo, Charles. Esses jantares tão longos... Essas noites tão mal dormidas... --A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso... --E depois... Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos comnosco, á noite... Não é por mim que fallo, repito; mas o pae... bem sabes, antigos habitos... gosta de nos ver reunidos todos... a certas horas. Coitado! Não digo sempre, mas... ás vezes, de quando em quando, se te não custasse... --Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto... prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou aquelle bom Thomson nas suas _Estações_, são tão longas para se passarem em casa! --As de estio... depois... já sei... has de achal-as tão formosas que... --Não--replicou Carlos, sorrindo;--então depois de eu te prometter havia de... Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por que o pae costuma passar aqui as suas _soirées_. Aquelle eterno _Times_, aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_ é um livro que respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne já o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o não tivesse ainda lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar, mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno... a fallar verdade! --Charles!--disse Jenny, em tom reprehensivo. --E para cumulo dos males--proseguiu Carlos--estar sempre debaixo da permanente ameaça de uma visita do _spleen_ de Mr. Morlays ou da, não menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito, inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos». Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe: --Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!... no dia dos teus annos!... --Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita. Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento! --Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes queres dar o prazer de t'o affirmarem? --Daria se... se me lembrasse. --O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este relogio--disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr. Richard. --Devéras?! Pois elle... Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae no coração, não é assim? --Sei, Charles, sei. --Mas os outros... --Todos te fazem justiça, só tu é que... --Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar; acabando elle ... penitenciar-me-hei na quaresma. --O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para assim te attrahirem, Charles! --Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas... Tu não pódes talvez entender isto, que não obstante é exacto... são insipidos, mas irresistiveis ao mesmo tempo. --Ora! --Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo, Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.--Não é assim que diz o Milton?--E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me a expatriação. Vês? --Estás a gracejar, Charles? --Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se... --E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da manhã? --Hoje? Ah, mas... perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo confessal-o. --Então? --Então... é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me escutar e prometteres não me ralhar muito... --Ah! pois temos culpas? --Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que procedesse bem. Mas tu o dirás. Jenny sorriu. --Ouçamos--disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de trazer para a sala. VI REVISTA DA NOITE --Como te disse, Jenny,--principiou Carlos, procedendo áquelle extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e importante tarefa da digestão do jantar--hontem correu-me a noite mais agradavel que de costume. --Sim? Então que te succedeu? --Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar, ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso; atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e d'aquelle ruído todo... --E pezaroso... --Com os remorsos que a tua carta me veio despertar. --Ah!... remorsos?!... --Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras, gritos de condemnados as desafinações da orchestra... --E ficaste? --E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar. --Continúa--disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras inglezas, que estava na mesa.--Mas é devéras estranha essa maneira de te divertires... martyrisando-te. --É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o. --Bem; vamos adiante--replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras douradas da brochura. Carlos proseguiu: --Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem a sorte me arrojára. Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular. --Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta bemaventurança e voltei-os... --Para o lado esquerdo? --Justamente; para o lado esquerdo. --E... e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?--perguntou Jenny, sorrindo. --Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões. --Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é devéras uma paixão? --Receio que sim. --Pobre Charles! Que fatalidade! --Estás a rir?--disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena para a encher outra vez--Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma maneira ... como nem te sei dizer... e com uns olhos... mal sabes que bonitos olhos eram aquelles, Jenny! --Os da mascara?--perguntou Jenny, preparando a chavena. --Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude desviar mais d'alli o olhar extasiado, e... e... Então que quer dizer agora esse teu sorriso, Jenny? --Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias. --É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um pouco, o preciso... o conveniente... Porque na maior parte dos rostos ha pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço... --Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que conheces, visto que ainda hontem... --Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica, cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não podéra occultar... --Ah! Que singular cabeça! --E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a palavra! --A quem dir