Project Gutenberg's Lendas e Narrativas (Tomo II), by Alexandre Herculano This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Lendas e Narrativas (Tomo II) Author: Alexandre Herculano Release Date: November 4, 2005 [EBook #17005] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS E NARRATIVAS (TOMO II) *** Produced by João Miguel Neves and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net. (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) LENDAS E NARRATIVAS (Tomo II) A DAMA-PÉ-DE-CABRA RIMANCE DE UM JOGRAL SECULO XI TROVA PRIMEIRA. 1 Vós os que não crêdes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas tropelias de Satanás, assentae-vos aqui ao lar, bem junctos ao pé de mim, e contar-vos-hei a historia de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia. E não me digam no fim:--"não póde ser."--Pois eu sei cá inventar cousas destas? Se a conto é porque a li n'um livro muito velho, quasi tão velho como o nosso Portugal. E o auctor do livro velho leu-a algures, ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares. É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague. Juro-vos que se me negaes esta certissima historia sois dez vezes mais descridos do que S. Thomé antes de ser grande sancto. E não sei se eu estarei de animo de perdoar-vos, como Cbristo lhe perdoou. Silencio profundissimo; porque vou principiar. 2 D. Diogo Lopes era um infatigavel monteiro: neves da serra no inverno, soes dos estevaes no verão, noites e madrugadas, d'isso se ria elle. Pela manhan cedo de um dia sereno estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco montez, que, batido pelos caçadores, devia saír naquella assomada. Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar. Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ella estava assentada uma formosa dama; era a dama quem cantava. O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco. "Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me captivastes?" "Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu, senhor de Biscaia." "Se já sabeis quem eu seja, offereço-vos a minha mão, e com ella as minhas terras e vassallos." "Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavalleiro que és. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos são elles para te baterem a caça." "Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de vós e de mim; que se a vossa belleza é divina, eu sou em toda a Hespanha o rico homem mais abastado?" "Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitára em arrhas cousa é de pouca valia; mas apesar d'isso não creio que m'o concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia." "E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia qualquer dos seus muitos legados?" "Então se queres ver-me sempre ao pé de ti não jures que farás o que dizes, mas dá-me d'isso a tua palavra." "A la fé de cavalleiro, não darei uma, darei milhentas palavras." "Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando para morrer ainda te recordava." "De quê, de quê, donzella?"--acudiu o cavalleiro com os olhos faiscantes.--"De nunca dar treguas á mourisma, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom christão. Guai de ti e de mim se és dessa raça damnada!" "Não é isso, dom cavalleiro,"--interrompeu a donzella a rir.--"O de que eu quero que te esqueças é do signal da cruz: o que eu quero que me promettas é que nunca mais has-de persignar-te." "Isso é outra cousa:"--replicou D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdêra o caminho do céu. E poz-se um pouco a scismar. E scismando dizia comsigo:--"De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeças de agarenos valem bem um grosso peccado." E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou:--"Seja assim: está dicto. Vá, com seiscentos diabos." E levando a bella dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado. Só quando á noite no seu castello pôde considerar miudamente as fórmas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra. 3 Dirá agora alguem:--"Era por certo o demonio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria!"--Pois sabei que não ía nada. Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo ambos de seu pae. Um dia pela tarde D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo á casa onde comia, para se regalar de ver a excellente prêa que havia preado. Seu filho assentou-se ao pé delle: ao pé da mãe D. Sol; e começaram alegremente seu jantar. "Boa montaria, D. Diogo,"--dizia sua mulher.--"Foi uma boa e limpa caçada." "Pelas tripas de Judas!"--respondeu o barão.--"Que ha bem cinco annos não colho urso ou porco montez que este valha!" Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado, virou-o de golpe á saude de todos os ricos homens fragueiros e monteadores. E a comer e a beber durou até a noite o jantar. 4 Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a que muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono, e até com os servos de casa. A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e della não menos presada. O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados, como quem dormitava. A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pello liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado. O barão, depois da saude _urbi et orbi_ feita aos monteiros, esgotava um kirie comprido de saudes particulares, e a cada nome uma taça. Estava como cumpria a um rico-homem illustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo senão dormir, beber, comer e caçar. E o alão cabeceava como um abbade velho em seu côro, e a podenga saltava. O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula, e atirando-a ao alão gritou-lhe:--"Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar." O canzarrão abriu os olhos, rosnou, poz a pata sobre o osso, e abrindo a bôca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado. Mas logo soltou um uivo, e cahiu, perneando meio-morto: a podenga de um pulo lhe saltára á garganta, e o alão agonisava. "Pelas barbas de D. From, meu bisavô!"--exclamou D. Diogo, pondo-se em pé tremulo de colera e de vinho.--"A perra maldicta matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorcha-la." E virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do nobre animal, que espirava. "A la fé que nunca tal vi! Virgem bemdicta! Aqui anda cousa de Belzebuth."--E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se. "Ui!"--gritou sua mulher como se a houveram queimado. O barão olhou para ella: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras, a bôca torcida e os cabellos eriçados: E ía-se alevantando, alevantando ao ar com a pobre D. Sol sobraçada debaixo do braço esquerdo: o direito estendia-o por cima da mesa para seu filho D. Inigo de Biscaia. E aquelle braço crescia alongando-se para o mesquinho, que de medo não ousava bolir nem falar. E a mão da dama era preta e luzidia como o pello da podenga, e as unhas tinham-se-lhe estendido bom meio palmo, e recurvado em garras. "Jesus, sancto nome de Deus!"--bradou D. Diogo, a quem o terror dissipára as fumaças do vinho. E travando de seu filho com a esquerda, fez no ar com a direita uma e outra vez o signal da cruz. E sua mulher deu um grande gemido, e largou o braço de Inigo Guerra, que já tinha seguro, e continuando a subir ao alto, saiu por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava. Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha. A podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguem no castello lhe tornou a pôr a vista em cima. D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrído, porque já não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer sua tristura, e em vez de ir á caça dos cerdos, ursos e zevras, sair á caça de mouros. Mandou, pois, levantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira, e provar seus arnezes. Entregou a Inigo Guerra, que já era mancebo e cavalleiro, o governo de seus castellos, e partiu com lustrosa mesnada de homens d'armas para a hoste d'el rei Ramiro, que ía em arrancada contra a mourisma de Hespanha. Por muito tempo não houve delle, em Biscaia, nem novas nem mensageiros. * * * * * TROVA SEGUNDA. 1 Era um dia ao anoitecer: D. Inigo estava á mesa, mas não podia ceiar, que grandes desmaios lhe vinham ao coração. Um pagem muito mimoso e privado, que em pé diante delle esperava seu mandar, disse então para D. Inigo:--"Senhor, porque não comeis?" "Que hei-de eu comer, Brearte, se meu senhor D. Diogo está captivo de mouros, segundo resam as cartas que ora delle são vindas?" "Mas seu resgate não é a vossa mofina: dez mil peões e mil cavalleiros tendes na mesnada de Biscaia: vamos correr terras dos mouros: serão os captivos resgate de vosso pae." "O perro d'elrei de Leão fez sua paz com os cães de Toledo: e são elles que tem preado meu pae. Os alcaides e potestades do rei tredo e vil não deixariam passar a boa hoste de Biscaia." "Quereis vós, senhor, um conselho, e não vos custará nem mealha?" "Dize, dize lá, Brearte." "Porque não ides á serra procurar vossa mãe? Segundo ouço contar aos velhos ella é grande fada." "Que dizes tu, Brearte? Sabes quem é minha mãe, e que casta é de fada?" "Grandes historias tenho ouvido do que se passou certa noite n'este castello: ereis vós pequenino, e eu ainda não era nado. Os porquês d'estas historias, isso Deus é que o sabe." "Pois dir-t'os-hei eu agora. Chega-te para cá, Brearte." O pagem olhou de roda de si quasi sem o querer, e chegou-se para seu amo: era a obediencia, e ainda mais um certo arripio de medo, que o fazia chegar. "Vês tu, Brearte, aquella fresta entaipada? Foi por alli que minha mãe fugiu. Como e porquê, aposto que já t'o hão contado?" "Senhor, sim! Levou vossa irman comsigo..." "Responder só ao que pergunto! Sei isso. Agora cal-te." O pagem poz os olhos no chão, de vergonha; que era humildoso e de boa raça. 2 E o cavalleiro começou o seu narrar: "Desde aquelle dia maldicto meu pae poz-se a scismar: e scismava e amesquinhava-se, perguntando a todos os monteiros velhos se porventura tinham lembrança de haverem no seu tempo encontrado nas brenhas alguns medos ou feiticeiras. Aqui foi um não acabar de historias de bruxas e de almas penadas. Havia muitos annos que meu senhor pae se não confessava: alguns havia tambem que estava viuvo sem ter enviuvado. Certo domingo pela manhan nasceu o dia, alegre como se fôra de paschoa; e meu senhor D. Diogo acordou carrancudo e triste como costumava. Os sinos do mosteiro, lá em baixo no valle, tangiam tão lindamente que era um céu aberto. Elle poz-se a ouvi-los, e sentiu uma saudade que o fez chorar. "Irei ter com o abbade:"--disse elle lá comsigo:--"quero-me confessar. Quem sabe se esta tristura ainda é tentação de Satanás?" O abbade era um velhinho, sancto, sancto, que não o havia mais. Foi a elle que se confessou meu pae. Depois de dizer _mea culpa_, contou-lhe ponto por ponto a historia do seu noivado. "Ui! filho,"--bradou o frade--"fizeste maridança com uma alma penada!" "Alma penada, não sei:"--tornou D. Diogo;--"mas era cousa do diabo." "Era alma em pena: digo-t'o eu, filho:"--replicou o abbade.--"Sei a historia dessa mulher das serras. Está escripta ha mais de cem annos na ultima folha de um sanctoral godo do nosso mosteiro. Desmaios que te vem ao coração pouco me espantam. Mais que ancias e desmaios costumam roer lá por dentro os pobres excommungados." "Então estou eu excommungado?" "Dos pés até á cabeça; por dentro e por fóra; que não ha que dizer mais nada." E meu pae, a primeira vez na sua vida, chorava pelas barbas abaixo. O bom do abbade amimou-o como a uma creança, consolou-o como a um malaventurado. Depois poz-se a contar a historia da dama das penhas, que é minha mãe ... Deus me salve! E deu-lhe por penitencia ir guerrear os perros sarracenos por tantos annos quantos vivêra em peccado, matando tantos delles quantos dias nesses annos tinham corrido. Na conta não entravam as sextas-feiras, dia da paixão de Christo, em que seria irreverência trosquiar a vil relé de agarenos, cousa neste mundo mui indecente e escusada. Ora a historia da formosa dama das serras, de verbo ad verbum como estava na folha branca do sanctoral, resava assim, segundo lembranças do abbade. 3 No tempo dos reis godos--bom tempo era esse!--havia em Biscaia um conde, senhor de um castello posto em montanha fragosa, cercado pelas encostas e quebradas de larguissimo soveral. No soveral havia todo o genero de caça, e Argimiro o Negro (assim se chamava o rico-homem) gostava, como todos os nobres barões de Hespanha, principalmente de tres cousas boas; da guerra, do vinho e das damas; mas ainda mais do que de tudo isso, gostava de montear. Dama, possuia-a formosa, que era linda a condessa; vinho, não havia melhor adega que a sua; caça, era cousa que na selva não faltava. Seu pae, que fôra caçador e fragueiro, quando estava para morrer, chamou-o e disse-lhe:--"Has-de jurar-me uma cousa que não te custará nada." Argimiro jurou que faria o que seu pae e senhor lhe ordenasse. "É que nunca mates fera em cama e com cria, seja urso, javalí, ou veado. Se assim o fizeres, Argimiro, nunca nas tuas selvas e devezas faltará em que exercites o mais nobre mister de um fidalgo. Além d'isso, se tu souberas o que um dia me aconteceu... Escuta-me, que é um horrendo caso...." O velho não pôde acabar; porque a morte lhe cravou n'este momento as garras. Murmurou algumas palavras inintelligiveis: revirou os olhos, e feneceu. Deus seja com a sua alma! Tinham passado annos: certo dia chegou ao castello do conde um mensageiro d'elrei Wamba. Chamava-o elrei a Toledo para o acompanhar com sua mesnada contra o rebelde Paulo. Os outros nobres-homens das cercanias eram como elle chamados. Antes, porém, de partirem junctaram-se todos no castello de Argimiro para fazerem uma grande montaria com mais de cem alãos, sabujos, e lebreus, cincoenta monteiros, e moços de bésta sem conto. Era uma vistosa caçada. Saíram no quarto d'alva: correram valles e montes; bateram bosques e matos. Era, comtudo, meio dia e ainda não haviam alevantado porco, urso, zebra ou veado. Blasphemavam de sanha os cavalleiros, praguejavam, e depennavam as barbas. Argimiro, que por longa experiencia conhecia os sitios mais profundos da espessura, sentiu lá por dentro uma tentação do diabo. "Os meus hospedes, pensava elle, não partirão sem beberem alguns cangirões de vinho sobre uma ou duas peças de caça. Juro-o por alma de meu pae." E seguido de alguns monteiros com suas trélas de cães, affastou-se da companhia, e deu a andar, a andar, até que se lançou por um valle abaixo. O valle era escuro e triste: corria pelo meio uma ribeira fria e malassombrada. As bordas da ribeira eram penhascosas e faziam muitas quebradas. Argimiro chegou á primeira volta do rio: parou, poz-se a olhar de roda, e achou o que procurava. Abria-se uma caverna na encosta fragosa, que descia até a estreita senda da margem por onde o cavalleiro caminhava. Argimiro entrou na bôca da cova, e a um acêno entraram após elle monteiros, moços de bésta, alãos, sabujos e lebreus, fazendo grande matinada. Era o covil de um onagro: a fera deu um gemido, e deixando as suas crias, estendeu-se no chão, e abaixou a cabeça como quem supplicava. "A ella!"--gritou Argimiro; mas gritou voltando a cara. A matilha saltou no pobre animal; que soltou outro gemido, e cahiu todo ensanguentado. Uma voz soou então nos ouvidos do conde, e dizia:--"Orphãos ficaram os cachorrinhos do onagro: mas pelo onagro tu ficarás deshonrado." "Quem ousa aqui falar agouros?"--gritou o rico-homem, olhando iroso para os monteiros. Todos guardavam silencio: mas todos estavam pallidos. Argimiro pensou um momento: depois saindo da cova, murmurou:--"Vá com mil Satanases!" E com alegres toques de buzina e latidos da matilha fez conduzir ao castello a prêa que tinha preado.[1] E tomando o seu girifalte prima em punho, ordenou aos monteiros fossem dizer aos nobres caçadores, que dentro de duas horas voltassem, porque achariam em seu paço comida bem aparelhada. Depois, seguido dos falcoeiros, começou a encaminhar-se para o solar, lançando nebris e falcões, e ajuntando caça de volateria, que a havia por aquelles montes mui basta. 4 Dobrava a campa da torre de menagem no castello do conde Argimiro: dobrava pela linda condessa, que seu nobre marido havia matado. Andas cubertas de dó a levam a enterrar ao mosteiro vizinho: os frades vão atraz das andas cantando as orações dos finados: após os frades vae o rico-homem vestido de grossa estamenha, cingido com uma corda, e rasgando pelas sarças e pedras os pés que leva descalços. Porque matou elle sua mulher, e porque ía elle descalço? Eis o que a esse respeito refere a lenda escripta na folha branca do sanctoral. 5 Dous annos duraram guerras d'elrei Wamba: foram guerras mui de contar. E por lá andou o rico-bomem com seus bucellarios, que assim se diziam então acostados e homens d'armas. Fez estrondosas façanhas e cavallarias; mas voltou cuberto de cicatrizes, deixando por campos de batalha gasta e consumida a sua valente mesnada. E atravessando de Toledo para Biscaia seguia-o apenas um velho escudeiro. Velho e cheio de cans e rugas tambem elle era, não de annos, mas de penas e de trabalhos. Caminhava triste e feroz no aspecto; porque do seu castello lhe eram vindas novas d'entristecer e raivar. E cavalgando noite e dia por montes e charnecas, por bosques e por jardías, imaginava no modo por que descobriria se eram falsas ou verdadeiras essas novas de mau peccado. 6 No solar do conde Argimiro, um anno depois da sua partida, ainda tudo dava mostras da magua e saudade da condessa: as salas estavam forradas de negro; de negro eram os trajos della; nos pateos interiores dos paços crescêra a herva, de modo que se podia ceifar: as reixas e as gelosias das janellas não se haviam tornado a abrir: descantes dos servos e servas, sons de psalterios e harpas tinham deixado de soar. Mas ao cabo do segundo anno tudo apparecia mudado: as colgaduras eram de prata e matiz; brancos e vermelhos os trajos da bella condessa; pelas janellas do paço restrugia o ruído da musica e dos saraus; e o solar de Argimiro estava por dentro e por fóra alindado. Um antigo villico do nobre conde fôra quem destas mudanças o avisára. Doíam-lhe tantos folgares e contentamentos; doía-lhe a honra de seu senhor, pelo que elle via e pelo que se murmurava. Eis-aqui como se passára o caso: 7 Longe do condado do illustre barão Argimiro o Negro, para as bandas de Galliza, vivia um nobre gardingo--como quem dissesse infanção--gentil homem e mancebo, chamado Astrigildo o Alvo. Contava vinte e cinco annos; os sonhos das suas noites eram de formosas damas; eram de amores e deleites; mas ao romper da manhan todos elles se desfaziam, que ao saír ao campo não via senão pastoras tostadas do sol e das neves, e as servas grosseiras do seu solar. Destas estava elle farto. Mais de cinco tinha enganado com palavras; mais de dez comprado com ouro; mais de outras dez, como nobre e senhor que era, brutamente violado. Com vinte e cinco annos, já no livro da justiça divina se lhe haviam escripto mais de vinte e cinco grandes maldades. Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e valles com a rapidez do vento, montado em onagro silvestre, e que, depois de correr muito, chegava alta noite a um solar, onde pedia agasalho: E que formosa dama o recebia, e que em poucos instantes um do outro se enamorava. Acordou sobresaltado; e durante o dia inteiro não pensou em outra cousa senão na formosa dama que víra nos sonhos da madrugada. Tres noites se repetia o sonho: tres dias o mancebo scismava. Encostado á varanda de um eirado, na tarde do terceiro dia, olhava triste para as montanhas do norte, que via lá no horisonte como nuvens pardacentas. O sol começou a descer no poente, e ainda elle estava embebido em seu melancholico scismar. Por acaso volveu então os olhos para o terreiro que lhe ficava por baixo: um onagro da floresta estava ahi deitado como se fosse manso jumento: era inteiramente semelhante áquelle com que havia sonhado. Sonhos de tres noites a fio não mentem: Astrigildo desceu á pressa ao terreiro: o onagro quieto deixou-se enfrear e selar; e a Deus e á ventura, o mancebo cavalgou nelle e deitou pela encosta abaixo. Cumpria-se tudo á risca: o onagro não corria, voava. Mas o ceu começou de toldar-se com o anoitecer: a escuridão cresceu e desfechou em vento, trovões, chuva e raios. O mancebo começava a perder o tino, e o onagro dobrava a carreira, e bufava violentamente. Parou, emfim, a horas mortas. Sem saber como, Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastellado. Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trémulo, porque elle tremia de susto e de frio. Apenas cessou de tocar, a ponte levadiça desceu, muitos escudeiros saíram a recebe-lo entre tochas, e as salas dos paços illuminaram-se. Era que tambem a condessa tinha por tres noites sonhado! * * * * * 8 A clepsidra marca a hora de sexta nocturna, e ainda dura o sarau no solar do conde de Biscaia; porque a nobre condessa e o gentil Astrigildo assistem ás danças e jogos dos libertos e servos, que para elles espairecerem folgam lá na sala d'armas. Mas n'um aposento baixo do solar um homem está em pé com um punhal na mão, olhar furibundo, e o cabello eriçado, parecendo escutar longinqua toada. Outro homem está diante delle dizendo-lhe:--Senhor, ainda não é tempo para punir o grande peccado. Quando elles se recolherem, aquella luz que vêdes acolá ha-de apagar-se: subi então, e achareis desempedido o caminho secreto para a camara, que é a mesma do vosso noivado." E o que falava saiu, e d'ahi a pouco a luz apagou-se, e o homem dos cabellos hirtos e do olhar esgazeado subiu por uma ingreme e tenebrosa escada. * * * * * 9 Quando pela manhan cedo o conde Argimiro do seu balcão principal ordenava que levassem o corpo da condessa a um mosteiro de Donas, que elle fundára para ahi ter seu moimento, elle e os de sua casa, e dizia aos homens de armas que arrastassem o cadaver de Astrigildo, e o despenhassem de um grande barrocal abaixo, viu um onagro silvestre deitado a um canto do pateo. "Um onagro assim manso é cousa que nunca vi:--disse elle ao villico, que estava alli ao pé.--Como veio aqui este onagro?" O villico ía a responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-hia que era o ar que falava. "Foi nelle que veio Astrigildo: será elle que o levará. Por ti ficaram orphãos os filhinhos do onagro, mas por via do onagro ficaste, oh conde, deshonrado. Foste crú com as pobres feras: Deus acaba de vinga-las." "Misericordia!--bradou Argimiro, porque naquelle momento se lembrou da maldicta caçada. Neste momento os homens do conde saíam com o cadaver sangrento do mancebo: o onagro, apenas o viu, saltou como um leão no meio da turba, que fez fugir, e segurando com os dentes o morto, arrastou-o para fóra do castello, e, como se tivesse em si uma legião de demonios, foi precipitar-se com elle do barrocal abaixo. Era por isso que o conde ía cingido de corda e descalço após os frades e a tumba. Queria fazer penitencia no mosteiro por haver quebrado o juramento que tinha feito a seu pae. As almas da condessa e do gardingo cahiram de chofre no inferno por terem deixado a vida em adulterio, que é peccado mortal. Desde esse tempo as duas miseraveis almas teem apparecido a muita gente nos desvios da Biscaia: ella vestida de branco e vermelho, assentada nas penhas cantando lindas toadas: elle retouçando ahi perto, na figura de um onagro. Tal foi a historia que o velho abbade contou a meu pae, e que elle me relatou a mim antes de ír cumprir sua penitencia nessa guerra de mouros que lhe foi tão fatal." Assim concluiu Inigo Guerra. Brearte, o pagem Brearte, sentia os cabellos arripiarem-se-lhe. Por largo tempo ficou immovel defronte de seu senhor: ambos elles em silencio. O moço rico-homem não podia engulir bocado. Tirou por fim da escarcela a carta de D. Diogo para a tornar a ler. As miserias e lastimas que ahi recontava eram taes, que D. Inigo sentiu o pranto gotejar-lhe abundante pelas faces abaixo. Então ergueu-se da mesa para se ír deitar. Nem o barão nem o pagem pregaram olho toda a noite; este de medroso, aquelle de desconsolado. E nos ouvidos de Inigo Guerra soavam contínuo as palavras de Brearte:--Porque não ides á serra procurar vossa mãe?--Só por encantamento seria de feito possível tirar das unhas dos mouros o nobre senhor de Biscaia. Rompeu, finalmente, a alvorada. * * * * * TROVA TERCEIRA 1 Mensageiros após mensageiros, cartas sobre cartas são vindos de Toledo a Inigo Guerra. Elrei de Leão resgatava todos os dias seus cavalleiros por cavalleiros mouros; mas não tinha wali ou kaid captivo, que podesse dar em troca por tão nobre senhor como o senhor de Biscaia. E muitos dos redemidos eram das bandas das serras: e estes, trazendo as mensagens, contavam ainda mais lastimas do velho D. Diogo Lopes, do que, se é possível, essas de que resavam as cartas. "Á porta do aguião em Toledo--diziam elles--tem a mourisma um grande campo todo mui bem apalancado: aqui fazem grandes festas, guinolas, e touros nos dias dos seus perros sanctos, segundo lá lhos prégam e determinam khatibs e ulemás. "Gaiolas de bestas-feras muitas ha ahí, cousa mui de vêr e pasmar: os tigres e leões não as rompem; rompê-las mãos de homens, fôra pequice sómente o imagina-lo. "N'uma destas prisões, quasi nú, com adovas de pés e mãos, está o illustre rico-homem, que já foi capitão de grandes e lustrosas mesnadas." "Cortezes costumam ser mouros com seus captivos fidalgos. Fazem esta perraria a D. Diogo Lopes, porque já são passados tres annos, e não ha vêr seu resgate." E os peregrinos que vinham do captiveiro e relatavam taes cousas, bem ceados e agasalhados no castello, iam-se no outro dia com Deus, levando provída a escarcela, e em boa e sancta paz. Quem não ficava em paz era D. Inigo:--"Porque não vaes tu á serra?"--dizia-lhe uma voz ao ouvido.--"Porque não ides procurar vossa mãe?"--repetia-lhe o pagem Brearte. Que lhe havia de fazer? Uma noite inteira levou em claro a pensar nisso. Pela manhan, a Deus e á sorte, ei-lo que emfim se resolve a tentar a aventura, bem que de seu mau grado. Benzeu-se vinte vezes, para não ter lá de persignar-se. Resou o _Pater_, a _Ave_, e o _Credo_; porque não sabia se em breve essas orações seriam cousa de recordar-se. E seguido de um mastim seu predilecto, a pé e com um venábulo na mão, foi-se através das brenhas por uma vereda que dizia para os pincaros tristes e ermos, onde era tradição que a linda dama linha apparecido a seu pae. 2 Trinam os rouxinoes nos balseiros, murmuram ao longe as aguas dos regatos; ramalha a folhagem brandamente com a viração da manhan: vae uma linda madrugada. E Inigo Guerra galga manso e manso os carris empinados, trepa de barrocal em barrocal, e apesar de seu muito esforço, sente bater-lhe o coração com ancia desacostumada. Onde as matas faziam alguma clareira, ou as penhas alguma chapada, D. Inigo parava um pouco tomando o folego, e pondo-se a escutar. Muito havia que andava embrenhado: o sol ía alto, e o dia calmoso: ao canto do rouxinol seguira o piar da cigarra. E encontrou uma fonte que rebentava de rochedo negro, e saltando de aresta em aresta vinha cahir em almacega tosca, onde o sol parecia dançar no bolir das ondasinhas, que fazia o despenho da cascata. D. Inigo assentou-se á sombra da rocha, e tirando a sua monteira matou a sêde que trazia, e poz-se a lavar o rosto e a cabeça do suor e pó, que não lhe faltava. O mastim, depois de beber, deitou-se ao pé delle, e com a lingua pendente arquejava de cansado. De repente o cão poz-se em pé, e arremetteu com um grande ladro. D. Inigo volveu os olhos: um jumento silvestre pascia na orla da clareira juncto de um frondoso carvalho. "Tarik!--gritou o mancebo--Tarik!"--Mas Tarik ía avante e não escutava. "Ai, deixa-o correr, meu filho! Não é para o teu mastim levar a melhor desse onagro." Isto dizia uma voz que, lá em cima no alto da penha, começou de soar. Olhou: linda mulher estava ahi assentada, e com um gesto amoroso e um sorriso d'anjo para elle se inclinava. "Minha mãe! minha mãe!--bradou Inigo Guerra alevantando-se: e lá comsigo dizia: --Vade retro! Sancto Hermenegildo me valha!" E como molhára a cabeça, sentiu que os cabellos se lhe iam alçando de arripiados. "Filho, na bôca palavras dôces; no coração palavras damnadas. Mas que importa, se és meu filho? Dize o que queres de mim, que será tudo feito a teu talante e vontade." O moço cavalleiro nem acertava a falar com medo. Já a este tempo Tarik gemia uivando debaixo dos pés do onagro. "Captivo está de mouros ha annos meu pae D. Diogo Lopes:--disse por fim titubeando.--Quizera me ensinasseis, senhora, o modo como hei-de salva-lo." "Seu mal, tão bem como tu, eu sei. Se podesse ter-lhe-hia accorrido, sem que viesses requere-lo; mas o velho tyranno do ceu quer que elle pene tantos annos quantos viveu com a ... com a que sandeus chamam Dama Pé-de-Cabra." "Não blasphemeis contra Deus, minha mãe, que é enorme culpa:--interrompeu o mancebo cada vez mais horrorisado. "Culpa?! Não ha para mim innocencia nem culpa:--replicou a dama rindo ás gargalhadas. Era um rir de dorminte, triste e medonho. Se o diabo ri, como aquelle deve de ser o rir do diabo. O cavalleiro não pôde dizer mais palavra. "Inigo!--proseguiu ella--falta um anno para cumprir-se o captiveiro do nobre senhor de Biscaia. Um anno passa depressa: mais depressa eu t'o farei passar. Vês tu aquelle valente onagro? Quando uma noite acordando o achares ao pé de ti, manso como um cordeiro, cavalga nelle sem susto, que te levará a Toledo, onde livrarás teu pae.--E bradando accrescentou:--Estás por isto, Pardalo?" O onagro fitou as orelhas, e em signal de approvação começou a azurrar; começou por onde ás vezes academias acabam.[2] Depois a dama poz-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se de um psalterio, de que tirava mui estranhas toadas: Pelo cabo da vassoura, Pela corda da polé, Pela vibora que vê, Pela Sura e pela Toura. Pela vara do condão, Pelo panno da peneira, Pela velha feiticeira, Do finado pela mão, Pelo bode rei da festa, Pelo capo inteiriçado, Pelo infante dessangrado Que a bruxa chupou á sésta; Pelo craneo alvo e lustroso Em que sangue se libou, E do irmão, que irmão matou, Pelo arranco doloroso; Pelo nome de mysterio Que em palavras se não diz Vinde já precitos vis; Vinde ouvir o meu psalterio! E dançae-me aqui na terra Uma dança doudejante, Que entonteça n'um instante O meu filho Inigo Guerra. Que elle durma um anno inteiro, Como em somno de uma hora, Juncto á fonte que alli chora, Sobre a relva deste outeiro. Emquanto a dama cantava estas cantigas, o mancebo sentia um quebramento nos membros que crescia cada vez mais, e que o obrigou a assentar-se. E logo, logo, ouviu-se um ruido abafado como de trovões e de ventanias engolfando-se em covoadas: depois o céu começou de toldar-se, e cada vez era mais cris, até que, emfim, apenas uma luz de crepusculo o allumiava. E a mansa almacega refervia, e os penedos rachavam, e as arvores torciam-se, e os ares sibilavam. E das bolhas da agua da fonte, e das fendas dos rochedos, e d'entre as ramas dos robles, e da vastidão do ar via-se descer, subir, romper, saltar ... o quê?--Cousa muito espantavel. Eram mil e mil braços sem corpos, negros como carvão, tendo nos cotos uma aza, e na mão cada um uma especie de facho. Como a palha que o tufão levanta na eira, aquella multidão de candeias cruzava-se, revolvia-se, unia-se, separava-se, remoinhava, mas sempre com certa cadencia, como que dançando a compasso. A D. Inigo andava a cabeça á roda: as luzes pareciam-lhe azues, verdes, e vermelhas, mas corria-lhe pelos membros uma languidez tão suave, que não teve animo para fazer o signal da cruz, e afugentar aquelle bando de Satanazes. E sentia-se esvaecer, e pouco a pouco adormecia, e d'alli a pouco roncava. Entretanto no castello tinham dado pela sua falta. Esperaram-no até a noite; esperaram-no uma semana, um mez, um anno, e não o viam voltar. O pobre Brearte correu por muito tempo a serra; mas o sitio em que o cavalleiro jazia, isso é que não havia lá chegar. 3 Inigo acordou alta noite: tinha dormido algumas horas; ao menos elle assim o cria. Olhou para o céu, viu estrellas: apalpou ao redor, achou terra: escutou, ouviu ramalhar as arvores. Pouco a pouco é que se foi recordando do que passára com sua malaventurada mãe; porque a principio não se lembrava de nada. Pareceu-lhe então ouvir respirar ali perto: affirmou a vista: era o onagro Pardalo. "Já agora meio enfeitiçado estou eu--pensou elle:--corramos o resto da aventura, a vêr se posso salvar meu pae." E pondo-se em pé encaminhou-se para o valente animal, que já estava enfreado e sellado: cujos eram os arreios, isso sabia-o o diabo. Hesitou, todavia, um momento: tinha seus escrupulos--a boas horas vinham elles--de cavalgar naquelle corredor infernal. Então ouviu nos ares uma voz vibrada, que cantava mui entoado: era a voz da terrivel Dama Pé-de-Cabra: Cavalga, meu cavalleiro, No alentado corredor; Vae salvar o bom senhor; Vae quebrar seu captiveiro. Pardalo, não comerás Nem cevada nem aveia, Não terás jantar nem ceia, Rijo e leve voltarás. Nem açoute nem espora Requer elle, oh cavalleiro! Corre, corre bem ligeiro, Noite e dia a toda a hora. Freio ou sella não lhe tires, Não lhe fales, não o ferres, Na carreira não te aterres, Para traz nunca te vires. Upa! firme!--ávante, ávante! Breve, breve, a bom correr! Um minuto não perder, Bem que o gallo ainda não cante. "Vá!--gritou Inigo Guerra com uma especie de phrenesi, que nelle produzíra aquelle cantar estranho; e d'um pulo cavalgou no quedo onagro. Mas apenas se firmou na sella, pst!--ei-lo que parte! 4 Postoque em paz com os christãos, os mouros de Toledo tem pelas torres, cubelos e adarves seus atalaias e vigias, e nos montes que dizem para a fronteira de Leão seus fachos e almenaras. Mas se o rei leonez soubesse como descuidosa jaz Toledo: como ao anoitecer se deixam dormir vigias, se deixam de accender fachos, quebraria seus juramentos, e faria contra aquellas partes uma repentina arrancada. Salvo ter de ir depois ao seu confessor dizer _confiteor Deo_, e _peccavi_; porque o quebrar juramento, ainda que seja a cães descridos, dizem ser feio peccado. Era a hora do luscofusco: ao sol posto os de Toledo, mirando para a banda do norte, viram lá muito ao longe vir correndo uma nuvem negra, ondeando e fazendo voltas no céu, como a estrada as fazia na terra por entre os montes: dir-se-hia que vinha embriagada. Era primeiro um pontinho; depois crescêra e crescêra: quando anoiteceu estava já perto e cubria um grande espaço. O almuhaden, subindo á torre da mesquita, chamava os crentes de Malamede para a oração da tarde. Mas com a sua voz esganiçada misturou-se o estourar dos trovões: era como um tiple e um baixo. E passou um tufão de vento, que embrenhando-se e remoinhando nas barbas longas e brancas do almuhaden, lhe fustigou com ellas a cara. Começou então a cahir uma corda de chuva, que nem moços nem velhos se lembravam de ter visto cousa semelhante em nenhuma parte. Aqui verieis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres; os roldas e sobre-roldas a fugirem pelos adarves; os facheiros a sumirem-se debaixo das almenaras: os hadjis a acolherem-se ás mesquitas molhados até os ossos; as velhas, que tinham saído ao vozear do almuhaden, levadas pelas torrentes das ruas tortuosas e estreitas, bradando por Mafoma e por Allah. E a agua cahindo cada vez mais! Dous unicos movimentos fazem então os moradores de Toledo: uns fogem, outros agacham-se. E a agua cahindo cada vez mais! O pavor quebra todos os animos: os cacizes esconjuram a procella: os faquires penitentes gritam que se acaba o mundo, e que lhes deixe os seus haveres aquelle que quizer salvar-se. E a agua cahindo cada vez mais! A salvação de Toledo foi não se terem fechado suas portas: se assim não succedesse, dentro do recincto dos muros morria toda a mourisma affogada. 5 Na prisão estava D. Diogo encostado ás grades de ferro. O pobre velho entretinha-se a ouvir aquelle medonho chover; porque a noite era comprida, e elle não tinha que fazer mais nada. Mas como o terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de muros, a chuva não podia escoar-se toda, e vinha crescendo de modo que já elle sentia os pés molhados. E tambem começou a ter medo de morrer, apesar da sua miseria. Bem sabia D. Diogo que a morte é a maior dellas todas; que não era o senhor de Biscaia atheu, philosopho, nem parvo. Mas lá divisa um vulto alvacento, que saltou por cima do palanque; e sente ao mesmo tempo no meio do terreiro--plash!-- E ouviu uma voz que dizia:--Nobre senhor D. Diogo, onde é que vós vos achaes!"-- "Que vejo e ouço?!--exclamou o velho.--Um trajo que não alveja, não é trajo d'ismaelita; uma voz que não fala algaravia, não é d'infiel; um salto de tal altura não é de cavalleiro do mundo. Por vossa fé dizei-me, sois anjo, ou sois Sanctiago?" "Meu pae, meu pae!--acudiu o cavalleiro--já não conheceis a fala de Inigo? Sou eu que venho salvar-vos." E D. Inigo descavalgou, e travando das grossas reixas tentava allui-las: a agua dava-lhe já pelos artelhos, e elle não fazia nada. Cheio de afflicção o mancebo quiz invocar o nome de Jesus; mas lembrou-se de como alli viera, e o bento nome expirou-lhe nos labios. Todavia Pardalo pareceu adivinhar o seu intimo pensamento; porque soltou um gemido agudo e prompto, como se o houvessem tocado com um ferro em braza. E empurrando com a cabeça D. Inigo, voltou a anca para a grade. Pan!--foi o som que se ouviu. Com um só couce a reixa estava no chão, e as hombreiras de pedra tinham voado em mil rachas. Quer m'o creiam quer não, di-lo a historia: eu com isto não perco nem ganho. D. Diogo, esse ficou-o crendo; porque uma lasca de pedra bateu-lhe nos dous ultimos dentes que tinha, e metteu-lh'os pela goela abaixo. Por isso elle com a dôr não podia dizer palavra. Seu filho fê-lo cavalgar ante si, e cavalgando após elle, bradou:--Meu pae, estaes salvo!" E Pardalo de um pulo galgou de novo o palanque. Pois tinha bons quinze palmos! Pela manhan não havia signal de chuva; o ar estava limpo e sereno, e quando os mouros foram vêr o que succedêra a D. Diogo Lopes, não lhe acharam sequer o rasto. 6 D. Inigo e seu pae, o velho senhor de Biscaia, passam as portas de Toledo com a rapidez da frecha: n'um abrir e fechar d'olhos ficam-lhe para traz muros, torres, barbacans e atalaias. A batega vae diminuindo: rasgam-se as nuvens, e vêem-se já reluzir algumas estrellas, que parecem outros tantos olhos com que o céu espreita através do negrume o que se passa cá em baixo. A estrada, pelas descidas e subidas dos recostos, converteu-se em leito de torrente, nos plainos converteu-se em lago. Mas pelos lagos e torrentes o valente onagro rompia ávante, bufando como um damnado. Não subiram bem um monte, já descem pelo outro recosto abaixo; ainda bem não chegaram a uma clareira, já sentem em profunda floresta gotejarem-lhes em cima os ramos agitados das arvores. Pouco mais é de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam o chão estrellado do céu já limpo, semelhantes aos dentes de uma serra gigante capaz de dividir cêrceo o hemispherio austral do hemispherio boreal. E Pardalo investe sempre em galope desfeito com as montanhas disformes, e desce aos valles temerosos, e cada vez mais ligeiro, como o seu nome o indica, parece menos quadrupede que passaro. Mas que ruido é esse que sobreleva ao do vento? Que é isso que, lá ao longe, ora alveja ora reluz nas trevas, como uma alcateia de lobos involtos em sudarios brancos, com os olhos só descobertos, e despregando em fio pelo fundo do valle abaixo? É um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as escamas angulosas de seu dorso eriçado, onde batem e chispam os raios das estrellas em mil reflexos quebrados. Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio.--"Será um marco, uma estatua?"--pensaram os cavalleiros. Pinheiro não póde ser: não consta que em taes sitios nasçam. Pardalo ria-se de rios; pontes, fazia tanto cabedal dellas como de um retraço de palha. Todavia, bem que podesse de um pulo salvar vinte ribeiras como aquella, foi-se direito á ponte; porque não era animal que fizesse africas escusadas. Semelhante a relampago se arrojou o onagro áquelle passo estreito... Mas, tá!... Ei-lo que de repente pára. E tremia como varas verdes, e arquejava com violencia: os dous cavalleiros olharam. O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte: por isso Pardalo emperrava. Então d'entre uns altos choupos, que da margem d'além se meneavam, um pouco mais abaixo daquelle sitio, ouviu-se uma voz fadigosa e trémula que cantava: Para traz, para traz, a galgar. Já! De redor, de redor vem passar Cá! Que não ha nada aqui que te empeça! Buz, Nem palavra, vós dous! Fugi dessa Cruz! "Sancto nome de Christo!"--exclamou D. Diogo benzendo-se ao escutar aquella voz que bem conhecia, mas que depois de tantos annos não esperava alli ouvir, porque seu filho não lhe dissera que meio achára para o salvar. Apenas o grito do velho soou, assim elle como D. Inigo foram bater contra o poyal do cruzeiro, onde ficaram de bruços, involtos em lodo. O onagro ao sacudi-los de si soltára um rugido de besta-fera. Sentiram então um cheiro intoleravel de enxofre e de carvão de pedra inglez, que logo se percebia ser cousa de Satanaz. E ouviram como um trovão subterraneo; e a ponte balançava como se as entranhas da terra se despedaçassem. Apesar do seu grande terror, e de clamar pela Virgem Santissima, D. Inigo abriu um cantinho do olho para vêr o que se passava. Nós os homens costumâmos dizer que as mulheres são curiosas. Nós é que o somos. Mentimos como uns desalmados. Que veria o cavalleiro? Um fojo aberto bem proximo delle sobre a ponte, e que depois rompia pela agua. E depois pelo leito do rio; e depois pela terra dentro, dentro; e depois pelo tecto do inferno, que outra cousa não podia ser um fogo muito vermelho que reverberava daquella profundidade. Tanto era assim, que ainda lá viu passar de relance um demonio com um desconforme espeto nas mãos em que levava um judeu empalado. E Pardalo descia remoinhando por esse boqueirão, como uma penna cahindo em dia sereno do alto de uma torre abaixo. Aquella vista fez perder os sentidos a D. Inigo, que, indo tambem a chamar por Jesus, achou que não podia proferir este nome sagrado. De terror tanto o velho como o moço ficaram alli em desmaio. Quando tornaram a si, com o romper do sol claro, conheceram o sitio em que se achavam. Era a ponte proxima á aldêa de Nusturio, no alto da qual campeava o castello construido por D. From o saxonio, avoengo de D. Diogo Lopes, e primeiro senhor de Biscaia. Nenhum vestigio restava do que alli se passára; os dous, moídos e cheios de lodo e pisaduras, foram-se arrastando como poderam até encontrar alguns villãos, a quem se deram a conhecer, e que os levaram a casa. Festas que em Nusturio se fizeram por sua vinda, cousa é que não vos direi; porque não tarda a hora de ceiar, resar, e deitar. 7 D. Diogo pouco tempo viveu: todos os dias ouvia missa; todas as semanas se confessava. D. Inigo, porém, nunca mais entrou na igreja, nunca mais resou, e não fazia senão ir á serra caçar. Quando tinha de partir para as guerras de Leão viam-no subir á montanha armado de todas as peças, e voltar de lá montado n'um agigantado onagro. E o seu nome retumbou em toda a Hespanha; porque não houve batalha em que entrasse que se perdesse, e nunca em nenhum recontro foi ferido ou derribado. Diziam á bôca pequena em Nusturio que o illustre barão tinha pacto com Belzebuth. Olhem que era grande milagre! Meio precíto era elle por sua mãe; não tinha que vender senão a outra metade da alma. Por oitenta por cento de lucro ne recibo de um egresso a dá ahi inteira ao démo qualquer onzeneiro, e crê ter feito uma limpa veniaga. Fosse como fosse, Inigo Guerra morreu velho: o que a historia não conta é o que então se passou no castello. Como não quero improvisar mentiras, por isso não direi mais nada. Mas a misericordia de Deus é grande. Á cautela resem por elle um _Pater_ e um _Ave_. Se não lhe aproveitar, seja por mim. Amen. * * * * * [1] Um jumento silvestre não seria mui delicado manjar para mesa moderna; mas o uso da carne asinina na idade média era vulgar: ainda em muitos dos nossos foraes apparece marcado entre as portagens o quanto devia pagar este genero de vianda. [2] O Diccionario da Academia, que ficou interrompido no fim da letra A, acaba na palavra _azurrar_. O BISPO NEGRO (1130) 1 Houve tempo em que a sé abandonada de Coimbra era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos annos, eram ainda pallidas, como as margens areentas do Mondego[1]. Então o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavissima, mais rica de saudade que os proprios raios daquelle planeta guardador dos segredos de tantas almas, que crêem existir nelle, e só nelle, uma intelligencia que as perceba. Então aquellas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos de homens, desde que os seus edificadores as tinham collocado sobre as alturas; e todavia já então ninguém sabia se esses edificadores eram da nobre raça goda, se da dos nobres conquistadores arabes. Mas, quer filha dos valentes do norte, quer dos pugnacissimos sarracenos, ella era formosa na sua singella grandeza entre as outras sés das Hespanhas. Ahi succedeu o que ora ouvireis contar. 2 Aproximava-se o meiado do duodecimo seculo. O principe de Portugal Affonso Henriques depois de uma revolução feliz, tinha arrancado o poder das mãos de sua mãe. Se a historia se contenta com o triste espectaculo de um filho condemnando ao exilio aquella que o gerou, a tradição carrega as tinctas do quadro, pintando-nos a desditosa viuva do conde Henrique arrastando grilhões no fundo de um calabouço. A historia conta-nos o facto; a tradição os costumes. A historia é verdadeira, a tradição verosimil; e o verosimil é o que importa ao que busca as lendas da patria. Em uma das torres do velho alcacer de Coimbra, encostado entre duas ameias, a horas que o sol fugia do horisonte, o principe conversava com Lourenço Viegas o Espadeiro, e com elle dispunha meios e apurava traças para guerrear a mourisma. E lançou casualmente os olhos para o caminho que guiava ao alcacer, e viu o bispo D. Bernardo, que, montado em sua nedia mula, cavalgava apressado pela encosta acima. "Vêdes vós--disse elle ao Espadeiro--o nosso leal D. Bernardo, que para cá se encaminha? Negocio grave por certo o faz sair a taes deshoras da crasta da sua sé. Desçamos á sala d'armas e vejamos o que elle quer."--E desceram. Grandes lampadarios ardiam já na sala d'armas do alcacer de Coimbra, pendurados de cadeias de ferro chumbadas nos fechos dos arcos de volta de ferradura, que sustentavam os tectos de grossa cantaria. Pelos feixes de columnas delgadas, entre si separadas, mas ligadas nos fustes por uma base commum, pendiam corpos de armas, que reverberavam a luz das lampadas, e pareciam cavalleiros armados, que em silencio guardavam aquelle amplo aposento. Alguns homens de mesnada faziam retumbar as abobadas, passeando de um para outro lado. Uma portinha, que ficava em um angulo da quadra, abriu-se, e d'ella saíram o principe e Lourenço Viegas, que desciam da torre: quasi ao mesmo tempo assomou no grande portal de entrada o vulto veneravel e solemne do bispo D. Bernardo. "Guarde-vos Deus, bispo de Coimbra! Que mui urgente negocio vos traz aqui esta noite?--disse o principe a D. Bernardo. "Más novas, senhor. Trazem-me aqui a mim letras do papa, que ora recebi." "E que quer de vós o papa?" "Que de sua parte vos ordene solteis vossa mãe..." "Nem pelo papa, nem por ninguem o farei." "E manda-me que vos declare excommungado, se não quizerdes cumprir seu mandado." "E vós que intentaes fazer?" "Obedecer ao successor de S. Pedro." "Quê? D. Bernardo amaldiçoaria aquelle a quem deve o bago pontifical; aquelle que o alevantou do nada? Vós, bispo de Coimbra, excommungarieis o vosso principe, porque elle não quer pôr a risco a liberdade desta terra remida das oppressões do senhor de Trava, e do jugo do rei de Leão; desta terra que é só minha e dos cavalleiros portuguezes?" "Tudo vos devo, senhor,--atalhou o bispo--salvo minha alma que pertence a Deus, minha fé que devo a Christo, e a minha obediencia que guardarei ao papa." "D. Bernardo! D. Bernardo!--disse o principe suffocado em colera--lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou sem paga!" "Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe?" "Não! Mil vezes não!" "Guardae-vos!" E o bispo saíu sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Lourenço Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D'ahi a pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no mais profundo silencio. 3 Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço Viegas passeava com o principe na sala d'armas do paço mourisco. "Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir lá muito ao longe, caminho da terra de Sancta Maria[2]! Na porta da sé estava pregado um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um clerigo velho que ahi chegára quando eu olhava para aquella carta, era o que elles chamam o interdicto.--Isto dizia o Espadeiro, olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o ouvisse. "Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo á sé. Bispo D. Bernardo, tarde será o arrepender-te da tua ousadia!" D'alli a pouco as portas da sé estavam abertas, porque o sol era nado, e o principe, acompanhado de Lourenço Viegas e de dous pagens, atravessava a igreja, e dirigia-se á crasta, onde ao som de campa tangida tinha mandado ajunctar o cabido, com pena de morte para o que ahi faltasse. 4 Solemne era o espectaculo que apresentava a crasta da sé de Coimbra. O sol dava com todo o brilho de manhan purissima por entre os pilares que sustinham as abobadas dos cubertos, que cercavam o pateo interior. Ao longo desses cubertos caminhavam os conegos com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bafo suave do vento matutino. No topo da crasta estava o principe em pé, encostado ao punho da espada, e um pouco atras delle Lourenço Viegas e os dous pagens. Os conegos íam chegando, e formavam um semicirculo a pouca distancia d'elrei, em cuja cervilheira de malha de ferro ferviam buliçosos os raios do sol. Toda a clerezia da sé estava alli apinhada, e o principe, sem dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia involto em fundo pensar. O silencio era completo. Por fim Affonso Henriques ergueu o rosto carrancudo e ameaçador, e disse: "Conegos da sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de Portugal?" Ninguem respondeu palavra. "Se o não sabeis, dir-vo-lo-hei eu,--proseguiu o principe:--vem assistir á eleição do bispo de Coimbra." "Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição--disse o mais velho e auctorisado dos conegos que estavam presentes, e que era o _adayão_. "Amen:--responderam os outros. "Esse que vós dizeis;--bradou o infante, cheio de colera--esse jamais o será. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias porá D. Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal ensinará um rebelde a fé das sanctas escripturas! Elegei outro: eu approvarei vossa escolha." "Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição:--repetiu o adayão. "Amen:"--responderam os mais. O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta resistencia:--"Pois bem!"--disse elle, com a voz presa na garganta, depois de um olhar terrivel que lançou pela assembléa, e de alguns momentos de silencio.--"Pois bem! Saí d'aqui, gente orgulhosa e má! Saí, vos digo eu. Alguem por vós elegerá um bispo..." Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta. Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes, tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena: os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a cabeça como quem approvava o dicto. Os conegos começavam a retirar-se, e o negro ía apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe um signal com a mão. O negro voltou para trás. "Como has nome?"--perguntou-lhe o principe. "Senhor, hei nome Çolleima.[3]" "És bom clerigo?[4]" "Na companhia não ha dous que sejam melhores." "Bispo serás, D. Çolleima. Vae tomar teus guisamentos, que hoje me cantarás missa." O clerigo recuou: naquella face tisnada viu-se uma contracção de susto. "Missa não vos cantarei eu, senhor:--respondeu o negro com voz trémula;--que para tal auto não tenho as ordens requeridas." "D. Çolleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás os degraus do altar-mór da sé de Coimbra, ou a cabeça te descerá de cima dos hombros, e rolará pelas lageas deste pavimento." O clerigo curvou a fronte. "_Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson!_"--garganteava d'ahi a pouco D. Çolleima, revestido dos habitos episcopaes, juncto ao altar da capella-mór. O infante Affonso Henriques, o Espadeiro e os dous pagens, de joelhos, ouviam missa com profunda devoção. 5 Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra havia grande sarau. Donas e donzellas, assentadas ao redor do aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em tom monotono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os arremedilhos satyricos dos truões e farcistas. Os cavalleiros em pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos, ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um dos lados, porém, entre um labyrintho de columnas, que davam saída para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam entretidas em negocio mais grave do que os prazeres de noite de folguedo o permittiam. Eram estas personagens Affonso Henriques, Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas, e Gonçalo de Sousa o Bom. Os gestos dos quatro cavalleiros davam mostras de que elles estavam vivamente agitados. "É o que affirma, senhor, o mensageiro--dizia Gonçalo de Sousa--que me enviou o abbade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu uma noite para não entrar em Braga. Dizem que o papa o envia a vós, porque vos suppõe hereje. Em todas as partes por onde o legado passou, em França e em Hespanha, vinham a lhe beijar a mão reis, principes e senhores: a eleição de D. Çolleima não póde por certo ir ávante..." "Irá, irá!--respondeu o principe em voz tão alta que as suas palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento.--Que o legado tenha tento em si! Não sei eu se haveria ahi cardeal, ou apostolico[5] que me estendesse a mão para eu lh'a beijar, que pelo cotovello lh'a não cortasse fóra a minha boa espada. Que me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas, não as farei eu!" Isto foi o que se ouviu daquella conversação: os tres cavalleiros falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz tão baixa, que ninguem percebeu mais nada. 6 Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas por muitos, e alguem as havia repetido ao legado. Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo, encaminhou-se direito ao alcacer real. O principe saíu a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros. Com modos cortezes guiou-o á sala de seu conselho, e ahi se passou o que ora ouvireis contar. O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde Henrique. "Dom cardeal,--começou o principe--que viestes vós fazer a minha terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor papa para estas hostes que faço, e com que guerreio noite e dia os infiéis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei: depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem." No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as palavras do principe, que eram de amargo escarneo. "Não a trazer-vos riquezas,--atalhou elle--mas a ensinar-vos a fé vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com vossas manoplas, victoriado só por vós com palavras blasphemas e maldictas..." "Calae-vos, dom cardeal,--gritou Affonso Henriques--que mentís pela gorja! Ensinar-me a fé?! Tão bem em Portugal como em Roma sabemos que Christo nasceu da Virgem; tão certo como vós outros romãos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, ámanhan vos ouvirei: hoje podeis-vos ir." E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta, saíu do alcacer. 7 O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda repousadamente. O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos harmoniosos da sé costumavam acorda-lo tocando ás ave-marias: mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda do oriente. "Misericordia! misericordia!"--gritavam devotamente homens e mulheres á porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle ruido. "Que vozes são estas que soam?"--perguntou elle a um pagem. O pagem respondeu-lhe chorando: "Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu: as igrejas estão fechadas; os sinos já não ha quem os toque; os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldicção do sancto padre de Roma cahiu sobre nossas cabeças." Outra vez soou á porta do alcacer:--Misericordia! Misericordia!" "Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem e selem o meu melhor corredor!" Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi envergou á pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do chão. O pagem tinha saído, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha que havia em Coimbra tropeava e rinchava á porta do alcacer. 8 Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante espicaçava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata: em duas outras mulas íam ao lado delle dous mancebos com caras e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam as grammaticaes[6]. Eram o cardeal, que se ía a Roma, e dous sobrinhos seus que o haviam acompanhado. Entretanto o principe partíra de Coimbra sósinho. Quando pela manhan Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o caracter violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe a pista á redea solta, e íam já muito longe quando viram o pó que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso de um crocodilo. Os dous fidalgos esporearam com mais força os ginetes e breve alcançaram o infante. "Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, tão cedo e açodadamente?" "Vou pedir ao legado do papa que se amercêe de mim..." A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que encobria o caminho: pela encosta abaixo ía o cardeal com os dous mancebos das opas e cabellos tonsurados. "Oh!..--disse o principe. Esta unica interjeição lhe fugiu da bôca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a prêa descuidada. "_Memento mei, Domine, secundùm magnam misericordiam tuam!_"--resou o cardeal em voz baixa e trémula, quando ouvindo o tropear dos cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques. Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por elle, travou-lhe do cabeção do vestido, e em um relance ergueu o montante: felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas debaixo do golpe que já descia sobre a cabeça do legado: os tres ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o craneo do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos ares. "Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido de Deus:"--gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas. "Principe"--disse o velho chorando--"não me faças mal; que estou á tua mercê!"--Os dous mancebos tambem choravam. Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio alguns momentos. "Estás á minha mercê:--disse elle por fim.--Pois bem! Viverás, se desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunhão lançada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca mais em meus dias será posto interdicto nesta terra portugueza, conquistada aos mouros por preço de tanto sangue. Em refens deste pacto ficarão teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma não vierem letras de bençam, tem tu por certo que as cabeças lhes voarão de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?" "Senhor, sim!--respondeu o legado com voz sumida. "Juras?" "Juro." "Mancebos, acompanhae-me," Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado, que com muitas lagrymas se despediu delles, e sósinho seguiu o caminho da terra de Sancta Maria. D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na capella-mór da sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam alegremente. Tinham chegado letras de bençam de Roma; e os sobrinhos do cardeal, montados em boas mulas, íam cantando devotamente pelo caminho da Vimieira o psalmo que começa: _In exitu Israel de Ægypto._ Conta-se, todavia, que o papa levára a mal no principio, o pacto feito pelo legado; mas que por fim tivera dó do pobre velho, que muitas vezes lhe dizia: "Se tu, sancto padre, víras sobre ti um cavalleiro tão bravo ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça; e seu cavallo tão feroz arranhar a terra, que já te fazia a cova para te enterrar, não sómente deras as letras, mas o papado e a cadeira apostolical." * * * * * NOTA A lenda precedente é tirada das chronicas de Acenheiro, rol de mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria procedido mais judiciosamente em deixa-las no pó das bibliothecas, onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso Henriques por Duarte Galvão, formando a substancia de quatro capitulos, que foram supprimidos na edição deste auctor, e que mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz uma _grave_ refutação. Toda a narrativa da prisão de D. Theresa, das tentativas _opposicionistas_ do bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro, da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella epocha. A tradição é falsa a todas as luzes: mas tambem é certo que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto que estrangeiro, bem informado geralmente ácerca dos successos do nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista está indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a propria confusão de datas e de individuos, que apparece no texto de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava já alterado na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fóra de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy de Pina e Acenheiro não leram (porque só foi publicado no seculo decimo-setimo) prova que ella remonta entre nós, por maioria de razão, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como já a vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos, e que se lê a pag. 640 da edição de Hoveden, por Savile: "No _mesmo anno_ (1187) o cardeal _Jacintho_, então legado em toda a Hespanha, depôs muitos prelados _(abbates)_ ou por culpas delles ou por impeto proprio, e como quizesse depôr o bispo de Coimbra, o rei _Affonso_ (Henriques) não consentiu que elle fosse deposto, e mandou ao dicto cardeal que saísse da sua terra, quando não cortar-lhe-hia um pé." * * * * * [1] A sé velha de Coimbra é no todo, ou na maxima parte uma edificação dos fins do seculo duodecimo; mas acceitámos aqui a tradição que lhe attribue uma remotissima antiguidade. [2] Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada de Coimbra. [3] É notavel coincidencia a seguinte: Em 1088 _um presbytero, por nome Zoleima,_ fez uma doação _á sé de Coimbra_. Desta doação se lembra Fr. Antonio Brandão M. L. P. 3.ª L. 8.º Cap. 5.º pag. 13 col. 2.ª in fine. [4] _Clerigo_ naquella epocha não significava só o ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo empregado no serviço do culto. D'ahi a frequente menção nos documentos, de _clerigos casados_. [5] Papa. [6] Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se chamavam na idade média. _Darin lernt ich puerilia,_ diz Hans Sachs no seu _Lebensbeschreibung_, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso, affirma de seu predecessor D. João Gomes: _erat bonus homo, et sinè aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, immò nec grammaticalia, quod est plus_. A MORTE DO LIDADOR (1170) 1 "Pagens! que arreiem o meu ginete murzello; e vós dae-me o meu lorigão de malha de ferro, e a minha boa toledana. Senhores cavalleiros, hoje contam-se noventa e cinco annos que recebi o baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavalleiro, e quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria dos mouros." Isto dizia na sala de armas do castello de Béja Gonçalo Mendes da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejára, e por seu valor indomavel chamavam o Lidador. Affonso Henriques, depois do infeliz successo de Badajoz, e feitas pazes com elrei de Leão, o nomeára fronteiro da cidade de Béja, de pouco conquistada aos mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam com elle, e outros muitos cavalleiros afamados, entre os quaes D. Ligel de Flandres, e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas. "A la fé--disse Mem Moniz---que a festa de vossos annos, senhor Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavalleiro, que de capitão encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Béja para bem a haverdes de guardar, e não sei eu se arriscado é saír hoje á campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva, que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros desta sala de armas." "Voto a Christo--atalhou o Lidador--que não cria eu que o senhor rei me houvesse posto nesta torre de Béja para estar assentado á lareira da chaminé, como uma velha dona, a espreitar de quando em quando por uma séteira, se cavalleiros mouros vinham correr té a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo da torre da menagem, como usam os villãos. Quem achar que são duros de mais os arnezes dos infiéis póde ficar-se aqui." "Bem dicto! bem dicto!"--clamaram, dando grandes risadas, os cavalleiros mancebos. "Por minha boa espada!"--gritou Mem Moniz, atirando com o guante-ferrado ás lageas do pavimento--"que mente pela gorja quem disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga mourisca." "A cavallo, a cavallo!"--gritou outra vez a chusma, com grande alarido. D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Béja, e passados alguns instantes soava só o tropear dos cavallos atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores, que davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer a mourisma. 2 Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Béja: batia o sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam: ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras, cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores christãos. Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro: chôro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera: então de christãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus das mesquitas convertiam-se em campanarios de sés, e a voz do almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam á oração entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:--"é nossa a terra de Hespanha."--O dicto do arabe foi desmentido; mas a resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura, estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos portaes e torres dos templos, nos lanços dos muros das cidades e castellos, accrescentou no fim a mão da providencia:--"assim para todo o sempre!" Nesta lucta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alemtejo. O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava elle salvação, ou ao menos vingança; ao menos um dia de combate, e corpos de christãos estirados na veiga para pasto dos açores bravios. A vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas, embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres de seus irmãos! E este ameno dia de julho devia ser um desses dias porque suspirava o servo ismaelita. Almoleimar descêra com seus cavalleiros ás campinas de Béja. Pelas horas mortas da noite viam-se as almenáras das suas atalaias nos pincaros das serras remotas, semelhantes ás luzinhas, que em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus folguedos; bem longe éstavam as almenáras, mas bem perto sentiam os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de folhas seccas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros do Lidador saíam mais de dous tiros de bésta alem das velhas muralhas de Béja; tudo, porém, estava em silencio, e só aqui e alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios tinham vagueado almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia pelo quarto de modorra as habitações dos pastores alem das encostas do Atlas. No dia em que Gonçalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Béja, cumpria os noventa e cinco annos, ninguem saíra, pelo arrebol da manhan, a correr o campo; e, todavia, nunca tão de perto chegára Almoleimar; porque uma frecha fôra pregada á mão em um grosso carvalho, que sombreava uma fonte, a pouco mais de tiro de funda dos muros do castello. Era que nesse dia deviam ir mais longe os cavalleiros christãos: o Lidador pedíra aos pagens o seu lorigão de malha de ferro, e a sua boa toledana. 3 Trinta fidalgos, flor da cavallaria, corriam á redea solta pelas campinas de Béja; trinta, não mais, eram elles; mas orçavam por trezentos os homens d'armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam. Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador, cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o peitoral da cota d'armas, e o terrivel Lourenço Viegas, a quem pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era formoso espectaculo e esvoaçar dos balsões e signas, fóra de suas fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as cores variegadas das cotas, e as ondas de pó, que se alevantavam debaixo dos pés dos ginetes, como as alevanta o bulcão de Deus, varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de verão. Ao largo, muito ao largo, dos muros de Béja vai a atrevida cavalgada em demanda dos mouros; e no horisonte não se vêem senão os topos pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os corredores christãos volteiam na frente da linha dos cavalleiros, correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e transpõem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros; apparecem, somem-se, tornam a saír ao claro: mas no meio de tal lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito monotono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira. A terra que pisam é já de mouros; é já além da frontaria. Se olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trás indo em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo enxergariam Béja. Bastos pinhaes começavam já a cobrir mais ondeado territorio, cujos outeirinhos aqui e alli se alteavam suaves como seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos cavalleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era necessario repousar, que o sol ía no zenith e abrazava a terra: descavalgaram todos á sombra de um azinhal, e sem desenfrear os ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas de um arroio vizinho. Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Béja um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se á rédea solta de uma selva extensa, que corria á mão direita: pouco, porém, correu; uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo parou de repente, e elle, erguendo os braços ao ar com as mãos abertas, cahiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu desenfreado através das veigas, e desappareceu na selva. O almogavar dormia o ultimo somno dos valentes em terra de inimigos, e os cavalleiros da frontaria de Béja viram o seu trance do repousar eterno. "A cavallo! a cavallo!"--bradou a uma voz toda a lustrosa companhia do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como aspirando os combates. Uma grita medonha troou ao mesmo tempo além do pinhal da direita.--"Allah! Almoleimar!"--era o que dizia a grita. Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros arabes saíram á rédea solta de trás da escura selva que os encubria: o seu numero excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christãos, apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas cotas de malha do mesmo metal: mas as lanças destes eram mais robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras mouriscas. A rudeza e a força da raça gothico-romana íam ainda mais uma vez provar-se com a destreza e com a perícia arabes. 4 Como uma longa fita de muitas côres, recamada de fios d'ouro, e reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda linha dos cavalleiros mouros sobresaía na veiga entre as searas pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros cubertos dos seus escuros involtorios, e lanças em riste, esperavam o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christãos, diante da copia d'infiéis que os esperavam, diria que, não com brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam a desesperado trance. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças portuguezas, e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum coraçâo que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que taes faces descoravam. Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se embebido debaixo dos pés dos cavallos, como no torculo se embebe a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador bradára Sanctiago; e o nome de Allah soára em um só grito por toda a fileira mourisca. Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento terremoto, desabando, não fariam mais ruido, ao bater em pedaços uma contra a outra, que este recontro de infiéis e christãos: as lanças topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo, que se misturava com o estalar das que voavam despedaçadas. Do primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao chão: um mouro robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas, e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lança. Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou ao Lidador, que perto delle estava: "Senhor Gonçalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro, aberta a séteira por onde eu, velha dona assentada á lareira, costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia de villãos do cimo da torre de menagem." O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as ultimas palavras, elle topára em cheio com o terrivel Almoleimar. As lanças dos dous contendores haviam-se feito pedaços, e o alfange do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Béja. Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou, os dous capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do Lidador tinham ganhado a immobilidade que dá, nos grandes perigos, o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os dentes com força, descarregou um golpe tremendo sobre o seu adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldão e a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando, pelo coxote do mouro, que já desencravára o alfange. Tal foi a primeira saudação dos dous cavalleiros inimigos. "Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se embotam os fios deste alfange." Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro da montanha. O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no chão, se não estivesse presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete, sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedaço pela campanha a todo o galope. Mas o Lidador tornou a si: uma forte soffreada avisou o ginete de que seu senhor não morrêra. Á redea solta lá volta o Fronteiro de Béja; escorre-lhe o sangue, involto em escuma, pelos cantos da bôca: traz os olhos torvos de ira: ai de Almoleimar! Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por entre christãos e mouros: os dous contendores viram-se, e, como o leão e o tigre, correram um para o outro: as espadas reluziram no ar: mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar, que cedeu á violenta estocada; e o sangue, saindo ás golfadas, cortou a ultima maldicção do agareno. Mas a espada deste tambem não errára o golpe: vibrada com ancia, colhêra pelo hombro esquerdo o velho Fronteiro, e, rompendo a grossa malha do lorigão, penetrára na carne até o osso; e ainda mais uma vez a mesma terra bebeu nobre sangue godo misturado com sangue arabe. "Perro maldicto! Sabe lá no inferno que a espada de Gonçalo Mendes é mais rija que a sua cervilheira." E, dizendo isto, o Lidador cahiu amortecido: um dos seus homens de armas voou a soccorre-lo; mas o ultimo golpe d'Almoleimar fôra o brado da sepultura para o fronteiro de Béja: os ossos do hombro do bom velho estavam como triturados, e as carnes rasgadas pendiam-lhe para um e outro lado involtas nas malhas descosidas do lorigão. 5 Entretanto os mouros íam de vencida: Mem Moniz, D. Ligel, Godinho Fafes, Gomes Mendes Gedeão, e os outros cavalleiros daquella lustrosa companhia tinham practicado maravilhosas façanhas. Mas entre todos tornava-se notavel o Espadeiro. Com um pesado montante nas mãos, cuberto de pó, suor e sangue, pelejava a pé; que o seu agigantado ginete cahíra morto de muitos tiros de frecha e lançadas. De roda delle não se viam senão cadaveres e membros destroncados, por cima dos quaes trepavam, para logo recuarem ou baquearem no chão, os mais ousados cavalleiros arabes. Como um promontorio de escarpados alcantis, Lourenço Viegas estava immovel e sobranceiro no meio do embate daquellas vagas de pelejadores, que vinham desfazer-se contra o terrivel montante do filho de Egas Moniz. Quando o Fronteiro cahiu, o grosso dos mouros fugia já para alem do pinhal; mas os mais valentes pelejavam ainda á roda do seu capitão mal ferido. O Lidador tinha sido posto em cima d'umas andas, feitas de troncos e franças de arvores; e quatro escudeiros, que restavam vivos dos dez que comsigo trouxera, o haviam transportado para a caga da cavalgada. O tinir dos golpes era já mui frouxo, e sumia-se no som dos gemidos, pragas, e lamentos, que soltavam os feridos derramados pela veiga ensanguentada. Se os mouros, porém, levavam, fugindo, vergonha e damno, a victoria não saíra barata aos portuguezes. Viam perigosamente ferido o seu velho capitão, e tinham perdido alguns cavalleiros de conta, e a maior parte dos homens de armas, escudeiros e pagens. Foi n'este ponto, que ao longe se viu erguer uma nuvem de pó, que voava rapida para o logar da peleja: mais perto, aquelle turbilhão rareou, vomitando do seio um basto esquadrão de arabes; os mouros que fugiam, deram volta e gritaram: "Ali-Abu-Hassan! Só Deus é Deus, e Mohammed o seu propheta!" Era, com effeito, Ali-Abu-Hassan, rei de Tangere, que estava com seu exercito sobre Mertola, e que viera com mil cavalleiros em soccorro de Almoleimar. 6 Cansados do largo combater, reduzidos a menos de metade em numero, e cubertos de feridas, os cavalleiros de Christo invocaram o seu nome, e fizeram o signal da cruz. O Lidador perguntou com voz fraca a um pagem, que estava ao pé das andas, que nova revolta era aquella. "Os mouros foram soccorridos por um grosso esquadrão:--respondeu tristemente o pagem.--A Virgem Maria nos acuda, que os senhores cavalleiros parece recuarem já." O Lidador cerrou os dentes com força, e levou a mão á cincta. Buscava a sua boa toledana. "Pagem, quero um cavallo. Onde está a minha espada? "Aqui a tenho, senhor. Mas estaes tão quebrado de forças!...." "Silencio! A espada, e um bom ginete." O pagem deu-lhe a espada, e foi pelo campo buscar um ginete, dos muitos que andavam já sem dono. Quando voltou com elle, o Lidador, pallido e cuberto de sangue, estava em pé, e dizia, falando comsigo: "Por Sanctiago, que não morrerei como villão de Behetria, onde entrou cavalgada de mouros!" E o pagem ajudou-o a montar a cavallo. Ei-lo vae o velho Fronteiro de Béja! Semelhava um espectro erguido de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos no braço e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da espada, que a mão direita mal sustinha, levava porventura ainda a morte de muitos outros! 7 Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou o Lidador. Os christãos affrouxavam diante daquella multidão d'infiéis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porém, com vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiéis e christãos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante nas mãos, faziam larga praça no meio dos inimigos. "Bem vindo, Gonçalo Mendes!--disse Mem Moniz.--Quizeste assistir comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado lá na çaga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com meu sobrinho juncto desta lareira...." "Implacaveis sois vós outros, cavalleiros de Riba-Douro,"--respondeu o Lidador em voz sumida,--"que não perdoaes uma palavra sem malicia. Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante do justo juiz." "Velhos sois; bem o mostraes!"--acudiu o Espadeiro.--"Não cureis de vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros, que não ousam chegar-se a nós. Ávante, e Sanctiago!" "Ávante, e Sanctiago!"--responderam Gonçalo Mendes e Mem Moniz: e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros. 8 Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho de 1170 se deram na veiga da frontaria de Béja, nota-los-ha de fabulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo e forças as forças e o animo dos bons cavalleiros portuguezes do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam através das eras nas tradições e chronicas, tanto christans como agarenas. Depois de deixar assignadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador vibrára pela ultima vez a espada, e abríra o elmo e o craneo de um cavalleiro arabe. O violento abalo que soffreu, fez-lhe rebentar em torrentes o sangue da ferida, que recebêra das mãos de Almoleimar, e cerrando os olhos, cahiu morto ao pé do Espadeiro, de Mem Moniz, e de Affonso Hermigues de Bayão, que com elles se ajunctára. Repousou finalmente Gonçalo Mendes da Maia de oitenta annos de combates! Já a este tempo christãos e mouros se haviam descido dos cavallos, e pelejavam a pé. Traziam-se assim á vontade, e recrescia a crueza da batalha. Entre os cavalleiros de Béja espalhou-se logo a nova da morte do seu capitão, e não houve ahi olhos que ficassem enxutos. O despeito do proprio Mem Moniz deu logar á dor, e o velho de Riba-Douro exclamou entre soluços: "Gonçalo Mendes, és morto! Nós todos quantos aqui somos, não tardará que te sigamos; mas ao menos, nem tu nem nós ficaremos sem vingança!" "Vingança!"--bradou o Espadeiro, com voz rouca, e rangendo os dentes. Deu alguns passos, e viu-se o seu montante reluzir como uma centelha em céu procelloso. Era Ali-Abu-Hassan: Lourenço Viegas o conhecêra pelo timbre real do morrião. 9 Se já vivestes vida de combates em cidade sitiada, tereis visto muitas vezes um vulto negro, que em linha diagonal corta os ares, sussurrando e gemendo. Rapido, como um pensamento criminoso em alma honesta, elle chegou das nuvens á terra, antes que vos lembrasseis do seu nome. Se encontrou na passagem angulo de torre secular, o marmore converte-se em pó; se atravessou pelas ramas de arvore basta e frondosa, a folha mais virente e fragil, o raminho mais tenro é dividido, como se com cutelo subtilissimo mão de homem lhe houvera cerceado attentamente uma parte: e, todavia, não é um ferro açacalado: é um globo de ferro; é a bomba, que passa, como a maldicção de Deus. Depois, debaixo della o chão achata-se, e a terra espadana aos ares; e como agitada, despedaçada por cem mil demonios, aquella machina do inferno estoura, e de roda della ha um zumbir sinistro: são mil fragmentos; são mil mortes que se derramam ao longe. Então faz-se um grande silencio, e após o silencio vêem-se corpos destroncados, poças de sangue, arcabuzes quebrados, e ouve-se o gemer dos feridos e o estertor de moribundos.... Tal desceu o montante do Espadeiro, bôto já de milhares de golpes, que o cavalleiro tinha descarregado. O elmo de Ali-Abu-Hassan faiscou, voando em pedaços pelos ares, e o ferro christão, esmigalhando o craneo do infiél, abriu-o até os dentes. Ali-Abu-Hassan cahiu. "Lidador! Lidador!"--disse Lourenço Viegas, com voz comprimida. As lagrymas misturavam-se-lhe nas faces com o suor, o pó, e o sangue do agareno, de que ficou coberto. Não pôde dizer mais nada. Tão espantoso golpe aterrou os mouros: os portuguezes seriam já apenas sessenta entre cavalleiros e homens d'armas; mas pelejavam como desesperados, e resolvidos a morrer. Mais de mil inimigos juncavam o campo de involta com os christãos. A morte de Ali-Abu-Hassan foi o signal da fugida. Os portuguezes, senhores do campo, celebravam com prantos a victoria. Poucos havia que não estivessem feridos; nenhum que não tivesse as armas falsadas e rotas. O Lidador e os demais cavalleiros de grande conta, que naquella jornada tinham acabado, atravessados em cima de ginetes foram conduzidos a Béja. Após aquelle tristissimo prestito íam os cavalleiros a passo lento, e um sacerdote templario, que fôra na cavalgada, com a espada cheia de sangue mettida na bainha, psalmeava em voz baixa aquellas palavras do livro da Sabedoria: "_Justorum autem animæ in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum mortis._" * * * * * O PAROCHO DA ALDEIA (1825) PROLOGO. Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera, o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia de maldade e destruição. De noite e de dia os troncos das arvores torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e despedaçam-se involtas nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo. Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os turbilhões da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta já de relva entresachada das primeiras florinhas. Então, relva e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o céu. É que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura. Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força, e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que se desvaneceu tão breve. E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A rajada já não silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e murcha como a ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver. Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da philosophia, esse turbilhão transitorio de doutrinas, de systemas, de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da intelligencia, não póde aquecer-se aos raios esplendidos do sol de uma crença viva. Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as philosophias. A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a dor, a condemnação e a morte: mas a sua peior peçonha guardou-se para o presente: foi o scepticismo. Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:--"Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?" Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe tranquillamente--_quem sabe!_"--e cahir desanimado no lethargo da duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito, opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia. A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe: --hypocrita!--porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas, que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração! --Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas, e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro, lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse aos que visse ao longe:--"não vos affasteis para aqui!"--Hypocritas são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas. Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que ella dá é inquietação e desesperança. Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus. Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira. A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza. As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta, que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe de ser. Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida, mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias. São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte. Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de todas as lembranças de Deus. Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre as nevoas densas do duvidar de tudo. O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas. Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo: nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença, lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro. Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia: vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente: dizei-lhe:--"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade o mais eloquente dos homens!"--Dizei-lhe isto, e vereis esse engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia o vaso fragil que já não o podia conter. Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal: outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças: o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e a regeneração da morte. Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis, ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor. Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas, descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de saphyras em que se reclina a rainha da noite. Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até se derramarem na terra. Dae-me uma nota só dos canticos que eu então escutava; dar-vos-hei em troca toda a minha estupida e inutil sciencia! Mas essa epocha da vida não voltará mais, porque não póde retroceder uma unica onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taça do mel esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere aquelle que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegará a hora de renascer para a poesia e para a certeza: será a da morte. A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que a espaços affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que nestes momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepusculo alguns raios transitorios de luz. A memoria é o instante de repouso, e a saudade o clarão suave que nos illumina. Recordar-se--consolar-se. * * * * * I A ALDEIA E O PRESBYTERIO. Uma das cousas que nas recordações da juventude ainda espiram para mim poesia e saudade é a imagem de um velho prior d'aldeia que conheci na minha meninice. Hoje tão bondosos, tão alegres, tão veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu é que não sei conhecê-los. A auréola, que então rodeava as cans do sacerdote ancião, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia do mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outr'ora! Elle morreu já, por certo; mas vivo que fosse, eu não sentiria ao vê-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de confiança receiosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava. Parecia-me que estando ao pé delle estava mais perto de Deus, cujo valído, por assim dizer, era o padre prior. Não sabia o sacerdote essa lingua que eu cria falar-se no ceu, o latim, que então era para mim cousa mysteriosa e sancta? Não trajava ás vezes os trajos da côrte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em tres ou quatro antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas, depois da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurança, os tormentos do purgatorio, e os tractos intoleraveis do inferno, não juraria qualquer que elle já peregrinára largos annos além do sepulchro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas e tão solemnes terrores? Evidentemente o velho clerigo estava mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente, e, por me servir da linguagem politica, exercia em nome do céu uma delegação na terra; era uma especie de _missus dominicus_ da Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me escolhia para acolyto, para estafar a porção de latim do missal, que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio, sorriam-me as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento ás minhas pretenções infantis, como costumam sorrir ao requerente, a quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presença de omnipotente ministro. Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro, e talvez barbarissima a sua prosodia: nas vestes sacerdotaes acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis como a igreja, por entre as transformações da moda e do luxo; nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau gosto do pobre pintor; e nas descripções das venturas e tormentos da outra vida descubriria unicamente uma incarnação grosseira em imagens materiaes das revelações profundas do espiritualismo christão. É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado, risonho, variegado, porque tudo transparecia através de um prisma de sete côres, da innocencia singela e credula da infancia; e hoje tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho e desbotado, passando através da atmosphera nevoenta e triste da sciencia e do orgulho. Então o velho parocho affigurava-se-me mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas, provavelmente só acharia para elle um bem modesto logar. A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ella dilatava-se uma veiga, que ao longe, lá bastante ao longe, ía bater no mar. No alto da povoação ficava o presbyterio. Era a igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a bem presente) daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava, e a da restauração romana, que ainda se não comprehendia: era um desses templosinhos construidos nos fins do reinado de D. Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande numero resta ainda pelas parochias de Portugal, e que são mais um argumento de que os nobres conquistadores da India, donatarios das terras e padroeiros das igrejas, não voltavam do oriente com as mãos vazias. A devoção nesses tempos era um objecto de luxo: edificar uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote em S. Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapeu triangular. A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares polystylos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente do mesmo estylo, estava já civilisada: uma porta rectangular substituíra a antiga. Esquadriadas estavam tambem as duas janellas do sobrado de differentes dimensões, e affastadas uma da outra; e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das vidraças. Não quero dizer com este elogio á morada do padre prior que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos progressos da civilisação. Pelo contrario. Estava mais alindada ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na fabrica, havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo o que era azulejo. As camaras municipaes das grandes cidades, os conegos das collegiadas e sés ainda não passaram do ochre; e uma pobre irmandade da aldeia já tinha ha vinte annos vencido a méta a que apenas hoje chegam o municipio e a cathedral. O que, porém, escapou ao ochre e ao vermelhão dos mesarios do burgo foram dous seculares e formosos platanos que sombreavam o portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa tão furiosa pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas dignidades ecclesiasticas, admira que tenha esquecido estender o beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos das velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praças. Verdade é que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto é melhor: mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando com as lindezas e alegrias canonico-municipaes? Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no todo com as suas sombras fechadas, e só pela volta da tarde, principalmente no outono, é que algumas resteas açafroadas do sol no poente se estiravam por debaixo delles, e lá íam bater frouxas no limiar da igreja pulído do contínuo perpassar, e na porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo começavam a alvejar os remendos brancos com que as revoluções converteram os áditos dos templos em pelourinhos eleitoraes. Á entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada de preto, em cuja haste mãos devotas tinham atado um ramo de flores, e este ramo, no meio do qual havia um pé de perpetuas, era a imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do calvario, immutavel no meio dellas. As outras flores tinham-nas mirrado os ardores do estio: só restavam do morto ramilhete as immarcessiveis perpetuas. Era n'um poial que servia de base á cruz, onde áquella hora do pôr do sol o padre prior vinha muitas vezes sentar-se; e alli estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões do mar, que lá em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas rochas, ora traçando attentamente na terra com a sua grande bengala de castão de marfim diversas figuras, se geometricas não o sei dizer, porque hoje não creio tanto na geometria do padre prior como então cria nas suas terriveis revelações do outro mundo tiradas do _Speculum Vitae_. O que, porém, eu sentia melhor do que hoje, sem então o saber explicar, era a suave e profunda poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do symbolo religioso, áquella luz moribunda da ultima hora do dia, em que uma curta saudade melancholica vem como percursora da noite pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse tempo, mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em quanto a bengala ía d'um para outro lado cruzando linhas tortuosas e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle tinha adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa congrua para enxugar lagrymas de viuvas e de orphãos; os conselhos paternaes dados á mocidade, salva assim por elle de largos dias de remorsos e amargura; os odios convertidos em perdão entre inimigos; as dissensões domesticas pacificadas pela conciliação do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos elle havia semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo que alvejavam caiadas na orla pallida dos campos até o altar do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma, n'esses momentos de extasi, em rica seára de esperanças, cujos fructos enthesourava no céu. Depois, a cruz hasteada juncto delle lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregára, dos sacrificios que fizera para verter algum balsamo de ventura nas chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas transviadas do pobre rebanho que lhe fôra confiado. A cruz negra no seu eloquente silencio contava-lhe sacrificios infinitamente mais arduos que os delle, feitos, não em proveito d'uma aldeia ou d'um povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via ás vezes deixar pender a fronte calva sobre o peito, e tomar-lhe o rosto uma expressão singular, inexplicavel nessa epocha para mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espirito a terrivel comparação das suas acções com as do Suppliciado do Calvario, ao qual tomára por modelo, e que jurára imitar. Muitas vezes espantava-me de que se conservasse assim engolfado em seus pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e na minha alegria da infancia, vendo-o tão triste e carrancudo, pensava comigo, que o padre prior se ía tornando com a idade tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos de meditação volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida, onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de obras virtuosas; mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, não os percebia senão como uma nuvemsinha escura e duvidosa através da luz immortal das virtudes e dos beneficios do Christo. Ao tocar, porém, das ave-marias todas aquellas imaginações desconsoladas, se elle as tinha, como hoje creio, desappareciam por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se erguer, aquelle para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre ellas o seu chapéu de tres ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o padre prior murmurava em voz baixa aquella tão poetica oração do despedir do dia. Os trabalhadores, que, voltando das fadigas do campo, acontecia passarem por ahi nessa occasião, descobriam-se tambem, e encostando-se ao ancinho ou á enxada punham as mãos e resavam até que o reverendo, acabando os latinorios, que elles íam repetindo em vulgar, lhes dizia:--Boas noites, rapazes, vá a cobrir."--E os ganha-pães cobriam-se, respondendo:--Guarde-o Deus, padre prior:"--E partiam: e elle assentava-se outra vez a olhar para o poente, onde o sol, que se affundíra no mar, deixava entre si e a noite, precipitando-se após elle das alturas do céu, uma barra de vermelhidão e ouro, que se estirava para um e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho ás trevas. E alli estava scismando até que a tia Jeronyma alçava meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade á cozinha, e o chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque cumpre advertir que o padre prior não só respeitava á carga cerrada todas as tradições do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve ser comida sem sol, sem luz, e sem moscas, momento fugitivo do expirar do dia, que não consta deixasse jámais passar por alto a boa da tia Jeronyma. Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular da atmosphera, as gelosias dos aposentos inferiores da residencia parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças christans, se esse illustre escriptor houvesse uma vez saboreado as filhós que ella compunha para celebrar o Carnaval;--e os seus bolos da Natividade--e a sua ôlha e o seu anho assado da Paschoa. Não!--Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitações, nunca hei-de affastar-vos impaciente quando vierdes, como creança travessa, baralhar-me um periodo de trabalhada prosa, ou aleijar-me com um verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos, que para vós esta fronte não saberá arrugar-se; esta bôca não terá esses monosyllabos duros e gelados com que se repellem importunações d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e palrae por uma hora, por um dia, por uma semana, que vos escutarei sempre sorrindo; e quando fôr ao sol posto, que os ouvidos da minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas as lentas badaladas das ave-marias, não como agora as ouço ás vezes no meio do ruído confuso, aspero, estridente do povoado, mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando pela veiga, espriguiçando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas da encosta ou pelo pinhal do cabeço, e indo morrer lá muito ao longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no tinir das esquillas de um rebanho de ovelhas, que se encaminham pára o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras, campestres, vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte immenso, e ter-me-heis despertado um affecto consolador, o qual valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos, que todas as esperanças do mundo. Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo. Desde a existencia objectiva ou material deste mundo até a legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra retouçando pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe trazerem á praça os prós e os contras? Das definições possiveis do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os sinos têem tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão porque sobre tudo ha duas opiniões contradictorias. É que tudo tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a arvore que veceja no recosto septentrional da montanha, e açoute da que vegeta no pendor opposto: o norte é o supplicio da primeira, e grato para a segunda. N'isto está cifrada a historia das contradicções humanas. Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de mosteiro solitario, são uma cousa poetica e sancta: os sinos, pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades de hoje, são uma cousa estupida e mesquinha. O sino é um instrumento accorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados. Assim como o orgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas de uma cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo modo o sino foi perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes sectarios occupados nos trabalhos campestres. Quando se associou o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi a religião serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da terra a acceitaram para si, então entrou elle nas cidades soberbas. Lá converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente. É mais um ruído intoleravel para ajunctar aos outros ruídos discordes que troam por essas ruas e praças. O sino, tornado cortesão e fidalgo, é semelhante ao orgão trazido para o aposento do baile, ou, o que vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas, vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admirações de parvos. E com estas digressões esquecemo-nos do padre prior. Não importa. Deixa-lo ceiar em paz, e resar o breviario. Eram estas, entre outras, duas phases graves e sérias de todos os seus dias. Depois, emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava em um livro da pequena estante que lhe ficava á cabeceira, e lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto d'aquellas grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, até que o somno tranquillo de uma boa e san consciencia, apertando-lhe com os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos que só a alvorada vinha interromper, quando o perigo imminente de alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se alta noite, ao som do resmungar malsoffrido e, até certo ponto, impio da tia Jeronyma. No horisonte limpo e sereno destas duas vidas innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados um no outro íam peregrinando contentes para o sepulchro, havia um ponto negro e triste. O rendimento da parochia não consentia que o padre prior _possuisse_ essa especie de ilota _in sacris_, de servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias, as chuvas, as noitadas através das serras revertiam como a congrua e os benesses em beneficio, senão do corpo, ao menos da alma do reverendo prior. A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos da parochia, jogava-os á risca todas as noites em tertulias um digno commendador não sei de que ordem. Ai, que a extincção dos dizimos foi a morte da religião! * * * * * II NOITADAS PAROCHIAES. A vida do velho prior passava na verdade dura e trabalhosa! Como todas as cousas deste mundo, o egoismo da tia Jeronyma não era acabado e completo, ou, para falarmos em estylo de philosophia fidalga, não era absoluto. O limitado e imperfeito é o signal que o Creador estampou na fronte do homem e na face da terra para nos recordar a todo o instante a nossa origem; é a barreira que elle alevantou diante d'este grande mysterio de energia e de audacia chamado a intelligencia. Sabedoria, força, paixões, affectos, tudo tem um horisonte commensuravel; horisonte para as virtudes como para a dor. O espirito mede e abrange o que ha mais vasto e profundo, os ermos, os mares, o coração humano; porque ao cabo d'isso tudo está o finito. Immensa, eterna, absoluta só ha uma idéa, que está fora do universo. Esta é a idéa de Deus. Por isso, grande é somente Deus! Mas dizia eu que o egoismo da tia Jeronyma era incompleto: digo mais; era incompletissimo. Quando o sacristão vinha alta noite quebrar o dormir risonho e variamente resonado do padre prior; quando á voz roufenha do ostiario aldeião, despertando o pastor para ir levar as consolações extremas á ovelha moribunda, e tira-la lá, porventura, dos dentes e garras do cão tinhoso, se ajunctava o trovejar ao longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraças progressivas das meias janellas, e o ramalhar da ventania nos dous platanos do adro, era sem duvida que o resmungar da tia Jeronyma, apparecendo da banda da sua pocilga com a candeia mortiça na mão e as roupinhas vermelhas do envez, tinha o que quer que fosse repugnante e vil. A boa da velha pensava, acaso, que a morte não seria tão descortez que negasse ao espirito do pobre moribundo o tempo necessario para poder, ao abandonar o corpo, subir como chammasinha tenue, e galgar para o céu sobre um raio do sol nascente? Póde ser que sim. Não seria, porém, antes, que ella preferisse o deixar frigir por alguns seculos nas caldeiras do purgatorio aquella pobre alma christan, largando a sua veste mortal sem os ultimos sacramentos, á necessidade de erguer-se por noite fria e tempestuosa para tomar nos hombros uma parte da cruz do ministerio parochial? Tambem isto póde ser. O que se passava no abysmo da sua consciencia cousa era que ella não revelava a ninguem; mas em todo o caso era um pensamento egoista. Todavia é preciso confessar que com elle se misturava um sentimento puro e nobre: dizia-o esse cuidado pressuroso com que a tia Jeronyma trazia as botas de côr terrea, o berneo de saragoça, o capote de barregana, o chapeirão oleado, e a aguardente de ginjas, sem um copo da qual o prior não ousaria transpôr o limiar da porta, e investir com as furias da noite procellosa: diziam-n'o a attenção com que mirava se elle ía agasalhado, e as mil vezes repetidas ponderações hygienicas, que lhe fazia com admiravel volubilidade de lingua. A affeição da sancta velha mostrava-se em tudo isso viva e sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das voltas, e do perguntar e do responder, ía rareando e abatendo como o assobio do furacão pelo valle, perdia gradualmente a expressão de egoismo, e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento moral. E o padre prior calado!--Calado enfiava as botas; envergava o gabinardo; cobria-se com o capote; punha o amplo sombreiro; enchia um copinho do excellente cordial que a boa da ama lhe havia posto diante; virava-o d'um golpe; fazia uma visagem fechando os olhos com força e estendendo os beiços; dava um estalído com a lingua no céu da bôca; exprimia o intimo conforto que n'elle gerára o ethereo licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena taça, cheia de novo, ao sacristão, que, mestre nos estylos de cortezia, se curvava formando com o corpo um angulo obtuso de noventa e cinco graus, despresadas as fracções, e arqueando o braço para levar o copo á bôca sequiosa, como se curva e arqueia um peralvilho de guedelhas sansimonianas e miolos de agua chilra, ao conduzir em sala de baile a deusa dos seus affectos de vinte e quatro horas ao meio do turbilhão doudo e (perdoe-se-nos a blasphemia) um tanto parvo das valsas e contradanças. Depois duas palavras magicas saíam da bôca do reverendo pastor:--"Até logo!"--O seu effeito era instantaneo: o sacristão, pegando n'uma lanterna, com as chaves da igreja na mão encaminhava-se para o adro seguido do padre prior: a tia Jeronyma fechava a porta após elles; e o tentador, como se estivesse esperando por esse momento, travava-lhe novamente do espirito, e o resmoninhar da impaciencia recomeçava em breve, acompanhado do ranger do linho na roca, e do espirrar da candeia a espaços, e do respiro asthmatico do nedio gato do presbyterio, que