The Project Gutenberg EBook of A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: A Queda d'um Anjo Romance Author: Camilo Castelo Branco Release Date: March 5, 2006 [EBook #17927] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A QUEDA D'UM ANJO *** Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)) A QUEDA D'UM ANJO ROMANCE POR CAMILLO CASTELLO BRANCO LISBOA LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR--EDITOR 77--Rua Augusta--81 1866 Imprensa de J. G. de Sousa Neves--Rua do Caldeira, 17 *DEDICATORIA* ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO Meu amigo. Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor. Se não fossem ellas, naturalmente eu não chegaria a grangear a estima de V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. Já V. Ex.^a, antes de me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu estou sempre brincando como as creanças com os seus arcos. Que tinha eu feito para commover a bemquerença do meu prestante amigo? Tinha feito uns livros futilissimos, á imitação d'este que lhe offereço. Não é esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblação de pobre a V. Ex.^a Lembra-me a sentença do nosso Diogo de Teive: _Donat cum egenus diviti Retia videtur tendere_. Os praguentos hão de querer ver aquellas _rêdes_, por que não sabem que V. Ex.^a já me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda gratidão. Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865. CAMILLO CASTELLO BRANCO. I *O heroe do conto* Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica, procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de Miranda. Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque jure_. Porém, como quer que o pae lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a projectada formatura, em razão de ficar sosinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou á carreira das lettras, deu-se ao governo da casa algum tanto, e muito á leitura da copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos, desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e bispos, parentella illustrissima de sua mãe. Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D. Theodora Barbuda de Figueirôa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o necessario para ter juizo. Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora. _Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca; e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com perfeição justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na área de quatro leguas, ou mais. Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rôta da pinga, o marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a pedir contas á memoria das riquezas confiadas. Os livros de Calisto Eloy eram chronicões, historias ecclesiasticas, biographias de varões preclaros, corographias, legislação antiga, foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc. Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela rama; porém, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava correntemente o grego. Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal. Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em decifrar cipos e inscripções, em restabelecer épocas e successos controvertidos por authores contradictorios. Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, não dava péga a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar geração já sepultada ha setecentos annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casára com a filha de um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um pagem da lança de seu irmão D. Payo Ramires. Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que n'aquella familia se gerára um clerigo grande femieiro, beberrão e lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma vez, perguntára que nome havia; e, como quer que o padre respondesse _Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertará com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de _Bene bibis_ e _male vivis_.»[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente engraçado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy, á conta d'esta injuria dos fidalgos comarcãos, tanto lhes esgravatou nas gerações, que descobriu radicalmente serem quasi todas de má casta. É superfluo dizer-se a qual doutrinação politica pendia o animo do morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das côrtes de Lamego. Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, áquelle congresso mythologico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maya, o Lidador, e com Lourenço Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do andamento da humanidade. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações manuelinas como o convento dos Jeronymos. O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum. Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas gerações das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este senão, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdára de seu tio avô Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealogico pavoroso, o qual gastára sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borrões, travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das linhagens de Portugal_. Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a roda do progresso, com tanto que elle não lhe entrasse em casa, nem o quizesse levar comsigo. Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia municipal de Miranda. Na primeira sessão camararia fallou de feitio e geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se, riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a humanidade havia já caminhado sete seculos depois que Miranda tivera foral. --Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as mesmas. --Mas... retorquiu a opposição illustrada, o regimen municipal expirou em 1211, sr. presidente! V. ex.^a não ignora que ha hoje um codigo de leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto... --Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo! --Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse. --Util a quem? perguntou o presidente. --Ao municipio, responderam. --Approvem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu despeço-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e govérno, segundo os foraes da antiga honra portugueza. Disse; saiu; e nunca mais voltou á camara. II *Dois candidatos* Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos vereadores em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro social com suas mãos impollutas. N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o _Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario. Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do sermão, e da constancia do santo capitão das guardas do barbaro Diocleciano, e da desmoralisação do imperio. Estas puchadas reflexões era o boticario que as expendia, coadjuvado pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana do que é permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e sobejava-lhe tempo para ler historia! Podéra!... Os governos davam-lhe férias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem nutrido e succado de tripa, não aprendia nem ensinava coisa de monta. Que a pobresa é o estimulo das maiores façanhas da intelligencia. _Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si, accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras lettras; porém, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os elles para seu uso. Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastião, que, segunda vez, acabava de ser fréchado no panegyrico. N'este comenos, abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas capacidades, em referencia ao Salomão da terra. --Que dizem vocemecês?--perguntou Calisto benignamente. Continuem... Parece que fallavam do santo. --É verdade, sr. morgado--accudiu o boticario, ajustando os collarinhos percucientes ao lóbulo das orelhas, escarlates do atrito da gomma.--Fallavamos na malvadez dos imperadores pagãos. --Sim!--disse Calisto, com proeminencia declamatoria,--sim! Horrorosos tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes não se differençam tanto dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o presente e praguejar o passado. Diocleciano era pagão, cego á luz da graça: os crimes d'elle hão de ser contrapesados, e descontados, na balança divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porém, dos que prevaricaram fechando olhos á luz da notoria verdade, afim de se fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas estão afistuladas de herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentença d'elles, novos Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos! Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual, abanando tres vezes e de compasso a cabeça, dava assim a perceber que abundava na admiração do seu amigo e consocio erudito em historia romana. Obrigado ás orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel, continuou: --Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma imperial! Os costumes de nossos maiores são mettidos a riso! As leis antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas modernos, que já não servem á humanidade, a qual, em consequencia de ter mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Allusão bervada aos vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas municipalenses.) _Credite, posteri_!--exclamou Calisto Eloy com enfase, nobilitando a postura. O latim não lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de Villa-Real. E repetiu: _Credite, posteri_! N'esta occasião, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueirôa, e disse ao esposo: --Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que é uma hora, e já lá vae o padre prégador para casa. Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e foi ao jantar, sacrificando-se á regularidade das suas horas inalteraveis de repasto. Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas illustrativas, ao alcance das capacidades. Um dos mais graves e anciãos lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos entremezes do entrudo exclamou: --Aquillo é que dava um deputado ás direitas! Um homem assim, se fosse a Lisboa fallar ao rei, as contribuições haviam de acabar! --Isso não, perdoará vocemecê, tio José do Cruzeiro,--observou o mestre-escola--os impostos é necessario pagal-os. Sem impostos, não haveria rei nem professores de instrucção primaria (observem a modestia da gradação!) nem tropa, nem anatomia nacional. O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_, as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria, lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario, que resmungou: --Anatomia nacional! --Que é?!--perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo. --Parece-me que é asneira!--respondeu o outro com certa indecisão. Proseguiu, concluindo, o mestre-escola: --E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que venho a receber seis e cinco! Que paiz!... O senhor morgado disse bem: estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas! O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola. III *O demonio parlamentar descobre o anjo* Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de Freimas. Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons. Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare. Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda. O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado secretario da junta de parochia. Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores, que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor Cincinnatus: --Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal cultivados este anno... Estavam proximas as eleições. A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano, cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil, que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa derrota. Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger. Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram. Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se. Á excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A que não tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato, professor de instrucção primaria, secretario da junta de parochia, e ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votára em si o mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento com que perorara em pró da eleição de Calisto! Fragilidade humana! Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislação dos bons tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo remoçar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia á margem do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes nas ribas maritimas, ao stridor de uma açude e das rodas de duas azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento, benziam-se, pensando que o sabio treslêra, ou coisa má lhe entrara no corpo. A sr.^a D. Theodora Figueirôa, vendo o marido assim tresnoitado, seguia-o ás vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeço sobranceiro ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: «Dão-me com o homem doido!» Chegou o tempo de partir para a capital. O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos. Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e orelheira, substancia quotidiana da alimentação de Calisto Eloy. Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia antiguidade com a fundação da companhia. A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapéo armado, calção de tafetá e espadim, com que elle, na qualidade de fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procissões de Miranda, pegando ao pallio. A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira, e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de perigos, superiores á descripção de que somos capaz. De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para não descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora. O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de lagrimas. IV *Asneiras da erudição* Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella porção da Lisboa antiga, a cada esquina havia um monumento á espera de archeologo competente. Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que os lamaçaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaçaes em que elle desastradamente escorregára, e d'onde saíra mal-limpo, e assoviado por marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica, atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a _inclita Ulissea_ de Luiz de Camões! O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada de ares e muito desafogada na rua da Procissão, quiz-lhe parecer que a atmosphera da capital não cheirava bem. Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc. por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu: «...E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque é coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, não só é por natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito para algumas doenças, etc...» Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez de rapé: --O meu classico não podia mentir. Este mau cheiro é desconcerto da minha membrana pituitaria. E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante. Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua. Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, _e assim_, dizia o classico, _não errará quem disser que ella é causa das boas vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões que conservam as mulheres_. Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso, não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os comestiveis. Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs. Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca para os doentes de febres_. O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas. Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que abria, o proverbio da sagrada escriptura:--_Vinum bonum laetifical cor hominis_.[4] Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e lusitanissimo escriptor Luiz Mendes. Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_ claudicára como patranheiro em materia de chafarizes. O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz Marinho de Azevedo. --Cá está!--exclamou Barbuda em soliloquio--cá está explicada a minha dôr de barriga! era destemperança do figado. O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho: «Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.» --Fie-se lá a gente!--monologou o deputado.--É preciso cuidado com os classicos a respeito da agua de Lisboa. E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes termos: «É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella: excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes humanas.» Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes. Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do disparate, e voltou-lhe as costas. Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas toda a substancia d'este importante elemento. Decepções sobre decepções! Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos: «Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas, nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o recitasse.» Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons authores da sua predilecção. Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos. Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella applicação.[6] O erudito respondia aos chacoteadores. --Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a beberam em sua fonte_. Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a meia-voz: --Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo! Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados... Se Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o chafariz dos cavallos. V *Estreia parlamentar de Calisto* Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina monarchico-absolutos. O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança da justiça divina. E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas; jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu! A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha, que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias. O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de Estevães. Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa, que mentiram «mais do que permitte a força humana.» Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve mão de si, e disse: --Sr. presidente! O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o. Continuou Calisto: --Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a Labão... O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias, observou: --O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier. --Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu _jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel. Disse. E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu amigo abbade de Estevães. A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel. --Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente--murmurou-lhe o abbade de Estevães. --A verdade é de todas as horas, abbade--redarguiu Calisto--mal de nós se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!... Deixem-me ir assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero, Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada com o governo. --_Prudentia in omnibus_, diz o sabio--retorquiu o abbade.[7] O morgado accudiu logo: --_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse Jesus, o sabio dos sabios.[8] VI *Virtuosas parvoiçadas* A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao esperançoso Berryer de Portugal. Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações. Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas do dia, e dos serões do inverno. Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado. Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem _perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia! As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade! Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial phylosophia d'estas tramoias de theatros! Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou: --_Obstupui_!... O abbade zomba!... _O estado_!... o meu collega disse o estado! --Sim o thesouro... confirmou o clerigo. --A res publica? o dinheiro da nação? --Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação? --Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do theatro de Lisboa! --Vinte contos de réis. Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa. Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos Fabricios. Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios que entre si disseram: --Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance! Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse: --Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico. Sr. presidente... --Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e fulminante--Peço a palavra! O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava subsidio, e sentou-se. --Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, disse o presidente. O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou d'este theor: --Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos, 3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos, como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr. presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.) Sr. presidente--continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de quem teme que o raio inspirativo se arrefente--sr. presidente! Eu tenho o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr. presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles, que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois será o declamarmos com o epico: Em Babylonia, sobre os rios, quando De ti, Sião sagrada, nos lembramos, Alli com gran saudade nos sentamos O bem perdido, miseros, chorando. Os instrumentos musicos deixando Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a prophecia: Os instrumentos musicos deixando Nos estranhos salgueiros penduramos, _Hic_, sr. presidente: Quando aos cantares que já em ti cantamos Nos estavam imigos incitando. Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso: (_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_). O _orador_:--Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar, governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue! Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a. E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas, visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados, chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio, em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura, expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa, uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.» _Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios sujeitos. Gargalhada compacta). _O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por noite! Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III, tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado no mechanismo da garganta? _Uma voz_: Fez-se a civilisação depois. O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação! Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar comnosco a sua selvatiqueza! Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos, quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que, pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente. Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem! Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca! Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha de edificar e converter á civilisação. Disse. _Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo! Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto de Barbuda. VII *Figura, vestido, e outras coisas do homem* Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os na phantasia estranha. Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem. Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que seja. As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio. O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado. Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse, mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a abotoadura sempre aproveitada. Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe um assalto ao chapéo. Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase, ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as modas tinham fiscal subsidiado no parlamento. Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim, pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.» Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto. Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano, sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia realista. Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que, nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda, da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez. Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo. Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas... Sê bem vindo!» Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço: --Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança. Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata, disse: --Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a --Eu sou o conde do Reguengo---disse o outro, attonito. --Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de Barbuda? --Sou eu mesmo. Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se, mandou sentar o conde, abriu o livro e disse: --Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que leia. O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou. Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando, não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto, (as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de Alcantara, que para elle se viera.» O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso: --E então? --É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de Duarte Nunes? --Sou--respondeu ufanamente. --Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de lei. --O que d'ahi infiro--disse sarcasticamente o conde--é que v. ex.^a procede de um filho natural. --A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos Alvins--redarguiu triumphantemente Calisto. --Coito damnado!--retorquiu o conde. --Discutamos esses pontos graves--voltou serenamente o morgado da Agra, tomando rapé.--A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr. conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno Alvares Pereira por Alvins. O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse: --No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me embora, com a vergonha de ter aqui vindo. --Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha de dizer que v. ex.^a veiu cá. E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que dizia _Martim Annes de Barbuda_. VIII *Faz rir o parlamento* Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche. Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar alegremente a camara, desejosa de ouvil-o. Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala, ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio: --Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III. Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de 1582. Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu. Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente.... _Um deputado_: Faz bem. _O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas, como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas carroças... _Um deputado_: Carroças são de lixo. _O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas... Por entre estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro, que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco, que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres victimas. _Um deputado_: Vê coisas magnificas! _O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o lemma d'aquelle devasso festim... (_Pausa. O orador conserva o braço em postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão, porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr. presidente! _Um deputado do Porto_:--Peço a palavra. _O orador continuando_: --De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa? Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros) armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.» Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram? Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou ronhas? Que sabe a policia d'elles? E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a nós, receiosos de que os conheçamos a elles! Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_, que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes; aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões... como tambem aos moços fidalgos... se dê o tratamento de senhoria.» Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez, praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D. Diniz e D. João I amaram cordialmente. Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a benevolencia de m'as tolerar. Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo! Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra. _Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de lei? _O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os desmontou. Conclui, sr. presidente. _O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio de Meirelles, e está fechada a sessão. O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Eloy. --Que sairá d'aquelle arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abbade de Estevães. --Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros. Calisto sorriu-se e disse: --Estou bem aviado, se elle escreveu livros! IX *O doutor do Porto* O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o parvo laureado quer guindar-se. Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos. Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles. Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra ultrajada. Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos: bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar, não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és deputado; d'aqui a pouco serás ministro.» De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do inventor da aguardente de nabos. Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia lhe deparara. O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares, alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e disse: --Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social. Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender, fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios, assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me subia aos olhos exsudando lagrimas. (_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da camara é tola_). _O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.) Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes, blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial? Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim? Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde? (_Apoiados prolongados_.) Na minha terra... (quem quererá já dizer!) nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e Regras? Quem sr. presidente? (_Calisto pede a palavra_.) _O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas, tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar, que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo! Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11] O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos. _O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus! _O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados. _O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo? _O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto. Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo. Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr. presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao civilisador principio? (_Muitos apoiados_.) Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do sol esplendorosissimo. _E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de repetições, aqui ponho fecho_.[12] _O orador foi comprimentado_. O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de Benevides de Barbuda. --Sr. presidente!--disse Calisto--Eu entendi quasi nada, porque o sr. deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle feitio! (_Ordem_! _ordem_!) O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza! Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio. O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar phrases não parlamentares. O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices. (Vozes: _Ordem_! _ordem_!) O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim, todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém, querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das Camaras_.» (_Riso_). O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes: _apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a? Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco Manuel de Mello na _Carta de Guia_. O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.) O _orador_: Muito bem o que?... Vae-me parecendo historia isto, sr. presidente!... Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e despreza-me!... Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios? A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da Grecia e Roma. Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio. O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica. Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios: digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge, socega, e não falles.» Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos, encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração. Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz. Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao paiz. O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos, e acrescentava: --Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr. Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e nos ponha ambos fóra de cambulhada. X *O coração do homem* Entremos no coração de Calisto Eloy. Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto de tanto alcance na biographia d'este personagem! Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle. Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste. Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo. Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa natal coisa para sérias saudades. Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse: «Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e depressa exprime a muita poesia de toda aquella família. Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de aranha do tecto. Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram. Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado, diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario. Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce vida! Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe: --Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes? --Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus classicos. A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do montante de fogo vedar a entrada! Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia, famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o serão. Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa. Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo coração! Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo das Cornelias, Poncias e Arrias. Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra. Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo! Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio. XI *Santas ousadias!* Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja severo e intolerante com as fragilidades do coração. Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada e outra solteira. Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de riso civilisado, e disse-lhe: --Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!... Deixe correr o mundo... --Que remedio!--atalhou o morgado--mas o que eu farei é sacudir o pó dos meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa. Não voltarei a casa do desembargador Sarmento. --Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos receba. --Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto. --E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio... --De qual Petronio?--interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo. --Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na vida privada da mulher? Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse: --Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora... Quem sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho máo!?... --É verdade--assentiu o abbade;--mas é justo e urbano que v. ex.^a não vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo. --Não me ensine as leis da cortezia, abbade--replicou algum tanto affrontado o fidalgo da Agra.--Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D. Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos a sentarem-se na ourella dos thronos. --Não ponho duvida n'isso;--obtemperou o abbade, e accrescentou com malicia e bem rebuçada ironia--alguns fidalgos muito mal-creados que tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez; foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem plebe grosseira e ignobil. --Acertadamente--disse o morgado. --Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!--insistiu o deputado bracharense.--A minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto dos proprios delinquentes. --Mas eu não sou apostolo--acudiu Calisto.--Conheço que já não vim a tempo, nem a missão me condecora. Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios, e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos. N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado. Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica. --Ferro penetrante--exclamou o desembargador--que me traspassou este corpo já fraco, e pendido á campa. Calisto apertou-o nos braços e clamou: --Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes. Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina, minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da _Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem vossos, e os vossos males fossem meus.» Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com mui entranhado affecto: Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza! Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma! D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos, rompeu elle n'esta pergunta: --A sr.^a D. Catharina já leu Homero? --É romance? disse ella. --Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe. Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do thalamo ditoso. Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas. --Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho. --Não conheço, disse a dama... Li _Le mariage_, de Balzac. --Não sei quem é: deve ser francez. --Pois não leu? --Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui. --É possivel... balbuciou D. Catharina. --E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito nupcial!... --E isso que tem?--atalhou a dama--é a moda... --A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama: «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens convisinhassem de mim!... --Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha do desembargador. --Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora. --Como assim?! quem o auctorisa... --As lagrimas de seu ex.^{mo} pae. --Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu pae... A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o são. --Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores referencias do que estas lhe faz a voz do mundo. --A mim? --Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra. --Mas--interrogou irada e rubra de despeito a dama--que ousadia a de v. ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!... Olhe que essas liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa. --Não se moleste assim, minha senhora--tornou Calisto.--Respeito tanto v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta, que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado espontaneo do bem de todos. --Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição--disse D. Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto. Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto. Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle, dizendo: --Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama... Amolleceu-a? Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito consternado, e murmurou: --Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes. E repetiu em tom cavo: «...Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de prudencia, senão obra de magua.» Depois, suspirou, e cheirou rapé. XII *O anjo custodio* Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e indireitar as tortuosidades da humana maldade! Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina Sarmento. Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas, enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão. O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito, relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas. Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua portugueza, e crear alentos para atacar velhacos! Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana. --Quem é um ratazana?--pergunta D. Bruno. É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome, porque v. ex.^a o não conhece. --Que quer elle? --Fallar com v. ex.^a Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer. Interrogou o criado com máo semblante o morgado. Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado se sabia lêr. Disse que não o interrogado. --Pois entrega esse papel a s. ex.^a D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou: --Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado Custodio? --Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje. --Esse homem que ahi está dá ares de criado? --Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que parece um colete. --Manda-o entrar para aqui. D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si: --Que Custodio é este!? N'isto, assomou Calisto Eloy. Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado. --Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_. V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda. --Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar... --Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!--tornou Bruno. --Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento. Abriu o moço a bôcca, e disse: --Ah... agora é que eu entendi... Mas... queira v. ex.^a sentar-se... Eu não sei que allusão possa ser esta... que... a respeito de... Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou o enleio de Bruno, dizendo solemnemente: --Vou fallar. E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem receia ser ouvido. --Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso Mascarenhas. --O sr. Bruno de Mascarenhas--proseguiu o morgado--é solteiro. Cedo ou tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da raça. (Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes eram pouco entendidos em estylo garrafal.) Façamos de conta--proseguiu Calisto--que v. ex.^a é hoje, como será, volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá encontrou e lá encerra. A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica, senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae n'ella. De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo} Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como hão de expressal-a os que a não sentiram ainda? --Não sei...--respondeu Bruno--Só, no caso de se darem as circumstancias que v. ex.^a diz, é que se póde responder. --Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de sua mulher... --Sim... --Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga, e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o socego e contentamentos dos annos ultimos da vida. Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está gosando, e lhe augura a elles. É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno de Mascarenhas. --Eu!...--exclamou o moço com artificial espanto. --V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno! --Mas que houve em casa do Sarmento?--perguntou alvoroçado o fidalgo. --O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia... Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças? D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no primeiro instante: --Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos serios á sr.^a D. Catharina. --Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas? perguntou com solemnidade o Barbuda. --Juro pela honra de meus avós. --Que vae fazer v. ex.^a?--tornou Calisto. --Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no paquete de ámanhã para França. --Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um amigo do desembargador Sarmento... --Nada direi sr. Barbuda. --Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae. --E saíu com os olhos marejados. * * * * * D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.» É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado. Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do magistrado, e disse-lhe: --Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se. Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião interpolladas de agradecidas lagrimas. XIII *Regeneração* Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava, matou-te! Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal, entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo, para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.» Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida. Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que as lagrimas o não deixavam continuar. Que dama resistiria, depois d'isto, á morte? Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em artigo de morte, e entrouxar para a eternidade. N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco, de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama, que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito, perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido não canonico. Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D. Adelaide leu a sua irmã lagrimosa. D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos, abraçou-se n'elles, e disse á irmã: --Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me n'estes remorsos!... Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido, fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias. E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade de duas almas, ligadas por paixão. Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo, com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou: --Céos! que injustiça! Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar. Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou, desentallando-se dos suspiros: --Oh! que infeliz! que infeliz! Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse affectuosamente: --Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos por egual. Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado, representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa. Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim. É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade. O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate, Calisto Eloy, aquelle anjo! Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa! Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia: --Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que prazer o nosso se... ---Oh! papá...--atalhava quasi sempre a menina--pois eu havia de casar com elle?... --Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza... que mais querias tu, filha?--perguntava o pae. Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo. --Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da creatura!... No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo o encarecimento. XIV *Tentação! Amor! Poesia!* Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de amor! Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa. Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento adultero. Honrados desejos! Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano os cimentos da sua obra. Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?! O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e disse-lhe: --Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote. --Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;--disse Calisto, esvasiando a bolsinha. Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno coração de oiro esmaltado com iniciaes. Ah!--acudiu Adelaide pressurosa--isto não!...--E retirou sofregamente o coraçãosinho. Algum dos circumstantes disse: --Então o sr. morgado não serve para administrar corações?! --Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa estima--respondeu com adoravel graça a menina. Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal. D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente. Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída. E aqui está que Calisto Eloy--ia me esquecendo dizel-o--tambem sentiu a queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente. Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o dote da sua amiga. E ajuntou: --V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara... O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada. Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu peculio. Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador, desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho. A partida acabou taciturna e triste. Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca, apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos do soneto V; Dos mais fermosos olhos, mais fermoso Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino Lume, mais branca neve, oiro mais fino, Mais doce fala, riso mais gracioso: D'um Angelico ar, de um amoroso Meneo, de um spirito peregrino S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino Me sinto, e tanto mais assi ditoso. Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do terceto: Não cabe em mim tal bem-aventurança! N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim, escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com orthographia mais imaginosa que a minha: «Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião. Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá. Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua mulher muito amiga, _Theodora_.» Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e leu no soneto XXXIII: Eu vi em vossos olhos novo lume, Qu'apartando dos meus a nevoa escura. Viram outra escondida fermosura, Fóra da sorte e do geral costume... Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio. Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito. Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro. Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em peito portuguez: Senhora de grão primor, Meu amor, Formosissima deidade, Arde meu peito em saudade, Quem fui hontem, não sou hoje; Minha alegria me foge, Se vos olho. Já captivo em vós me acôlho, Havei de mim piedade; Sêde minha divindade; Não leveis a mal que eu chore Com tanto que vos adore Gentil e nobre menina Como Camões a Cath'rina E como Ovidio a Corinna. Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um salpicão frito. Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se, saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou o na ardua empreza. Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao outro: --Quatro pés nunca vestiram luvas. Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira: --As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos. Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora. Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino. A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo: --Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de roupagens novas e hodiernos afeites!... Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr. Liborio. Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental. N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram, aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota. Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas pugnas inglorias! XV *Ecce iterum Crispinus...* Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar. --Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!--disse elle--_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14] Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros: INJUSTIÇA! IMMORALIDADE! IMMUNDICIE! INSULTO! INFERNO! Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha o ranger de dentes, _stridor dentium_! Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr. presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente, _o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S. Miguel_.[15] Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu: --Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana, rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma gallinha viva com um sacarolhas_.[16] --_Vozes_: Á ordem! Á ordem! --_O orador_: Pois em que me transviei da ordem? --_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei D. Miguel_. --_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia. --_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia. --_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr. presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_: Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o genero especie.»[17] É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com evidencia_. Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso _aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muito