Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by Duarte Galvão This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: Chronica de el-rei D. Affonso Henriques Author: Duarte Galvão Release Date: March 20, 2006 [EBook #18026] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. *** Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) Bibliotheca de Classicos Portuguezes Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo (VOLUME LI) Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques POR DUARTE GALVÃO _ESCRIPTORIO_ 147--Rua dos Retrozeiros--147 LISBOA 1906 Bibliotheca de Classicos Portuguezes Proprietario e fundador _Mello d'Azevedo_ Bibliotheca de Classicos Portuguezes Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo (VOLUME LI) Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques POR DUARTE GALVÃO _ESCRIPTORIO_ 147--Rua dos Retrozeiros--147 LISBOA 1906 PROLOGO A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições; agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras. Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos. As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados. A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente, guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto mui antigo que o chronista soube approveitar. É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo. Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção. Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag. CXXVII). ==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517 «carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins. El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade. E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano, seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460, ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis, seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mór importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina. _Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle qualificado por Damião de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina João Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se modernamente: _Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC. XXVI._==fol. «Nesta Chronica, que Duarte Galvão _diz_, que fez de novo (são palavras de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção, como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel, assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar escritos alhêos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão sómente lhe _apurára a lingoagem antiga em que estava escrita_.» «E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim: «Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques, que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava, como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes, Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita Chronica==. Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias desta Chronica. A marcada B--12--8 tem no final a data 1568. Bello exemplar é a B--4--2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca a B--4--4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas notas e explicações do texto. Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos. Antes d'isto a publicação da _Monarquia Lusitana_, pòde suppôr-se, tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão. Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto (1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes. Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela 1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726. «O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana, «se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma _copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos». A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da asserção de que a copia fiel gozou da luz publica. No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo seguinte:--«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor, senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada. Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu Duarte Galvão.» Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente e delicado. São suas palavras: «Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr. Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»... A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada. Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da Monarchia Portugueza. Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle dedicado um capitulo inteiro ao texto e á _refutação_ das fabulas da _Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original. Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o--1824). Ahi encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez». Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza nos metteria para a qual não temos forças. Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de D. Affonso Henriques--seu casamento com D. Fernando Peres de Trava, Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem já era casada) a usurpou,[2]--suas desavenças com seu filho e guerras que contra elle suscitou,--a jornada que por causa do exito de uma destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;--a prisão a que D. Affonso Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com o Papa:--todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado, como fortemente combatido. Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D. Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa--1825), assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto d'um dos nossos antigos Chronistas. Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada, nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a verdade de toda a narrativa de Galvão. Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão d'infamias á propria _irmã_ dessa mesma princêza, com quem igualava em nobreza! Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D. Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para certificar-se do que era verdade. Sobre o Bispo _negro_ não deixa de parecer especiosa a explicação que offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:-- «Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma _D. Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge nunca depôz o habito dos _Negros_ como então chamavão aos que professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um _Bispo Negro_, para não dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo». Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285. Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura. A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os Codices que se guardavão na Torra do Tombo. A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia daquelles tempos. Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas Manuscriptas. A maior parte são compilações. Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==. Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura. _G. Pereira._ CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL, COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ, Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. OFFERECIDA Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR POR MIGUEL LOPES FERREYRA LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA. M. DCC. XXVI. _Com todas as licenças necessarias_. SENHOR Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D. Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V. Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister. _Miguel Lopes Ferreira._ AO EXCELLENTISSIMO SENHOR *FERNÃO TELLES DA SILVA* Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico, e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c. Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como desejo. Criado de Vossa Excellencia _Miguel Lopes Ferreira_ MIGUEL LOPES FERREIRA AO LEITOR Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural, cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras, que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem, elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis, e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão rara como desejada. _Vale._ PROLOGO DO AUTHOR Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal, seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande louvor destos mesmos Reis de Portugal. Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida, nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem parecer adulação o que digo. Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros, em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas, terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio, poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes, grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes, outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos, para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e proseguimentos de seus maravilhosos effectos. Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar, e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram, pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar, que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se, assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama, e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu, e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo, que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo fazer, me não pude, nem soube negar. LICENÇAS DO SANTO OFFICIO Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726. _Rocha.--Fr. R. de Allencastre.--Cunha.--Teixeira.--Silva.--Cabedo._ DO ORDINARIO _Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da mesma Ordem nestes Reinos, &c_. Illustrissimo e Reverendissimo Senhor Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira, dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros, capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim, em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos, com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha, porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar, e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos, porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes, uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal, realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine». Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade, um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de 1726. _Fr. José de Sousa_. Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726. _D. F. Arcebispo de Lacedemonia_. DO PAÇO _Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_. SENHOR Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N. Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726. _D. Jose Barbosa C.R._ Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726. _Pereira.--Galvão.--Teixeira.--Bonicho._ _Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal_ CAPITULO I _Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por Condado com certas condições_. Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal, fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D. Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França, e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por El-Rei D. Affonso recebidos. Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias, por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador, donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira, cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D. Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa, dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe aprouvesse, como de cousa sua propria. CAPITULO II _Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e donde se chamou Portugal_. Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos, e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha; porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D. Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi, que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D. Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi, era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja, por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal, pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em tanto gráo illustrados. CAPITULO III _Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_. Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso Senhor de mil noventa e quatro. Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego; porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D. Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria, de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança, com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos amor, e cuidado como se fora são. E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos, lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz, e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos da Fé». Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre, como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda aleijão, como se nunca tivera nada della. Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando, e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade, que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei ser seu nacimento como disse. CAPITULO IV _Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu filho ante que falecesse_. Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez, (1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem, conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira. «Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego, porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça, nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma braçada. «Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo, e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante, ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita honra prosperada». CAPITULO V _Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi Dona Tareja_. Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes, e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D. Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D. Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D. Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao Principe D. Affonso Anriques com sua mãi. CAPITULO VI _Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a sua mãi com elle_. Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher, e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou». Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate, ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso filho, se mais poder que nós». Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior poder temos que elle». A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi». Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja». Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra, e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi. CAPITULO VII _Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um Rei Mouro cercar Coimbra_. Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia, aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella, e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D. Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que os tinham. Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar, e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117). CAPITULO VIII _Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_. A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei, e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com ella. Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera fazer. CAPITULO IX _Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas Moniz_. Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto, que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a graça de Deos». CAPITULO X _Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de Guimarães_. Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então D. Egas Moniz, e disse. «Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou». Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua molher, e filhos tornar para Portugal. CAPITULO XI _Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria_. Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães, onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes, começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus, passáram alguns dias. E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D. Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade. CAPITULO XII _Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros daquelle tempo_. Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria, e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa gente, que era bastante para peleijar com elle. E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio, e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D. Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente. Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal, ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado Cavalleiro. Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S. Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos, conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia deixar de ser. CAPITULO XIII _Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como sentaram seus arraiaes um á vista do outro_. Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D. Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D. Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova, mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor, mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida, que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes, foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar, que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor de mil cento e trinta e nove (1139). CAPITULO XIV _Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez sobre esso_. Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella, e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha». Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos ajuntados, assi começou. «Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando, que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos, pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal, morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão, e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós, e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio, faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde me faça mester vossas mãos, e ajuda». Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam, responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia, elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde elles decendiam. CAPITULO XV _Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós_. Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos». E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse, e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo: «Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S. Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados, e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada fama. CAPITULO XVI _Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_. Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria. Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves, que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D. Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz. Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados, correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado, e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem, não havia poder maior que os não temesse. Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor, nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa, que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para peleijar». Respondeo elle e disse: «Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue, como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é, será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos: «Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito, e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei, e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real, por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil cento e trinta e nove (1139). CAPITULO XVII _Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento della_. Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros. Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D. Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes. Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram; porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que disse. CAPITULO XVIII _Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_. Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo, como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem, e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos, pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta dinheiros, e desta maneira se trazem agora. Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão, outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar de cativeiro. Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres. Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado, e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S. Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa. CAPITULO XIX _Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de Christo_. Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão, de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores, que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S. Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam, os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de vagar. Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S. Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes. Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci, morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras, venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo morto». CAPITULO XX _Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar se tornou para Coimbra_. Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos, que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo. El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N. Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra. CAPITULO XXI[4] _Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou com o Bispo_. Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo assim comprir fosse interdito posto em todo o reino. Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo: «Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo. Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo». Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?» Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo respondeu: «Hei nome Martins».--«E teu pai como se chamava».--Colleima disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle «eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei: «Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo, com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo. Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé. CAPITULO XXII _Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_. A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser, porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja. Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino? Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão, por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos, por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los. CAPITULO XXIII _Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou em Coimbra_. Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem, segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia escapar.» Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois, Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros? Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês, dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal, e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.» Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da guisa que ante manhã andou duas legoas. CAPITULO XXIV _Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle passou_. Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros: «Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui, e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei: «Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,» querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei: «Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse: «Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em que lugar. Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle, e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é, ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa. E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias. Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria. CAPITULO XXV _Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos Mouros_. El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria, a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e vir á batalha com elles. Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D. Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a Coimbra. CAPITULO XXVI _Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D. Anrique de Lara_. Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal ficasse sempre aos Reis de Portugal. Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra, foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D. Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo depois para tomar a Villa de Santarem. CAPITULO XXVII _Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D. Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_. Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma, por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto, era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos, com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e temerosa, porque lançavam por alli os que eram