Project Gutenberg's Lendas e Narrativas (Tomo I), by Alexandre Herculano Copyright laws are changing all over the world. Be sure to check the copyright laws for your country before downloading or redistributing this or any other Project Gutenberg eBook. This header should be the first thing seen when viewing this Project Gutenberg file. Please do not remove it. Do not change or edit the header without written permission. Please read the "legal small print," and other information about the eBook and Project Gutenberg at the bottom of this file. Included is important information about your specific rights and restrictions in how the file may be used. 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LENDAS E NARRATIVAS (Tomo I) ADVERTENCIA A Advertencia que precedia a anterior edicao, e que adiante vae repetida, explica sobejamente porque as primeiras tentativas de um genero de escriptos, que so muito tarde foi cultivado em Portugal, se publicaram em volumes, quando talvez nao devessem sair das columnas dos jornaes, onde viram a luz publica. Consideramo-los entao, e consideramo-los agora apenas como balisas no campo da nossa historia litteraria, balisas que nos parecem ainda mais toscas actualmente; porque ao passo que a reflexao e o tempo nos amaduram o espirito, os defeitos de composicao e de estylo cada vez se vao avolumando mais aos olhos da nossa consciencia retrospectiva. Reputando-os, todavia, hoje como ha oito annos, simples marcos milliarios, a presente edicao absolve-se pelos mesmos titulos porque devia ser absolvida a edicao anterior. Esperavamos, e dissemo-lo sinceramente, que estas desadornadas tentativas esqueceriam em breve offuscadas pelas brilhantes composicoes que comecavam a avultar no caminho que haviamos aberto. O publico enleodeu de outro modo. Sem deixar de apreciar o melhor, nao esqueceu estes mal delineados esbocos, que ficaram na sua memoria como nos ficam para a saudade os dias do nosso balbuciar infantil. Quinze a vinte annos sao decorridos desde que se deu um passo, bem que debil, decisivo, para quebrar as tradicoes do Alivio de Tristo e do Feliz Independente, tyrannos que reinavam sem emulos e sem conspiracoes na provincia do romance portugues. Nestes quinze ou vinte annos creou-se uma litteratura e pode dizer-se que nao ha anno que nao lhe traga um progresso. Desde as Lendas e Narrativas ate o livro Onde esta a Felicidade? que vasto espaco transposto! E todavia, apesar do immenso talento que se revela nas mais recentes composicoes, quem sabe se entre os nomes que despontam apenas nos horisontes litterarios, nao vira em breve algum que offusque os que nos deixaram para nos somente um bem modesto logar? Oxala que assim seja. Os que nos venceram n'esta lucta gloriosa saberao resignar-se como nos nos resignamos. Ajuda, maio de 1858. ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDICAO Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram impressos, em epochas mais ou menos remotas, nas duas publicacoes periodicas o Panorama e a Illustracao, bem como o foram nestes ou em outros jornaes os que tem de formar o segundo volume das Lendas e Narrativas, colleccao que, se trabalhos mais arduos o consentirem, sera continuada com alguns outros, apenas esbocados ou ineditos no todo ou em parte, que ainda restam entre os manuscriptos do auctor. Corrigindo-os e publicando-os de novo, para se ajunctarem a composicoes mais extensas e menos imperfeitas, que ja viram a luz publica em volumes separados, elle quiz apenas preservar do esquecimento, a que por via de regra sao condemnados mais cedo ou mais tarde os escriptos inseridos nas columnas das publicacoes periodicas, as primeiras tentativas do romance historico que se fizeram na lingua portuguesa. Monumentos dos esforcos do auctor para introduzir na litteratura nacional um genero amplamente cultivado, nestes nossos tempos, em todos os paizes da Europa, e este o principal, ou talvez o unico merecimento delles; o titulo de que podem valer-se para nao serem entregues de todo ao esquecimento. A singeleza da invencao, a pouca firmeza nos contornos de alguns caracteres, o menos bem travado do dialogo, imperfeicoes que nem sempre foi possivel remediar nesta nova edicao, revelam a mao inexperiente. Na historia dos progressos litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe a liberdade do pensamento, e que o engenho pode apparecer a luz do dia sem os anginhos de uma censura tao absurda na sua indole, como estupida na sua applicacao e esterilisadora nos seus effeitos; nessa historia, dizemos, esta nova edicao deve ser julgada principalmente com attencao ao seu motivo, a prioridade das composicoes nella insertas, e a precisao em que, ao escreve-las, o auctor se via de crear a substancia e a forma; porque para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos. A critica para ser justa nao ha-de, porem, attender so a essas circumstancias: ha-de considerar tambem os resultados destas tentativas, que, a principio, e licito suppor inspiraram outras analogas, como por exemplo os "Irmaos Carvajales" e "O que foram Portuguezes" do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria dos grandes talentos da nossa litteratura a emprehenderem composicoes analogas de mais largas dimensoes, e melhor delineadas e vestidas. Todos conhecem o "Arco de Sanct'Anna", cujo ultimo volume acaba de imprimir o primeiro poeta portugues deste seculo, o "Um ano na Corte" do Sr. Corvo, cuja publicacao se aproxima do seu termo, e o "Odio Velho Nao Cansa" do Sr. Rebello da Silva, ensaio que, se as eloquencias parvoas e semsabores dos dicursos academicos nao tivessem tornado indecentes as allusoes mythologicas, se poderia comparar ao combate com o leao de Citheron, que revelou a Grecia no moco Hercules o futuro semideus; porque no Odio Velho comeca a manifestar-se o auctor da "Mocidade de D. Joao V", romance de que ja se imprimiram algumas paginas admiraveis, mas que na parte inedita, que e quasi tudo, nos promete um emulo de Walter-Scott. Emfim o "Conde de Castella" do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepcao, posto que ainda incompleta, foi porventura inspirado pelo exemplo destas fracas tentativas, e das que, em dimensoes maiores, o auctor emprehendeu no Eurico e no Monge de Cister. Caracter grave e austero, dignos dos tempos antigos, e que a providencia collocou em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos generos de corrupcoes, como uma condemnacao muda; homem sobre tudo de sciencia e consciencia, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes eminentes para o campo do romance historico, onde ninguem, talvez, como elle poderia fazer a Portugal o servico que DuMonteil fez a Franca, isto e, popularisar o estudo daquela parte da vida publica e privada dos seculos semi-barbaros, que nao cabe no quadro da historia social e politica. Taes foram, entre outros, os mais importantes resultados da introduccao do genero. No meio deste amplo desenvolvimento de uma literatura nova no paiz, o auctor das seguintes paginas merecera talvez desculpa de recordar que estes ensaios, inferiores as publicacoes que se lhe seguiram, foram a sementinha d'onde proveio a floresta. Seja-lhe pois licito consolar-se na sua inferioridade com haver precedido na ordem dos tempos aquelles que, na affeicao do publico, devem provavelmente faze-lo esquecer. Persuadido de ter por isso direito a indulgencia, resolveu-se a transportar para o livro aquillo que, considerado em si, nao mereceria talvez sair nunca das columnas do fugitivo jornal, salvando assim, nao escriptos cuja apreciacao exija largas paginas na historia litteraria, mas um marco humilde e tosco, que, nesta especie de litteratura, indique o ponto d'onde se partiu. O ALCAIDE DE SANTAREM (950--961) I O guadamellato e uma ribeira que, descendo das solidoes mais agras da Serra Morena, vem atraves de um territorio montanhoso e selvatico desaguar no Guadalquivir pela margem direita, pouco acima de Cordova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma populacao numerosa: foi nas eras do dominio sarraceno em Hespanha. Desde o governo do amir Abul-Khatar o districto de Cordova fora distribuido as tribus arabes do Yemen e da Syria, as mais nobres e mais numerosas entre todas as racas da Africa e da Asia, que tinham vindo residir na Peninsula por occasiao da conquista ou depois della. As familias que se estabeleceram naquellas encoslas meridionaes das longas serranias chamadas pelos antigos Montes Marianos, conservaram por mais tempo os habitos erradios dos povos pastores. Assim no meiado decimo seculo, posto que esse districto fosse assas povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao de um deserto; porque nem se descortinavam por aquelles cabecos e valles vestigios alguns de cultura, nem alvejava um unico edificio no meio das collinas rasgadas irregularmente pelos algares das torrentes, ou cubertas de selvas bravias e escuras. Apenas um ou outro dia se enxergava na extrema de algum almargem virente a tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte nao se encontraria alli, se porventura se buscasse. Havia, comtudo, povoacoes fixas naquelles ermos; havia habitacoes humanas, porem nao de vivos. Os arabes collocavam os cemiterios nos logares mais saudosos dessas solidoes, nos pendores meridionaes dos outeiros, onde o sol, ao por-se, estirasse de soslaio os seus ultimos raios pelas lagens lisas das campas, por entre os raminhos floridos das sarcas acoutadas do vento. Era alli que, depois do vaguear incessante de muitos annos, elles vinham deitar-se mansamente uns ao pe dos outros, para dormirem o longo somno sacudido sobre as suas palpebras das asas do anjo Azrael. A raca arabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra familia humana, gostava de espalhar na terra aquelles padroes, mais ou menos sumptuosos, do captiveiro e immobilidade da morte, talvez para avivar mais o sentimento da sua independencia illimitada durante a vida. No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que subia das margens do Guadamellato para o nordeste, estava assentado um desses cemiterios pertencente a tribu Yemenita dos Beni-Homair. Subindo pelo riu, viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas como um vasto estendal, e tres unicas palmeiras, plantadas na coroa do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemiterio de al-tamarah. Transpondo o cabeco para o lado oriental, encontrava-se um desses brincos da natureza, que nem sempre a sciencia sabe explicar: era um cubo de granito de desconforme dimensao, que parecia ter sido posto alli pelos esforcos de centenares d'homens, porque nada o prendia ao solo. Do cimo desta especie de atalaia natural descortinavam-se para todos os lados vastos horisontes. Era um dia a tarde: o sol descia rapidamente, e ja as sombras principiavam do lado de leste a empastar a paisagem ao longe em negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular um arabe dos Beni-Homair, armado da sua comprida lanca, volvia olhos attentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste: depois sacudia a cabeca com um signal negativo, inclinando-se para o lado opposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam alli tambem assentados em diversas posturas e em silencio, o qual so era interrompido por algumas palavras rapidas, dirigidas ao da lanca, e a que elle respondia sempre do mesmo modo com o seu menear de cabeca. "Al-barr,"--disse por fim um dos sarracenos cujo trajo e gestos indicavam uma grande superioridade sobre os outros--"parece que o kaid de Chantoryu[1] esqueceu a sua injuria como o wali de Zarkosta[2] a sua ambicao d'independencia; e ate os partidarios de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por meu pae, nao podem acreditar que Abdallah realise as promessas que me induziste a fazer-lhes." "Amir-al-melek[3],"--replicou Al-barr--"ainda nao e tarde: os mensageiros podem ter sido retidos por algum successo imprevisto. Nao creias que a ambicao e a vinganca adormecam tao facilmente no coracao humano. Dize, Al-athar, nao te juraram elles pela sancta Kaaba[4] que os enviados com a noticia da sua revolta e da entrada dos christaos chegariam hoje a este logar aprazado, antes do anoitocer?" "Juraram--respondeu Al-athar--; mas que fe merecem homens que nao duvidam de quebrar as promessas solemnes feitas ao kalifa, e alem d'isso de abrir o caminho aos infieis para derramarem o sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxala que falhassem as esperancas que poes nos tens occultos alliados. Oxala nao tivesse de tingir o sangue as ruas de Korthoba, e nao houvera de ser o suppedaneo do throno que ambicionas o tumulo de teu irmao!" Al-athar cobriu a cara com as maos, como se quizesse esconder a sua amargura. Abdallah parecia commovido por duas paixoes oppostas. Depois de se conservar algum tempo em silencio, exclamou: "Se os mensageiros dos revoltosos nao chegarem ate o anoitecer, nao falemos mais n'isso. Meu irmao Al-hakem acaba de ser reconhecido successor do kalifado: eu proprio o acceitei por futuro senhor poucas horas antes de vir ter comvosco. Se o destino assim o quer, faca-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassideh[5] que nao soubeste acabar, como aquella que debalde tentaste repetir na presenca dos embaixadores do Frandjat[6], e que foi causa de cahires no desagrado de meu pae e de Al-hakem, e de conceberes esse odio que alimentas contra elles, o mais terrivel odio deste mundo, o do amor proprio offendido." Ahmed Al-athar e o outro arabe sorriram ao ouvirem estas palavras de Abdallah. Os olhos, porem, de Al-barr faiscaram de colera. "Pagas mal, Abdallah,--disse elle com a voz presa garganta--os riscos que tenho corrido para te obter a heranca do mais bello e poderoso imperio do Islam. Pagas com allusoes affrontosas aos que jogam a cabeca com o algoz para te por na tua uma coroa. Es filho de teu pae! ... Nao importa. So te direi que e ja tarde para o arrependimento. Pensas acaso que uma conspiracao sabida de tantos ficara occulta? No ponto a que chegaste, retrocedendo e que has-de encontrar o abysmo!" No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza. Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o principe da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmao Al-hakem. Um grito, porem, de atalaia o interrompeu. Ligeiro como relampago um vulto saira do cemiterio, galgara o cabeco, e se aproximara sem ser sentido: vinha involto n'um albornoz escuro, cujo capuz quasi lhe encobria as feicoes, vendo-se-lhe apenas a barba negra e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pe de um pulo, e arrancaram as espadas. Ao ver aquelle movimento, o que chegara nao fez mais do que estender para elles a mao direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz: entao as espadas abaixaram-se como se uma corrente electrica tivesse adormecido os bracos dos quairo sarracenos. Al-barr exclamara:--"Muulin[7] o propheta! Muulin o sancto!..." "Muulin o peccador:--interrompeu o novo personagem--Muulin, o pobre fakih[8] penitente e quasi cego de chorar as proprias culpas e as culpas dos homens, mas a quem Deus por isso illumina as vezes os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo dos coracoes. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambicao! Sereis satisfeitos! O senhor pesou na balanca dos destinos a ti, Abdallah, e a teu irmao Al-hakem. Elle foi achado mais leve. A ti o throno; a elle o sepulchro. Esta escripto. Vae; nao pares na carreira, que nao te e dado parar! Volta a Kortheba. Entra no teu palacio Merwan; e o palacio dos kalifas da tua dynastia. Nao foi sem mysterio que teu pae t'o deu por morada. Sobe ao sotam[9] da torre. Ahi acharas cartas do kaid de Chantarya, e dellas veras que nem elle, nem o wali de Zarkosta, nem os Beni-Hafsun faltam ao que te juraram!" "Sancto fakih--replicou Abdallab, credulo como todos os musulmanos daquelles tempos de fe viva, e visivelmente perturbado--creio o que dizes, porque nada para ti e occulto. O passado, o presente, o futuro domina-los com a tua intelligencia sublime. Asseguras-me o triumpho; mas o perdao do crime podes tu assegura-lo?" "Verme, que te cres livre!--atalhou com voz solemne o fakih.--Verme, cujos passos, cuja vontade mesma, nao sao mais do que frageis instrumentos nas maos do destino, e que te cres auctor de um crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o guerreiro, pede ella acaso a Deus perdao do seu peccado? Atomo varrido pela colera de cima contra outro atomo, que vaes aniquilar, pergunta antes se nos thesouros do Misericordioso ha perdao para o orgulho insensato!" Fez entao uma pausa. A noite descia rapida. Ao lusco-fusco ainda se viu sair da manga do albornoz um braco felpudo e mirrado, que apontava para as bandas de Cordova. Nesta postura a figura do fakih fascinava. Coando pelos labios as syllabas, elle repeliu tres vezes: "Para Merwan!" Abdallah abaixou a cabeca, e partiu vagarosamente, sem olhar para traz. Os outros sarracenos seguiram-no. El-Muulin ficou so. Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Cordova; se vivesseis, porem, naquella epocha e o perguntasseis nessa cidade de mais de um milhao de habitantes, ninguem vo-lo saberia dizer. Era um mysterio a sua patria, a sua raca, donde viera. Passava a vida pelos cemiterios ou nas mesquitas. Para elle o ardor da canicula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se nao existissem. Raras vezes se via que nao fosse lavado em lagrymas. Fugia das mulheres como de um objecto de horror. O que, porem, o tornava geralmente respeitado, ou antes temido, era o dom de prophecia, o qual ninguem lhe disputava. Mas era um propheta terrivel, porque as suas prediccoes recahiam unicamente sobre futuros males. No mesmo dia em que nas fronteiras do imperio os christaos faziam alguma correria, ou destruiam alguma povoacao, elle annunciava publicamente o successo nas pracas de Cordova: qualquer membro da familia numerosa dos Beni-Umeyyas cahia debaixo do punhal de um assassino desconhecido, na mais remota provincia do imperio, ainda das do Moghreb ou Mauritania, na mesma hora, no mesmo instante as vezes, elle o pranteava redobrando os seus choros habituaes. O terror que inspirava era tal, que no meio do maior tumulto popular a sua presenca bastava para tudo cair em mortal silencio. A imaginacao exaltada do povo tinha feito delle um sancto, sancto como o islamismo os concebia; isto e, um homem cujas palavras e aspecto gelavam de terror. Ao passar por elle, Al-barr apertou-lhe a mao, dizendo-lhe em voz quasi imperceptivel: "Salvaste-me!" O fakih deixou-o affastar, e fazendo um gesto de profundo despreso, murmurou: "Eu?! Eu teu cumplice, miseravel?!" Depois, alevantando ambas as maos abertas para o ar, comecou a agitar os dedos rapidamente, e rindo com um rir sem vontade, exclamou: "Pobres titeres!" Quando se fartou de representar com os dedos a idea de escarneo que lhe sorria la dentro, dirigiu-se, ao longo do cemiterio, tambem para as bandas de Cordova, mas por diverso atalho. [1] Santarem. [2] Governador do Districto de Saragoca. [3] Principe real. [4] O famoso templo de Mekka. [5] Poema de trinta versos, muito usado entre os arabes, e que correspondia de certo muilo as nossas odes. [6] Os reinos christaos alem dos Pyreneus. [7] Muulin significa o triste. [8] Fakih ou faquir, especie de frade mendicante entre os musulmanos. [9] Sotuko--o andar mais alto. Os nossos escriptores tomavam esta palavra n'um sentido evidentemente errado, servindo-se delia para indicar o aposento inferior ou terreo. II Nos pacos de Azzahrat, o magnifico alcacar dos kalifas de Cordova, ha muitas horas que cessou o estrepito de uma grande festa. O luar de noite serena d'abril bate pelos jardins que se dilatam desde o alcacar ate o Guad-al-kebir, e alveja tremulo pelas fitas cinzentas dos caminbos tortuosos, em que parecem enredados os bosquesinhos de arbustos, os macissos de arvores silvestres, as veigas de flores, os vergeis embalsamados, onde a larangeira, o limoeiro, e as demais arvores fructiferas, trazidas da Persia, da Syria e do Cathay, espalham os aromas variados das suas flores. La ao longe Cordova, a capital da Hespanha mussulmana, repousa da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o illustre kalifa, vela pela seguranca do imperio. A vasta cidade repousa profundamente; e o ruido mal distincto que parece revoar por cima della, e apenas o respiro lento dos seus largos pulmoes, o bater regular das suas robustas arterias. Das almadenas de seiscentas mesquitas nao soa uma unica voz de almuhaden, e os sinos das igrejas mosarabes guardam tambem silencio. As ruas, as pracas, os azokes, ou mercados, estao desertos. Somente o murmurio das novecentas fontes ou banhos publicos, destinados as ablucoes dos crentes, ajuda o zumbido nocturno da sumptuosa rival de Bagdad. Que festa fora essa que expirara algumas horas antes de nascer a lua, e de tingir com a brancura pallida de sua luz aquelles dois vultos enormes de Azzahrat e de Cordova, que olhavam um para o outro, a cinco milhas de distancia, como dois phantasmas gigantes involtos em largos sudarios? Na manhan do dia que findara, Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fora associado ao throno. Os walis, wasires e khatehs da monarchia dos Beni-Umeyyas tinham vindo reconhece-lo Wali-al-ahdi; isto e, futuro kalifa do Andalus e do Moghreb. Era uma idea affagada longamente pelo velho principe dos crentes que se realisara, e o jubilo de Abdu-r-rahman se havia espraiado n'uma dessas festas, por assim dizer fabulosas, que so sabia dar no seculo decimo a corte mais polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno de Hespanha. O palacio Merwan, juncto dos muros de Cordova, distingue-se a claridade duvidosa da noite pelas suas formas macissas e rectangulares, e a sua cor tisnada, bafo dos seculos que entristece e sanctifica os monumentos, contrasta com a das cupulas aereas e douradas dos edificios, com a das almadenas esguias e leves das mesquitas, e com a dos campanarios christaos, cuja tez docemente pallida suavisa ainda mais o brando raio de luar que se quebra naquelles estreitos pannos de pedra branca, d'onde nao se reflecte, mas cabe na terra preguicoso e dormente. Como Azzahrat e como Cordova, calado e apparentemente tranquillo, o palacio Merwan, a antiga morada dos primeiros kalifas, suscita ideas sinistras, emquanto o aspecto da cidade e da villa imperial unicamente inspiram um sentimento de quietacao e paz. Nao e so a negridao das suas vastas muralhas a que produz essa apertura do coracao que experimenta quem o considera assim solitario e carrancudo; e tambem o clarao avermelhado que resumbra da mais alta das raras frestas abertas na face exterior da sua torre albarran, a maior de todas as que o cercam, a que atalaia a campanha. Aquella luz, no ponto mais elevado do grande e escuro vulto da torre, e como um olho de demonio, que contempla colerico a paz profunda do imperio, e que espera ancioso o dia em que renascam as luctas e as devastacoes de que por mais de dois seculos fora theatro o solo ensanguentado de Hespanha. Alguem vela, talvez, no paco de Merwan. No de Azzahrat, posto que nenhuma luz bruxulee nos centenares de varandas, de miradouros, de porticos, de balcoes, que lhe arrendam o immenso circuito, alguem vela por certo. A sala denominada do Kalifa, a mais espacosa entre tantos aposentos quantos encerra aquelle rei dos edificios, devera a estas horas mortas estar deserta, e nao o esta. Dois lampadarios de muitos lumes pendem dos artesoes primorosamente lavrados, que, cruzando-se em angulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e ouro, que reveste as paredes e o tecto. A agua de fonte perenne murmura cahindo n'um tanque de marmore construido no centro do aposento, e no topo da sala ergue-se o throno de Abdu-r-rahman, alcatifado dos mais ricos tapetes do paiz de Fars. Abdu-r-rahman esta ahi sosinho. O kalifa passeia de um para outro lado, com olhar inquieto, e de instante a instante para e escuta, como se esperasse ouvir um ruido longinquo. No seu gesto e meneios pinta-se a mais viva anciedade; porque o unico ruido que lhe fere os ouvidos e o dos proprios passos sobre o xadrez variegado, que forma o pavimento da immensa quadra. Passado algum tempo, uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do throno, abre-se lentamente, e um novo personagem apparece. No rosto de Abdu-r-rahman, que o ve aproximar, pinta-se uma inquietacao ainda mais viva. O recem-chegado offerecia notavel contraste no seu gesto e vestiduras com as pompas do logar em que se introduzia, e com o aspecto magestoso de Abdu-r-rahman, ainda bello apesar dos annos e das cans que comecavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba negra. Os pes do que entrara apenas faziam um rumor sumido no chao de marmore. Vinha descalco. A sua aljarabia ou tunica era de lan grosseiramente tecida, o cincto uma corda de esparto. Divisava-se-lhe, porem, no despejo do andar e na firmeza dos movimentos que nenhum espanto produzia nelle aquella magnificencia. Nao era velho; e todavia a sua tez tostada pelas injurias do tempo estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pe do kalifa, que ficara immovel, cruzou os bracos e poz-se a contempla-lo calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silencio: "Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua e sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em Azzahrat senao para me saciares de amargura; mas apesar disso eu nao deixarei de abencoar a tua presenca, porque Algafir--dizem-no todos e eu o creio--e um homem de Deus. Que vens annunciar-me, ou que pretendes de mim?" "Amir-al-muminin[1], que pode pretender de ti um homem cujos dias se passam a sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas noites de oracao basta por abrigo o portico de um templo; cujos olhos tem queimado o choro, e que nao esquece um instante que tudo neste desterro, a dor e o goso, a morte e a vida, esta escripto la em cima? Que venho annunciar-te?!... O mal; porque so mal ha na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos, entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto e, entre os seus eternos e implacaveis inimigos!" "Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!... Cumpra-se a vontade de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso, vencedor e respeitado; todas as minhas ambicoes tem sido satisfeitas, todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira de gloria e prosperidade so fui inteiramente feliz quatorze dias da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e em que ja o tinha escripto?" "Podes apaga-lo:--replicou o rude fakih--podes, ate, rasgar todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! ves estas faces sulcadas pelas lagrymas? ves estas palpebras requeimadas por ellas? Duro e o teu coracao, mais que o meu, se em breve as tuas palpebras e as tuas faces nao estao semelhantes as minhas." O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman: os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na cor, tomaram a terrivel expressao que elle costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que so por si fazia recuar os inimigos. O fakih nao se moveu, e poz-se a olhar tambem para elle fito. "Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas pode chorar arrependido de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que mentiu!" Os cantos da boca de Al-gafir encresparam-se com um quasi imperceptivel sorriso. Houve um largo espaco de silencio. Abdu-r-rahman nao o interrompeu: o fakih proseguiu: "Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem, o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah, o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?" "Oh,--replicou o kalifa sorrindo--ja sei o que me queres dizer. Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo... Os christaos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer ja depoz a espada victoriosa, e cres necessario expor a vida de um delles aos golpes dos infieis. Vens prophetisar-me a morte do que partir. Nao e isto? Fakih, creio em ti, que es acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro nao hesitaria na escolha: fora esse que eu mandara, nao a morte, mas ao triumpho. Se, porem, essas sao as tuas previsoes, e ellas tem de realisar-se, Deus e grande! Que melhor leito de morte posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em al-djihed[3] contra os infieis?" Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia. Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta: "Kalifa, qual amas tu mais dos teus dous filhos?" "Quando a imagem pura e sancta do meu bom Al-hakem se me representa no espirito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e intelligente do meu Abdallah, amo-o mais a elle. Como te posso eu, pois, responder, fakih?" "E todavia e necessario que escolhas, hoje mesmo, neste momento, entre um e outro. Um delles deve morrer na proxima noite, obscuramente, nestes pacos, aqui mesmo talvez, sem gloria, debaixo do cutello do algoz, ou do punhal do assassino." Abdu-r-rahman recuara ao ouvir estas palavras: o suor comecou a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma firmeza fingida, sentira apertar-se-lhe o coracao desde que o fakih comecara a falar. A reputacao d'illuminado de que gosava Al-muulin, o caracter supersticioso do kalifa, e mais que tudo o haverem-se verificado todas as negras prophecias que n'um longo decurso de annos elle lhe fizera, tudo contribuia para atterrar o principe dos crentes. Com voz tremula replicou: "Deus e grande e justo. Que lhe fiz eu para me condemnar no fim da vida a perpetua affliccao, a ver correr o sangue de meus filhos queridos as maos da deshonra ou da perfidia?" "Deus e grande e justo,--interrompeu o fakih.--Acaso nunca fizeste correr injustamente o sangue? Nunca por odio brutal despedacaste de dor nenhum coracao de pae, de irmao, de amigo?" Al-muulin tinha carregado na palavra irmao com um accento singular. Abdu-r-rahman, possuido de mal refreiado susto, nao attentou por isso. "Posso eu acreditar uma tao estranha, direi antes tao incrivel prophecia--exclamou elle por fim--sem que me expliques o modo por que se deve realisar esse terrivel successo; e como ha-de o ferro do assassino ou do algoz vir dentro dos muros de Azzahrat verter o sangue de um dos filhos do kalifa de Korthoba, cujo nome, seja-me licito dize-lo, e o terror dos christaos, e a gloria do islamismo?" Al-muulin tomou um ar imperioso e solemne, estendeu a mao para o throno, e disse: "Assenta-te, kalifa, no teu throno, e escuta-me, porque em nome da futura sorte do Andalus, da paz e da prosperidade do imperio, e das vidas e do repouso dos mussulmanos eu venho denunciar-te um grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te um filho. Successor do propheta, iman[4] da divina religiao do Koran, escuta-me, porque e obrigacao tua ouvir-me." O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o negro mysterio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Machinalmenlte subiu ao throno, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que elle rematava, e encostando ao punho o rosto demudado, disse com voz presa:--"Podes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-gafir!" Tomando entao uma postura humilde, e cruzando os bracos sobre o peito, Al-gafir o triste comecou da seguinte maneira a sua narrativa. [1] Principe dos crentes, titulo correspondente ao de kalifa. [2] Historico [3] Guerra-sancta [4] Pontifice. Os kalifas reuniam em si o summo imperio, e o summo pontificado. III "Kalifa!--comecou Al-muulin--tu es grande; tu es poderoso. Nao sabes o que e a affronta ou a injustica cruel que esmaga o coracao nobre e energico, se este nao pode repelli-la, e sem demora, com o mal ou com a affronta, vinga-la a luz do sol! Tu nao sabes o que entao se passa na alma desse homem, que por todo o desaggravo deixa fugir alguma lagryma furtiva, e ate, as vezes, e obrigado a beijar a mao que o feriu nos seus mais sanctos affectos. Nao sabes o que isto e; porque todos os teus inimigos tem cahido diante do alfange do almogaure, ou deixado tombar a cabeca de cima do cepo do algoz. Ignoras por isso o que e o odio; o que sao essas solidoes tenebrosas, por onde o resentimento, que nao pode vir ao gesto, se dilata e vive a espera do dia da vinganca. Dir-to-hei eu. Nessa noite immensa, em que se involve o coracao chagado, ha uma luz sanguinolenta que vem do inferno, e que allumia o espirito vagabundo. Ha ahi terriveis sonhos, em que o mais rude e ignorante descobre sempre um meio de desaggravo. Imagina como sera facil aos altos entendimentos o encontra-lo! E por isso que a vinganca, que parecia morta e esquecida, apparece as vezes inesperada, tremenda, irresistivel, e morde-nos surgindo debaixo dos pes como a vibora, ou despedaca-nos como o leao pulando d'entre os juncaes. Que lhe importa a ella a magestade do throno, a sanctidade do templo, a paz domestica, o ouro do rico, o ferro do guerreiro? Mediu as distancias, calculou as difficuldades, meditou no silencio, e riu-se de tudo isso!" E Al-gafir o triste desatou a rir ferozmente, Abdu-r-rahman olhava para elle espantado. "Mas--proseguiu o fakih--as vezes Deus suscita um dos seus servos, um dos seus servos de animo tenaz e forte, possuido tambem de alguma idea occulta e profunda, que se alevante, e rompa a trama urdida nas trevas. Este homem no caso presente sou eu. Para bem? Para mal?--Nao sei; mas sou! Sou eu que, venho revelar-te como se prepara a ruina do teu throno, e a destruicao da tua dynastia." "A ruina do meu throno?--gritou Abdur-r-rahman pondo-se em pe e levando a mao ao punho da espada.--Quem, a nao ser algum louco, imagina que o throno dos Beni-Umeyyas pode, nao digo desconjunctar-se, mas apenas vacilar debaixo dos pes de Abdu-r-rahman? Quando, porem, falaras enfim claro, Al-muulin?" E a colera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual impassibilidade o fakih proseguiu: "Esqueces-te, kalifa, da tua reputacao de prudencia e longanimidade. Pelo propheta! Deixa divagar um velho tonto como eu ... Nao!... Tens razao ... Basta! O raio que fulmina o cedro desce rapido do ceu. Quero ser como elle ... Amanhan a estas horas o teu filho Abdallah ter-te-ha ja privado da coroa para a cingir na propria fronte, e o teu successor Al-hakem tera perecido sob um punhal d'assassino. Ainda te encolerisas? Foi acaso demasiado extensa a minha narrativa?" "Infame!--exclamou Abdu-r-rahman--Hypocrita, que me tens enganado! Tu ousas calumniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue ha-de correr, mas e o teu. Crias que com essas visagens d'inspirado, com esses trajos de penitencia, com essa linguagem dos sanctos poderias quebrar a affeicao mais pura, a de um pae? Enganas-te, Al-gafir! A minha reputacao de prudente, veras que era bem merecida." Dizendo isto o kalifa ergueu as maos como quem ia a bater as palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o menor indicio de perturbacao ou terror. "Nao chames ainda os eunuchos; porque assim e que das provas de que nao a merecias. Conheces que me seria impossivel fugir. Para matar ou morrer sempre e tempo. Escuta, pois, o infame, o hypocrita ate o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e altivo Abdallah? Bem sabes que elle e incapaz de mentir a seu amado pae, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades possiveis." O fakih desatara de novo n'um rir tremulo e hediondo. Metteu a mao no peitilho da aljarabia e tirou uma a uma muitas tiras de pergaminho: po-las sobre a cabeca e entregou-as ao kalifa, que comecou a ler com avidez. A pouco e pouco Abdu-r-rahman foi empallidecendo, as pernas vergaram-lhe, e por fim deixou-se cahir sobre os coxins do throno, e cobrindo a cara com as maos, murmurou:--"Meu Deus! porque te mereci isto!" Al-muulin fitara nelle um olhar de girifalte, e nos labios vagueava-lhe um riso sardonico e quasi imperceptivel. Os pergaminhos eram varias cartas dirigidas por Abdallah aos rebeldes das fronteiras do oriente, os Beni-Hafsun, e a diversos cheiks bereberes, dos que se haviam domiciliado na Hespanha, conhecidos pelo seu pouco affecto aos Beni-Umeyyas. O mais importante, porem, de tudo era uma extensa correspondencia com Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro celebre e antigo alcaide de Santarem, que por graves offensas passara ao servico dos christaos de Oviedo e Asturias com muitos cavalleiros illustres da sua clientela. Esta correspondencia era completa de parte a parte. Por ella se via que Abdallah contava nao so com os recursos dos mussulmanos seus parciaes, mas tambem com importantes soccorros dos infieis por intervencao de Umeyya. A revolucao devia rebentar em Cordova pela morte de Al-hakem e pela deposicao de Abdu-r-rahman. Uma parte da guarda do alcacar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que figurava muito nestas cartas, seria o hadjeb ou primeiro ministro do novo kalifa. Alli se liam, emfim, os nomes dos principaes personagens implicados na revolta, e todas as circumstancias desta eram explicadas ao antigo alcaide de Santarem com aquella individuacao que nas suas cartas elle constantemente exigia. Al-muulin falara verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de si a longa teia da conspiracao, escripta com letras de sangue pela mao de seu proprio filho. Durante algum tempo o kalifa conservou-se como a estatua da dor na postura que tomara. O fakih olhava fito para elle com uma especie de cruel complacencia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu o silencio: o principe Beni-Umeyya, esse parecia ter perdido o sentimento da vida. "E tarde:--disse o fakih.--Chegara em breve a manhan. Chama os eunuchos. Ao romper do sol a minha cabeca pregada nas portas de Azzahrat deve dar testemunho da promptidao da tua justica. Elevei ao throno de Deus a ultima oracao, e estou apparelhado para morrer, eu o hypocrita, eu o infame, que pretendia lancar sementes de odio entre ti e teu virtuoso filho. Kalifa, quando a justica espera nao sao boas horas para meditar ou dormir." Al-gafir retomava a sua habitual linguagem sempre ironica e insolente, e ao redor dos labios vagueava-lhe de novo o riso mal reprimido. A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas cogitacoes. Poz-se em pe. As lagrymas haviam corrido por aquellas faces, mas estavam enxutas. A procella de paixoes encontradas tumultuava la dentro; mas o gesto do principe dos crentes recobrara apparente serenidade. Descendo do throno pegou na mao mirrada de Al-muulin, e apertando-a entre as suas, disse: "Homem que guias teus passos pelo caminho do ceu; homem acceito ao propheta, perdoa as injurias de um insensato! Cria ser superior a fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas tu esquece-lo! Agora estou tranquillo ... bem tranquillo ... Abdallah, o traidor que era meu filho, nao concebeu tao atroz designio. Alguem lh'o inspirou: alguem verteu naquelle animo soberbo as vans e criminosas esperancas de subir ao throno por cima do meu cadaver e do de Al-hakem. Nao desejo sabe-lo para o absolver; porque elle ja nao pode evitar o destino fatal que o aguarda. Morrera; que antes de ser pae fui kalifa, e Deus confiou-me no Andalus a espada da suprema justica. Morrera; mas hao-de acompanha-lo todos os que o precipitaram no abysmo." "Ainda ha pouco te disse--replicou Al-gafir--o que pode inventar o odio que e obrigado a esconder-se debaixo do manto da indifferenca, e ate da submissao. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu offendeste no seu amor proprio de poeta, e que expulsaste de Azzahrat como um homem sem engenho nem saber, quiz provar-te que ao menos possuia o talento de conspirador. Foi elle que preparou este terrivel successo. Has-de confessar que se houve com destreza. So n'uma cousa nao: em pretender associar-me aos seus designios. Associar-me? ... nao digo bem ... fazer-me seu instrumento ... A mim! ... Queria que eu te apontasse ao povo como um impio pelas tuas alliancas com os amires infieis do Frandjat. Fingi estar por tudo; e chegou a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o alliado dos christaos, o antigo kaid de Chantaryin. Foi assim que pude colligir estas provas de conspiracao. Loucos! as suas esperancas eram a miragem do deserto... Dos seus alliados apenas os de Zarkosta e das montanhas de Al-kibla nao foram um sonho. As cartas de Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia[1], tudo era feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra de Umeyya, esse e um segredo que depois de tantas revelacoes, tu deixaras, kalifa, que eu guarde para mim ... Oh, os insensatos! os insensatos!" E desatou a rir. A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolucao, que ameacava trazer a Hespanha mussulmana todos os horrores da guerra civil, devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessario afoga-la em sangue. O longo habito de reinar, juncto ao caracter energico de Abdu-r-rahman, fazia com que nestas crises elle desenvolvesse de um modo admiravel todos os recursos que o genio amestrado pela experiencia lhe suggeria. Recalcando no fundo do coracao a cruel lembranca de que era um filho que ia sacrificar a paz e a seguranca do imperio, o kalifa despediu Al-muulin, e mandando immediatamente reunir o divan deu largas instruccoes ao chefe da guarda dos slavos. Ao romper da manhan todos os conspiradores que residiam em Cordova estavam presos, e muitos mensageiros tinham partido levando as ordens de Ahdu-r-rahman aos walis das provincias e aos generaes das fronteiras. Apesar das lagrymas e rogos do generoso Al-hakem, que luctou tenazmente por salvar a vida de seu irmao, o kalifa mostrou-se inflexivel. A cabeca de Abdallah cahiu aos pes do algoz na propria camara do principe no palacio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra em que o tinham lancado, evitou assim o supplicio. O dia immediato a noite em que se passou a scena entre Abdu-r-rahman e Al-gafir, que tentamos descrever, foi um dia de sangue para Cordova, e de lucto para muitas das mais illustres familias. [1] Os arabes designavam os reis de Oviedo e Leao pelo titulo de reis de Galliza. IV Era pelo fim da tarde. N'uma alcova do palacio de Azzahrat via-se reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrah, ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de pelles alvissimas, faziam sobre-sair as feicoes enrugadas, a pallidez do rosto, o encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todas as caracteristicas do de um cadaver. Pela immobilidade dir-se-hia que era uma destas mumias que se encontram pelas catacumbas do Egypto, apertadas entre as cem voltas das suas faixas mortuarias, e inteiricadas dentro dos sarcophagos de pedra. Um unico signal revelava a vida nessa grande ruina de um homem grande; era o movimento da barba longa e ponteaguda que se lhe estendia como um cone de neve tombado sobre o peitilho da tunica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o illustre kalifa dos mussulmanos do occidente, jazia ahi e falava com outro velho, que, em pe defronte delle, o escutava attentamente; mas a sua voz saia tao fraca e lenta, que, apesar do silencio que reinava no aposento, so na curta distancia a que estava o outro velho se poderiam perceber as palavras do kalifa. O seu interlocutor e uma personagem que o leitor conhecera apenas reparar no modo por que esta trajado. A sua vestidura e uma aljarabia de burel cingida de uma corda de esparto. Ha muitos annos que nisto cifrou todos os commodos que acceita a civilisacao. Esta descalco, e a grenha hirsuta e ja grisalha cahe-lhe sobre os hombros em madeixas revoltas e emmaranhadas. A sua tez nao e pallida, os seus olhos nao perderam o brilho, como a tez e como os olhos de Abdu-r-rahman. Naquella, coriacea e crestada, domina a cor mixta de verdenegro e amarello do ventre de um crocodilo; nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixoes ardentes, que lhe sussurram dentro d'alma como a lava prestes a jorrar do volcao que ainda parece dormir. E Al-muulin, o sancto fakih, que vimos salvar, onze annos antes, o kalifa e o imperio da intentada revolucao de Abdallah. Tinham de feito passado onze annos desde os terriveis successos acontecidos naquella noite em que Al-muulin descobrira a conspiracao que se urdia, e desde entao nunca mais se vira Abdu-r-rahman sorrir. O sangue de tantos mussulmanos vertido pelo ferro do algoz, e sobretudo o sangue de seu proprio filho descera como a maldiccao do propheta sobre a cabeca do principe dos crentes. Entregue a melancholia profunda, nem as novas de victorias, nem a certeza do estado florescente imperio o podiam distrahir della senao momentaneamente. Encerrado durante os ultimos tempos da vida no palacio de Azzahrat, a maravilha d'Hespanha, abandonara os cuidados do governo ao seu successor Al-hakem. Os gracejos da escrava Nuirat-eddia, a conversacao instructiva da bella Ayecha, e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o unico allivio que adocava a existencia aborrida do velho leao do islamismo. Mas apenas Al-gafir o triste se apresentava perante o kalifa, elle fazia retirar todos, e ficava encerrado horas e horas com este homem, tao temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas doutrinas, pregadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo. Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e, ao ve-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho principe os sentimentos oppostos do terror e do affecto, como se metade da sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquelle homem, e a outra metade o repellisse com repugnancia invencivel. O mysterio que havia entre ambos ninguem o podia entender. E todavia a explicacao era bem simples: estava no caracter extremamente religioso do kalifa, na sua velhice e no seu passado de principe absoluto, situacao em que sao faceis grandes virtudes e grandes crimes. Habituado a lisonja, a linguagem aspera e altivamente sincera de Al-muulin tivera a principio o attractivo de ser para elle inaudita; depois a reputacao de virtude de Al-gafir, a crenca de que era um propheta, a maneira por que, para o salvar e ao imperio, arrostara com a sua colera, e provara desprezar completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman visse nelle, como o mais credulo dos seus subditos, um bomem predestinado, um verdadeiro sancto. Sentindo avizinhar a morte, Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvacao ate o throno de Deus. Cifrava-se nelle a esperanca de um futuro incerto, que nao podia tardar, e assim o espirito do monarcha, enfraquecido pelos annos, estudava anciosamente a minima palavra, o menor gesto de Al-muulin; prendia-se ao monge mussulmano como a hera antiga ao carvalho, em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vae trepando para o ceu. Mas, as vezes, Al-gafir repugnava-lhe. No meio das expansoes mais sinceras, dos mais ardentes voos de uma piedade profunda, de uma confianca inteira na misericordia divina, o Fakih fitava de repente nelle os olhos scintilantes, e com sorriso diabolico vibrava uma phrase ironica, insolente e desanimadora, que ia gelar no coracao do kalifa as consolacoes da piedade, e despertar remorsos e terrores, ou completa desesperacao. Era um jogo terrivel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o palpitar dos membros da rez que se lhe agita moribunda entre as garras sanguentas. Nessa lucta infernal em que lhe trazia a alma estava o segredo da attraccao e repugnancia, que ao mesmo tempo o velho monarcha mostrava para com o fakih, cujo apparecimento em Azzahrat cada vez se tornava mais frequente, e agora se renovava todos os dias. A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do oeste, e deixavam de quando em quando passar um raio afogueado do sol que se punha. O vento tepido, humido e violento fazia ramalhar as arvores dos jardins que circumdavam os aposentos de Abdu-r-rahman. As folhas, retinctas ja de um verde amarellado e mortal, desprendiam-se das trancas das romeiras, dos sarmentos das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam, e, remoinhando nas correntes da ventania, iam, iam, ate rastejar pelo chao e empecar na grama secca dos prados. O kalifa, exhausto, sentia aquelle ciclo da vegetacao moribunda chama-lo tambem para a terra, e a melancholia da morte pesava-lhe sobre o espirito. Al-muulin durante a conversacao daquella tarde havia-se mostrado, contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras havia o que quer que era accorde com a tristeza que o rodeava. "Conheco que se aproxima a hora fatal:--dizia o kalifa.--Nestas veias em breve se gelara o sangue; mas, sancto fakih, nao me sera licito confiar na misericordia de Deus? Derramei o bem entre os mussulmanos, o mal entre os infieis: fiz emmudecer o livro de Jesus perante o de Mohammed; e deixo a meu filho um throno firmado no amor dos subditos e na veneracao e temor dos inimigos da dynastia dos Beni-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer pela gloria do Islam. Que mais pretendes?--Porque nao tens nos labios para o pobre moribundo senao palavras de terror?--Porque ha tantos annos me fazes beber gole a gole a taca da desesperacao?" Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado fulgor, e um daquelles sorrisos diabolicos, com que costumava fazer gelar todas as ardentes ideas mysticas do principe, lhe assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento o do velho monarcha, onde de feito ja vagueavam as sombras da morte: depois dirigiu-se a porta da camara, assegurou-se bem de que nao era possivel abrirem-na exteriormente, e voltando para ao pe do almatrah, tirou do peitilho um rolo de pergaminho, e comecou a ler em tom de indizivel escarneo: "Resposta de Al-gafir o triste as ultimas perguntas do poderoso Abdu-r-rahman, oitavo kalifa de Cordova, o sempre vencedor, justiceiro e bemaventurado entre todos os principes da raca dos Beni-Umeyyas. Capitulo avulso da sua historia." Um rir prolongado seguiu a leitura do titulo do manuscripto. Al-muulin continuou: "No tempo deste celebre, virtuoso, illustrado e justiceiro monarcha havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do propheta, e que nao sabia torcer por humanos respeitos a voz da sua consciencia. Chamava-se Mohammed-Ibn-Ishak, e era irmao de Umeyya-Ibn-Ishak, kaid de Chantaryn, um dos guerreiros mais illustres do Islam, segundo diziam." "Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe falava verdade, e rebatia as adulacoes dos seus lisongeiros. Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu n'uma sentenca de morte. A cabeca do ministro cahiu no cadafalso, e a sua memoria passou a posteridade manchada pela calumnia. Todavia o principe dos fieis sabia bem que tinha assassinado um innocente." As feicoes transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressao horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pode fazer um signal como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu: "Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado te allivia e revoca a vida. Continuarei. Podesse eu prolongar assim os teus dias, clementissimo kalifa!" "Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmao, ficou como insensato. A saudade ajunctava-se o horror do ferrete posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu as supplicas mais vehementes ao principe dos fieis para que ao menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir...! Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria." E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada. O moribundo arrancou um gemido. "Estas um pouco melhor ... nao e verdade, invencivel kalifa? Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristao de Al-djuf nao se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas ate o Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid de Chantaryn. Com um numeroso esquadrao de amigos leaes este ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb ate Merida. Foi uma esplendida festa; um sacrificio digno da memoria de seu irmao. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu em torrentes." "Pouco a pouco Umeyya comecou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem o offendera. Para que tanto sangue vertido? A sua vinganca fora a de uma besta-fera; fora estupida e van. Ao kalifa, quasi sempre victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de Chantaryn mudou entao de systema. A guerra publica e inutil converteu-a em perseguicao occulta e efficaz: a forca oppoz a destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas. Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer a luz do dia ninguem o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o sol dos desertos. Correra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por toda a parte os thesouros da sua familia e os proprios thesouros ate o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos fieis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto fakih..." Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficara sentado, hirto e com as maos estendidas. Queria bradar, mas o sangue escumou-lhe nos labios, e so pode murmurar ja quasi inintelligivelmente: "Maldicto!" "Boa cousa e a historia,--proseguiu o seu algoz sem mudar de postura--quando nos recordamos do nosso passado, e nao achamos la para colher um unico espinho de remorso! E o teu caso, virtuoso principe! Mas sigamos avante. O sancto fakih Al-muulin foi quem instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu Abdallah; quem delatou a conspiracao; quem se apoderou do teu animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos; quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto as portas do inferno que se foste o assassino de seu irmao, tambem o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctara o de tyranno. Ouve pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos. Ouve, ouve, kalifa!" Al-gafir, ou antes Umeyya, levantara gradualmente a voz, e estendia os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos, e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo. A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena nao seria facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto. Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante do cadaver era a expressao mais energica da atrocidade de coracao vingativo. "Oh, se nao ouviria as minhas derradeiras palavras!..."--murmurou o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se depois a scismar largo espaco: as lagrymas rolavam-lhe a quatro e quatro pelas faces rugosas.--"Um anno mais de tormentos, e ficava satisfeito!--exclamou por fim.--Podera eu dilatar-lhe a vida!" Dirigiu-se entao para a porta, abriu-a de par em par e bateu as palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta e grave disse: "Orae ao propheta pelo repouso do kalifa." Houve quem o visse sair, quem a luz baca do crepusculo o visse tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa. Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ninguem mais o viu desde aquelle dia. ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2) A Arraya-Miuda O sino das ave-marias, ou da oracao, tinha dado na torre da se a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidao de casas, que apinhadas a roda do castello, e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acola as luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto nao era mais triste, temerosa e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porem, havia ahi desacostumado e estranho era o completo silencio e a escuridao profunda em que jazia sepultado o paco d'apar S. Martinho, onde entao residia elrei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse mar revolto nao tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia que vem apos a procella. E assim era, com effeito, como o leitor podera averiguar por seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarcado, quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da se, na rua que sobe para os pacos da alcacova, sete ou oito portas acima dos pacos do concelho. A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lancarote Pecanha, e que havia annos abandonara o servico maritimo para se dar a mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa, nao so pelo luxo do seu adereco, e bondade dos liquidos encerrados nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo aos tavolageiros de profissao, para perderem ou ganharem ahi, em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario dos seus antecessores e successores, julgara ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no comeco de seu reinar. Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do corregedor da corte e de todos os saioes, algozes e mais familia da nobre raca dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante estabelecimento industrial. O elixir que elle empregara para produzir essa maravilhosa cegueira nao sabemos nos qual fosse; mas e certo que nao se perdeu com a alchimia, porque se ve que elle existe em maos abencoadas, produzindo ainda hoje repetidos milagres em tudo analogos a este. Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhanca desta porta da antiga cerca, onde os ruidos vagos e incertos, que sussurravam pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que trasbordava ate o breve terreirinho da se, falando todos a um tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que as vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente a colera popular. Ja no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje, colerico. Entao coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice. Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa mo de populares, ouviam-se palavras ameacadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdicao se revelava nos seus coromens de panno d'Arras, nos cinctos escuros, nas camisas e veus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esganicadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro e insolencia daquellas desgracadas. Em cima dos bofetes viam-se picheis e tacas vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados, que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que as vezes sobresaiam atraves do ruido daquelle respeitavel congresso, nao provassem que esses honrados cidadaos, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo companheiro de gloria de micer Lancarote estava visivelmente prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiucas de Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e pela primeira vez o vicio e a corrupcao tinham transposto aquelles umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos do povo nao teem cabida os adornos de ouropel. E a unica differenca moral que ha entre elle e as classes superiores, que se creem melhores, porque no gymnasio da civilisacao aprendem desde a infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita. O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor aquelle turbilhao de planetas; o centro moral, a roda do qual giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento, e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora sobresaia no ruido, e so se confundia com alguma jura blasphema que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as modulacoes das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e abafado, de certo modo semelhantes a clarao affogueado que sulcasse rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea de alguma igreja do sexto seculo. De repente dous cavalleiros, cuja graduacao se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calcas de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo, que lhes alargava a passagem, chegaram ao pe do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circumstantes pode conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o indagar; mas uma identica reflexao atou todas as maos. Ao longo da coxa esquerda dos embucados via-se reluzir a espada, e no lado direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente besteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o por-lhes o visto popular. Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeca fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com as cabecas apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como alheios ao sussurro que comecava a alevantar-se de novo a roda delles. Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello, elle deu signal com a mao de que pretendia falar. "Ouvide! Ouvide!"--bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella multidao desordenada. Todos os pescocos se alongaram a um tempo, e viram-se muitas maos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador principiou: "Arraya-miuda[1]! tendes vos ja elegido, entre vos outros, cidadaos bem falantes e avisados para propor vossos embargos e razoados contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher de Joao Lourenco da Cunha?" "Todos a uma entendemos que deveis ser vos, mestre Fernao Vasques: --respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares.--Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais discreto e aposto para taes autos que vos? Quem com mais urgentes razoes proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do que vos o fizestes hoje na mostra que demos ao paco esta tarde?" "Alcacer, alcacer! por nosso capitao Fernao Vasques:--bradou unisona a chusma. "Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambao!--replicou Fernao Vasques, socegado o tumulto.--Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do amanhan terei as maos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vos por averiguado, mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o no da corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais rijo no gasnate de um christao que a vossa encho n'uma aduela de pipa?" "Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha da besta, me nao estourar:--exclamou um besteiro de conto, cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam derribado certas perturbacoes d'enthusiasmo politico. "Amendico Vobis!--gritou um beguino, cujas faces vermelhas e voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta. "Ole, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres vir nesse bordo por nossa esteira:--bradou um petintal d'Alfama, que, segundo parecia, capitaneava um grande troco de pescadores, barqueiros e galeotes daquelle bairro, entao quasi exclusivamente povoado de semelhante gente. "Digo por linguagem"--acudiu o beguino--"que ninguem como mestre Fernao Vasques e homem de cordura e sages para amanhan falar a elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles, do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil em ousadia para fugir as gales de Castella e doestar os bons servos da igreja." Era allusao pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu a mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de dar a unhada, vem rocar-se mansamente pela mao que ensanguentou. Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a ma vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascera da emulacao; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um delles se assentava. Se, pois, aquella multidao nao estivesse persuadida da superioridade intellectual do alfaiate Fernao Vasques, a opiniao desses dous oraculos lhe nao teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de odio que nascera n'um dia, e n'um dia lancara profundas raizes nos coracoes de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares. Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando um pouco mais alto. O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de Joao Lourenco da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse favoravel. Quanto a elrei, a paixao violenta em que este ardia lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coracao. Mas as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubica, de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do que na triste vangloria de ver a seus pes um rei bom, generoso e gentil. Atraves do amor de D. Fernando ella so enxergava o refulgir da coroa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias, a idea primitiva de todas as suas ideas. Leonor Telles nao amava elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della; e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes, e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade, quasi insuperavel para outra que nao fosse D. Leonor, se interpunha entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D. Leonor, ou que sabiam ate onde chegava a sua vinganca, a livrou desse tropeco. Seu marido, Joao Lourenco da Cunha, atterrado, fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia, a occultas com ella, muito antes da epocha em que comeca esta narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato. Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradicoes severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da coroa e pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella, cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D. Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o infante D. Diniz, o mais moco dos filhos de D. Ignez de Castro, e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabecas da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de seu animo; este por gratidao a D. Henrique de Castella, em quem achara amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o salvara da triste sorte de Alvaro Goncalves Coutinho e de Pedro Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D. Ignez. O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor vago, uma suspeita. Os nobres, porem, que o desapprovavam souberam transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacao dos animos crescia a medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos. D. Fernando tinha ja revelado aos seus conselheiros a resolucao que tomara, e estes, posto que a principio lhe falassem com a liberdade que entao se usava nos pacos dos reis, vendo suas diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio essa malaventurada resolucao. O povo, porem, nao se contentou com isso. Conforme as ideas desse tempo, alem das consideracoes politicas, semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo de religiao, o qual ainda de maior peso seria hoje, e se-lo-ha em todos os tempos em que a moral social for mais respeitada do que o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como fiadores da successao da coroa. A irritacao dos animos, assoprada pela nobreza, tinha chegado ao seu auge, e a colera popular rebentara violenta na tarde que precedeu a noite em que comeca esta historia. Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente as portas do paco, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito que fazia aquella multidao desordenada assustou elrei, que por um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que estavam assim reunidos. Entao o alfaiate Fernao Vasques, capitao e procurador por elles, como lhe chama Fernao Lopes, affeiou em termos violentos as intencoes d'elrei, liberalisando a D. Leonor os titulos de ma mulher e feiticeira, e asseverando que o povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de gritas insolentes e ameacadoras do tropel que o seguia, moveu elrei a responder com agradecimentos as injurias, e a affirmar que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidao, elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom e fiel povo de Lisboa, as vidracas coradas das esguias janellas dos pacos reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o esplendor dos saraus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro, contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas, com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com o perpassar continuo dos magotes e pinhas de gente que se encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo passava, rei de um dia. Esse ruido, essa vertigem que o agitava era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada profunda, alumiavam o sarau popular, as salas do seu folguedo, a praca e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel. Na taberna de micer Folco (onde deixamos as personagens principaes desta historia, para inserir, talvez fora de logar, o prologo ou introduccao a ella) as acclamacoes freneticas dos populares tinham tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernao Vasques. Fr. Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com o ruido dos amplos pulmoes dos galeotes d'Alfama, contrabidos como em voga arrancada, victoriando o seu capitao. O alfaiate nao pode resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta popularidade, e em pe sobre o escabello, com a cabeca levemente inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignacao e de bemaventuranca, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso que revelava uma parte dos mysterios do seu coracao. Emfim, quando a grita comecou a asserenar, Fernao Vasques ergueu a cabeca, e com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda. Fez-se de novo silencio. "Seja, pois, como quereis:--disse o alfaiate--mas vede o grao risco a que me ponho por vos outros. Falarei eu a elrei com liberdade portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado de sua real senhoria, mas e necessario que vos todos quantos ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre de S. Domingos. Dizem que a adultera e mulher de grande coracao e ousados pensamentos; em Lisboa estao muitos cavalleiros seus parentes e parciaes. Besteiros deste concelho, que nao vos esquecam em casa vossas bestas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas ascumas! Os trons e engenhos do castello--accrescentou o alfaiate em voz mais baixa e hesitando--nao vos apoquentarao, ainda que elrei o quizesse, porque o alcaidemor Joao Lourenco Bubal nao e dos affeicoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar, amigos!" --"Alcacer, alcacer!--respondeu a turbamulta. "Morra a comborca!"--gritou Ayras Gil com voz de trovao.--"Morra a comborca!"--repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos coromens d'arras e cinctos pretos, que assistiam aquelle conclave. "Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor tem ouvido subtil:"--disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso diabolico. "Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!"--replicou o petintal.--"Quando eu quero que me oucam e que falo alto. Alcacer por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella e de feiticos!" O petintal emendava a mao como podia. E entre morras e alcaceres; entre risadas e pragas; entre ameacas vans e insultos inuteis, aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes deitadas juncto as raizes dos palacios na velha e opulenta Lisboa. Com os bracos cruzados o alfaiate contemplava aquella multidao, que diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel ao gemido do tufao, que passa de noite pelas sarcas da campina. Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde saira o vulto indelineavel chamado povo, e ja ninguem ahi estava, salvo os dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirara sobre um dos bofetes, e ja roncava e assobiava como em somno profundo. Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um ainda a barba de homem nao pungia nas faces: o outro, na alvura das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros a moda de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser ja bem larga a historia da sua peregrinacao na terra. O mancebo olhou para Fernao Vasques, que parecia absorto, e depois para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para elle, e sorriu-se. Depois o anciao chamou o alfaiate em voz baixa, mas perceptivel. Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos, estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava em pe, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros: "Senhor infante, que vossa merce me perdoe e o senhor Diogo Lopes Pacheco! A fe que, no meio d'este arruido, quasi me esquecera de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que posso responder pelo povo, e de que amanhan nao faltarao em S. Domingos?" "Na verdade--respondeu o mancebo--que tu governas mais nelle que meu irmao com ser rei! Veremos se amanhan te obedecem como te obedeceram hoje." "Es um notavel capitao:--accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo no hombro do alfaiate.--Se fosses capaz de reger assim em hoste uma bandeira de homens d'armas merecerias a alcaidaria de um castello." "Que so entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite ou de dia, aquelle que de mim tivesse preito e menagem." "Bem dicto!--interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que comecara.--Se t'a negarem nao sera por errares as palavras do preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Fernao Vasques; muito longe! Assim eu a tivera, de que nao me sera preciso cozer a ponta de punhal a boca de quem ousar dizer que o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna do gonovez Folco Taca." Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, sairam dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino que dormia foram mais rapidos e tremulos. "Quem e aquelle ichacorvos?--proseguiu Diogo Lopes, apontando para Fr. Roy com um gesto de desconfianca. "E um dos nossos:--respondeu o alfaiate--um dos que mais teem encarnicado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos pacos d'el-rei. Por este respondo eu. Nao tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe cozer a boca a ponta de vosso punhal." "Responde por ti, honrado capitao da arraya-miuda--replicou o velho cortezao.--Quem me responde por elle e o seu dormir profundo: quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto amanhan elrei se demorar em S. Domingos, um troco d'arraya-miuda e besteiros ha-de commetter o paco, e ou do terreiro, ou rompendo pelos aposentos interiores, e necessario que uma pedra perdida, um tiro de besta disparado por engano, uma ascuma brandida em algum corredor escuro, nos assegure que elrei nao pode deixar de attender as supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidadaos de Lisboa." "Morta!--exclamou o infante com um gesto de horror.--Nao, nao, Diogo Lopes; nao ensanguenteis os pacos de meu irmao, como ..." "Como ensanguentei os pacos de Sancta Clara:--atalhou Pacheco--dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram ca dentro. Senhor infante, vos esquecestes-vos d'isso, porque eu posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambicao tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue! Vos passastes avante, e nao vistes os do sangue de vossa mae! Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recua." D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Nao respondeu nada; mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas. Fernao Vasques escutou a preleccao politica do velho matador de D. Ignez de Castro com religiosa attencao. E resolveu tambem la comsigo nao se deixar cahir no fojo. "Far-se-ha como apontaes:--disse elle falando com Diogo Lopes--mas se os homens d'armas e besteiros de Joao Lourenco Buval descerem do castello..." "Nao te disse, ainda ha pouco, que Joao Lourenco ficaria quedo no meio da revolta?--Podes estar socegado, que nao te certifiquei d'isso so para animares o povo. E a realidade. Agora tracta de dispor as cousas para que nao seja um dia inutil o dia d'amanhan." Pegando entao na mao do infante, o feroz Pacheco saiu da taberna, e tomou com elle o caminho da Alcacova. Fernao Vasques ficou um pouco scismando: depois saiu, dirigindo-se para a porta do ferro, e repetindo em voz baixa:--"Nao me precipitarei no fojo!" Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho a cabeca, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou para o chao, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundara, chegou a porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da se da banda do norte, e como um fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da cathedral. [1] Fernao Lopes da a entender (Chr. de D. Joao I. P. 1. c.44) que a denominacao de arraya-miuda se comecara a dar aos populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado para si o povo miudo ja d'antes e com muita seriedade. Em um documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3 das Doacoes fol. 42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes e concelho de Braganca e toda a arraya-miuda. [2] Fernao Lopes affirma que Pacheco nao tornara ao reino desde que fugira por escapar a vinganca de D. Pedro I por causa da morte de D. Ignez, senao no anno de 72, em que viera por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr. Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituicao de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no comeco do seu reinado. Nao e isto que prova a assistencia de Pacheco em Portugal no anno de 1371, nao so porque depois de vir podia voltar para Castella, mas tambem essa restituicao podia ser feita estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruicao d'um titulo, ou de terras da coroa, por simples merce, nao obrigando a servico pessoal, ao menos ate o tempo de D. Joao I, nao tornava necessaria a presenca do donatario no reino. O que prova a verdade da opiniao de Santos e a doacao feita a Diogo Lopes em 1371 (Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento de sua quantia, o que supoe servico pessoal; porque era pelas quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo. O Beguino. Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo, miseravel, insalubre, que por si so bastara a servir de castigo a grandes crimes[1], ainda ve na extermidade delle umas ruinas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta janella sao tudo o que resta dos antigos pacos d'apar S. Martinho, igreja que tambem ja desappareceu, sem deixar sequer por memoria um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro e um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradicoes de remotas eras. Nenhuns pacos dos nossos reis da primeira e segunda dynastia foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente pelos nomes de pacos d'elrei, pacos dos infantes, pacos da moeda, pacos do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos tempos. Sao da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, e um mysterio! Se, transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos, nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas pode achar a certidao do seu nascimento e dos annos da sua vida! Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio a roda de nos, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque jazem ahi! Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no capitulo antecedente, essa janella dos pacos d'elrei era a unica aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas as outras. So, de quando em quando, quem para la olhasse attento do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que ora se chegava a janella, ora se retrahia. Mas o silencio que reinava naquelles sitios nao era interrompido pelo menor ruido. De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou a janella, debrucou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegara subiu rapidamente, e ambos desappareceram atraves dos corredores e aposentos do paco. Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos bracos de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando as vezes com os bracos cruzados e como entregue a cogitacoes dolorosas. Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio: mao alva de mulher o segurava. Esta entrou, apos ella um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto, d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento. O homem que passeava assentou-se tambem no unico escabello que alli havia. Fr. Roy, que o leitor ja tera conhecido, ficou ao pe da porta por onde entrara, com a cabeca baixa e em postura abeatada. "Aproxima-te, beguino!"--disse com voz tremula elrei; porque era elrei D. Fernando o homem que se assentara. Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante. "Que ha de novo?"--perguntou elrei. "O povo cada vez esta mais alvorotado, e jura falar rijamente amanhan a vossa senhoria. Mas essa nao e a peior nova que eu trago!" "Fala, fala, beguino!--acudiu elrei, estendendo a mao convulsa para o ichacorvos. "E que amanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos, o paco sera accommettido. Pretendem matar..." "Mentes, beguino!--gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos cacadores nos matagaes da Asia.--Mentes! Podem nao me querer minha: mas assassinar-me! Isso e impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as merces que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a oppor-se ao nosso casamento; mas nunca a por maos violentas na pobre Leonor Telles." "Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na minha vida:--replicou o ichacorvos com ar contrito.--Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execucao, havera tres credos, na taberna de Folco Taca." "Miseraveis!--bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco da sua amante restituira por um momento a energia.--Miseraveis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hao. Quem ousa ordenar tal cousa?" "Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernao Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmao D. Diniz estava tambem com elles:"--respondeu Fr. Roy. O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo. "Velho assassino!--exclamou D. Fernando--cubriste de luto eterno o coracao do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!" O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as maos, arquejando violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios esbranquicados revelavam mais odio que terror, lancou-lhe um olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu: "Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens, que vao pregar um poste a porta destes pacos, e mandae-me amarrar a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedacar-me tranquillamente amanhan sem profanar os vossos aposentos reaes. Sera mais uma grande merce que lhe fareis em recompensa do seu amor a vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados." "Leonor, Leonor, nao me fales assim, que me matas!--gritou D. Fernando, deitando-se aos pes de D. Leonor e abracando-a pelos joelhos, com um choro convulso.--Que te fiz eu para me tractares tao cruelmente?" "D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma do peao sobre o throno real. Quem nao sabe brandir o ferro, cede; deixa-o reinar." "Tens razao, Leonor!--disse D. Fernando, enxugando as lagrymas e alcando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignacao. --Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae. Eu mesmo vou ao alcacar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotoes e de cadaveres: os montantes e as bestas dos homens d'armas e besteiros do meu alcaide-mor de Lisboa farao o resto. Joao Lourenco Bubal sera fiel a seu rei. Se necessario for com minhas proprias maos ajudarei a por fogo a cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que seras vingada." D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy estava immovel diante delle. "Joao Lourenco Bubal--disse o espia sem se alterar--e dos revoltosos. Ouvi-o da boca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernao Vasques. Os trons do alcacer estao desapparelhados; e a maior parte dos homens d'armas e besteiros do alcaide-mor eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam...." "Cal-te, beguino!"--gritou elrei, empurrando-o com forca e procurando tapar-lhe a boca. O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo golpe lancava de novo na sua habitual perplexidade. "... A adultera:--proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu ministerio. "Beguino!--atalhou D. Leonor com voz tremula de raiva--melhor fora que nunca essa palavra te houvesse passado pela boca; porque talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido." "Mas que faremos!?--murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia. "Havia ainda ha pouco tres expedientes,--respondeu D. Leonor, recobrando apparente serenidade--combater, ceder, fugir. O primeiro e ja impossivel; o segundo!... Porque nao o acceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Nao me veras mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede a forca: os teus vassallos o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!" "Esquecer-me de ti? Nao te ver mais? Nunca! Obedecer a forca? Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:--rei de Portugal, obedece a forca?--Os peoes de Lisboa?! Porque sou manso na paz, nao creem que a minha espada no campo de batalha corte arnezes como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordara como me acordou a mim; bramira como os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no meio de vossos banquetes, por entre o ruido de vossos folgares. No ardor de vossos amores dir-vos-ha:--desamae!--Elle ousa ja dize-lo a seu rei e senhor... Oh desgracado de mim, desgracado de mim!" "Nao queres, pois, deixar-me entregue a minha estrella?--disse D. Leonor, com voz entre de choro e de ternura, abracando pelo pescoco o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida as faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio olhava espantado para ella. "Nao, nao! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno, ou tu subiras a elle." Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignacao, proseguiu com voz lenta mas firme: "Entao resta o fugir." "Fugir!"--exclamou elrei. E esta palavra so era mais expressiva que narracao bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado curtia no coracao irresoluto mas generoso, com a idea de um feito vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um rei de Portugal, em um neto de Affonso IV. Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do seculo quinze, a arte moderna a muito custo pode fazer resurgir. O mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feicoes de D. Leonor, se nao fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se rapidamente, como as vesiculas peconhentas das fauces d'uma vibora. "Seja, pois, assim! Fujamos:"--murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdao ao algoz. D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura, uma bolca de ouropel, e atirou com ella aos pes do beguino, que, de maos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos sublimes do ceu. "Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera atravessar triumphadora o portal por onde vae sair fugitiva." O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram o vigor natural. Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixao. Quando o beguino alevantou a bolca, D. Fernando fitou nelle os olhos e estendeu a mao para o reposteiro sem dizer palavra. Fr. Roy curvou a cabeca, cruzou de nova as maos sobre o peito, e, recuando ate a porta, desappareceu no corredor escuro por onde entrara. Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar, D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excessiva luz do sol. A noite ia em meio do seu curso, como o indicava o mortico das tochas, que mal allumiavam o aposento, e a lua, ja no minguante, comecava a subir na abobada do firmamento, mergulhando no seu clarao sereno o brilho esplendido das estrellas. A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio ao que passava a roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolucao que tomara. Leonor Telles, encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A cidade dormia; e apenas o ladro de algum cao cortava aquella especie de zumbido, que e como o respirar nocturno de uma grande povoacao que repousa. La em baixo uma faixa tremula, semelhante a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Tejo, d'onde mais largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem ate o promontorio onde campeava fora dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma especie de floresta lancada entre a cidade e a sua immensa bahia. Desde o terrado, para o qual dava a janella, ate o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo, cuja hase assentava sobre o lanco oriental da muralha mourisca, e cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga, abrigada a sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas. No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edificio da antiga Olisipo, que esquecera alli aos terremotos, as guerras e aos incendios, e ao qual finalmente chegara a sua hora de desabar, porque uma alta escada de mao estava encostada a verga que assentava sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra. Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente. Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeca baixa, os bracos estendidos, e as maos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixao por alguns momentos, e, estendendo para elle os bracos, exclamou: "Fernando!" Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do tigre. Elrei deu um estremecao, como se pelos membros lhe houvera coado uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos bracos de Leonor Telles. "Amanhan--disse elle com voz affogada,--o rei mais deshonrado da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas sera D. Fernando de Portugal. Que me resta? So o teu amor; mais nada. Porque nao me pedem antes a coroa real, que para mim tem sido coroa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor! serias a mulher mais perversa se um dia me atraicoasses." Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta mulher tinha um toque divino a claridade da lua. D. Fernando, embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle. "Fernando!"--proseguiu D. Leonor--"jura-me ainda uma vez que seras sempre meu, como eu serei sempre tua." Dizendo isto, affastou-o brandamente de si. "Juro-t'o uma e mil vezes pela fe de leal cavalleiro que ate hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos de meu nobre e valente avo, que alli dorme juncto ao altar-mor da se, debaixo das bandeiras infieis que conquistou no Salado. Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!" "Bem esta, rei de Portugal!--atalhou D. Leonor.--Agora so uma cousa me resta para te pedir. Nao e favor; e justica." "Nao me pecas Lisboa, que essa sabe Deus se tornara a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeca nestes pacos de meus antepassados, passando por cima das ruinas dela! Nao me pecas Lisboa, que talvez amanhan deixe de me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres." "Quero que me des as minhas arrhas: quero o preco do meu corpo, segundo foro de Hespanha." "Villa-vicosa e alegre como um horto de flores, e Villa-vicosa dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos e forte e roqueiro: sao numerosos e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos sera teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lencoes d'aguas vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem a sombra das penedias: podes ter por tua a Cintra. Alemquer e rica no meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamara senhora." "Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu nao t'as peco em dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia." "De muita ou de pouca, nao me importa! Dar-te-hei o que me pedires." D. Leonor estendeu a mao para a especie de portada romana, que se erguia solitaria no meio do terreiro deserto: "E alli que tu me daras o preco do meu corpo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real." Elrei lancou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles tinha o braco estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peao: era a forca, tetrica, temerosa, maldicta! "Leonor, Leonor!--disse elrei com um som de voz cavo e debil--porque vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor? Porque interpoes um instrumento de morte e de affronta entre mim e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso as villas e castellos de que te faco senhora? Porque trocas a estola do clerigo que ha-de unir-nos pelo baraco aspero do algoz?" "Rei de Portugal!--respondeu a mulher de Joao Lourenco da Cunha com um brado de furor--ainda me perguntas porque o faco? Tu nunca seras digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto pensamentos de sangue a pensamentos d'amor? E porque esses de quem eu o peco pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? E porque o teu bom povo de Lisboa quiz tambem interpor entre nos a morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro o fructo do cadafalso as villas e castellos que me offereces? E porque para os animos generosos nao ha vender vingancas por ouro. Vinganca, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serao tambem perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldicoem, porque levo os seus caudilhos ao patibulo. Este e o preco do meu corpo. Sem esse preco a neta de D. Ordonho de Leao[2] nunca sera mulher de D. Fernando de Portugal." E com um braco estendido para o logar sem nome[3] do supplicio, e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade. "Tens razao, Leonor:--disse por fim D. Fernando, depois de largo silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel mudaram gradualmente.--Tens razao. A futura rainha de Portugal tera o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hao para sempre: os coracoes que te desejaram a morte deixarao de bater. No meu throno, ate aqui de mansidao e bondade, assentar-se-ha a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se faltar ao juramento que te faco de lavar em sangue a tua e a minha injuria." A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em um sorrir de inexplicavel docura. "Oh, como te hei-de amar sempre!"--murmurou ella. E estas palavras cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa. Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio. [1] Isto era escripto em 1844. [2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender de D. Ordonho II, rei de Leao. [3] Logar sem nome. Nos pelo menos nao nos atrevemos a por-lh'o. Sabemos so que em tempos remotos a forca esteve perto da igreja de S. Joao da Praca, freguezia cuja existencia data pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir. Doc. 2.) Talvez o terreiro ou praca em que ella estava desse o cognome a parochia. Desconfiamos, todavia, de que este terreiro se estendesse para o lado oriental da se, e que nesse caso o nome fosse Aljami. D. Joao I fez merce em 1392 ao bispo de Lisboa D. Martinho (Chancel. de D. Joao I, L. 2. deg.) de uns pardieiros no chao d'Aljami, que partem com os pacos do dito bispo, para fazer umas casas e torre. Os pacos dos bispos ficavam para o lado oriental da se. Alem d'isso Aljami parece derivar-se do arabico aljamea, que significa o laco com que se amarram o pescoco e as maos. Um bulhao e uma agulha d'alfaiate O sol, que havia mais de meia hora subira do oriente cingido da sua aureola de vermelhidao, no meio da atmosphera turva e cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocio ou praca onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e pelo de Valverde ao norte. Ja muitos besteiros e peoes armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos pacos de Lancarote Pecanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do almirante[2], outros da banda da alcacova, outros, emfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que iam dar a opulenta e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos doze no meio da praca e as bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, cbamavam-se uns aos outros. As vezes aquella mo de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superficie de um pego passando o tufao. Incerta, vacillante, informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas quando nao podesse romper as portas chapeadas de forte castello. Entao aquella multidao tomava a forma de meia lua, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastidao do terreiro. O povo, que dorme as vezes por seculos, fora accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa possante vida da praca publica, em que de ordinario e ridiculo e feroz; mas em que nao raro e sublime e terrivel. Era a manhan immediata a noite em que occorreram os successos narrados antecedentemente: o povo preparava-se para uma lucta moral com o seu rei, mas nao se descuidara de vir prestes para uma lucta physica, se D. Fernando quizesse appellar para esse ultimo argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraya-miuda dava mostras da sua forca e reivindicava o direito de dizer armada--nao quero!--O elemento democratico erguia-se para influir activamente na monarchia; enxertava-se nella como principio politico a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra o throno, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a forca popular, se valeria della para esmagar aquelles que ora sopravam os animos a revolta, e davam ao vulgo uma nova existencia. A hora aprazada para a vinda d'elrei ainda nao havia batido; mas o povo, orgulhoso da importancia que subitamente se lhe dera, embevecido na idea de que obrigaria elrei a quebrar os lacos adulterinos que o uniam a Leonor Telles, nao media o tempo pelo curso do sol, mas pelo fervor da sua impaciencia. Duas vezes se espalhara a voz de que D. Fernando chegara, e duas vezes o povo correra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porem, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro gothico, que, formado apenas de um pavimento terreo e humilde, contrastava com a magnificencia do templo, em cujas portadas profundas, sobre os columnellos ponteagudos que sustinham os fechos e chaves da abobada, os animaes monstruosos e hybridos, os centauros, os satyros e os demonios, avultados na pedra dos capiteis por entre as folhagens de carvalho e de lodao, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimira o esculptor, escarnecerem da colera popular, que, lenta como os estos do oceano, comecava a crescer e a trasbordar. Apenas la dentro se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas do orgao e do cantochao monotono dos frades, que offereciam a Deus as preces matutinas. Era entao que o povo escutava: e retrahia-se arrastado pelas blasphemias e pragas que saiam de mil bocas, e que eram repellidas do sanctuario pelo sussurro dos canticos que reboavam dentro da igreja, e que transsudavam por todos os poros do gigante de pedra um murmurio de paz, de resignacao e de confianca em Deus. O povo, porem, era como os homens robustos do Genesis: era impio, porque era robusto. O dia crescia, e crescia com elle a desconfianca. As noticias corriam encontradas: ora se dizia que elrei cedera aos desejos dos seus vassallos e dos peoes, e que viria annunciar ao povo a sua separacao de Leonor Telles; ora pelo contrario se asseverava que elle era firme em sustentar a resolucao contraria. Havia ate quem asseverasse que na alcacova e no terreiro de S. Martinho se comecavam a ajunctar homens d'armas e besteiros. A colera popular crescia, porque a aticava ja o temor. No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemes, dous homens altercavam violentamente: eram Ayras Gil e Fr. Roy: objecto da disputa Fernao Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino. "Que nao vira, vos digo eu:--gritava Ayras Gil.--Disse-m'o Garciodonez, o mercador de pannos, que mora ao cabo da rua-nova, aos acougues, defronte das taracenas d'elrei." "Mentiu pela gorja como um perro judeu:--replicou Fr. Roy--Nao era Fernao Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraya-miuda elegido por seu propoedor." "Medo ou dobras do paco podem tapar a boca aos mais ousados, e faze-los dormir ate deshoras--retrucou o petintal. "Que fazem falar as dobras do paco, sei eu:--tornou o beguino com riso sardonico, lembrando-se do que nessa noite passara:--medo sabeis vos que faz fugir: inveja sabemos nos todos que faz imaginar..." "Descaro e gargantoice que faz mendigar:--interrompeu Ayras Gil, vermelho de colera, cerrando os punhos, e descahindo para o ichacorvos, como gale que vae afferrar outra em combate naval. "Excommunicabo vos"--murmurou Fr. Roy, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal. E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas. N'isto os gritos de alcacer! alcacer! reboaram para outro lado da praca: o povo correu para la. Os dous campeadores voltaram-se: era o alfaiate. Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo despreso para Ayras Gil; e tomando uma postura entre heroica e de inspirado, estendeu o braco e o index para o logar onde passava Fernao Vasques. Depois partiu com a turbamulta que o rodeava, em quanto o petintal o seguia de longe, lento e cabisbaixo. O alfaiate, cercado de outros cabecas da revolta da vespera, encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma saia[4] de valencina reforcada, calcas de bifa, capatos de pelle de gamo, chapeirao de ingres com fita de momperle, e cincta de couro, tudo escuro ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus do alpendre. D'alli, em pe, com os bracos cruzados, correu com os olhos a praca, onde entre o povo apinhado se fizera repentino silencio. Depois, tirando o chapeirao, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram ja os de um tribuno. "Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! Alcacer por elrei D. Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senao!..." Esta exclamacao d'um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre, foi repetido em grita confusa por milhares de bocas. De repente da banda da rua de Gileanes sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que pareciam correr a redea solta: todos os olhos se volveram para aquella banda: muitos rostos empallideceram. Uma voz de terror girou pelo meio das turbas.--"Sao homens d'armas d'elrei!"--Aquelle oceano de cabecas humanas redemoinhou a estas palavras, e comecou a dividir-se como o mar vermelho diante de Moyses. N'um momento viu-se uma larga faixa esbranquicada cortar aquella superficie movel e escura: era ampla estrada que se abrira desde a rua de Gileanes ate S. Domingos. As paredes desta adelgacavam-se rapidamente. Para a banda da Mouraria e da Pedreira os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas scintillavam ao sol, comecaram a descer e a sumir-se como as luzinhas das bruxas em sitio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernao Vasques olhou em redor de si: estava so. Descorou; mas ficou immovel. Entretanto o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruido: os besteiros do concelho, postados ao longo dos pacos do almirante, eram talvez os unicos em quem o terror nao fizera profunda impressao: alguns ja haviam estendido sobre o braco da besta os virotes hervados, e revolvendo a pole faziam encurvar o arco para o tiro. Os besteiros de garrucha tinham ja o dente desta embebido na corda, promptos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nus dos cavalleiros e escudeiros reaes. Do resto do povo os ousados eram os que recuavam; porque o maior numero voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e vinhas d'Almafalla, ou trepava pelas ruas escuras e malgradadas do bairro do almirante. Mas no meio deste susto geral apparecera um heroe. Era Fr. Roy. Ou fosse imprudente confianca no cargo occulto que lhe dera D. Leonor, ou fosse robustez d'animo, ou fosse finalmente a persuasao de que o habito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua d'onde rompia o ruido, e mirando pela aresta do angulo um breve espaco, voltou-se para o povo, e curvando-se com as maos nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas. Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do ichacorvos, o povo comecou a refluir para a praca. Aquellas risadas produziam mais animo e enthusiasmo que os quarenta seculos vos contemplam de Napoleao, na batalha das Pyramides. Os amotinados recobraram n'um instante toda a anterior energia. Esta scena tinha sido rapidissima: todavia ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se conheceu claramente a causa daquelle temor que apertara por algum tempo todos os coracoes. Era a corte que chegava. Montados em mulas possantes, os officiaes da casa real, os ricos-homens, conselheiros e juizes do desembargo vinham assistir ao auto solemne, em que da boca d'elrei a nacao devia ouvir ou uma resolucao conforme com os desejos tanto da arraya-miuda como dos senhores e cavalleiros, ou a confirmacao de um casamento, mal agourado por muitos nobres e por todos os burguezes, e condemnado de um modo nada duvidoso por estes ultimos. No meio das variadas cores dos trajos cortezaos negrejavam as garnachas dos letrados e clerigos do paco, e entre o reluzir dos esplendidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassallos seculares, dos alcaides-mores e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados, que constituiam o supremo tribunal da monarchia, a curia ou desembargo d'elrei. A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado, e em todos os rostos transluzia o receio acerca de qual seria o desfecho deste drama terrivel e immenso, em que entravam representantes de todas as classes sociaes. Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por seu porte altivo o conde de Barcellos, D. Joao Affonso Tello, tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se da por excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d'elrei com sua sobrinha comecaram, elle fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligencias para desviar o monarcha de levar avante seus intentos. D. Fernando persistira, todavia, nelles, e entao o conde, junctamente com a infanta D. Beatriz[5] e com D. Maria Telles, irman de D. Leonor, suscitara a idea de a divorciar de Joao Lourenco da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse estendido a sua ma vontade a todos os parentes de Leonor Telles, odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado ate a altura do throno, ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais distincto membro da fidalguia[6]. "Velha raposa, em que te pese, nao sera a adultera rainha da boa terra de Portugal!--gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pe delle, mas olhando de traves para o conde que passava. "Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenco?--perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lancando tambem os olhos para D. Joao Affonso Tello. "Que tendes vos com o lobo que empece ao lobo?--acudiu um lagareiro calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.--Deixae-os morder uns aos outros, que e signal de Deus se amercear de nos." "O que elles mereciam--interrompeu uma regaleira--era serem alagantados[7]--com boas tiras de couro cru." "E ella, tia Dordia?--accrescentou um ferreiro.--Conheceis vos a comborca? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumaco; outra do coitado nas costas della![8]" "E costume, ergo direita a pena:"--notou um procurador, que gravemente contemplava aquelle espectaculo, e que ate alli guardara silencio. Estas injurias, que, como o fogo de um pelotao, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo nao lhes dar attencao, empallidecia e corava successivamente, e mordia os beicos de colera. De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado no ruido de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja tao cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coracao e o animo mais robusto. Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva, viam-se, porem, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a sua uniao com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre elles, e o povo ao ve-lo passar saudou-o com um murmurio, que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devera a um caso analogo, a morte de D. Ignez de Castro. Quando os fidalgos, cavalleiros e letrados da casa e conselho d'elrei se apearam juncto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praca, subiu apos elles, e esperou que se assentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidao apinhada ao redor: "Se elrei ainda nao e presente--disse em voz intelligivel e firme--ahi tendes para ouvir vossos aggravamentos os senhores do seu conselho: porventura que elles poderao dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e elle vira depois confirmar o seu dicto." "Senhor Fernao Vasques, sois o nosso propoedor: a vos toca o falar!"--replicou um do povo. "Assim o queremos! assim o queremos!"--bradou a turbamulta. O alfaiate voltou-se entao para os cortezaos, conselheiros e letrados do desembargo d'elrei, e disse: "Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estao junctas, de dizer algumas cousas a elrei nosso senhor, que entendem por sua honra e servico; e porque e direito escripto, que sendo as partes principaes presentes, o officio de procurador deve de cessar no que ellas bem souberem dizer, vos outros que sois principaes partes neste feito, e a que isto mais tange que a nos, devieis dizer isto, e eu nao; porem, nao embargando que assim seja, eu direi aquillo de que me deram carrego, pois vos outros em ello nao quereis por mao, mostrando que vos doeis pouco da honra e servico d'elrei....[9]" "Cal-te, villao!--bradou, erguendo-se, o conde de Barcellos com voz affogada de colera, que ja nao podia conter--se nao queres que seja eu quem te faca resfolgar sangue, em vez de injurias, por essa boca sandia." O velho Pacheco poz-se tambem em pe, exclamando: "Conde de Barcellos, lembrae-vos de que os burguezes teem por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus aggravamentos, de se queixarem, e de os reprehenderem. Nos somos menos que os reis." Fernao Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignacao, e havia feito um signal com a cabeca. No mesmo instante o povo abrira uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, attentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rocio ao tropear da multidao, um semi-circulo de mais de quinhentos besteiros e peoes armados fazia uma grossa parede em frente dos populares. Fernao Vasques encaminhou-se entao para D. Joao Affonso Tello, e com a mao tremula de raiva, segurando-o por um braco, disse-lhe: "Senhor conde, vos sois que doestaes os honrados burguezes desta leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz senao repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propuz, nao e meu. Eis seus auctores! Pelo que a mim toca, senhor conde, nao receio vossas ameacas. Quando o nobre despe o gibao de ferro para vestir o de tela, nao sei eu se este e mais forte que o do peao, e se tambem a sua boca nao pode golfar sangue como a de um pobre villao." D. Joao forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a mao a cincta onde tinha o punhal; mas Fernao Vasques era mais forcoso, e o conde ja tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. Nao pode chegar com a mao ao cincto. "Conde de Barcellos:--proseguiu o alfaiate com um sorriso--nao recorraes a esse argumento; porque eu tambem estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulhao." Estas ultimas palavras, dictas em tom de escarneo, mal foram ouvidas: a grita na praca era ja espantosa; as injurias, as pragas, as ameacas, cruzando-se nos ares, produziam aquelle rouco e grande brado da furia popular, que so tem semelhanca com o ruido de tufao abysmando-se por cavernas immensas. Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dous contendores; os parciaes de D. Leonor o conde; os outros, cujo numero era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aquelles trabalhavam em apazigua-los, posto que todos os animos estivessem quasi tao irritados como os dos dous contendores. Finalmente o conde cedeu. O aspecto da multidao, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razoes e rogativas dos fidalgos e cavalleiros, attonitos com o espectaculo da ousadia popular; desta ousadia que, menoscabando as ameacas do primeiro entre os nobres, era mais incrivel que a da vespera, a qual apenas se atrevera ao throno. Que fazia, porem, o nosso beguino no meio destes preludios de uma eminente assuada? E o que o leitor vera no seguinte capitulo. [1] Hoje o monte da Graca. [2] Hoje o bairro dentro da rua larga de Sao Roque, Chiado, Rua do Ouro, Rocio e Calcada do Duque. [3] Hoje Rua dos Capellistas [4] Muitos dos trajos civis do seculo decimo-quarto eram communs a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes communs, como se pode ver da lei de D. Affonso IV acerca dos trajos. [5] D. Beatriz era irman dos infantes D. Joao e D. Diniz e meia irman d'elrei. [6] O titulo de conde era o de maior preeminencia entre nos, e Joao Affonso Tello era entao o unico que em Portugal tinha semelhante titulo. [7] Acoutados. [8] Segundo varios quadernos legaes do nosso direito consuctudinario e municipal, em certos casos applicava-se as mulheres casadas a pena de que resa o discurso do ferreiro. O alcalde vinha a casa da criminosa punha no chao um travesseiro, pegava d'uma vara e comecava a bater em cima delle, fazendo-lhe o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo por que as mulheres estavam as varas, pena que com menos apparato se applicava tambem aos homens por muitos e diversos crimes. [9] Textual.--Veja-se Fernao Lopes, Chr. de D. Fernando, cap. 61. MIL DOBRAS PE-TERRA E TREZENTAS BARBUDAS Mal Fernao Vasques travara do braco do conde de Barcellos, e a grita popular comecara a atroar a praca, Fr. Roy, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrara a quina que voltava para a Corredoura[1], e seguindo seu caminho por viellas torcidas e desertas, chegara a porta do ferro, d'onde, atravessando o contiguo e malassombrado terreirinho, em que os raios do sol apenas rapidamente passavam, embargados ao nascer pelos agigantados campanarios da cathedral, e ao declinar pelos pannos e torres da muralha mourisca, chegara esbaforido a S. Martinho. A porta do paco estava fechada; mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capella-mor, e a tribuna communicava com o palacio por um passadico que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si, e escutou um momento: ninguem estava na igreja. Subindo rapidamente a escada, Fr. Roy atravessou o passadico e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim della havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou, e escutou de novo. Dentro altercavam tres pessoas: Fr. Roy bateu devagarinho tres vezes, e poz-se outra vez a escutar. Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta; e uma voz esganicada e colerica perguntou;--Quem esta ahi?" "Eu:--respondeu o beguino. "Quem e e