Fernando Pessoa – Alvaro de Campos – Ode Triunfal

Á dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, féra para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fóra e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fóra,
Por todas as papilas fóra de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios sêcos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabêça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Naturesa tropical—
Grandes trópicos humanos de ferro e fôgo e fôrça—
Canto, e canto o presente, e tambem o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E ha Platão e Vergilio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outróra e fôram humanos Vergilio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cincoenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modêlo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de ólios e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazêres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés—oásis de inutilidades ruìdosas
Onde se cristalisam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a sêco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlantica, Canadian-Pacific!
Luzes e febrís pêrdas de tempo nos bares, nos hoteis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-la as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubs aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colête
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocottes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguezinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa belesa das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o comêta dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilisação quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes—
Duas colunas dêles passando para a segunda página!
O cheiro frêsco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos ha pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos teem cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma sciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazens com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que veem e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constroi, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aéroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes— Na minha mente turbulenta e encandescida Possúo-vos como a uma mulher bela, Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até á noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dêle.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masóquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas côres!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabêça de encontro às vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguem saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolôr anónimo e onde eu não me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós comsigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguem o pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rôsto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos—e eu acho isto belo e amo-o!—
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreitesa e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para êles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
É o mistério do mundo é do tamânho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje…)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ómnibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruìdo, injustiças, violências, e talvês para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nú e quente como um fogueiro,
O momento estridentemente ruìdoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hoteis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor-mecânico e a eletricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Londres, 1914—Junho.

Fernando Pessoa – O Marinheiro

Um quarto que é sem duvida num castello antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma eça, um caixão com uma donzella, de branco. Quatro tochas aos cantos. Á direita, quasi em frente a quem imagina o quarto, ha uma unica janella, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longinquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janella velam trez donzellas. A primeira está sentada em frente á janella, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janella.

É noite e ha como que um resto vago de luar.

*Primeira veladora*.—Ainda não deu hora nenhuma.

*Segunda*.—Não se podia ouvir. Não ha relogio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.

*Terceira*.—Não: o horizonte é negro.

*Primeira*.—Não desejaes, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fômos? É bello e é sempre falso…

*Segunda*.—Não, não fallemos d’isso. De resto, fômos nós alguma cousa?

*Primeira*.—Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é bello fallar do passado… As horas teem cahido e nós temos guardado silencio. Por mim, tenho estado a olhar para a chamma d’aquella vela. Ás vezes treme, outras torna-se mais amarella, outras vezes empallidece. Eu não sei porque é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, porque se dá qualquer cousa?…

(uma pausa)

*A mesma*.—Fallar do passado—isso deve ser bello, porque é inútil e faz tanta pena…

*Segunda*.—Fallemos, se quizerdes, de um passado que não tivessemos tido.

*Terceira*.—Não. Talvez o tivessemos tido…

*Primeira*.—Não dizeis senão palavras. É tão triste fallar! É um modo tão falso de nos esquecermos!… Se passeassemos?…

*Terceira*.—Onde?

*Primeira*.—Aqui, de um lado para o outro. Ás vezes isso vai buscar sonhos.

*Terceira*.—De quê?

*Primeira*.—Não sei. Porque o havia eu de saber?

(uma pausa)

*Segunda*.—Todo este paiz é muito triste… Aquelle onde eu vivi outr’ora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada á minha janella. A janella dava para o mar e ás vezes havia uma ilha ao longe… Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquillo que talvez eu nunca fôsse…

*Primeira*.—Fóra de aqui, nunca vi o mar. Alli, d’aquella janella, que é a unica de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!… O mar de outras terras é bello?

*Segunda*.—Só o mar das outras terras é que é bello. Aquelle que nós vemos dá-nos sempre saudades d’aquelle que não veremos nunca…

(uma pausa)

*Primeira*.—Não diziamos nós que iamos contar o nosso passado?

*Segunda*.—Não, não diziamos.

*Terceira*.—Porque não haverá relogio neste quarto?

*Segunda*.—Não sei… Mas assim, sem o relogio, tudo é mais afastado e mysterioso. A noite pertence mais a si-propria… Quem sabe se nós poderiamos fallar assim se soubessemos a hora que é?

*Primeira*.—Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo dezembros na alma… Estou procurando não olhar para a janella… Sei que de lá se vêem, ao longe, montes… Eu fui feliz para além de montes, outr’ora… Eu era pequenina. Colhia flôres todo o dia e antes de adormecer pedia que não m’as tirassem… Não sei o que isto tem de irreparavel que me dá vontade de chorar… Foi longe d’aqui que isto pôde ser… Quando virá o dia?…

*Terceira*.—Que importa? Elle vem sempre da mesma maneira… sempre, sempre, sempre

(uma pausa)

*Segunda*.—Contemos contos umas ás outras… Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal… Só viver é que faz mal… Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes… Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho… Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo… Mas o passado—porque não fallâmos nós d’elle?

*Primeira*.—Decidimos não o fazer… Breve raiará o dia e arrepender-nos-hemos… Com a luz os sonhos adormecem… O passado não é senão um sonho… De resto, nem sei o que não é sonho… Se ólho para o presente com muita attenção, parece-me que elle já passou… O que é qualquer cousa? Como é que ella passa? Como é por dentro o modo como ella passa?… Ah, fallemos, minhas irmãs, fallemos alto, fallemos todas juntas… O silencio começa a tomar corpo, começa a ser cousa… Sinto-o envolver-me como uma nevoa… Ah, fallae, fallae!…

*Segunda*.—Para quê?… Fito-vos a ambas e não vos vejo logo… Parece-me que entre nós se augmentaram abysmos… Tenho que cançar a idéa de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos… Este ar quente é frio por dentro, naquella parte que toca na alma… Eu devia agora sentir mãos impossiveis passarem-me pelos cabellos… As mãos pelos cabellos—é o gesto com que fallam das sereias… (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa.) Ainda ha pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado…

*Primeira*.—-Eu tambem devia ter estado a pensar no meu…

*Terceira*.—Eu já não sei em que pensava… No passado dos outros talvez…, no passado de gente maravilhosa que nunca existiu… Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho… Porque é que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais perto?… Ha alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Ha para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?…

*Segunda*.—As mãos não são verdadeiras nem reaes… São mysterios que habitam na nossa vida… Ás vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus… Não ha vento que mova as chammas das velas, e olhae, ellas movem-se… Para onde se inclinam ellas?… Que pena se alguem pudesse responder!… Sinto-me desejosa de ouvir musicas barbaras que devem agora estar tocando em palacios de outros continentes… É sempre longe na minha alma… Talvez porque, quando creança, corri atraz das ondas á beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estatua de anjo para que nunca mais ninguem olhasse…

*Terceira*.—As vossas phrases lembram-me a minha alma…

*Segunda*.—É talvez por não serem verdadeiras… Mal sei que as digo… Repito-as seguindo uma voz que não ouço que m’as está segredando… Mas eu devo ter vivido realmente á beira-mar… Sempre que uma causa ondeia, eu amo-a… Ha ondas na minha alma… Quando ando embalo-me… Agora eu gostaria de andar… Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer… Dos montes é que eu tenho medo… É impossivel que elles sejam tão parados e grandes… Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que teem… Se d’esta janella, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-hia um momento da minha alma alguem em quem eu me sentisse feliz…

*Primeira*.—Por mim, amo os montes… Do lado de cá de todos os montes é que a vida é sempre feia… Do lado de lá, onde mora minha mãe, costumavamos sentarmo-nos á sombra dos tamarindos e fallar de ir ver outras terras… Tudo alli era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho… A floresta não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos… E os nossos sonhos eram de que as arvores projectassem no chão outra calma que não as suas sombras… Foi decerto assim que alli vivemos, eu e não sei se mais alguem… Dizei-me que isto foi verdade para que eu não tenha de chorar…

*Segunda*.—Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar… A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas… Eu era pequena e barbara… Hoje tenho medo de ter sido… O presente parece me que durmo… Fallae-me das fadas. Nunca ouvi fallar d’ellas a ninguem… O mar era grande demais para fazer pensar nellas… Na vida aquece ser pequeno… Ereis feliz minha irmã?.

*Primeira*.—Começo neste momento a tel-o sido outr’ora… De resto, tudo aquilo se passou na sombra… As arvores viveram-o mais do que eu… Nunca chegou quem eu mal esperava… E vós, irmã, porque não fallaes?

*Terceira*.—Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencerão logo ao passado, ficarão fóra de mim, não sei onde, rigidas e fataes… Fallo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente… Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mão, não sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrario que estivesse com consciencia de si-proprio. É por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, atravez do mysterio de fallar… E, afinal, quem sabe se eu sou assim e se é isto sem duvida que sinto?…

*Primeira*.—Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!… Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso… Fallae portanto, sem reparardes que existis… Não nos ieis dizer quem ereis?

*Terceira*.—O que eu era outr’ora já não se lembra de quem sou… Pobre da feliz que eu fui!… Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra é fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquillas dos meus dedos… Ás vezes, á beira dos lagos, debruçava-me e fitava-me… Quando eu sorria, os meus dentes eram mysteriosos na agua… Tinham um sorriso só d’elles, independente do meu… Era sempre sem razão que eu sorria… Fallae-me da morte, do fim de tudo, para que eu sinta uma razão p’ra recordar…

*Primeira*.—Não fallemos de nada, de nada… Está mais frio, mas porque é que está mais frio? Não ha razão para estar mais frio. Não é bem mais frio que está… Para que é que havemos de fallar?… É melhor cantar, não sei porquê… O canto, quando a gente canta de noite, é uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos… Eu podia cantar-vos uma canção que cantavamos em casa de meu passado. Porque é que não quereis que vol-a cante?

*Terceira*.—Não vale a pena, minha irmã… Quando alguem canta, eu não posso estar commigo. Tenho que não poder recordar-me. E depois todo o meu passado torna-se outro e eu chóro uma vida morta que trago commigo e que não vivi nunca. É sempre tarde de mais para cantar, assim como é sempre tarde de mais para não cantar…

(uma pausa)

*Primeira*.—Breve será dia… Guardemos silencio… A vida assim o quer… Ao pé da minha casa natal havia um lago. Eu ia lá e assentava-me á beira d’elle, sobre um tronco de arvore que cahira quasi dentro de agua… Sentava-me na ponta e molhava na agua os pés, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos pés, mas não era para as ver… Não sei porquê, mas parece-me d’este lago que elle nunca existiu… Lembrar-me d’elle é como não me poder lembrar de nada… Quem sabe porque é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?…

*Segunda*.—Á beira-mar somos tristes quando sonhamos… Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremol-o sempre ter sido no passado… Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que ha mil vozes minimas a fallar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma… Tudo é muito e nós não sabemos nada… Quereis que vos conte o que eu sonhava á beira-mar?

*Primeira*.—Podeis contal-o, minha irmã, mas nada em nós tem necessidade de que nol-o conteis… Se é bello, tenho já pena de vir a tel-o ouvido. E se não é bello, esperae…, contae-o só depois de o alterardes…

*Segunda*.—Vou dizer vol-o. Não é inteiramente falso, porque sem duvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim… Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pae e mãe e que houvera em mim infancia e outros dias—nesse dia vi ao longe, como uma cousa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela… Depois ella cessou… Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho… Não sei onde elle teve principio… E nunca tornei a ver outra vela… Nenhuma das velas dos navios que sahem aqui de um porto se parece com aquella, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar…

*Primeira*.—Vejo pela janella um navio ao longe. É talvez aquelle que vistes…

*Segunda*.—Não, minha irmã; esse que vêdes busca sem duvida um porto qualquér… Não podia ser que aquelle que eu vi buscasse qualquér porto…

*Primeira*.—-Porque é que me respondestes?… Pode ser… Eu não vi navio nenhum pela janella… Desejava ver um e fallei-vos d’elle para não ter pena… Contae-nos agora o que foi que sonhastes á beira mar…

*Segunda*.—Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longinqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por ellas… Não vi se alguma vez pousavam… Desde que, naufragado, se salvára, o marinheiro vivia alli… Como elle não tinha meio de voltar á patria, e cada vez que se lembrava d’ella soffria, poz-se a sonhar uma patria que nunca tivesse tido; poz-se a fazer ter sido sua uma outra patria, uma outra especie de paiz, com outras especies de paysagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janellas… Cada hora elle construía em sonho esta falsa patria, e elle nunca deixava de sonhar, de dia á sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas, e não reparando nas estrellas.

*Primeira*.—Não ter havido uma arvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas a sombra de um sonho como esse!…

*Terceira*.—Deixae-a fallar… Não a interrompaes… Ella conhece palavras que as sereias lhe ensinaram… Adormeço para a poder escutar… Dizei, minha irmã, dizei… Meu coração doe-me de não ter sido vós quando sonhaveis á beira mar…

*Segunda*.—Durante annos e annos, dia a dia o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal… Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edificio impossivel… Breve elle ia tendo um paiz que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que côr soiam ser os crepusculos numa bahia do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmurio da agua que o navio abria, num grande porto do sul onde elle passára outr’ora, feliz talvez, das suas mocidades a supposta…

(uma pausa)

*Primeira*.—Minha irmã, porque é que vos calaes?

*Segunda*.—Não se deve fallar demasiado… A vida espreita-nos sempre… Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber… Quando fallo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me fallar. Isso faz com que me compadeça de mim-propria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho… Vêde: o horizonte empallideceu… O dia não póde já tardar… Será preciso que eu vos falle ainda mais do meu sonho?

*Primeira*.—Contae sempre, minha irmã, contae sempre… Não pareis de contar, nem repareis em que dias raiam… O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas… Não torçaes as mãos. Isso faz um ruido como o de uma serpente furtiva… Fallae-nos muito mais do vosso sonho. Elle é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca musica na alma…

*Segunda*.—Sim, fallar-vos-hei mais d’elle. Mesmo eu preciso de vol-o contar. À medida que o vou contando, é a mim tambem que o conto… São trez a escutar… (De repente, olhando para o caixão, e estremecendo.) Trez não… Não sei… Não sei quantas…

*Terceira*.—Não falleis assim… Contae depressa, contae outra vez… Não falleis em quantos podem ouvir… Nós nunca sabemos quantas cousas realmente vivem e vêem e escutam… Voltae ao vosso sonho… O marinheiro… O que sonhava o marinheiro?…

*Segunda* (mais baixo, numa voz muito lenta).—Ao principio elle creou as paysagens; depois creou as cidades; creou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na materia da sua alma— uma a uma as ruas, bairro a bairro, até ás muralhas dos caes d’onde elle creou depois os portos… Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre ellas das janellas… Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas… Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paysagens e as vae vendo… Depois viajava, recordado, atravez do paiz que creara… E assim foi construindo o seu passado… Breve tinha uma outra vida anterior… Tinha já, nessa nova patria, um logar onde nascera, os logares onde passara a juventude, os portos onde embarcara… Ia tendo tido os companheiros da infancia e depois os amigos e inimigos da sua edade viril… Tudo era differente de como elle o tivera—nem o paiz, nem a gente, nem o seu passado proprio se pareciam com o que haviam sido… Exigís que eu continue?… Causa-me tanta pena fallar d’isto!… Agora, porque vos fallo d’isto, aprazia-me mais estar-vos fallando de outros sonhos…

*Terceira*.—Continuae, ainda que não saibaes porquê… Quanto mais vos ouço, mais me não pertenço…

*Primeira*.—Será bom realmente que continueis? Deve qualquer historia ter fim? Em todo o caso fallae… Importa tão pouco o que dizemos ou não dizemos… Velamos as horas que passam… O nosso mister é inutil como a Vida…

*Segunda*.—Um dia, que chovêra muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cançou-se de sonhar… Quiz então recordar a sua patria verdadeira…, mas viu que não se lembrava de nada, que ella não existia para elle… Meninice de que se lembrasse, era a na sua patria de sonho; adolescencia que recordasse, era aquella que se creara… Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara… E elle viu que não podia ser que outra vida tivesse existido… Se elle nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava… E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido… Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer… Ó minhas irmãs, minhas irmãs… Ha qualquer cousa, que não sei o que é, que vos não disse…, qualquer cousa que explicaria isto tudo… A minha alma esfria-me… Mal sei se tenho estado a fallar… Fallae-me, gritae-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vós e que ha cousas que são apenas sonhos…

*Primeira* (numa voz muito baixa).—Não sei que vos diga… Não ouso olhar para as cousas… Esse sonho como continúa?…

*Segunda*.—Não sei como era o resto… Mal sei como era o resto… Porque é que haverá mais?…

*Primeira*.—E o que aconteceu depois?

*Segunda*.—Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?… Veiu um dia um barco… Veiu um dia um barco…—Sim, sim… só podia ter sido assim…—Veiu um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro…

*Terceira*.—Talvez tivesse regressado á patria… Mas a qual?

*Primeira*.—Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabel-o-hia alguem?

*Segunda*.—Porque é que m’o perguntaes? Ha resposta para alguma cousa?

(uma pausa)

*Terceira*.—Será absolutamente necessario, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?

*Segunda*.—Não, minha irmã; nada é absolutamente necessario.

*Primeira*.—Ao menos, como acabou o sonho?

*Segunda*.—Não acabou… Não sei… Nenhum sonho acaba… Sei eu ao certo se o não continúo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhal-o não é esta cousa vaga a que eu chamo a minha vida?… Não me falleis mais… Principío a estar certa de qualquer cousa, que não sei o que é… Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço… Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?… Tenho um medo disforme de que Deus tivesse prohibido o meu sonho… Elle é sem duvida mais real do que Deus permitte… Não estejaes silenciosas… Dizei-me ao menos que a noite vae passando, embora eu o saiba… Vêde, começa a ir ser dia… Vêde: vae haver o dia real… Paremos… Não pensemos mais… Não tentemos seguir nesta aventura interior… Quem sabe o que está no fim d’ella?… Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite… Não fallemos mais d’isto, nem a nós-proprias… É humano e conveniente que tomemos, cada qual a sua attitude de tristeza.

*Terceira*.—Foi-me tão bello escutar-vos… Não digaes que não… Bem sei que não valeu a pena… É porisso que o achei bello… Não foi porisso, mas deixae que eu o diga… De resto, a musica da vossa voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez só por ser musica, descontente…

*Segunda*.—Tudo deixa descontente, minha irmã… Os homens que pensam cançam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-o, porque mudam com tudo… De eterno e bello ha apenas o sonho… Porque estamos nós fallando ainda?…

*Primeira*.—Não sei… (olhando para o caixão, em voz mais baixa)
Porque é que se morre?

*Segunda*.—Talvez por não se sonhar bastante…

*Primeira*.—É possivel… Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?…

*Segunda*.—Não, minha irmã: nada vale a pena…

*Terceira*.—Minhas irmãs, é já dia… Vêde, a linha dos montes maravilha-se… Porque não choramos nós?… Aquella que finge estar alli era bella, e nova como nós, e sonhava tambem… Estou certa que o sonho d’ella era o mais bello de todos… Ella de que sonharia?…

*Primeira*.—Fallae mais baixo. Ella escuta-nos talvez, e já sabe para que servem os sonhos…

(uma pausa)

*Segunda*.—Talvez nada d’isto seja verdade… Todo este silencio, e esta morta, e este dia que começa não são talvez senão um sonho… Olhae bem para tudo isto… Parece-vos que pertence á vida?…

*Primeira*.—Não sei. Não sei como se é da vida… Ah, como vós estaes parada! E os vossos olhos tão tristes, parece que o estão inutilmente…

*Segunda*.—Não vale a pena estar triste de outra maneira… Não desejaes que nos calemos? É tão extranho estar a viver… Tudo o que acontece é inacreditavel, tanto na ilha do marinheiro como neste mundo… Vêde, o céu é já verde… O horizonte sorri ouro… Sinto que me ardem os olhos, de eu ter pensado em chorar…

*Primeira*.—Chorastes, com effeito, minha irmã.

*Segunda*.—Talvez… Não importa… Que frio é este?… O que é isto?… Ah, é agora… é agora… Dizei-me isto… Dizei-me uma cousa ainda… Porque não será a unica cousa real nisto tudo o marinheiro, e nós e tudo isto aqui apenas um sonho d’elle?…

*Primeira*.—Não falleis mais, não falleis mais… Isso é tão extranho que deve ser verdade… Não continueis… O que ieis dizer não sei o que é, mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir… Tenho medo do que não chegastes a dizer… Vêde, vêde, é dia já… Vêde o dia… Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, alli fóra… Vêde-o, vêde-o… Elle consola… Não penseis, não olheis para o que pensaes… Vêde-o a vir, o dia… Elle brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se á medida que se coloram… Se nada existisse, minhas irmãs?… Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente cousa nenhuma?… Porque olhastes assim?…

(Não lhe respondem. E ninguem olhara de nenhuma maneira.)

*A mesma*.—Que foi isso que dissestes e que me apavorou?… Senti-o tanto que mal vi o que era… Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, já não tenha tanto mêdo como d’antes… Não, não… Não digaes nada… Não vos pergunto isto para que me respondaes, mas para fallar apenas, para me não deixar pensar… Tenho medo de me poder lembrar do que foi… Mas foi qualquer cousa de grande e pavoroso como o haver Deus… Deviamos já ter acabado de fallar… Ha tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido… O que ha entre nós que nos faz fallar prolonga-se demasiadamente… Ha mais presenças aqui do que as nossas almas… O dia devia ter já raiado… Deviam já ter acordado… Tarda qualquer cousa… Tarda tudo… O que é que se está dando nas cousas de accordo com o nosso horror?… Ah, não me abandoneis… Fallae commigo, fallae commigo… Fallae ao mesmo tempo do que eu para não deixardes sosinha a minha voz… Tenho menos medo á minha voz do que á idéa da minha voz, dentro de mim, se fôr reparar que estou fallando…

*Terceira*.—Que voz é essa com que fallaes?… É de outra…
Vem de uma especie de longe…

*Primeira*.—Não sei… Não me lembreis isso… Eu devia estar fallando com a voz aguda e tremida do mêdo… Mas já não sei como é que se falla… Entre mim e a minha voz abriu-se um abysmo… Tudo isto, toda esta conversa, e esta noite, e este mêdo—tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes… Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aquelles…

*Terceira* (para a Segunda).—Minha irmã, não nos devieis ter contado essa historia. Agora extranho-me viva com mais horror. Contaveis e eu tanto me distrahia que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente. E parecia-me que vós, e a vossa voz, e o sentido do que dizieis eram trez entes differentes, como trez creaturas que fallam e andam.

*Segunda*.—São realmente trez entes differentes, com vida propria e real. Deus talvez saiba porquê… Ah, mas porque é que fallamos? Quem é que nos faz continuar fallando? Porque fallo eu sem querer fallar? Porque é que á não reparamos que é dia?…

*Primeira*.—Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter mêdo de que alguem possa agora bater àquella porta. Porque não bate alguem á porta? Seria impossivel e eu tenho necessidade de ter mêdo d’isso, de saber de que é que tenho mêdo… Que extranha que me sinto!… Parece-me já não ter a minha voz… Parte de mim adormeceu e ficou a vêr… O meu pavôr cresceu mas eu já não sei sentil-o… Já não sei em que parte da alma é que se sente… Puzeram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo… Para que foi que que nos contastes a vossa historia?

*Segunda*.—Já não me lembro… Já mal me lembro que a contei… Parece ter sido já ha tanto tempo!… Que somno, que somno absorve o meu modo de olhar para as cousas!… O que é que nós queremos fazer? o que é que nós temos idéa de fazer?—já não sei se é fallar ou não fallar…

*Primeira*.—Não fallemos mais. Por mim, cança-me o esforço que fazeis para fallar… Dóe-me o intervallo que ha entre o que pensaes e o que dizeis… A minha consciencia boia á tona da somnolencia apavorada dos meus sentidos pela minha pelle… Não sei o que é isto, mas é o que sinto… Preciso dizer phrases confusas, um pouco longas, que custem a dizer… Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende?

*Segunda*.—Não sinto nada… Sinto as minhas sensações como uma cousa que se não sente… Quem é que eu estou sendo?… Quem é que está fallando com a minha voz?… Ah, escutae…

*Primeira e Terceira*.—Quem foi?

*Segunda*.—Nada. Não ouvi nada… Quiz fingir que ouvia para que vós suppozesseis que ouvieis e eu pudesse crêr que havia alguma cousa a ouvir… Oh, que horror, que horror intimo nos desata a voz da alma, e as sensações dos pensamentos, e nos faz fallar e sentir e pensar quando tudo em nós pede o silencio e o dia e a inconsciencia da vida… Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir?…

*Primeira*.—Para quê tentar apavorar-me?… Não cabe mais terror dentro de mim… Peso excessivamente ao collo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que supponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer cousa que m’os pega e m’os vela. Pesam as palpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a lingua a todos os meus sentimentos. Um somno fundo colla uma ás outras as idéas de todos os meus gestos… Porque foi que olhastes assim?…

*Terceira* (numa voz muito lenta e apagada).—Ah, é agora, é agora… Sim, acordou alguem… Ha gente que acorda… Quando entrar alguem tudo isto acabará… Até lá façamos por crêr que todo este horror foi um longo somno que fomos dormindo… É dia já… Vae acabar tudo… E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditaes no sonho…

*Segunda*.—Porque é que m’o perguntaes? Porque eu o disse? Não, não acredito…

Um gallo canta. A luz, como que subitamente, augmenta. As trez veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras.

Não muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia.

11/12 Outubro, 1913.

Fernando Pessoa – Entre o sono e o sonho

      Entre o sono e sonho,
      Entre mim e o que em mim
      Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

 

Fernando Pessoa, 11-9-1933

Fernando Pessoa – Gato que brincas na rua

      Gato que brincas na rua

 

      Como se fosse na cama,

 

      Invejo a sorte que é tua

 

      Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

 

Fernando Pessoa, 1-1931

Fernando Pessoa – Sonho. Não sei quem sou neste momento.

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,

      Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.

      Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,

      Coração de ninguém.

Fernando Pessoa, 6-1-1923