Antero de Quental – Entre sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
—A noite desce, desfolhando as rosas—
Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visão, com azas de setim…

Pousa de leve a delicada mão
—Rescende amena a noite socegada—
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração…

E diz-me essa visão compadecida
—Ha suspiros no espaço vaporoso—
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços
—Na noite funda ha um silencio santo—
N’um sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços…

Porque eu habito a região distante
—A noite exhala uma doçura infinda—
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu virás commigo
—Palpita a noite n’um clarão que offusca—
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo…

Assim me fala essa visão nocturna
—No vago espaço ha vozes dolorosas—
São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna…

Mas eu escuto-a immovel, somnolento
—A noite verte um desconsolo immenso—
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento…

Fito-a, n’um pasmo doloroso absorto
—A noite é erma como campa enorme—
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

Antero de Quental – Os vencidos

Tres cavalleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com mão potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos tres, erguendo os braços,
Diz n’um soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

Irmãos, amei—amei e fui amado…
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavalleiro,
Com sorriso de tragica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças opprimidas,
Fil-as surgir, como um clarim fremente.

Quando ha de vir o dia da justiça?
Quando ha de vir o dia do resgate?
Trahio-me o gladio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de purpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por elles combati, com mente justa…
Por isso morro á mingoa e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavalleiro:
«Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro

Invoquei-a nas horas affrontosas
Em que o mal e o peccado dão assalto.
Procurei-o, com ancia e sobresalto,
Sondando mil sciencias duvidosas.

Que vento de ruina bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrosanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céo, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…
Tedio reçuma a luz dos dias vãos…
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os tres, unindo a voz n’um ai supremo,
E deixando pender as mãos cançadas
Sobre as armas inuteis e quebradas,
N’um gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidavel,
Sumiram-se na selva impenetravel
E no palor da noite silenciosa.

Antero de Quental – Numa noite de Primavera

Esta quadra d’amor quanto nos punge,
Com tão doce pungir! Como sorrindo
Nos mata de desejos; nos esmaga
Sob o peso infinito dos anhelos,
Que esta vida e mil outras não fartaram!
Esta quadra d’amor, com seus sorrisos,
Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!

Tal é a essencia do Amor; tal Deus ha posto
Um veneno no mal, na flôr um áspide!
Prazer e dôr, sereis talvez um unico,
Unico sêr, que nos penetra e abraza
N’um fogo que nos doe, mas que é tão doce?
Punhal, que ferindo o peito, nos consola,
Mas, que a affagar nos vae roubando a vida,
Antegosto do que é o céo e o inferno?
Será isto o amor? será?… quem sabe?

Talvez! Se é laço universal e unico
Deve o bem como o mal juntar n’um todo;
Se é vida é tambem morte; se é saudade,
É desejo tambem; e se algum anjo
O creou, ha demonio que o perturba;
Se é um sol que nos brilha dentro d’alma,
Tambem queima e devora, tambem mata!
E é isto amor? será! será! quem sabe?

De vida mais completa é antegosto,
De melhor existir que além começa:
Talvez! então o amor será a morte?
Triste noiva, é mistér esp’rar-lhe a vinda
Para amar e gozar e viver muito?!
Celebre-se o hymeneo sobre uma campa:
Aguarde-se a hora extrema, como aurora
De um bem, que além da vida só começa;
E contando os momentos como sec’los,
O primeiro dos dias seja o ultimo…
Mas será isto amor? será!… quem sabe?

Talvez!… Mas quando a lousa funeraria
Rangendo, cobre um corpo estremecido:
Quando a terra só pode dar-lhe os osc’los,
Que inda ha pouco lhe davamos convulsos,
Que vem, que vem aos olhos? Vem só lagrimas
E ao peito vem só dôr! O lucto, o pranto
Se assentam sobre as campas, não a esp’rança!
E será isto amor? será!… quem sabe?

Mas as lousas são frias. Quem pernoita
Na deveza onde só o eterno somno
Se dorme… não! ninguem por lá pernoita!
As dôres, como gazes, se evaporam;
No ambiente da vida os ais não podem
Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima,
Tantas consolações para os que soffrem!
Não duram, não!… a mão que enchuga o pranto
Beija-se… e mais… e mais… encontra-se a alma
Com quem se casa a pobre solitaria:
E a outra! a outra lá! partiu-se o laço…
E é isto amor? será! será?… quem sabe?

Feliz do que viaja em mundo novo!…
Triste do que ficou sobre uma lousa
Assentado a chorar: o que é da esp’rança?
Nunca sahiu da campa voz amiga
A consolar a dôr! Fica-lhe apenas
Um premio, triste premio! o das lagrimas:
Esse—se foi constante—hade cingir-lhe
A fronte com a c’roa… do martyrio…
E será isto amor? será!… quem sabe?
………………………………….

2.^o FRAGMENTO

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Será! será! Que importa, se é tão doce,
Se mata com um sorriso, entre caricias!
Vae, razão fria! vae… isto ou aquillo
Que importa seja o amor?! É sempre bello
—Um momento sequer—gozar a vida.

É bello o amor; é bella a vida; é bello
Tudo aonde o Senhor a mão ha posto…
E o Senhor fez o mundo! e a ti, ó noite,
Noite de primavera, deu-te estrellas,
Que são almas no espaço a procurar-se;
A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio
De matar ou dar vida… e a mim, sim!—creio—
Inda hade dar-me uma hora de ventura!
………………………………….
Oh! dae-me a taça do veneno doce,
Que mata embriagando! Dae-me prestes
Uma taça de amor aonde libe!…

Abril, 1861.

Antero de Quental – Paz em Deus

…pax hominibus bona voluntate.

O Deus que me creou pôz-me no peito
Um thesouro tão rico de esperança,
Que não ha quem m’o roube ou quem m’o gaste;
E pôz-me n’alma fonte tão perenne
D’aquelle Eterno-Amor, que de lá desce,
Que não ha sol ou calma que m’a seque.

A fonte que nasceu em solo árido
Se um dia murmurou, morreu no outro;
Mas a que vem dos montes, que o céo tocam,
Descendo lentamente e sem ruido,
Té que brota entre as flores da campina,
Essa não morre com a luz de um dia…
Fonte de puras aguas abundantes,
Traz do céo sua origem. Lá se esconde,
Entre nuvens, o foco que a alimenta:
Eterna, como o céo d’onde partira,
E serena, como elle, a paz e a vida,
Como elle, tem no seio e d’elle manam.

Assim d’aquelle amor. Constante e puro,
Que ardor ou calma ou sol pode seccal-o?
Que pó da terra conspurcar-lhe o brilho?

A maldade dos homens não te mancha,
Oh minha paz, oh minha pomba candida!
Na terra o caçador te aponta a flecha,
E o tiro parte em vão. Como tocar-te,
Se tão alto voaste, e o dardo apenas
Mediu a meia altura que levavas?
A flecha cae na terra… ao céo tu foges!

Vae pomba immaculada! irei comtigo
Abrigar-me tambem no seio eterno,
Quando um dia o Senhor julgar que é finda
A missão que me deu de aqui servil-o.
Aqui fica-me a esp’rança que me alente,
Fica a luz que me guia, o Amor, a crença.

E foi Deus quem me deu o meu thesouro,
Como á ave que vôa deu a penna,
Que a libra pelo espaço; e ao olho morto
Do ancião, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembléa dos homens, se um, olhando-me
Disser—«Aquelle é rei»—irei prostrar-me
Diante do Senhor, abrindo o espirito
Á voz que dentro d’elle Deus murmura;
E Deus vendo-me puro na consciencia
Dirá—«Ergue-te em paz: não és culpado»—!

Se sentir dentro d’alma alguma f’rida
Vertendo sangue e fel, em dor extrema,
Buscarei no Senhor o meu alivio:
E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga,
Dirá—«Fica-te em paz: estás curado»—!

Oh minha doce paz! por ti se cumpram
Os decretos do Eterno: tu me escuda
Dos tiros que a maldade em mim dispara;
A força do leão põe-me na mente,
A mansidão da pomba dentro d’alma.
Oh pomba ingenua, pomba immaculada,
Filha do céo ao céo voemos juntos.

Janeiro, 1861.

Antero de Quental – Força Amor

O que destroe os mundos,
E dá que os mar’s frementes,
Em volta aos continentes,
Cavem abysmos fundos;

A mão que faz que a noite,
Sem luz, amor, encanto,
Se envolva em negro manto
Aonde o mal se acoite;

Que pôs no olhar o brilho,
E deu ao labio o riso,
Á planta o pomo liso.
Seio de mãe ao filho;

O que é verbo da vida,
Do amor, da luz, do affecto,
O que sustenta o insecto
E a planta desvalida;

E disse á nuvem branca
—Em densas trevas morre,
E disse ao vento—corre,
Assola, espalha, arranca;

Quem faz da vida morte,
De puro incenso, fumo;
E deixa, em mar sem rumo,
O homem luctar co’a sorte;

Se é Deus… oh! não! não pode
Do amor o foco immenso,
Que abraza em fogo intenso,
Se á mente nos acode;

Não pode o sôpro d’elle
Mandar a morte e o pranto,
Em vez do doce encanto,
Que immenso amor revele!

Algum genio das trevas,
—Espirito infecundo—
Espalha sobre o mundo
Estas vinganças sevas.

Não elle; o Deus suave!
D’aquelle seio immenso,
Só manda á terra o incenso
E o balsamo que a lave!

…………………………………. ………………………………….

—«Estranhas ver a morte?
De vida andas repleto:
O Deus, o Deus do affecto
Tambem é o Deus forte:

Poeta! és tu que ignoras
—Envolto em sonho aéreo—
O revolto mysterio
De mais revoltas horas!—

Dezembro, 1860.

Antero de Quental – Laço d’Amor

Que heide dar de melhor? Ai, n’estes tempos
De pobres affeições, de tibias crenças,
—Fonte que os sóes do estio tem seccado—
Aonde ha fé tam viva, que trasborde,
Enchendo um peito n’outro peito amigo?
Que esperanças cá da terra ha hi tam firmes,
Tam ricas de futuro, que dois sêres
Possam firmar-se n’ellas sem receio
E abandonar-se todo ao seu arrimo,
Qual braço de mulher em braço de homem?
E quem pode encontrar-se em egual via,
E ir, com norte egual, seguir seu rumo
Quando tantos caminhos vão cruzando
N’estes tempos o mundo do espirito?
Ah, n’este sec’lo, amigo, solitario
Cada qual segue triste a sua estrada,
Caminheiro de um dia, e silencioso,
Contando, como o avaro, os tristes restos
Das suas illusões, das suas crenças,
A si pergunta o que ficou de tudo;
Olha as bandas longiquas do horizonte
E de novo interroga, em desalento,
Se o futuro lhe guarda alguma esp’rança,
Se o abysmo é o termo da jornada?!

Se lá de longe em longe alguma tenda,
Se uma fonte que ensombra alta palmeira.
Lhe alveja no deserto; se inda um pouco
Lhe repousa a cabeça afadigada,
Não faz, crente no Deus que o tem guiado,
A oração da noite, a acção de graças
E, antes que cerre as palpebras, medita…

No repouso só busca o esquecimento:
Dorme o somno agitado de uma noite
Sob a tenda que o acaso lhe depara;
De manhã, sem levar uma saudade,
Sem as deixar tambem, eil-o seguindo
Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro?
P’ra dôr que soffre em si tudo é presente,
Aqui, ali, em toda a parte o punge…
Quem lhe dera esquecer, não recordar-se…

Orações? são incenso cujo aroma
É de lagrimas… e as d’elle se hão seccado!
Orgulhoso na dôr, da dôr o orgulho
Fal-o erguer solitario e silencioso,
Como se ergue o granito no deserto
Ermo, nú… se medita… e só comsigo.

Assim vae cada qual seguindo o rumo
Que o accaso ou o fado lhe depara:
Quem se pode encontrar? que laço estreito
Ha que os aperte? Idéa ou sentimento
Aonde em crença egual juntos communguem?
………………………………….
………………………………….
………………………………….
Com tudo Deus existe! e nós, seus filhos,
—Ingratos—se n’uma hora o olvidámos,
Dentro temos a voz de eterno brado!
Quem pode renegar seu pae? Nós somos
Como esse Adão occulto no arvoredo
Que não quer responder a quem o chama:
Porém se a voz do pae clamou tres vezes,
Não pode resistir—«Eis-me presente.»—

Dissidentes no mais, Deus nos reune:
No impio, ou crente, em todos Deus existe
E todos chama a si, e a todos ama.
Nós somos como rios que descendem
De varia serra, e em vario leito correm:
Mas, que importa? essas serpes tortuosas,
Após rodeios mil, após mil voltas,
Vão todas dar no mar; some-as o Oceano.

Que importa a crença varia e o vario affecto?
Este laço de amor a todos une:
—Existe um Deus que é Pae; somos seus filhos.

Coimbra, Maio, 1861.

Antero de Quental – Palavras Aladas

Raios de extincta luz, eccos perdidos
De voz que se sumiu no espaço absorta—
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Não sabe a folha já mirrada e secca,
Que um sôpro do tufão levou revolta,
Que outro sopro talvez desfaça em breve—
Não sabe a triste o ramo onde nascera,
A seiva que a nutriu, quando inda bella,
O tronco que adornou com verde galla,
E onde entre irmãs folgou por tarde amena?
Soltos do tronco, sem calor, sem vida,
Filhos orphãos que um seio não aquece,
Um seio maternal ebrio de affectos,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada,
Lembrar e vir na mente o tempo antigo
Em que bella, vestindo pompa e gallas,
Brilhou rica de seiva e luz e vida;
Se na mente sonhar a pura essencia
Que animara esse pó ahi revolto;
Se corpo der á sombra fugitiva,
E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio;
Se alguem souber do canto o sentir intimo,
Oh, esse ha de entender a vida, a crença
D’essa alma que animara outr’ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica
Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me;
Se livre, por tyrannos não comprado,
Pulsar um coração, esse commigo
Hade a aurora saudar do novo dia;
Se uma alma recordar a eterna patria
Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa
Commigo a Deus n’um hymno hade elevar-se.

Aos mais será mysterio o canto e a lyra,
Á Liberdade, a Amor e a Deus votada:
E já, soltos do tronco onde medraram,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Coimbra, Novembro, 1860.

Um escorso biografico de Antero De Quental

Bem conhecida é esta alta individualidade, que se manifestou entre a moderna geração com um extraordinario temperamento de luctador, e que de repente caíu em uma apathia invencivel, em um desalento moral progressivo, em uma decadencia physica precoce, e por ultimo no desespero, que em 11 de setembro de 1891 determinou o suicidio. Quando em tão breve espaço vemos essas bellas organisações litterarias, como Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado e Anthero de Quental truncarem a sua carreira pelo suicidio, não pode deixar de explicar-se essa fatalidade pela nevrose que n’elles era o estimulo do seu talento e o motor das suas desgraças. E essa mesma nevrose, que se manifestava brilhantemente pela invenção imaginosa, pela graça delicada ou pela inspiração poetica, nunca lhes deixára adquirir uma disciplina mental que os levasse á analyse de si mesmos, nem uma subordinação moral que os fortificasse contra o seu espontaneo pessimismo. A critica da acção litteraria de Anthero de Quental está implicita n’esta caracteristica do seu organismo.

Anthero de Quental nasceu na Ilha de S. Miguel em 1842, em uma familia de morgados; n’aquella pequena ilha a falta de cruzamentos nas familias aristocraticas tem determinado uma terrivel degenerescencia, que se manifesta pela idiotia e pela loucura. Na familia de Anthero de Quental existem casos d’esta terrivel tare hereditaire. A frequencia na Universidade de Coimbra, desorientadora para as mais fortes organisações, não deixou de actuar profundamente no espirito de Anthero de Quental, lançando-o em uma dissolvente anarchia mental pelos habitos das arruaças escolares e pelas leituras radicalistas que o levavam a uma grande sobreexcitação. Foi n’esta crise da adolescencia que em Anthero de Quental desabrochou o talento poetico e a paixão revolucionaria, que deu origem a uma liga de espiritos emancipados de todo o supernaturalismo e de toda a auctoridade temporal, que se denominou a Sociedade do Raio. Este titulo provinha das imprecações que lançavam ao espaço em occasião de trovoadas, provocando o raio para que os fulminasse, como expressão de uma vontade individual no universo. As perseguições contra a Polonia e as luctas pela libertação e unificação da Italia, tambem acordaram o interesse de Anthero para as questões politicas. As suas leituras favoritas eram os livros de Proudhon, de Feuerbach, de Quinet e Michelet, e isso rapidamente, vivendo em uma atmosphera de discussão permanente, de uma dialectica de sophismas, aggravada por uma irregularidade de vida, que veiu mais tarde a determinar a doença que o embaraçou na sua actividade. Anthero de Quental vivia entre um grupo de estudantes que o divinisára, considerando-o como um apostolo, um iniciador da humanidade. E elle proprio chegou a acreditar n’aquella missão, e passados annos, em uma carta autobiographica, definia-se como o porta-estandarte das idéas modernas em Portugal.

N’este periodo da vida de Anthero era elle dominado por um condiscipulo natural de Penafiel, chamado Germano Vieira de Meyrelles, a quem dedicou a primeira edição das Odes modernas. Este Germano Meyrelles era um typo rachytico e aleijado, dotado de um sarcasmo maligno, resultado da sua imperfeição physica; exerceu no espirito de Anthero uma acção corrosiva, privando-o de todos os enthusiasmos, e levando-o quasi á apathia mental. Quando Germano Meyrelles morreu miseravelmente, deixando duas crianças filhas naturaes, Anthero tomou conta d’ellas e educou-as em sua companhia, deixando-lhes o remanescente da sua herança.

O talento de Anthero revelou-se pela poesia no jornal O Academico; em 1861, levado pela admiração do lyrismo de João de Deus, cultivou a fórma do Soneto, que estava longe ainda da belleza que attingiu na sua ultima phase pessimista.

As idéas politicas revolucionarias e negativistas de que se deixára possuir determinaram a primeira alteração nas suas concepções poeticas. Em 1865 publicou em Coimbra a collecção de poesias d’esta phase revolucionaria com o titulo de Odes modernas; mas os productos da sua actividade poetica, transição para as Odes modernas e Sonetos, são totalmente desconhecidos, porque Anthero de Quental rasgou todas as composições que não se harmonisavam com o seu novo ideal revolucionario. Um dos adoradores de Anthero de Quental, que o acompanhava nas tropelias nocturnas, e que tambem morreu doido em 1872, Eduardo Xavier, colligira em volume essas poesias da phase romantica; é essa collecção que possuiamos que hoje publicamos, da existencia da qual o proprio Anthero nem suspeitava.

A crise moral de Anthero começou propriamente em 1865, quando se achou sósinho em Coimbra; o curso juridico a que elle pertencia acabára a formatura em 1863; Anthero teve de repetir um anno, e ao terminar a formatura em 1864, achou-se sem estimulos que o obrigassem a saír de Coimbra. Vivia então solitario, meditabundo, desenfadando-se em digressões nocturnas. Foi n’esse anno de 1865, que irrompeu a celebre Questão de Coimbra; eu é que o estimulei a saír á estacada, dando réplica ás insidias de Castilho.

Anthero publicou n’esse anno a carta Bom senso e bom gosto, que o revelara ao paiz um polemista ardente, um estylista vigoroso, um espirito possuido de uma alta inspiração. Anthero de Quental contrahira perante o paiz e a geração moderna o compromisso de pôr em obra essas generosas aspirações. De dia a dia tornava-se mais reparavel o seu silencio, mais censuravel a falta de actividade litteraria. Anthero soffria um profundo mal estar, que o não deixava entregar-se ao remanso do estudo; saíu de Coimbra para ir viver em Penafiel com o seu amigo Germano; depois foi para Guimarães para ao pé de Alberto Sampaio; foi para o Algarve para o seu amigo Negrão; foi á America, a Pariz, aos Açores, e por ultimo fixara-se mais algum tempo em Villa do Conde. Não estava bem em parte alguma.

Os trabalhos litterarios não o seduziam; em Lisboa achou-se com José
Fontana, que se aproveitou do seu perstigio moral para a organisação do
partido socialista, e junto com outros rapazes, Eça de Queiroz, Jayme
Batalha Reis, inaugurou em 1871 as Conferencias democraticas do
Casino, mandadas encerrar pelo ministro marquez d’Avila.

N’estes dous actos Anthero foi impellido, caindo outra vez na apathia de onde nunca mais saiu, promettendo apezar de tudo vir a publicar um Programma para os trabalhos da Geração moderna. Por occasião da encyclica de Pio IX proclamando o Syllabus, e por occasião da revolução de Hespanha em 1868, Anthero de Quental publicou dous opusculos, mais para mostrar as suas aptidões de folliculario do que a vista clara e o seguro juizo dos acontecimentos. A sua doença moral tornava-se uma lesão physica, accentuando-se a sua doença nervosa em 1874.

Na impossibilidade de toda a ordem de trabalho, mas carecendo de occupar a imaginação no meio dos seus soffrimentos, Anthero de Quental ia dia a dia burilando um ou outro soneto, em que dava expressão ao estado moral em que se achava; os amigos foram colligindo estes sonetos, vindo ao fim de algum tempo Oliveira Martins a formar um precioso volume de que elle mesmo foi o editor carinhoso. Fez a esse livro uma introduccão vaga sobre intenções buddhicas e intuições nirvânicas, mas não nos deu a nota viva do poeta. Os Sonetos de Anthero produziram uma forte impressão, não só pela profundidade dos sentimentos como principalmente pela perfeição esmeradissima da fórma; porque os versos das Odes modernas, na expressão das paixões revolucionarias, eram pouco plasticos, e revelavam mais o philosopho do que o artista.

Nos Sonetos Anthero transfigurara-se. O Dr. Storck, que acabava de traduzir em bellos versos para a lingua allemã a obra completa de Camões, ao receber um exemplar dos Sonetos de Anthero fez a alta consagração de os traduzir para essa lingua eminentemente philosophica. Para acompanhar a sua traducção pediu o Dr. Storck a Anthero algumas notas biographicas; em carta de 14 de Maio de 1887 escreveu o poeta uma especie de Autobiographia que vem junto dos Sonetos. É um documento importante, não pelos dados biographicos, que são vagos e exagerados, mas pelo alcance psychologico, porque pelas phrases com que Anthero se glorifica dando-se como o estylísta dotado com o dom da prosa portugueza e o porta-estandarte das ideias em Portugal, vê-se que obedecia a uma certa vesania mental, que lhe motivava fundas decepções e terriveis desalentos. N’esta phase de espirito, Anthero caiu debaixo da influencia de Oliveira Martins, que não foi mais saudavel do que a de Germano Meyrelles. Oliveira Martins tinha sido um dos seus collaboradores na organisação democratica e socialista em Lisboa, quando publicava a Republica e o Pensamento social; mas um dia abandona o seu ideal, e filia-se em um esgotado partido monarchico a que pretendeu ir levar vida nova. Foi esta apostasia uma desillusão para Anthero; soffreu-a calladamente, pedindo aos amigos que lhe não fallassem n’isso. Vivia então em absoluto isolamento em Villa do Conde, onde era visitado como um pontifice. Em Janeiro de 1890 deu-se o facto brutal do Ultimatum do governo inglez sobre a questão africana; da natural reacção do sentimento nacional contra este acto de selvagismo diplomatico, nasceu no Porto o movimento de agremiação da Liga patriotica do Norte.

Para dar aos espiritos uma certa unificação moral, lembraram-se do nome de Anthero de Quental; foram buscal-o a villa do Conde, e conseguiram interessal-o pelo movimento nacional. Prezidiu a alguns comicios e a sessões preparatorias da Liga patriotica do Norte; mas o poeta não conhecia a mechanica das assembléas parlamentares, foi facilmente envolvido por todos aquelles que procuravam desnaturar um movimento tão saudavel, e por fim quando a Liga patriotica se dissolveu com o mais escandaloso fiasco, Anthero de Quental retirou-se á sua impotencia, ferido com um desalento mortal. A data do seu testamento em 9 de setembro de 1890 revela que elle já pensava em acabar com a existencia. A dissolução dos caracteres dos seus contemporaneos de Coimbra mais o desalentava; partira para a ilha de S. Miguel em Julho de 1891, e a falta de interesse e o tedio de aquella solidão augmentada pela mesquinhez da vida de Ponta Delgada, determinou a fatal resolução de 11 de setembro, em que se suicidou com dous tiros de rewolver na bocca. Foi uma existencia verdadeiramente desgraçada; não se revelou com a pujança que possuia. Herdeiro de uma terrivel nevrose, não teve a ventura de deparar uma doutrina moral, uma philosophia que lhe fortificasse o espirito; pelo contrario, as suas leituras de Schopenhauer, e a cultura do ideal pessimista em que se enlevava artisticamente, incutiram no seu espirito a ideia do suicidio que involuntariamente se tornou effectiva. A sua obra é mais um documento psychologico do que um producto esthetico; e n’este sentido será estudada e confrontada com a de outros genios egualmente desgraçados.