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Antero de Quental – Entre sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
—A noite desce, desfolhando as rosas—
Vem ter commigo, ás horas duvidosas,
Uma visão, com azas de setim…

Pousa de leve a delicada mão
—Rescende amena a noite socegada—
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração…

E diz-me essa visão compadecida
—Ha suspiros no espaço vaporoso—
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços
—Na noite funda ha um silencio santo
N’um sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços…

Porque eu habito a região distante
—A noite exhala uma doçura infinda—
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu virás commigo
—Palpita a noite n’um clarão que offusca—
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo…

Assim me fala essa visão nocturna
—No vago espaço ha vozes dolorosas—
São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna…

Mas eu escuto-a immovel, somnolento
—A noite verte um desconsolo immenso—
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento…

Fito-a, n’um pasmo doloroso absorto
—A noite é erma como campa enorme—
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

Antero de Quental – Os vencidos

Tres cavalleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com mão potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos tres, erguendo os braços,
Diz n’um soluço: «Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

Irmãos, amei—amei e fui amado
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.»

Responde-lhe o segundo cavalleiro,
Com sorriso de tragica amargura:
«Amei os homens e sonhei ventura,
Pela justiça heroica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças opprimidas,
Fil-as surgir, como um clarim fremente.

Quando ha de vir o dia da justiça?
Quando ha de vir o dia do resgate?
Trahio-me o gladio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como em leito de purpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por elles combati, com mente justa…
Por isso morro á mingoa e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.»

Diz então o terceiro cavalleiro:
«Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro

Invoquei-a nas horas affrontosas
Em que o mal e o peccado dão assalto.
Procurei-o, com ancia e sobresalto,
Sondando mil sciencias duvidosas.

Que vento de ruina bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrosanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céo, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam…
Tedio reçuma a luz dos dias vãos…
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda…
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.»

E os tres, unindo a voz n’um ai supremo,
E deixando pender as mãos cançadas
Sobre as armas inuteis e quebradas,
N’um gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidavel,
Sumiram-se na selva impenetravel
E no palor da noite silenciosa.

Antero de Quental – Numa noite de Primavera

Esta quadra d’amor quanto nos punge,
Com tão doce pungir! Como sorrindo
Nos mata de desejos; nos esmaga
Sob o peso infinito dos anhelos,
Que esta vida e mil outras não fartaram!
Esta quadra d’amor, com seus sorrisos,
Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!

Tal é a essencia do Amor; tal Deus ha posto
Um veneno no mal, na flôr um áspide!
Prazer e dôr, sereis talvez um unico,
Unico sêr, que nos penetra e abraza
N’um fogo que nos doe, mas que é tão doce?
Punhal, que ferindo o peito, nos consola,
Mas, que a affagar nos vae roubando a vida,
Antegosto do que é o céo e o inferno?
Será isto o amor? será?… quem sabe?

Talvez! Se é laço universal e unico
Deve o bem como o mal juntar n’um todo;
Se é vida é tambem morte; se é saudade,
É desejo tambem; e se algum anjo
O creou, ha demonio que o perturba;
Se é um sol que nos brilha dentro d’alma,
Tambem queima e devora, tambem mata!
E é isto amor? será! será! quem sabe?

De vida mais completa é antegosto,
De melhor existir que além começa:
Talvez! então o amor será a morte?
Triste noiva, é mistér esp’rar-lhe a vinda
Para amar e gozar e viver muito?!
Celebre-se o hymeneo sobre uma campa:
Aguarde-se a hora extrema, como aurora
De um bem, que além da vida só começa;
E contando os momentos como sec’los,
O primeiro dos dias seja o ultimo…
Mas será isto amor? será!… quem sabe?

Talvez!… Mas quando a lousa funeraria
Rangendo, cobre um corpo estremecido:
Quando a terra só pode dar-lhe os osc’los,
Que inda ha pouco lhe davamos convulsos,
Que vem, que vem aos olhos? Vem só lagrimas
E ao peito vem só dôr! O lucto, o pranto
Se assentam sobre as campas, não a esp’rança!
E será isto amor? será!… quem sabe?

Mas as lousas são frias. Quem pernoita
Na deveza onde só o eterno somno
Se dorme… não! ninguem por lá pernoita!
As dôres, como gazes, se evaporam;
No ambiente da vida os ais não podem
Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima,
Tantas consolações para os que soffrem!
Não duram, não!… a mão que enchuga o pranto
Beija-se… e mais… e mais… encontra-se a alma
Com quem se casa a pobre solitaria:
E a outra! a outra lá! partiu-se o laço…
E é isto amor? será! será?… quem sabe?

Feliz do que viaja em mundo novo!…
Triste do que ficou sobre uma lousa
Assentado a chorar: o que é da esp’rança?
Nunca sahiu da campa voz amiga
A consolar a dôr! Fica-lhe apenas
Um premio, triste premio! o das lagrimas:
Esse—se foi constante—hade cingir-lhe
A fronte com a c’roa… do martyrio…
E será isto amor? será!… quem sabe?
………………………………….

2.^o FRAGMENTO

………………………………….
Será! será! Que importa, se é tão doce,
Se mata com um sorriso, entre caricias!
Vae, razão fria! vae… isto ou aquillo
Que importa seja o amor?! É sempre bello
—Um momento sequer—gozar a vida.

É bello o amor; é bella a vida; é bello
Tudo aonde o Senhor a mão ha posto…
E o Senhor fez o mundo! e a ti, ó noite,
Noite de primavera, deu-te estrellas,
Que são almas no espaço a procurar-se;
A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio
De matar ou dar vida… e a mim, sim!—creio—
Inda hade dar-me uma hora de ventura!
………………………………….
Oh! dae-me a taça do veneno doce,
Que mata embriagando! Dae-me prestes
Uma taça de amor aonde libe!…

Abril, 1861.

Antero de Quental – Paz em Deus

…pax hominibus bona voluntate.

O Deus que me creou pôz-me no peito
Um thesouro tão rico de esperança,
Que não ha quem m’o roube ou quem m’o gaste;
E pôz-me n’alma fonte tão perenne
D’aquelle Eterno-Amor, que de lá desce,
Que não ha sol ou calma que m’a seque.

A fonte que nasceu em solo árido
Se um dia murmurou, morreu no outro;
Mas a que vem dos montes, que o céo tocam,
Descendo lentamente e sem ruido,
Té que brota entre as flores da campina,
Essa não morre com a luz de um dia…
Fonte de puras aguas abundantes,
Traz do céo sua origem. Lá se esconde,
Entre nuvens, o foco que a alimenta:
Eterna, como o céo d’onde partira,
E serena, como elle, a paz e a vida,
Como elle, tem no seio e d’elle manam.

Assim d’aquelle amor. Constante e puro,
Que ardor ou calma ou sol pode seccal-o?
Que pó da terra conspurcar-lhe o brilho?

A maldade dos homens não te mancha,
Oh minha paz, oh minha pomba candida!
Na terra o caçador te aponta a flecha,
E o tiro parte em vão. Como tocar-te,
Se tão alto voaste, e o dardo apenas
Mediu a meia altura que levavas?
A flecha cae na terra… ao céo tu foges!

Vae pomba immaculada! irei comtigo
Abrigar-me tambem no seio eterno,
Quando um dia o Senhor julgar que é finda
A missão que me deu de aqui servil-o.
Aqui fica-me a esp’rança que me alente,
Fica a luz que me guia, o Amor, a crença.

E foi Deus quem me deu o meu thesouro,
Como á ave que vôa deu a penna,
Que a libra pelo espaço; e ao olho morto
Do ancião, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembléa dos homens, se um, olhando-me
Disser—«Aquelle é rei»—irei prostrar-me
Diante do Senhor, abrindo o espirito
Á voz que dentro d’elle Deus murmura;
E Deus vendo-me puro na consciencia
Dirá—«Ergue-te em paz: não és culpado»—!

Se sentir dentro d’alma alguma f’rida
Vertendo sangue e fel, em dor extrema,
Buscarei no Senhor o meu alivio:
E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga,
Dirá—«Fica-te em paz: estás curado»—!

Oh minha doce paz! por ti se cumpram
Os decretos do Eterno: tu me escuda
Dos tiros que a maldade em mim dispara;
A força do leão põe-me na mente,
A mansidão da pomba dentro d’alma.
Oh pomba ingenua, pomba immaculada,
Filha do céo ao céo voemos juntos.

Janeiro, 1861.

Antero de Quental – Força Amor

O que destroe os mundos,
E dá que os mar’s frementes,
Em volta aos continentes,
Cavem abysmos fundos;

A mão que faz que a noite,
Sem luz, amor, encanto,
Se envolva em negro manto
Aonde o mal se acoite;

Que pôs no olhar o brilho,
E deu ao labio o riso,
Á planta o pomo liso.
Seio de mãe ao filho;

O que é verbo da vida,
Do amor, da luz, do affecto,
O que sustenta o insecto
E a planta desvalida;

E disse á nuvem branca
—Em densas trevas morre,
E disse ao vento—corre,
Assola, espalha, arranca;

Quem faz da vida morte,
De puro incenso, fumo;
E deixa, em mar sem rumo,
O homem luctar co’a sorte;

Se é Deus… oh! não! não pode
Do amor o foco immenso,
Que abraza em fogo intenso,
Se á mente nos acode;

Não pode o sôpro d’elle
Mandar a morte e o pranto,
Em vez do doce encanto,
Que immenso amor revele!

Algum genio das trevas,
—Espirito infecundo—
Espalha sobre o mundo
Estas vinganças sevas.

Não elle; o Deus suave!
D’aquelle seio immenso,
Só manda á terra o incenso
E o balsamo que a lave!

…………………………………. ………………………………….

—«Estranhas ver a morte?
De vida andas repleto:
O Deus, o Deus do affecto
Tambem é o Deus forte:

Poeta! és tu que ignoras
—Envolto em sonho aéreo—
O revolto mysterio
De mais revoltas horas!—

Dezembro, 1860.

Antero de Quental – Laço d’Amor

Que heide dar de melhor? Ai, n’estes tempos
De pobres affeições, de tibias crenças,
—Fonte que os sóes do estio tem seccado—
Aonde ha fé tam viva, que trasborde,
Enchendo um peito n’outro peito amigo?
Que esperanças cá da terra ha hi tam firmes,
Tam ricas de futuro, que dois sêres
Possam firmar-se n’ellas sem receio
E abandonar-se todo ao seu arrimo,
Qual braço de mulher em braço de homem?
E quem pode encontrar-se em egual via,
E ir, com norte egual, seguir seu rumo
Quando tantos caminhos vão cruzando
N’estes tempos o mundo do espirito?
Ah, n’este sec’lo, amigo, solitario
Cada qual segue triste a sua estrada,
Caminheiro de um dia, e silencioso,
Contando, como o avaro, os tristes restos
Das suas illusões, das suas crenças,
A si pergunta o que ficou de tudo;
Olha as bandas longiquas do horizonte
E de novo interroga, em desalento,
Se o futuro lhe guarda alguma esp’rança,
Se o abysmo é o termo da jornada?!

Se lá de longe em longe alguma tenda,
Se uma fonte que ensombra alta palmeira.
Lhe alveja no deserto; se inda um pouco
Lhe repousa a cabeça afadigada,
Não faz, crente no Deus que o tem guiado,
A oração da noite, a acção de graças
E, antes que cerre as palpebras, medita…

No repouso só busca o esquecimento:
Dorme o somno agitado de uma noite
Sob a tenda que o acaso lhe depara;
De manhã, sem levar uma saudade,
Sem as deixar tambem, eil-o seguindo
Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro?
P’ra dôr que soffre em si tudo é presente,
Aqui, ali, em toda a parte o punge…
Quem lhe dera esquecer, não recordar-se…

Orações? são incenso cujo aroma
É de lagrimas… e as d’elle se hão seccado!
Orgulhoso na dôr, da dôr o orgulho
Fal-o erguer solitario e silencioso,
Como se ergue o granito no deserto
Ermo, nú… se medita… e só comsigo.

Assim vae cada qual seguindo o rumo
Que o accaso ou o fado lhe depara:
Quem se pode encontrar? que laço estreito
Ha que os aperte? Idéa ou sentimento
Aonde em crença egual juntos communguem?
………………………………….
………………………………….
………………………………….
Com tudo Deus existe! e nós, seus filhos,
—Ingratos—se n’uma hora o olvidámos,
Dentro temos a voz de eterno brado!
Quem pode renegar seu pae? Nós somos
Como esse Adão occulto no arvoredo
Que não quer responder a quem o chama:
Porém se a voz do pae clamou tres vezes,
Não pode resistir—«Eis-me presente.»—

Dissidentes no mais, Deus nos reune:
No impio, ou crente, em todos Deus existe
E todos chama a si, e a todos ama.
Nós somos como rios que descendem
De varia serra, e em vario leito correm:
Mas, que importa? essas serpes tortuosas,
Após rodeios mil, após mil voltas,
Vão todas dar no mar; some-as o Oceano.

Que importa a crença varia e o vario affecto?
Este laço de amor a todos une:
—Existe um Deus que é Pae; somos seus filhos.

Coimbra, Maio, 1861.

Antero de Quental – Palavras Aladas

Raios de extincta luz, eccos perdidos
De voz que se sumiu no espaço absorta—
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Não sabe a folha já mirrada e secca,
Que um sôpro do tufão levou revolta,
Que outro sopro talvez desfaça em breve—
Não sabe a triste o ramo onde nascera,
A seiva que a nutriu, quando inda bella,
O tronco que adornou com verde galla,
E onde entre irmãs folgou por tarde amena?
Soltos do tronco, sem calor, sem vida,
Filhos orphãos que um seio não aquece,
Um seio maternal ebrio de affectos,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada,
Lembrar e vir na mente o tempo antigo
Em que bella, vestindo pompa e gallas,
Brilhou rica de seiva e luz e vida;
Se na mente sonhar a pura essencia
Que animara esse pó ahi revolto;
Se corpo der á sombra fugitiva,
E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio;
Se alguem souber do canto o sentir intimo,
Oh, esse ha de entender a vida, a crença
D’essa alma que animara outr’ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica
Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me;
Se livre, por tyrannos não comprado,
Pulsar um coração, esse commigo
Hade a aurora saudar do novo dia;
Se uma alma recordar a eterna patria
Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa
Commigo a Deus n’um hymno hade elevar-se.

Aos mais será mysterio o canto e a lyra,
Á Liberdade, a Amor e a Deus votada:
E já, soltos do tronco onde medraram,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Coimbra, Novembro, 1860.