Mario de Sa-Carneiro – Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d’Ouro
Dormindo fôgo, incerto, longemente…
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só móro…

São tristezas de bronze as que inda chóro—
Pilastras mortas, marmores ao Poente…
Lagearam-se-me as ansias brancamente
Por claustros falsos onde nunca óro…

Desci de mim. Dobrei o manto d’Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro…

Findei… Horas-platina… Olor-brocado…
Luar-ansia… Luz-perdão… Orquideas pranto…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

—Ó pantanos de Mim—jardim estagnado…

Paris 1914—Junho 28

Mario de Sa-Carneiro – Angulo

*ANGULO*

Aonde irei neste sem-fim perdido,
Neste mar ôco de certezas mortas?—
Fingidas, afinal, todas as portas
Que no dique julguei ter construido…

—Barcaças dos meus impetos tigrados,
Que oceano vos dormiram de Segrêdo?
Partiste-vos, transportes encantados,
De embate, em alma ao rôxo, a que rochêdo?…

—Ó nau de festa, ó ruiva de aventura
Onde, em Champanhe, a minha ansia ia,
Quebraste-vos tambem ou, por ventura,
Fundeaste a Ouro em portos d’alquimia?…

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Chegaram á baía os galeões
Com as séte Princesas que morreram.
Regatas de luar não se correram…
As bandeiras velaram-se, orações…

Detive-me na ponte, debruçado,
Mas a ponte era falsa—e derradeira.
Segui no cais. O cais era abaulado,
Cais fingido sem mar á sua beira…

—Por sôbre o que Eu não sou ha grandes pontes
Que um outro, só metade, quer passar
Em miragens de falsos horizontes—
Um outro que eu não posso acorrentar…

Barcelona—Setembro de 1914

Mario de Sa-Carneiro – Nossa Senhora de Paris

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo tambem ao luar…

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longinqua melodia
Toda saudosa a Mar…
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos…
Mas o Oiro não perdura,
E a noite cresce agora a desabar catedrais…
Fico sepulto sob círios—
Escureço-me em delirios,
Mas ressurjo de Ideais…

—Os meus sentidos a escoarem-se…
Altares e vélas…
Orgulho… Estrelas…
Vitrais! Vitrais!

Flores de liz…

Manchas de côr a ogivarem-se…
As grandes naves a sagrarem-se…
—Nossa Senhora de Paris!…

Paris 1913—Junho 15

Mario de Sa-Carneiro – Certa voz, na noite ruivamente

Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons côr de amaranto, ás noites de incerteza,
Que eu lembro não sei d’Onde—a voz duma Princesa
Bailando meia nua entre clarões de espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bêbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo… Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada…

Entanto nunca a vi, mesmo em visão. Sómente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
Não lhe desejo a carne—a carne inexistente…

É só de voz-em-cio a bailadeira astral— E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total, É que eu sonho esvaír-me em vicios de marfim…

Lisboa 1914—Janeiro 31

Mario de Sa-Carneiro – Salomé

Insónia rôxa. A luz a virgular-se em mêdo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua…
Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segrêdo…

Tudo é capricho ao seu redór, em sombras fátuas…
O arôma endoideceu, upou-se em côr, quebrou…
Tenho frio… Alabastro!… A minh’Alma parou…
E o seu corpo resvala a projectar estátuas…

Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecôa-me em quebranto…
Timbres, elmos, punhais… A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar—ha sexos no seu pranto…
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na bôca imperial que humanisou um Santo…

Lisboa 1913—Novembro 3

Mario de Sa-Carneiro – Taciturno

Ha Ouro marchetado em mim, a pedras raras,
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais—
Joia profunda a minha Alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe rial de herois d’Outras bravuras
Em mim se despojou dos seus brazões e presas.

Heraldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
Humilhações a liz, desforços de brocado;
Bazilicas de tédio, arnezes de crispado,
Insignias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro…

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou—embalde a tentarão descer…
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer—
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido…

Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trôno a espessas densidades,
Onde os pânos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divans, em redór, ansias lassas, absortas…

Ha rôxos fins de Imperio em meu renunciar—
Caprichos de setim do meu desdem Astral…
Ha exéquias de herois na minha dôr feudal—
E os meus remorsos são terraços sobre o Mar…

Paris—Agosto de 1914