O que fazem mulheres, por Camilo Castelo Branco

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The Project Gutenberg EBook of O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco

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Title: O que fazem mulheres
       Romance philosophico - Quarta edição

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: July 18, 2009 [EBook #29435]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***




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from the Google Print project.)






OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO
——
EDIÇÃO POPULAR
——
LVII

O QUE FAZEM MULHERES

 

 

 

 

 

VOLUMES PUBLICADOS

N.º 1—Coisas espantosas.

N.º 2—As tres irmans.

N.º 3—A engeitada.

N.º 4—Doze casamentos felizes.

N.º 5—O esqueleto.

N.º 6—O bem e o mal.

N.º 7—O senhor do Paço de Ninães.

N.º 8—Anathema.

N.º 9—A mulher fatal.

N.º 10—Cavar em ruinas.

N.os 11 e 12—Correspondencia epistolar.

N.º 13—Divindade de Jesus.

N.º 14—A doida do Candal.

N.º 15—Duas horas de leitura.

N.º 16—Fanny.

N.os 17, 18 e 19—Novellas do Minho.

N.os 20 e 21—Horas de paz.

N.º 22—Agulha em palheiro.

N.º 23—O olho de vidro.

N.º 24—Annos de prosa.

N.º 25—Os brilhantes do brasileiro.

N.º 26—A bruxa do Monte-Cordova.

N.º 27—Carlota Angela.

N.º 28—Quatro horas innocentes.

N.º 29—As virtudes antigas—Um poeta portuguez... rico!

N.º 30—A filha do Doutor Negro.

N.º 31—Estrellas propicias.

N.º 32—A filha do regicida.

N.os 33 e 34—O demonio do ouro.

N.º 35—O regicida.

N.º 36—A filha do arcediago.

N.º 37—A neta do arcediago.

N.º 38—Delictos da Mocidade.

N.º 39—Onde está a felicidade?

N.º 40—Um homem de brios.

N.º 41—Memorias de Guilherme do Amaral.

N.os 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.

N.os 45 e 46—Livro negro de padre Diniz.

N.os 47 e 48—O judeu.

N.º 49—Duas épocas da vida.

N.º 50—Estrellas funestas.

N.º 51—Lagrimas abençoadas.

N.º 52—Lucta de gigantes.

N.os 53 e 54—Memorias do carcere.

N.º 55—Mysterios de Fafe.

N.º 56—Coração, cabeça e estomago.

N.º 57—O que fazem mulheres.

 

 

CAMILLO CASTELLO BRANCO


O QUE FAZEM

MULHERES


 

ROMANCE PHILOSOPHICO

 

 

QUARTA EDIÇÃO

 

 

1907
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação
Movidas a electricidade
Rua Augusta—44 a 54
LISBOA

 

 

 

 

 

1907
OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
MOVIDAS A ELECTRICIDADE
Da Parceria Antonio Maria Pereira
Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar
LISBOA

 

{5}

 

 

 

A TODOS OS QUE LEREM

É uma historia que faz arripiar os cabellos.

Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demonios.

É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!

Isto sim que é romance!

Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em que o sol esconde a cara.

Como da seva mesa de Thyestes
Quando os filhos por mão de Atreu comia.

Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.

Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só semelhante a uma novella{6} pavorosa das que aterram um editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.

Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asphalto?

Que venham para cá.

Aqui ha cebola para todos os olhos;

Broca para todas as almas;

Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.

Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.

Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e pêcas realidades da vida.

Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.

Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.

Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.

Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.{7}

Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma lampada.

Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?

E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.

Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.

No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.

Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome portuguez que dar a isto.

O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas onças de sublimado?

Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica mineral, e verá.

Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;—e,{8} se não bastar esta, valha-se da resignação.

Ora, está dito tudo.

Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as «Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a geração com o sinete da crença universal.{9}

 

A ALGUNS DOS QUE LEREM

Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude convencional, que não custa dores a quem a usa?

Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal anjo, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o bello; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do halito puro da divindade.

Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria mais que Deus.{10}
{11}

 

CAPITULO AVULSO

 

PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER

Francisco Nunes...

Que nome tão peco e charro! Francisco Nunes!

Pois se o homem chamava-se assim!?

Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste Nunes. O rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas. Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se Nunes.

Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.

Um escriptor Nunes morre ao nascer.

Bem o sabia elle.

Houve em Portugal um escriptor chamado Antonio José. Se a inquisição o não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.

Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos do theatro de D. Maria.{12}

Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...

Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se Francisco Nunes.

Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.

Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.

Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:

«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este charuto!

«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!

«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!

«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!

«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se{13} e mirrem-se como as das mumias de Memphis.

«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!

«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.[1]

«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as substancias organicas, como o acido sulphurico.

«São amargos e causticos como o acido nitrico.

«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.

«Queimam a laringe como o acido phosphorico.

«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.

«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»

Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que blasfemia! santa!) façamos tremendas reflexões:{14}

Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.

Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliothecas.

O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.

Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz crer que o in-folio chora pelo frade?

Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias productivas.

Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o espirito-charneca de{15} muito leitor sandio, que não póde entender a iracundia chimica de Francisco Nunes.

O qual continuou assim:

«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.

«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?

«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a alma n'um rôlo de fumo negro.

«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei que assegura a vida do homem?{16}

«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça.

«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorrhagias de sangue apostemado:—ha tudo isto, debaixo d'este céo impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a electricidade por arames, onde se comem omelettes sucrées e soufflées, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar BENEFICENCIA «Mentira! Mentira e escarneo!

«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do bem-fazer.

«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço, expedindo das glandulas salivares um pus{17} granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando o corpo enervado á banca dos licores incitantes.

«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?

«Foi o charuto!

«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local bem poetica como a do baile do sr. fulano.

«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!

«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo.

«Fazei a autopsia de um charuto como este—proseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada—e vereis que ha aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho.{18}

«Horrivel, e sujamente infernal!

«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]

«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino.

«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!

«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho!

«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem affronta e morte na face do povo!

«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente!{19}

«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vae-te, infame!»

E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.{20}
{21}

 

I

—Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?

Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado na alfandega do Porto.

Ludovina respondeu:

«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?

—É um homem como os outros;—replicou D. Angelica—são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.

«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?

—Deves casar, como se sympathisasses.

«Bravo!... e depois?

—E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque{22} era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.[3] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.

«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.

—Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,{23} dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?

«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela «fortuna» de estupidas creaturas...

—Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...

Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação{24} se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.

Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um de glacé. Os taes censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda.

«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?{25}

—Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?

Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.

«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga.

—Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.{26}

O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.

D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica receber a visita.

Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e timbra em comprar no Moré os mais anilados enveloppes, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.

Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe merece ser corrigida.

Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam{27} para elle ás onze horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do Trovador, a aria valida do Rigoletto, e o acto final da Lucia. De seguida, a compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar.

O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da inappetencia.

Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o quantum satis das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não se entende.

Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado{28} de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.

Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.

D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.

É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.

Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde Aristophanes até Molière.

O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.{29}

 

II

«Ludovina fica hoje no quarto—disse D. Angelica, respondendo á pergunta admirada do bacharel.

—Doente?

—Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa...

—É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora?

—Oh! infelicissimas, de certo...

—Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma medicina toda espiritual...

—A curasse?... talvez...

—Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é{30} sobejamente espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magneticas...

—Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos caseiros... Talvez que uns sinapismos...—proseguiu ella, rindo, sem ferir o orgão maniaco do bacharel—dispensem uma descarga electrica.

—V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição das minhas convicções.

—É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.

—Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª.

—De certo, não.

—Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que Ludovina lhe merece?

—Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...

—Só?

—Uma affeição nobre e desinteressada...

—Amor?

—De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...

—Uma paixão verdadeira, não é verdade?

—Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto{31} é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos revezes da alma...

D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra simulação, dizendo:

—Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu volto já...

Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:

—D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...

O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.

D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as obras.{32}

D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o mais proveitoso desengano.

—Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava—disse a matreira esposa do sr. Pimenta.

—E ella como está agora?

—Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?

—V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...

—A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:

Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto desillusões, revezes, et c½tera, lhe haviam... não me recordo...

—Esterilisado a alma...

—Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom{33} coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as boas qualidades de minha filha.

—De certo... assim o penso, minha senhora—balbuciou o bacharel, forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.

—Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?

—Sabia... desgraçadamente sabia.

Desgraçadamente!... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?

—Sim, minha senhora—tartamudeou o bacharel, afagando as guias do bigode—tenho orgulho de ser assim amado... Desgraçadamente disse eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...

—Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é singular!

—Ainda assim... ha situações na vida...

—Sei o que quer dizer—atalhou a zombeteira senhora—ha situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em riquezas{34} de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira felicidade, não é assim?

—De certo, minha senhora...

—V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.

—Minha senhora—disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. Angelica—eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a intelligencia.

—Pensa mui judiciosamente—redarguiu D. Angelica formando com a prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda approvação—e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?

—Não sei, minha prezada senhora...{35}

—Se fôr negativa?

—Se fôr negativa...

—Obedece?

—Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e attribulados...

—Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe consternada, sr. Sá?

—Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.

«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não ama Ludovina!

—Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!

«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...

—Segui'-la-hei na morte...

«Pois o melhor é viverem ambos!—disse D. Angelica, desafivelando a mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que imaginardes, leitores phantasiosos—V. sr.ª tem sido logrado desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe{36} em minha filha para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr. Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.

D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do throno.

O auctor possivel do SECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito desconhecido ao bacharel.

—Ólá, por cá, snr. Sá?

«É verdade, snr. Pimenta.

—Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!

«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.

—E Ludovina?

«Está de cama, creio eu.

—De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...

«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?

—Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero{37} dar o conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha filha...

«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.

Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pae da esposa promettida:

—Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr um patarata!

«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz—respondeu o snr. Melchior, limpando o suor da testa.

—Novellas!... hum!—este hum do snr. João José Dias é uma cousa semelhante a um grunhido roufenho; aquelle hum é a these de uma dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura immoral dos romances—A sua filha lê novellas, snr. Melchior?—continuou elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.

«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que a mãe já tem lido.

—Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... era de um tal... d'um tal Kocles, ou Koques, e, meu amiguinho, era maroteira de ferver bicho.{38}

A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra os romances.

«Aqui t'o apresento—disse Melchior.

D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas palavras: Minha pobre filha, que impressão vaes receber!{39}

 

III

João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, essencialmente pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de panças, desde a papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.

Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, enviezavam-se para dentro, formando á raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas convexas, dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos para as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos limitrophes.{40} João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes laniares ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.

João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da mesma côr, e não sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de coral.

Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram que é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasphemia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto o campo onde fôra pescoço.

As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da porção de materia, destinada para perna e pé, duas partes eguaes, juntou-as e o ponto de juncção denominou-o calcanhar.

As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma lousa de mercieiro.{41}

Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr. João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, aqui o confesso, envergonhado do meu descredito.

Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este hediondo envolucro.

João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.

Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos.

Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz. João{42} não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro embrulhado em seis camadas de papel.

Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.

João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.

Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que fizera na terra.

Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.

Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos deshonrosamente.

Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava entrevadinha, pedindo ao Senhor{43} que a não remisse das penas d'este mundo sem ver seu filho.

João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que Deus lhe déra a riqueza.

Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns despachos.

Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior.

Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.

Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.

Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe{44} indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino.

—Isto é um modo de falar...—observou João José—Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.

—A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.

É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João José Dias a D. Angelica.

 


 

Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epilogo d'este capitulo:

João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.{45}

Foi bom filho.

Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos socios que o roubaram a elle.

Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.

Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro de bem-estar.

Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era realmente muito feio.

Do Brasil vem muita gente galante.

Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros bonitos.

Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das lettras.

Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.{46}
{47}

IV

—Então a pequena está incommodada?—perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.

—Um pouco incommodada.

—Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?

—Irei.

—Estou boa, papá—disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.

—Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?—disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»—Minha filha, quando hontem te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este senhor que te falava.

—Tenho muito prazer em conhece'-lo—atalhou Ludovina com uma affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o noivo.

—Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro—continuou Melchior—é preciso que tu digas se acceitas{48} livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.

—Acceito muito de minha livre vontade—respondeu com firmeza D. Ludovina.

—Não lhe restam escrupulos?—tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro.

—Não, senhor—disse elle—Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...

—Não espero tal desgraça...—interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro.

—Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.

Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.

—Que é isto, filha?

—Nada, minha mãe...

—É muito, Ludovina; que tens?

—Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida, que futuro, meu Deus!

—Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com elle, menina.{49}

—Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro que me matou.

—Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?

—Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.

—Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...

—Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu—me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que{50} esse homem disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.

D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:

—Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?

—Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não olhava direita para mim!

—Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?

—Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...

—Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...

—Não duvido.

—E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.

—Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversasita?

—Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não merece. Eu vou manda'-la.

—Faça-me esse favor.

Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:{51}

—Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha?

—Entendi, meu pae.

Ludovina entrou jovialmente na sala.

—Minha senhora,—disse o brasileiro, gaguejando—Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?

—Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.

—É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu pae, e lá no interior sentisse outra cousa.

—Disse o que sentia, e repito o que disse.

—Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?

—Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.

—Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que{52} me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?

—Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas supposições injuriosas.

—Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da senhora.

—Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.

—Diga lá, seja o que fôr.

—Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.

—Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?

—Não tenho outra ambição.

—Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.

D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara{53} jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia. Estava inspirado!

E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne que fez foi o seguinte:

Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha comadre!

Melchior Pimenta agradeceu.

D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos labios.

D. Ludovina córou até ás orelhas.

A leitora faça o que quizer.

Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.{54}
{55}

V

Inventou-se uma lua para os casados.

Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e deshonesta.

Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o mel da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.

Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento:

 

«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o ill.mo sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, com a ex.ma sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão rica de prendas moraes como de formosura{56} angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL á sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição.

 

A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquella LUA DE MEL indigna-me.

Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas poucas de luas:

Lua de mel;

Lua de cicuta;

Lua de laudanum;

Lua de tartaro emetico;

Lua de mostarda ingleza;

Lua de oleo de ricino;

Lua de fel da terra;

Lua de salsa-parrilha;

Lua de raspa de veado;

Lua de jalapa;

Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, luas drastricas, etc.

Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão reciproca.{57}

Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.

Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.

Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da Gloria?

Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.

Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o palacete, a toda a pressa.

Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado.

Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras dizia:{58}

 

D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª
O CASAMENTO DE SUA FILHA
A EX.MA SR.ª
D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
COM O ILL.MO SR.
JOÃO JOSÉ DIAS

 

Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia de travessão que por alli enxamêa.

Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.

Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.

João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes,{59} aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.

Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.

D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.

Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.

D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha:

«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes{60} de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta transição.

—Que quer a mãe que eu faça?

«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.

—Que hei de eu dizer-lhe?!

«O que has-de tu dizer-lhe?!...

—Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?

«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe chama parente?

—E a felicidade é isso, mãe?!

«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido.{61}

—Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?

«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes fica de um amor ardente.

Estas e outras palavras modificaram a força motriz{62} de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo á mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as caminhadas traziam desmedrado e manhoso.

Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.

João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.

Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos recamos de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um vistoso laço de fita.

—Que diabo é isto?—disse elle ao creado no requinte do pasmo.

«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.

—Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros—dizendo isto, o commendador lançou á salva... sete centos e vinte.

Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que desbancam João José Dias.{63}

Ahi vão de passagem dois exemplos:

Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz que, á custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a cautela fôra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alviçareiro moço e traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.

Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.

Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.

O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel{64} aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois.

Os leões sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «—viam-na por um oculo.»

João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo.

O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.

N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a vespera da sua derrota.

Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se{65} diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.

D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.

D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:

—O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder ás suas provocações.

—Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois—disse Ricardo, dando á perna direita o costumado repuxão dos elegantes.

O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:

—«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?

—É.

—Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?{66}

—Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio comigo—E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:—Este homem foi uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para ella e para mim.

—Escreviam cartas um ao outro?—interrompeu o commendador, bufando.

—Escreviam, sim...

—Porque me não disse isso a senhora?!

—Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?

—Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?

—Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.

—E que quer elle agora?

—Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi vem... não falemos n'isto.

D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:

—Vamos embora? eu estou incommodada.

—Vamos, disse a mãe.

—N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho já—disse o commendador.

As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.

Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovello direito apoiado na mão esquerda.{67}

Foi ao pé d'elle e disse-lhe:

—O senhor sabe quem eu sou?

—Creio que já o vi em alguma parte.

—Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.

Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um patamar deserto:

—Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.

—Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!

—Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina tem um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma esquina, tem percebido?

O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.

Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador não lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do bacharel.

Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o auctor embrionario do SECULO PERANTE A SCIENCIA nunca a diria.{68}
{69}

VI

Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade presagiosa de trovoada.

O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.

Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.

D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa{70} apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.

Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.

Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.

D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o genro, e muda'-lo por meios suaves.

—Que motivo ha, snr. commendador—disse D. Angelica—para se encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?

«Eu vivo assim melhor.

—Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...

«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.

—Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma á outra. O senhor é casado{71} com uma menina habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se previsse o que está acontecendo.

«Então que é?

—É que minha filha não póde assim viver contente.

«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.

—Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua dignidade.

«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.

—Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas amigas?

«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as{72} outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.

—Que razão essa tão... tão singular!

«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.

—Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para accomoda'-las.

«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.

O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:

EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.

Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.{73}

Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores d'este livro são ellas.

O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.

A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as prosas toleraveis dos maridos?

A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:

Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem; escrevam por baixo —O commendador JOÃO JOSÉ DIAS.

As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.

O castigo começa.{74}
{75}

VII

Ludovina disse um dia a sua mãe:

—Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.

—Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?

—Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á custa de tudo.

—Ludovina! que linguagem é essa?

—É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das{76} minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação saíu sempre sem mancha.

—A quem o perguntas, a mim?

—Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.

—Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.

—E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das minhas intenções?

—Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.

Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!

D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.

—É a primeira vez—disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através{77} do rendilhado da saia que a velava.—É a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não tem muita confiança.

O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:

—Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde ha o bom e o mau.

«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem—interrompeu o commendador, que andou ás aranhas{78} muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.

—Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?

«Lá o que ella quizer, menina...

—O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta separação injusta a que me fórça.

«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.»

—Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?

«Não, já disse que não. A cousa é outra...

—Qual é essa outra cousa?

«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que vae aos bailes e aos theatros.

—Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.{79}

«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?

—Que se diz, snr. Dias?

«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.

—Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem; tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.

«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda espirito-santo de orelha... O teu genio não é esse...

—O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a sua honra?

«Não, já disse duas vezes que não.

—Faltei aos meus deveres de esposa?

«E ella a dar-lhe!

—Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo. Quero...

«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?

—Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração,{80} rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.

Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;

—Excedeste-te, Ludovina—disse ella—mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ella qual fôr.

João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no collo as marthas.

—Vem, ou não?—repetiu ella.

«Espera, que eu visto-me—disse o commendador, tomado d'uma especie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados raciocinios.

Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento deseccar da melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da côr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os analystas que os tecidos cellulares{81} do commendador estavam cada vez mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.

Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á Stuart, e despeitorada á Aspasia.

Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do Trovador, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti, que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicencia desapontada.

Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflammação deu treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo.

Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia humana não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de Veneza chorriscando aquelle humano torresmo!

Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos{82} pela sisudez e gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.

Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava á sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?

Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do intimo dos predestinados e minothauros e Sganarellos ao alcance da sciencia humana.

Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha quatro annos, e já tem tres edições com esta:

 

Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para que os outros não desconfiem.

O commendador JOÃO JOSÉ DIAS (passim).{83}

VIII

Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...

O barão de Celorico! Personagem novo no conto?

Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?

Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!

Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, que o felicitaram da mercê.

Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.

Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma,{84} da qual não pude haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o proposito de fidelidade.

É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de nomear baroneza de Celorico.

Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.

O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta.

D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa.

Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de Celorico, não podia transigir com{85} as razões da sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.

—Que tens, meu amiguinho?—disse ella, que o vira, no espelho, fazendo esgares com os beiços—parece-me que está agitado!

«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.

—Que modo é esse de responder?—tornou ella, voltando-se de subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com achavascada impetuosidade.

«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro como uma castanha.

—O senhor está disparatando! explique-se.

«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.

—Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?

«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não póde dar boa conta de si.

—Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?

«Ahi tem o que é.

E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.

A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal de inquietar-se.{86}

«Diz-se aqui que eu tenho um amante—disse ella sorrindo—que se corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu tenho um amante?

—Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com isso.

«Como soffreria com a verdade do aviso?

—Que é? não entendi.

«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?

—Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!

Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como folle de forja.

Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra enxugou-lhe a face.

«Soffre porque me não ama, porque me não crê...—disse ella.

—Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada—regougou elle.

«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao meu desprezo.

—Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de tomar ar.

«Onde vae?

—Vou ao jardim.{87}

«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.

—Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.

Foi.

Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.

O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado, que lhe disse:

—Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?

—O que é?—exclamou o barão atordoado.

O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia escuridão.

Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, vendo{88} aquelle immovel espectaculo, através das grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem.

—Olá!—disse um soldado.

«Que é?—respondeu o barão, espertando da lethargia.

—É d'ahi d'essa casa?

«Sou o dono d'ella.

—Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá em baixo na travessa.

«D'esta porta que está na parede d'este jardim?—exclamou o barão.

—É como diz.

«A que horas?

—A estas horas, pouco mais ou menos.

«Um homem de capote?

—Tal e qual.

«E não viram mais ninguem?

—Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço branco na cabeça.

«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.

O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil{89} fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.

O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.

—Eis a prova da minha deshonra!—exclama, e ergue-se vacillante e cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos. Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:

«É a nossa morte!

Instam na explicação das respostas, e elle troveja:

—Não quero aqui ninguem!

Pasmam; e retiram-se, atemorisados.

«Estará elle doudo, meu pae?—dizia a baroneza, tremula de medo, apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.

—Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.{90} «Que sorte a minha!—disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito de seu marido.

 


 

—Se se verificar a demencia—dizia Melchior a D. Angelica, de modo que só todos nós pudemos ouvir—a administração da casa passa immediatamente para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega, nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!

D. Angelica não respondeu.

«Ainda te doe a cabeça, Angelica?

—Bastante.

«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?

—Dormitava.

«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!

—Tinha corrido sobresaltada.

«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...

—É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.

«Porque me não chamaste, filha?

—Não quiz incommodar-te.

«Ora essa!...

—Até logo, filho, vou ver se descanço um instante{91}

«Vae, vae, menina.




Ha reticencias que não dizem nada.

A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da mercearia.

Eu abri loja, e vou com os outros.

Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão n'este painel de bons costumes.

A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do sr. Melchior Pimenta, é excellente esposa.

Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.{92}
{93}

 

IX

Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.

Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino, nem acceitar o almoço.

Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave.

D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de{94} ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.

Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em segredo:

«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois.

O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas reflexões.

Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina fitou-o{95} com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.

Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.

Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.

—Não dou satisfações—respondeu—Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.

—Isso é o mesmo que...

—Não me replique! tenho dito.

Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do perú assanhado.

Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:

—Olhe, senhora!

A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o CHARUTO!...

—Que é isso?!—perguntou ella com mais curiosidade que espanto.

—Não sabe o que isto é? chegue-se cá!

Ludovina, indo receosa, disse:{96}

—É um charuto... pois não é?!

—É um charuto! é um charuto! mulher traidora!—ululou o bordalengo com a grenha irriçada.

Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.

Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.

—Isto que é?!—exclamou D. Angelica.

—Está doudo rematado, minha mãe!—disse, a meia voz, a baroneza.

—Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um demente...

—Janta-se, ou não se janta?—disse o barão, caminhando para ellas com socegado semblante.

—Que desordem foi esta, sr. barão?

—Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é d'ella.

—Que viste, Ludovina?

—Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.

—Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica—replicou o barão, sorrindo de um modo que confirmava a demencia—A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.{97}

Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse de um doudo furioso.

Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.

Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:

—Olhem que porcaria!—E voltando-se para o creado que servia a sôpa:

—Atire isto lá fóra!

—Não atires!—bradou o barão.

—Porque não ha de atirar?!—Disse Melchior Pimenta.

—Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?

Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre a mesa.

Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudencia.

O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:{98}

—Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu tenho.

Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.

O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.

As angustias d'este homem condemnam Ludovina?

Não. Ludovina é innocente como os anjos.

A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.{99}

 

X

É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.

A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra á prosa que inventou{100} os cereaes, o boi cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.

Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.

Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de dia.

Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra avelada.

Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do jardim se abriu cautelosamente.

Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.

Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.

A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um segundo{101} tiro, que redobrou a força motriz do fugitivo.

Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:—parece que está morto.

O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.

Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.

—Quem está ahi n'essa janella?—bradou um soldado ao barão, que estivera calado.

—Sou eu, sou o dono d'esta casa.

—E quem é o senhor?

—É o senhor barão—responderam os vizinhos.—Não, d'alli de certo não foi.

—Os tiros?—perguntou o barão.

—Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.

—Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?

—Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.

—Quem é? conhecem?{102}

—Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma casa rica, chamado... lembras-te, 38?

—Acho que elle disse... Almeida.

—É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?

—Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o conheço...

O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!

—Eu conheço este sujeito—disse o barão com admiravel placidez.—E elle tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me?

O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,

—Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu.

—Nós sabemos—disseram os soldados.

—Pobre homem!—proseguiu o barão em tom compadecido.—Ainda a noite passada elle esteve n'um baile que eu dei...

Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.

Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma gargalhada estrondosa. A baroneza acordou,{103} sentou-se no leito estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.

O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e bradou:

—O tal patife não fuma outro.

—Que diz?—exclamou Ludovina.

—Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra está vingada. Agora que digam o que quizerem.

E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um terceiro ataque de loucura.

Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.

Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.

D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas mãos, exclamando:

—Jesus, meu Deus!

—Que teve, mãesinha, isto que foi

—Nada, infeliz; foi um accidente...

—Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?

—Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo da tua reputação infamada...{104}

—Eu não a entendo, minha mãe!

—Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar, que eu não vivo uma hora assim...

A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contigua ao muro do jardim.

Uma dizia:

—Ia morto.

Outra:

—A bala entrou-lhe no peito.

Outra:

—Pobre familia, que bocado tão amargo!

—Aquillo que é?—perguntou D. Angelica espavorida.

—Eu não sei, mãe!

—Esse malvado que te disse?

—Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife não fumava outro; e que lhe resasse por alma...

D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado ao coração.

Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.

N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu{105} um designio atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia.

Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:

—Entre quem é.

Abriu-se a porta, e surgiu o barão.

D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando:

«Assassino! assassino!

Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir, quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.

Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha afflição,{106} descompostura tal de contorsões, de gemidos, de arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do amor maternal exaltado até á ira da leôa.

Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de sua mãe.

Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o credito de sua filha.

Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.

A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.

«A mãe precisa descançar—disse ella com affectado gesto de carinho—Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.

—Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda tenho algum direito á tua obediencia,{107} deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres depois.

«Sei, mãe.

—Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.

«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais afflictivo para mim...

D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.

Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.

Era o barão de Celorico.

—Ouvi tudo—exclamou elle—Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.

—Tem razão; vae, minha filha—disse D. Angelica, afastando-a de si.

—Sr. barão—disse Ludovina—eu não deixo uma mãe{108} culpada para seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade menor matando-me a mim.

D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula:

—Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?

O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.

—Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!

Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.

A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no leito.

E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:

—O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas{109} a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não chamarei á presença de Deus para ser julgado.

—Ludovina—balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas—eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...

—Era a mim que devia matar-me, senhor.

—Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.

—Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...

«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado por ti?

—Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por uma suspeita um vulto desconhecido...{110}

«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella...

—Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...

«Não estava, Ludovina...

—Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas palavras em toda a parte.

«Então quem estava na janella, senão tua mãe?

—Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da responsabilidade...

D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a{111} agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras inintelligiveis.

O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em lagrimas, sobre o leito.

Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.

Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de deleitosas visões!

Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado, lembras-me tu.

Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a morphina.

Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.

Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.

Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto carrancudo da mulher, e no aguado{112} dos molhos, os desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar campestre.

Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez exemplares que Brantome não archivou,[4] todos aporfiando em delicias sublunares.

Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque despertador, o momento da predestinação cumprida, esse é um só no meu catalogo.

Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.

Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da christandade.

Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!{113}

 

XI

Mulheres são os melhores juizes de mulheres.

Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.

D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.

Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?

A injustiça é flagrante e odiosa.

Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ella.{114}

Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.

A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.

Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita.

Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o amor, ao abysmo do opprobrio.

É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o beijo da perdição.

O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o desterra.

E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.

A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.{115}

Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espirito.

Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o germen que a rehabilitasse.

Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma restea reanimadora.

Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da mulher.

O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o segredo da sua emancipação.

Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.{116}


Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.

Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.

Mulheres são os melhores juizes de mulheres.

A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa—não me afiram lá a palavra pelo elucidario caseiro—virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.

Disse-me ella o seguinte:

«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.

—Ao respeito!—atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.

«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.

—Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcobuzou?{117}

«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das sympathias contrariadas.

O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.

As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.

O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.

Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.

Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho. Que innocencia!

Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.

O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era{118} pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.

O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e accelerou o desfecho.

Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta d'ella...

Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?—repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»

Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.

Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.

Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois.{119} As suas cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não havia que vêr com cousas sobrehumanas.

O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.

Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.

Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se da sua má origem.

Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.{120}

Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo.

Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, e aos respeitos affectuosos por seu marido.

Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.

Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recommendação para o despacho.

Sabe agora a vida de Angelica?

Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida,{121} com fervor mais de filha que de creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja.

Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do commendador João José Dias:

HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.

D. Angelica está julgada e punida.................


Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:


Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.

E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.

E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?


Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.

E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.

E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.

Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os{122} mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.

Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te accusavam? ninguem te condemnou?

Ninguem, Senhor;—respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco te condemnarei: vae e não peques mais.

O SANTO EVANGELHO DE JESUS CHRISTO, SEGUNDO S. JOÃO—Capitulo VIII.{123}

 

XII

Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.

Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura.

—Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae—disse Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.

«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?

—O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...

«Que tem ella?!

—Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se.

«Vamos vê'-la.

—Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico{124} é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?

«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?

—Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?

Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos dos olhos, e murmurou:

«Isto é doença séria, Ludovina!...

—Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o barão não lhe diga nada, promette-me?

«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte contos de réis...

—Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.

Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o barão lhe surgiu na extremidade do corredor.{125}

—Bons dias, sr. Melchior.

«Bons dias, sr. barão.

—Isso hoje foi madrugar!

«Assim é preciso.

—Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.

«Não posso, sr. barão, vou com pressa.

—Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.

«A que respeito?

—A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.

«Que chama o senhor poucas vergonhas?

—Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, saiba-o, e tome tento na sua vida.

«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.

—Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.

«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.

—Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe tudo.

«Que ha de o senhor contar?!—disse Melchior entrando na sala.—Quer contar-me a historia do charuto?

—O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.

«É para isso que me chama, sr. barão? De que me{126} serve a mim esse ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o papel de doudo?!

—Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu... Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...

Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu, cerrando a porta da sala:

—O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.

«O que?

—Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe tem sido fiel.

«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame malvado!—exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.

—Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.

«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, desdiga-se da affronta que fez á minha honra.

—Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece{127} doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.

«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.

Ludovina entrou precipitadamente na sala.

«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher—repetiu Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido.

—Que indecentes palavras escuto, meu pae!

«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!

—A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada.

«Tens razão, Ludovina—murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos—Eu estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.

—Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?

«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O senhor o que deve fazer é recolher-se{128} a um hospital, antes que as auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades intellectuaes...

—Meu pae!—murmurou afflictivamente Ludovina—pelo amor de Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.

«Eu vou, menina.

E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.

—Não lhe disse eu já, sr. Dias—continuou Ludovina baixando a voz com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente—não lhe disse eu já que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou do seu desprezo é sua mulher?

«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.

—Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo?

«Tu não fazes isso, Ludovina!—rugiu iracundo o deploravel homem—Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...{129}

—Que se ha-de seguir?

«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.

Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.

E continuou:

—Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o{130} meu genio era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?

—Não é preciso... entendi bem...

—Qual é a sua resposta?

—É necessario pensar, Ludovina.

—Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo que meu pae volte.{131}

—N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.

—E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.

—Tu és uma serpente, mulher!—bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as azas d'um alambique—És um dragão! foste o demonio que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!

Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.

Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D. Angelica. Era-lhe{132} conhecida a letra de Antonio de Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.

Leu o seguinte:

 

«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.—A. de A.»

 

Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este immenso horto de{133} agonia? Na previsão de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos astros, do mar, e do homem.

A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.{134}
{135}

 

XIII

Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.

Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do{136} que eu sou á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou dar-lhes á sua admiração faminta.

Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:

—Os teus romances do meio em diante adivinham-se.

—Ora essa!

—Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.

—O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil, amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade, amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis.

—Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.

—Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares{137} o enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.

«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos, solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao Hospital do Terço, nem ás Velhas da Cordoaria! A tua crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta, ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras{138} ossos por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e...

—E, sabendo que tu és um portento de esperteza—atalhei eu—digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia. A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.

Disse.{139}

 

XIV

Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.

As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre para occultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas á honra de alguem, e á propria memoria.

N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico{140} de Basto. Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.

—Não é—disse elle—que entre, e venha só, porque é necessario assim.

Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.

—Que é isso, senhor?—disse Almeida.

«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o demonio a tirar vingança de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, aqui estou, snr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão.

—Levante-se, snr. barão—atalhou Almeida—Não diga a ninguem que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que{141} o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá em paz.

O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um alquilador.

A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:

«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»{142}

Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.

Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.

Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.

Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.

«Vem cá, Ludovina—disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados—fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me{143} o que teu marido me disse... Quero explicações d'este mysterio.

—São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.

«Como dolorosas?!

—E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa que não seja eu...

«Porque não has de ser tu?

—Porque sou criminosa.

«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.

—Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.

«Não entendo...

—Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.

«Tu! pois tu!...

—Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.

«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve a ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste como homem de bem!

—Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a todos os{144} homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?

«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.

—Assim o deve á sua dignidade.

Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira.

«Onde quer ir, minha mãe?

—Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...{145}

«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.

—Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...

Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.

«Não quer ser mãe nem esposa?

—Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para mim deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadaver.

«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!

—Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas, os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com tanto que me matem depressa.

«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me escuta... Sente-se, e ouça-me...

—Diz, anjo, diz...

«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o perdão para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido que sou eu a amante de Antonio de Almeida...

—Jesus! exclamou D. Angelica.—Como tu me castigas, Ludovina!

«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me{146} ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.

Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com a ignominia do seu descredito.

D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia.

Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas do amante de sua mãe.

Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de{147} salva'-lo. A noticia feliz alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.

Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:

«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração.

A baroneza ficou muda e convulsa. Filha do meu coração foram palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:

—A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.

—O barão denunciou tudo?

—Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?

—Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...

—Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá.{148}

Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse soluçando:

«Será o beijo de um moribundo?

«Não diga tal, sr. Almeida.

«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, proseguiu «se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu ultimo beijo... teu pae.

A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a perda quasi dos sentidos.

Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:

—O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e vá uma das manas acompanha'la.

Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na Lapa.{149}

 

Cinco paginas que é melhor não se lerem

Este capitulo mira a alvo transcendental.

Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador Justiniano—corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes—quer provar, digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:

Pater is est quem nuptiæ demonstrant.

Em portuguez comezinho:

O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo.

A versão é de christão catholico, entenda-se.

Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.

Contra a qual lei temos a articular:

1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, e circumspecta. E demonstra-se:{150}

Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os latinos denominam pater, os inglezes father, os allemães watter, os francezes père, os hespanhoes padre, e nós, com mais suavidade que todos os outros idiomas, pae.

Pae quer dizer «productor, gerador» Parens qui aliquem genuit—isto a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.

Conclusão: Pae é aquelle que é pae.

2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes in mente legis, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa{151} que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a Mithridates a invulnerabilidade.

Eu não applaudo a Sandice como Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da civilisação, denominamos «Cultura.»

Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá{152} elle d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado pelas furias do ciume?»

É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem.

Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam
In terris...

já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres troncos de Roma:

Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum.
Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri.

«Ó Postumo!—exclama o poeta—pois tu eras, até aqui, escorreito e atilado, e vaes casar

Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!{153}

Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae: pater is est quem nuptiæ demonstrant. Agora, em pleno seculo de luz, somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho sacramental da lei nova.

Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.

Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.

COROLLARIO

Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção do Digesto, na lei citada, do L. 5.º de in jus voc, e C. da Rocha no cap. Paternidade e filiação legitima.{154}
{155}

XV

D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo degrau da desenvoltura, visitando o amante á hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as mãos agarradas á cabeça, entrou o consternado pae no quarto da mulher, abafando de vergonha, como elle dizia.

D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, apavorou-se, e quiz fugir do quarto.

«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!—exclamou elle, sustendo-a com meiga brandura.—Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que{156} o procedimento d'ella te ha de desmentir, Angelica...

—Que dizes?—atalhou a perplexa senhora.

«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste para capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não d'essa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?

«Estou aqui, meu pae—disse a baroneza com angelica serenidade, e sorriso de meiguice para sua mãe.

—Minha filha, minha santa filha, minha providencia!—exclamou D. Angelica abraçando-a com arrebatamento.

«Isso não é assim, Angelica!—disse carrancudo Melchior Pimenta.—Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral lhe ensinaste em solteira.

—Silencio, meu amigo. Vae...—atalhou com azedume D. Angelica—vae, e deixa-nos sós.

«Não tem geito nenhum!—accrescentou o austero pae.—É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.

—Irei, meu pae.{157}

«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste tu, diz?

Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.

«Vês, Angelica?—proseguiu com virulencia Melchior—Não respondeu; já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?

—Nem mais uma palavra a minha filha!—exclamou com impetuosa arrogancia D. Angelica—Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...

«Se não, o que?—interrompeu elle.

—Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...—murmurou a baroneza, apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.

Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:

«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!

—Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude. Olhe que não é heroismo isto,{158} não, é a crença, a esperança de que a felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por onde eu a busco...

«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda ninguem mais se ergue, e menos eu.

—Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de ser o que a mãe espera.

«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...

—Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que elle diz...

D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:

«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.—Antonio de Almeida.»

«Isto é verdade, Ludovina?—exclamou ella erguendo as mãos, e apertando a carta ao coração—Isto é verdade, minha filha?

—É, juro-lhe que é...

«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?

—Eu, mãe.

«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha?{159} Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?

—Foi por amor de minha mãe que o visitei.

«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...

—Nada, minha mãe...—balbuciou a baroneza.

«Nada?

—Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...

«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por{160} que ha em ti fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda.

—Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.{161}

XVI

Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de Celorico de Basto.

Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso não sei eu.

Caprichos.

Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.

Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João José Dias.

Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo latrocinio, pelo talisman do buril, pelo{162} fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.

Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas indisputaveis da fé.

Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico de Basto.

Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.

Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.

Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.{163} Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.

Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:

—Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!

E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!

«Que diabo é isto, senhor?—perguntára timidamente o preto.

—Não vês? é um charuto, que me ha de matar!

«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!

N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle{164} testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco.

O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um romancista que sabe do seu officio.)

O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.

O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.

No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada do proprietario{165} nos seus dominios foi assignalada pelo primeiro accesso de loucura formal.

Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito venerando.

O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.

Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.

Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.

Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, predilecto seu.

Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava como d'antes, recuando ao{166} phantasma, que já não era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria rouquenha de seu amo.

Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.

Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio desenrolado n'um canudo de papel...

Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos circumstantes.

Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a Rilhafolles,{167} antes que a demencia se tornasse incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.

Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae (Pater is est etc.) queria acompanha'-la, receoso de que a presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito filial.

«Quando me casaram com este homem—disse ella—não se estipulou a condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»{168}
{169}

XVII

Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da morte com as suas lagrimas.

Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, venceria todos os estorvos.

«Que mal te fiz?

Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.

«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida.

«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.

«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer,{170} se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!

«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, Almeida?

«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu infortunio?

«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria o inferno para me fazer deixar-te!

«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos—se tinha!... vós o sabeis, Deus meu!—e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!

«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!

«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os meus cabellos se fizeram{171} brancos? Assusta-te a presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!

«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos. Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida, engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não póde acabar com o desprezo.»

Ingrato homem! é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis exprimem o seu dó.

Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte carta que Ludovina{172} lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:

«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo, anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer cousa que o meu amiguinho me não sabia negar.

«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da innocencia.

«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes que vamos vivendo.

«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.

«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a. Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do coração. Penso que{173} minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os seus conselhos.

«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o que fiz e faço fôr perdido.

«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.

«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.

«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.

«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amiga Ludovina

Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha.

Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa{174} escola, não costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.

Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos, injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito, nos braços dos padrinhos.

Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que{175} dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas, afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora, inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.

Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na ultima jornada d'esta historia.{176}
{177}

CONCLUSÃO

O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda do vestido.

Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura, manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor ridiculo que já lhe ouvimos.

Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro da mulher.

Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica era o caustico e a{178} sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa.

Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os extrebuxamentos do infeliz.

—Agora!—disse o facultativo.

Á palavra agora o barão estava entalado entre quatro braços cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se{179} cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.

N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro, ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza.

Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, a invejava.

O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.

A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas{180} d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de nova berraria.

A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a percebia, foi a seguinte:

«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura.

«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?

«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva blasfema.

«Obedeci-lhe, Ludovina.

«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida,{181} o sentir que m'a fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.

«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.

«Pergunta-me qual é o meu viver?

«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.

«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.

«Adeus, minha santa amiga.»

Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o melancolico{182} debuxo que attribulava o espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um rochedo salvador.

Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.

D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.

Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de quem não comparte as penas.{183}

Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração fibra por fibra.

No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.

Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o sacrificio de se verem.

Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior Pimenta.

Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o sobresalto em que a puzera a apparição do amante.

Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se elle não sahisse immediatamente d'aquella casa.

Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com lagrimas e gemidos que irritavam{184} as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.

Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.

O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão.

Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz, secundam artem. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda{185} nas suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.

Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.

D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:

—A adultera sou eu!

—Que dizes, Angelica?!—bradou Melchior.

—Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-m'o do seio!

E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o peito.

—Endoudeceste, minha querida Angelica?—exclamou Pimenta—Faltava-nos esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta situação!

«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não quero deixar infamada a teus{186} olhos a minha filha. Se eu te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?

—Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que ella te está pagando com o amante ao pé de si.

«Melchior!—disse Angelica com firmeza e gravidade—A tua filha está innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.

Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.

Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?

Para se dar um tiro no ouvido?

Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?

Para scismar e endoudecer?

Não, senhores.

Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no{187} hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense.

No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um passeio no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a para jantar ao pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma cadeirinha, e deixára uma carta para seu marido.

Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.

D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava para as suas pequenas necessidades.

Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.

São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não sahirá jámais.

A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.{188}

Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.

Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não voltou ainda.

O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima demão ao seu SECULO PERANTE A SCIENCIA.

São hoje 15 de fevereiro de 1858.

O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o contracto do tabaco.

FIM{189}

 

{190}
{191}

SUPPLEMENTO

PREFACIO

O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalára com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado, com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses, cujo voto muito respeito pela massa de conhecimentos que amassou em Frederico Soulié e Alexandre Dumas, accrescentou que o romance O que fazem mulheres era a flor do meu talento. Cheio de encantadora modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das leitoras o desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então escrever a segunda parte da biographia da baroneza de{192} Celorico de Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das educandas.

Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de ser este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as ancias d'um terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da acção era inatacavel no romance.

Item: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era chatinar a mercancia litteraria.

Item: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu submettera o meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.

Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias do meu trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por quanto:

Não é inventada esta historia;

Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto verdadeiro;

Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção benevola.{193}

Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto, que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as bellezas que elle não viu.

Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de janeiro proximo passado.

A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas supplementares.

Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...

Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais de duzentas paginas.

Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a figurar n'este supplemento.

V. ex.as de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e a missa.{194}

Eu dou os signaes do homem.

Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já conheceram?

De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:

O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o bico de um passaro. Chamam-se estes narizes Bourbons. Agora conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma biographia.

Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.

Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as virtudes que v. ex.as escondem, todas as perfeições que a sociedade não vê, sem lh'as explicarem.

É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro italiano.

Consta que nunca teve namoro que o entretivesse{195} nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do peito um amor eterno... de tres semanas.

Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de roupa suja.

Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e ainda juvenil physionomia de D. Angelica.

Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.{196}

Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude exaltada?

Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias, surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.

Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a mãe d'agua? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo LES REVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.

Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:

«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me apparecessem aqui, menos tu, e ella...

—Temos ELLA!

«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!

—Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas, ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de boi, que triturei sub tegmine fagi.{197}

«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo, lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que repercute na alma...

Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas:

La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée pure.{198}

«Que é isto?—perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a lapis.

—Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta creio que é o menos metrificador.

«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?

—Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo.

«A baroneza?

—Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...

«Lê os versos.

Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte poesia:

      A LUDOVINA
 
Quem ha ahi que possa o calix
De meus labios apartar?
Quem, n'esta vida de penas,
Poderá mudar as scenas
Que ninguem pôde mudar?
 
Quem possue n'alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gotta de agua
N'esta angustiosa fragua
D'um deserto abrasador?{199}
 
Se alguem existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.
 
Se soubesses que tristeza
Enlucta meu coração,
Terias nobre vaidade,
Em me dar felicidade
Que eu busquei no mundo em vão.
 
Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrella carinhosa
Que luz á infancia ditosa
Para mim nunca luziu.
 
Infeliz desde creança,
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba, e ingrata,
Céo e esp'rança nada é.
 
Pois a ventura busquei-a
No vivo anceio do amor.
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais d'uma palma
Á custa de muita dôr.{200}
 
Mas estas palmas taes eram
Que, postas no coração,
Fundas raizes lançavam,
E nas lagrimas medravam
Com fructos de maldição.
 
Em ancias d'alma, a ventura
Nos dons da sciencia busquei.
Tudo mentira! A sciencia
Era um signal de impotencia
Da vã razão que invoquei...
 
Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra cahia,
Só ficava Deus e a fé.
 
Lancei-me aos braços do
Eterno Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dôres,
Mais agros os dissabores...
O proprio Deus não me quiz!
 
Depois, no mundo, cercado,
Só de angustias, divaguei
De um abysmo a outro abysmo
Pedindo ao louco cynismo
O prazer que não achei.{201}
 
Tristes correram meus annos
Na infancia que em todos é
Bella de crenças e amores,
Terna de risos e flores,
Santa de esperança e de fé.
 
Assim negra me era a vida
Quando, ó luz d'alma, te vi
Baixar do céo, onde, outr'ora,
Te busquei mão redemptora
Procurando amparo em ti.
 
Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéos
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um premio vindo dos céos?
 
E eu mereço-te, que immenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação soffridas
Nos seios do coração.
 
Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delirio,
Nova dôr, novo martyrio,
De ti vindo, acceitarei!{202}
 
Se na terra um céo desejas
Como o céo que eu tanto quiz,
Se d'um anjo a gloria queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.
 
Faz que eu veja n'estas trevas
Um relampago d'amor,
Que eu não morra sem que diga:
«Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dôr.
 
«Deu-me ella o estro grande
Das memoraveis canções;
Accendeu-me a extincta chamma
Da inspiração que inflamma
Regelados corações.
 
«Os segredos dos affectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-m'os ella um dia
Que d'entre archanjos descia
Com linguagem do céo.
 
«Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-m'os, deu-m'os ella
Recostando a fronte bella
Sobre o meu ardente seio.{203}
 
«Morta estava a phantasia
Que o gêlo d'alma esfriou;
Tinha o espirito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céo m'a deparou.
 
«Agora morro no gôso
D'uma saudade immortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.
 
«Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente, e progressivo
Em perpetuo amor do céo.»
 
Assim, querida, meus labios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas,
Do meu ao teu coração.
 
Sabes quem é, n'este mundo,
Quasi igual ao Redemptor?
É quem diz: «Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ancias da dôr.»{204}

«Por ora, vejo que supplicas amor—disse eu.—A tua poesia é um requerimento que póde ficar esperado muito tempo no gabinete do despacho.

—Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.

«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...

—Como enganaste o publico?!

«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma rocha inabalavel de virtude.

—E receias mentir?!

«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.

—Pois que esperavas tu de Ludovina?

«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella{205} para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profana'-la.

—Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente pensante e racional,—e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?

«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.

—Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?

—O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!{206}

—Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.

—Qual virtude?

—A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma.

—Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence.

—E tenho.

—Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.

—Não me respondeu a dez cartas...

—Bem.

—Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.

—Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...

—Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.

Era um bilhete que rezava assim:

 

«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas,{207} de cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.

«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª—Ludovina Pimenta

 

—Isto é lisongeiro!—disse eu sorrindo.—Com um documento d'estes, é indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...

—Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!

—Deixas ver a resposta?

—A resposta foram dez cartas.

—Incendiarias?

—Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram!

—E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!

—Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas vezes n'um dia.{208}

—Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...

—Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade.

—Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.

—Estás ludibriando a minha angustia?—interrogou Marcos Leite com ironico enfado.

—Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.

«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença.{209}

—Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...

«Um triumpho!

—Como um triumpho?!

«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora me salta o coração no peito.

—Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.

«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar D. Angelica.

—Consiste n'isso o triumpho?!

«Que mais querias tu!

—Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é mandar-lhe um medico.

«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...

—Da agonia, ou da dôr para variar...

«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração suavissima,{210} que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...

—Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no convento com a baroneza.

«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações rijas...

—É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria insolente que vaes disparar-me.

«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.

—Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...

«Saberás tu o que se passou?!

—Se sei o que se passou!?

«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...{211}

—Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo principia a aquecer tambem.

«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:

«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.

—Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...

«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.

—Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.

«Que linguagem, sr. Marcos!—disse ella—Pelo amor de Deus, faça-me a justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?{212}

—Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.

«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?

—Desprezei?

«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.

«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?{213}

—Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que me despreza.

—Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só.»

O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não ria.

—Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas—disse-lhe eu.

—É que tu não sabes nada do coração humano!—replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.

Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da promissão—proseguiu elle;—Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.

—Já?!{214}

—Achas que é cedo?

—Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão depressa.

—Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando como infallivel a minha victoria.

Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:

 

«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a vida melhor que o principio.

«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?»

 

—Que amabilidade!—disse eu, interrompendo a leitura.

—Lê, e não commentes por ora.

Prosegui, lendo:

 

«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe{215} que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.

«Egoismo, e tyrannia!

«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.

«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes,{216} porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de vida que me resta.

«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que teriamos a bemaventurança na terra.

«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.

«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga Ludovina.

 

—Que esperas agora, Marcos?—perguntei eu.

—Espero que ella se compadeça da minha humildade.

—Humildade não entendo...

—Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do abysmo. A baroneza é mulher.

—Já sei.

—Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.

—Então, já não aprendo.

—Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.

—Escuto, sem respirar.

—A baroneza ama-me.

—Isso é bem positivo e claro? Vê lá...

—Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem que a subjuga.{217}

—E depois?

—Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.

—É pelos modos uma enfiada de revoltas, de bernardas do coração...

—Estás hoje intractavel!!

—Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?

—Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante dos segredos do coração feminino... Que lastima!

—Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.

—E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é uma natureza superior á humanidade...

Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma elegia que elle intitulava o seu epitaphio.{218}

 


 

Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.

—Então?—exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abraço homicida.

—A baroneza?

—Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».

—A baroneza... cahiu miseravelmente.

—Cahiu?!

—Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!

—Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?!

—E em que lodaçal ella cahiu!...

—Creio...

—Esse creio é uma affronta...

—A ella...

—Querem ver o romancista com ciumes!...

—É compaixão d'ella, e de ti...

—De mim!—tornou elle soltando uma estridente risada—de mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel torpeza que ella praticou.

—Depressa... que fez ella?

—Cahiu nos braços asquerosos de...

—De quem!

—Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!{219}

—Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o extremo supplicio.

—Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias!

—Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...

—Qual? adivinha lá...

—A morte de D. Angelica.

—Justamente: morreu ha tres semanas.

—Atormentada de saudades... pobre mulher!

—Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria fica sem mancha, minha mãe!»

—Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?

—Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em paga.{220}

—Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.

—Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe. Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?

—E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como provocações á morte?

—Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.

 


 

Deixemos falar este homem sem alma, leitores!

Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem d'este desterro.

 

FIM

[1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.

[2] É ordinario este estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa, e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cahir, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.

[3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz...

[4] Veja Vies des dames galantes, por le Seigneur de Brantome—Discours premier.






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1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.