José Maria Eça de Queiroz – Lord Beaconsfield

I
Recomeçando hoje estas Cartas de Inglaterra – que eu não podia escrever de Lisboa, onde estive alguns meses gozando os ócios de Titiro, sub tegmine fagi, à sombra dessa faia constitucional que se chama o Grémio – devo memorar, ainda que tarde, a morte de Benjamim Disraeli, Lord Beaconsfield, ocorrida no dia 19 de Maio, pela madrugada, em Londres, na sua casa de Curzon Street. A doença de Lord Beaconsfield, uma complicação de gota, asma e bronquite, arrastou-se cruel e longa; o mal porém foi debelado e Lord Beaconsfield sucumbiu realmente à fraqueza, à fadiga dos setenta e sete anos e uma existência tão episódica, tão cheia, tão emotiva, que ela ficará como o seu melhor romance, bem superior em estilo e interesse a Tancredo ou a Endymion.
Desde o primeiro dia Lord Beaconsfield perdeu logo a esperança de se restabelecer; mas passou a encarar a morte como encarara sempre as suas derrotas políticas: com uma coragem desdenhosa e fria e um ar de fácil superioridade. Durante a doença, aos acessos agudos da dor respondia ele com esses sarcasmos mordentes e rebrilhantes, que tinham sido sempre a sua desforra querida perante uru adversário mais forte.
No dia 18, à noite, caiu pouco a pouco numa sonolência comatosa, e assim permaneceu até ao romper da manhã; momentos antes de morrer, agitou-se, ergueu-se, ainda dilatou o peito, lançou os braços ao ar – como costumava fazer nos grandes debates da câmara; depois recaiu sobre o travesseiro, estendeu as mãos a Lord Rowton e Lord Barrigton, seus secretários, e murmurou debilmente: «Estou vencido.» E ficou como adormecido para sempre. E, considerando que nesse momento toda a Inglaterra, o mundo inteiro, esperavam ansiosamente notícias daquele quarto de Curzon Street, onde expirava o homem que sessenta anos antes era um pobre escrevente de cartório – pode-se dizer que nesta carreira tão feliz a morte mesma foi feliz.
O seu próprio funeral teria agradado à sua imaginação – a certos lados delicados da sua imaginação de artista. O testamento que deixou não permitiu que se celebrassem funerais públicos na Abadia de Westminster – disposição estranhável num homem que mais que tudo amou a pompa e os grandiosos cerimoniais; mas não teve também o lúgubre cenário da morte, os crepes, as plumas negras, as tochas, os fumos, as caveiras bordadas – tudo isso que deveria ser tão antipático ao seu luminoso espírito. Foi sepultado no seu querido Castelo de Hughenden, no meio das árvores do seu parque, por uma fresca manhã de Maio, na capela toda ornada de flores como para uma alegria nupcial; o caminho que lá levava ia por entre jasmineiros e rosais; em vez do dobre dos sinos de Westminster teve o gorjear das suas aves; e o caixão, seguido pelos príncipes de Inglaterra, por todos os embaixadores, pela aristocracia que ele governara – desaparecia sob coroas, ramos e molhos de primroses, que a rainha Vitória mandara, com estas palavras escritas pela sua mão: «As flores que ele amava.»
Depois, ao outro dia, em todas as catedrais da Inglaterra, em cada capela rústica, o clero fez do púlpito o elogio de Lord Beaconsfield; nas universidades, nos institutos, nas academias, os professores comemoraram aquela carreira soberba; pelas plataformas dos meetings, nas assembleias comerciais, em qualquer parte onde se juntam homens, alguma voz se ergueu a honrar os seus serviços e o seu génio: Lord Granville, na Câmara dos Lordes, na Câmara dos Comuns, Gladstone, fizeram, em sessão solene, o seu panegírico público; e durante dias toda a imprensa inglesa, a imprensa de todo o mundo civilizado (excepto a de Portugal, infelizmente), vieram cheias do seu nome, da comemoração dos seus livros, da sua pitoresca história.
E assim Lord Beaconsfield desapareceu – como fora o desejo de toda a sua vida – num rumor de apoteose.

E todavia nada parece mais injustificado que uma tal apoteose. Lord Beaconsfield, por fim, foi um homem de Estado que fez romances. Ora os seus romances, como obras de arte, já começam a aparecer a esta geração de ciência e de análise tão falsos, tão fictícios, como as novelas lírico-religiosas do visconde de Arlincourt; e como homem de Estado o nome de Lord Beaconsfield não fica decerto ligado a nenhum grande progresso na sociedade inglesa. Criar o título de imperatriz das Índias para a rainha de Inglaterra, roubar Chipre, restaurar certas prerrogativas da coroa, tramar o fiasco do Afeganistão, não constituem decerto títulos para a sua glorificação como reformador social: por outro lado, escrever Tancredo ou Endymion não basta para marcar numa literatura que teve contemporaneamente Dickens, Thackeray e George Eliot.
Como sucede, além disto, que a Inglaterra, país tão prático, tão bem equilibrado, se deixe levar em um tal arranque de admiração pelo homem que foi a personificação, a encarnação de tudo quanto é contrário ao temperamento, às maneiras, ao gosto inglês? É que Lord Beaconsfield, mais que nenhum outro contemporâneo, impressionou a imaginação inglesa – e na fria Inglaterra, como sob céus mais cálidos, são grandes as influências da imaginação.
Podia-se às vezes sorrir das suas fantásticas obras de arte, protestar contra as suas teatrais combinações políticas, mas através de protestos e sorrisos a sua própria personalidade nunca deixou de maravilhar e de fascinar. Qualquer inglês, medianamente educado, a quem se pergunte a sua opinião sobre Lord Beaconsfield dirá: «Foi um homem extraordinário!»
Extraordinário – é como ele se nos representa, agora que se vê o conjunto da sua existência, que não parece ter sido um produto natural dos factos ou das ocasiões, mas uma criação subjectiva da sua própria vontade, e como um enredo de romance talhado pela sua pena. Senão veja-se. Tendo nascido judeu – tornou-se o chefe de uma aristocracia saxónica e normanda, a mais orgulhosa da Terra; começando em um obscuro círculo literário e vegetando algum tempo em um cartório de Londres – veio a ser o mais famoso primeiro-ministro de um grande império; não possuindo senão dívidas – bem cedo se tomou o inspirador das grandes fortunas territoriais; homem de imaginação, de poesia, de fantasia – foi o ídolo das classes médias de Inglaterra, as mais práticas e utilitárias que jamais dirigiram uma nação comercial; sem religião e sem moral – governou um protestantismo que não concebe ordem social possível fora da sua estreita religião e da sua estreita moral; confessando o seu desprezo pela omnipotência da ciência moderna – foi o grande homem de uma sociedade que quer dar a todo o progresso uma base puramente científica: enfim, sendo o menos possível inglês, tendo um modo de ser e de sentir quase estrangeiros, dirigiu anos e anos a Inglaterra, o país mais hostil ao espírito estrangeiro, e que conhecia bem que não era compreendida pelo homem que a governava. Tudo isto parece paradoxal – e a existência de Lord Beaconsfield foi com efeito um perpétuo paradoxo em acção. Para realizar tudo isto era necessário que o seu génio, por um lado, por outro a sua habilidade, fossem grandes. E realmente em dons pessoais nada lhe faltou: prodigiosa finura de espírito, uma vontade de aço, uma coragem serena de herói, uma infinita veia sarcástica, um fogo ruidoso de eloquência, o absoluto conhecimento dos homens, a luminosa penetração no fundo dos caracteres e dos temperamentos, um poder subtil de persuasão, um irresistível encanto pessoal – e tudo isto envolvido (como por uma atmosfera luminosa) por alguma coisa de brilhante, de rico, de largo, de imprevisto, que era ou fazia o efeito de ser o seu.génio.

Eu por mim começo por admirar a sua própria aparência. Diz-se que fora formoso como um Apoio – e que isto concorrera muito para os seus primeiros triunfos: agora, já tão velho, era apenas pitoresco.
A sua grande testa, sobre a qual caíam aqueles dois extraordinários caracóis paralelos, o seu olhar recolhido e como concentrado em pensamentos muito fundos, o nariz de pura raça israelita, a boca descaída na sua eterna curva sarcástica, o beiço inferior muito recurvo e muito pendente e a sua estranha pêra de Mefistófeles – constituíam uma destas fisionomias que se sente que vão ficar na galeria da história e que servirão a futuros historiadores para explicar um destino e um génio. Em novo, e quando as modas românticas o permitiam, vestia-se de cetim e veludo, recobria-se de um luxo de medalhões e jóias, as suas próprias calças tinham bordados de ouro. Agora era mais sóbrio de toilette: usava apenas esses casacos compridos como túnicas a que os homens de origem judaica são particularmente afeiçoados, e o seu único adorno eram os belos ramos que lhe enchiam o peito. Um jornalista francês, num dia de crise política em que Lord Beaconsfield devia fazer um discurso decisivo, encontrou-o momentos antes, num dos salões da câmara, ocupado a encher de água o tubozinho de cristal que, por trás da botoeira da casaca, conservava frescas as suas rosas. Todo o homem está neste traço.
De raça oriental, teve sempre o amor do fausto, das pedrarias, dos ricos tecidos, da pompa; os seus romances transbordam de descrições de palácios, de festas perante as quais as mais ricas galas de Salomão são como desbotados cenários de teatro de feira; o seu estilo ressente-se deste gosto: é um sumptuoso estofo, com recamos de ouro, cravejado de jóias, cintilante e espesso, caindo em belas pregas ao comprido da ideia. O dinheiro, o ouro, preocuparam-no sempre, menos pela sua influência social que pelo mero esplendor da sua amontoação. Os seus heróis possuem fortunas tão prodigiosas que seriam impossíveis nas condições económicas do mundo moderno; Lotário, o famoso Lotário, querendo der um presente de anos a uma senhora católica oferece-lhe uma catedral toda de mármore branco, que ele mandou construir e que dedicou à santa do nome dela; o seu custo excederia decerto dois mil contos fortes. Confessemos que é chique. Pois bem: presentes destes dava-os Lotário todos os dias. O banqueiro Sidónia, uma das mais curiosas criações de Lord Beaconsfield, querendo dar ao seu amigo Tancredo uma carta de crédito para os banqueiros da Síria redige-a deste modo: «Pague à vista ao portador tanto ouro quanto seria necessário para reconstruir os quatro leões de ouro maciço que ornavam a porta direita do Templo de Salomão. Também muito chique.
Estou certo que um dos grandes prazeres de Lord Beaconsfield era poder manejar os milhões de Inglaterra. Todos os seus ministérios custaram caudalosos rios de dinheiro; gastava o ouro como a água – e dava-se ao luxo de realizar por si, e à custa do seu país, as larguezas épicas do seu banqueiro Sidónia. Mesmo quando estava no poder, estava ainda no romance.

As linhas da sua biografia são conhecidas. Seu pai era um destes literatos medíocres e trabalhadores que vão desenterrando e coleccionando através de in-fólios e bibliotecas casos curiosos e arcaicos de história e de literatura.
Benjamim Disraeli nasceu por isso entre os livros –literalmente entre os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli oferecia o espaço de uma boceta, e no quarto da criança, entre a acumulação vetusta dos calhamaços, havia apenas espaço para uma cadeira e para um berço. O velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu filho rompeu com a sinagoga, e todos os Disraeli se fizeram cristãos. Benjamim tinha então dezassete anos, e o seu padrinho na pia baptismal foi um certo Samuel Rogers, notável por ser ao mesmo tempo um dos mais ricos banqueiros da City e um dos poetas mais elegíacos do seu tempo – e notável ainda por não ficar na história nem como banqueiro nem como poeta, mas como um requintado gourmet, o grande Lúculo de Londres, que deu os mais célebres, os mais finos jantares da Europa.
Assim marcado com o rótulo cristão. Benjamim Disraeli largou a caminhar pela vida fora, mas foi encalhar bem depressa num cartório de tabelião – onde se diz que durante dois anos este moço orgulhoso, que já então se considerava um semideus, redigiu procurações e testamentos. Com a mesma pena, porem, ia escrevendo Vivian Grey: e da tempestuosa sensação que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, à parte algumas fugitivas cintilações de um génio ainda desequilibrado, é, no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os gostos escandalosos e intrigantes da sociedade de então, pondo em cena todas as individualidades marcantes de Londres, políticos, dândis, rainhas da moda, poetas, especuladores.
O melhor resultado de Vivian Grey foi tornar Disraeli Júnior (como ele então se assinava) o favorito de Lady Blenington e do conde de Orsay, as duas dominantes figuras de Londres dessa época, e que tinham de sociedade o mais selecto, mais inteligente, mais apetecido salão de Inglaterra.
Estes dois formavam um tipo destinado a reinar. Lady Blenington era uma mulher de graciosa e olímpica beleza, de uma extrema audácia de carácter e de alta energia intelectual. Estes dois formavam um tipo destinado a reinar. O conde de Orsay, esse, era o homem que durante vinte anos governou a moda, o gosto, as maneiras, com a mesma indisputada autoridade com que hoje o príncipe de Bismarck arbitra na Europa.
Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido aprovados pelo conde de Orsay seria correr o mesmo risco de uma nação que hoje, sem autorização secreta do príncipe de Bismarck, organizasse uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas embaraçadoras, tinha uma filha: e o belo De Orsay, não sei porquê, nem ele o soube jamais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com Lady Blenington; e bem depressa, entre seu brilhante marido e sua resplandecente mãe, a pobre condessa de Orsay foi como uma pálida lâmpada bruxuleando entre dois astros. Fez então uma coisa sensata e espirituosa: apagou-se de todo, desapareceu. E o conde de Orsay e Lady Blenington, livres daquela senhora que entristecia, regelava as salas com o seu ar honesto e frio, começaram então a cintilar tranquilamente, como constelações conjuntas no firmamento social de Londres. E Londres curvou-se diante desta nova e original situação doméstica, como se curvava diante de uma nova sobrecasaca do conde de Orsay, ou diante de uma decisão literária de Lady Blenington.
Benjamim Disraeli tornou-se bem depressa um dos heróis deste salão – onde desde logo se mostrara com esse ar de tranquila superioridade, de correcto desdém, que foi um dos segredos da sua força. Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao mármore da chaminé, numa pose de Apoio melancólico, abandonando-se à carícia ambiente dos olhares das damas, que viam nele a encarnação radiante do poético Vivian Grey. As pessoas mais íntimas, começando por Lady Blenington, já lhe chamavam sempre Vivian, querido Vivian. O conde de Orsay fizera-lhe o retrato a sépia – honra que ele dava raramente, e a mais apetecida nesse curioso mundo.
Todos estes triunfos de Disraeli Júnior não deixavam de surpreender Disraeli Sénior. Um dia, dizendo-lhe alguém que seu filho estava compondo um romance em que entravam duques e toda a sorte de grandes, o velho e laborioso literato exclamou: – Duques, senhores! Mas meus filho nunca viu um sequer!
Viu muitos depois, viu-os todos – e governou-os com uma vara de ferro. Mas nesse tempo o belo Disraeli Júnior era ainda radical, ou tomara ao menos essa atitude. Meditava mesmo a sua Epopeia da Revolução, a sua única obra em verso, uma vaga rapsódia que eu nunca li mas de que os críticos mais benévolos falam como de um volume de duzentas páginas sem uma só linha tolerável. E, coisa curiosa, este homem tão fino, tão céptic6, tão experiente, nunca perdeu a candura quase cómica de se considerar um grande poeta como Virgílio ou como Dante, e a esperança fantástica de que as gerações futuras poriam a Epopeia da Revolução ao par da Eneida, ou da Divina Comédia.
Apesar de poeta abominável e de perfeito dândi – ou talvez por isso mesmo –, Benjamim Disraeli era conhecido nesse tempo como um dos chefes do movimento da Jovem Inglaterra.
A Jovem Inglaterra consistia num grupo de rapazes, ardentes e aristocratas, que se tinham embebido da revolução através da literatura; falavam muito da humanidade e queriam sobretudo um burgo podre que os nomeasse deputados; cultivavam pelos salões o amor platónico, quereriam ver o povo feliz, contanto que estivessem eles no poder para promover essas felicidades, e (traço decisivo das suas maneiras e da sua pose) quando se escreviam uns aos outros, tratavam-se por my darling – meu amor!
Tinham ainda outros distintivos: usavam o cabelo à nazarena, mostravam a coragem (enorme nesse tempo) de admirar o odiado Byron, e procuravam elevar e aperfeiçoar a arte da cozinha em Inglaterra!
No entanto, Benjamim Disraeli já estava bem decidido a sacudir o seu radicalismo – quando fosse necessário aos interesses da sua careira. E essa carreira via-a ele então, apesar de desconhecido e pobre, tão claramente triunfante no futuro como se a tivesse diante dos seus olhos escrita, parte por parte, num programa.
Em pleno reinado dos tories, é característica já a sua resposta a Lord Melburne, primeiro-ministro então, que lhe perguntava o que ele tencionava fazer.
– Ser eu o primeiro-ministro daqui a pouco – respondeu o dândi com as suas grandes maneiras à Vivian Grey.
Lord Melbume viu nesta resposta uma odiosa e insolente jactância. E assim parecia quando, tempo depois, Disraeli, já deputado por Wycombe, fez o seu primeiro discurso – e o viu sufocado pelas gargalhadas e pelos apupos. Como não podia dominar o tumulto, calou-se, dizendo apenas estas palavras mais:
– Hoje não me quisestes ouvir. Um dia virá em que eu me farei escutar!
E um dia veio em que não só a Câmara dos Comuns, mas a Inglaterra, todo o continente, a terra civilizada, escutavam com ansiedade as palavras que iam cair dos seus lábios e que traziam consigo a paz ou a guerra na Europa.

II
A reputação de salão que gozava Lord Beaconsfield levou algum tempo a transformar-se em popularidade: mas a sua popularidade, apenas obtida, penetrou rapidamente a enorme massa trabalhadora, e tornou-se em poucos anos essa vasta e ressoante nomeada que fez o seu nome familiar, quase doméstico, em toda a parte onde se fala inglês, na mais rude aldeia de pescadores de Cornwall, no bush da Austrália, entre os mesmos montanheses bárbaros das Higlands, e que, quando ele se dirigia ao congresso de Berlim, atraía às estações do caminho de ferro as populações da Alemanha a contemplarem o grande inglês. E este reconhecimento de glória constitui um dos fenómenos mais curiosos da carreira de Lord Beaconsfield; porque, em geral, não se avalia bem a dificuldade portentosa de obter uma fama, mesmo medíocre.
Não há nada tão ilusório como a extensão de uma celebridade; parece às vezes que uma reputação chega até aos confins de um reino – quando na realidade ela escassamente passa das últimas casas de um bairro.
No momento de sua prodigiosa voga, o velho Alexandre Dumas ficou assombrado de que o magistrado de uma vila vizinha de Paris, homem ilustrado, de resto, não soubesse com que letras se escrevia esse glorioso nome de Dumas!
E se nós pudéssemos reduzir a números as proporções das glórias contemporâneas, ficaríamos aterrados perante a grotesca mesquinhez dos resultados. Nós outros, jornalistas, críticos, artistas, homens de estudo e de curiosidade literária, julgamos quase impossível que haja alguém na Europa que não tenha lido Victor Hugo, ou que, pelo menos, não conheça esse nome de sílabas fáceis que há meio século fere, a grande estrondo, o ouvido humano; pois bem, pode-se dizer que fora de França apenas cinco mil pessoas talvez terão lido Victor Hugo – e que não passará decerto de dez mil o número de criaturas que lhe saiba o nome, incluindo mesmo a vasta massa democrática de que ele é o épico oficial. E já isto constitui um famoso progresso – desde o tempo em que Voltaire ambicionava ter cem leitores.
A conhecida alegoria da fama, cantando o nome de um varão com as suas cem bocas aplicadas às suas cem tubas, e voando de um a outro confim do universo – e uma das imagens mais descaradamente falsas que nos legou a Antiguidade. Esse estrondear das cem tubas morre como um suspiro dentro da área humilde de um corrilho ou de uma coterie: e nada viaja com uma lentidão igual à da fama. Um fardo de fazenda gasta quatro dias a vir de Londres a Lisboa – e os nomes de Tennyson, Browning, Swinburne, os três grandes poetas da Inglaterra, e que há quarenta anos são a sua mais pura glória, ainda cá não chegaram. E verdade que todo o mundo necessita flanelas – e nem todo o mundo suporta poesia.
Mas uma celebridade não encontra só dificuldades em transpor a fronteira – acha-as sobretudo e quase insuperáveis em fixar a atenção da grande turba dos seus concidadãos. Principalmente num país como a Inglaterra, em que a áspera luta pela existência, a sôfrega preocupação do pão diário, o feroz conflito da concorrência, não permitem esses pachorrentos vagares, os vagares portugueses ou espanhóis, em que se está de barriga ao sol, pronto a reparar, a admirar o menor foguete que estala nos ares.
Em Inglaterra, o duque de Wellington era decerto popular – porque ganhou a batalha de Waterloo, e portanto, segundo a crença contemporânea, salva a Inglaterra da invasão. Gladstone é conhecido em cem cidades e mil aldeias, porque aliviou a nação dos seus grandes impostos. Mas estes formam as excepções; as outras celebridades inglesas, ou seja, políticos como Lord Salisbury, ou filósofos como Spencer, ou poetas como Browning, ou artistas como Herkomer – permanecem profundamente ignorados da grande massa do público. São reputações de salão, de academia, de clube, de redacção de jornal.
Ora, Lord Beaconsfield realmente nunca fez coisa alguma para se tomar popular e sempre lembrado; nunca ligou o seu nome a uma grande instituição, a um grande benefício público, a uma campanha vitoriosa. Tudo, ao contrário, nesta original personalidade parecia destiná-lo à impopularidade: a sua origem, os seus gostos e hábitos anti-ingleses, a sua poderosa veia sarcástica, a sua oratória requintada e subtil, o gongorismo metafísico das suas concepções literárias e certos lados muito acentuados do seu fundo semítico. E a isto acrescia que, para a grande maioria da nação, ele representava um parvenu de autoridade oligárquica, surdamente hostil à ideia de democracia e de soberania popular.
A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a primeira é a sua ideia (que inspirou toda a sua política), de que a Inglaterra deveria ser a potência dominante do mundo, uma espécie de Império Romano, alargando constantemente as suas colónias, apossando-se, britanizando os continentes bárbaros e reinando em todos os mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo, impondo as suas instituições, a sua língua, as suas maneiras, a sua arte, tendo por sonho um orbe terráqueo que fosse todo ele um Império Britânico, rolando em ritmo através dos espaços. Este ideal, que tomou o nome de imperialismo nos dias de glória de Lord Beaconsfield, é uma ideia querida a todo o inglês; os mesmos jornais liberais que com tanto furor denunciavam os perigos desta política romana, no fundo gozavam uma imensa satisfação de orgulho em proclamarem a sua inconveniência. Havia tanta prosápia britânica em conceber um tal império como em o condenar, e em dizer, com um ar de nobre renunciamento: «Não nos convém a responsabilidade de governar o mundo!»
Lord Beaconsfield, sendo a encarnação oficial desta ideia imperial, tornou-se naturalmente tão popular como ela. Foi considerado então como o instrumento da grandeza exterior da Inglaterra, como o homem que a fazia dominante e temida, que mantinha alta e reluzindo terrivelmente aos olhos do mundo a espada de John Bull. Giadstone, Bright, a grande escola liberal, reconhecida pela «escola de Manchéster», era agora acusada de ter com a sua política de abstenção só ocupada de melhoramentos materiais, de finanças, de civilização interna – deixado definhar, morrer, o prestígio inglês na Europa.
E aí vinha agora aquele extraordinário judeu, apoiado na riqueza, na prosperidade interior que lhe tinham legado os liberais, colocar de novo a Inglaterra à frente das nações, fazendo ressoar ao longe e ao largo a sua voz de leão…
Todo o país andou durante anos inchado com esta grandiosa filáucia, que Lord Beaconsfield ia sempre entretendo com os seus discursos belicosos, as ameaças teatrais, as concentrações de frotas, um constante movimento de regimentos, invasões aqui e além, a ocupação de Chipre, a quase absorção da propriedade do istmo de Suez, sempre algum lance brilhante em que a Inglaterra aparecia, entre os fogos-de-bengala da sua eloquência, como a senhora do mundo. E John Bull adorava isto, apesar de ver que a espada da Inglaterra, depois de flamejar um momento nos ares, era invariavelmente recolhida à bainha; apesar de compreender que o dinheiro se gastava como a água das fontes; apesar de sentir que os impostos cresciam; apesar de perceber que a Inglaterra estava tomando sobre os ombros responsabilidades desproporcionadas com a sua força.
Depois, um dia, o grande senso prático da Inglaterra viu claramente a necessidade de brilhar menos aos olhos do mundo – e de se ocupar da máquina interior, que começava a desarranjar-se: pôs fora o grandioso Beaconsfield, e chamou o prático Gladstone – o homem que reconstitui as finanças, que alivia os impostos, que faz as grandes reformas interiores… Mas, apesar de tudo, Beaconsfield ficou como o tipo do estadista que mais que nenhum outro amou e desejou a grandeza imperial da pátria.
A esta causa de popularidade deve juntar-se outra – o reclamo. Nunca um estadista teve um reclamo igual, tão contínuo, em tão vastas proporções, tão hábil. Os maiores jornais de Inglaterra, de Alemanha, de Áustria, mesmo de França, estão (ninguém o ignora) nas mãos dos israelitas. Ora, o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord Beaconsfield como um judeu – apesar das gotas de água cristã que lhe tinham molhado a cabeça. Este incidente insignificante nunca impediu Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impor pela sua personalidade a superioridade da raça judaica – e, por outro lado, nunca obstou a que o judaísmo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo, é o dinheiro judeu que lhe paga as suas dívidas; depois. é a influência judaica que lhe dá a sua primeira cadeira no parlamento; é a ascendência judaica que consagra o êxito do seu primeiro ministério; é, enfim, a imprensa nas mãos dos judeus, é o telégrafo nas mãos dos judeus, que constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador, como escritor, como herói, como génio!

Como romancista, Lord Beaconsfield nunca escreveu propriamente um romance tal como nós modernamente o compreendemos. Alguns dos seus romances são panfletos em que os personagens constituem argumentos vivos, triunfando ou sucumbindo, não segundo a lógica dos temperamentos e das influências do meio, mas segundo as necessidades da controvérsia ou da tese. Outros formam verdadeiras alegorias como as tem a pintura decorativa nas muralhas dos monumentos públicos. Num dos mais célebres – Lothair – há um mancebo ideal, encarnação do espírito inglês, que ama sucessivamente três mulheres: uma italiana casada com um americano, bela criatura de perfil clássico e formas de deusa, que representa a democracia; uma ardente rapariga de cabelos negros e revoltos, sempre em êxtase, que é a personificação da Igreja Católica; e enfim uma doce e loura donzela, séria, grave e terna, que simboliza o protestantismo. Depois de hesitar entre estas três paixões – decide-se, como um bom inglês, por casar com o protestantismo, quero dizer, com a loura, conservando um culto vago e secreto pela democracia, quero dizer, pela soberba americana de perfil marmóreo. Moral: a felicidade de um povo está na posse de uma forte moral cristã, aliada a um uso moderado da liberdade. Isto dava um excelente e aparatoso fresco na sala de um parlamento. E Lord Beaconsfield acentua os detalhes alegóricos com uma tal ingenuidade – que faz por vezes sorrir; assim, por exemplo, a americana, isto é, a democracia, aparece sempre em soirées e festas vestida à grega, com uma estrela de brilhantes na fronte, como a cabeça da república nas moedas francesas de cinco francos!
O meio em que os seus romances se passam tem quase sempre um ar feérico: tudo são, como disse há pouco, palácios de um fabuloso e sombrio luxo, festas como as não tiveram os Médicis, fortunas de banqueiros, de duques, perante as quais os Cresos, os Monte Cristos, os Rothschilds, todos os ricaços da lenda ou da realidade, aparecem como desprezíveis pelintras.
A linguagem destes personagens corresponde ao esplendor das suas moradas e ao nebuloso dos seus destinos. Misses de dezoito anos habitando prosaicamente Belgrave Square, falam aos seus namorados com a pompa alegórica do Cântico dos Cânticos; e quando (o que é frequente) dois brilhantes espíritos como Sidónia ou Mrs. Coningsby conversam, vêem-se, cruzando rapidamente de um a outro lábio, as imagens rutilantes, os luminosos conceitos, como se as duas criaturas se estivessem recitando um ao outro números do Intermezzo ou sonetos de Petrarca.
Esta linguagem, de resto, convém às ideias, aos sentimentos, às aventuras que ele atribui aos seus tipos principais; tudo o que é humano e real fica absolutamente de fora dessas transcendentes criações: falando como poemas, comportam-se naturalmente como quimeras.
O seu mais famoso herói – Tancredo – vai a Jerusalém e à Síria com este fim: penetrar o mistério asiático. Não percebem? É fácil. Sendo Jerusalém e as planícies da Síria o único ponto do universo em que Deus jamais conversou com o homem; em que aparecem os profetas e os messias; em que das sarças, do murmúrio dos rios e do eco dos desertos surgiram as Leis Novas, dando à humanidade destinos novos – o moço Tancredo parte, para que lá, nesses lugares, Deus lhe fale, um raio de luz o divinize, uma religião lhe seja revelada, e tendo partido de Londres como simples lorde possa regressar a Regent Street, como messias e regenerador de sociedades!
E (perguntar-me-ão) o que sucede a Tancredo na Síria? O que sucede a todos os personagens de Lord Beaconsfield, que nas primeiras páginas partem para sobre-humanos destinos, como os antigos cavaleiros da Távola Redonda: sucede-lhe que casa com uma linda e honesta menina e que tem muitos filhos no meio de muita felicidade…
E o mistério asiático? Parece que o não achou. Mas descobriu coisas curiosas e de rara fábula: por exemplo, um povo pagão, onde reina uma bela sacerdotisa de Apolo, que celebra ainda hoje nobres cultos helénicos e que se namora de Tancredo. Mas Tancredo, cavaleiro cristão, depois de a defender da invasão de um outro povo, que adora ídolos infames, foge, foge à desfilada, deixando a clássica minha a gemer de amor aos pés da estátua de Astarté. Depois ele mesmo está para ser rei do Líbano. Enfim, uma grandiosa e rutilante salsada. E tudo isto se passa aí por 1858, no tempo da Exposição de Paris.
Mas que prodigioso talento, que arte, que amplidão de imaginação para pôr de pé, em todo o seu brilho, este desordenado monumento de idealismo!

Com efeito, que artista fino e por vezes poderoso!
Apesar deste abuso do gongorismo na ficção, do vago e ao mesmo tempo do amaneirado das suas concepções, destes enredos e destes personagens que por vezes parecem uma mistificação – os seus romances nunca deixam de interessar, direi mesmo, nunca deixam de cativar. Atravessa-os sempre um entusiasmo sincero – em que se sente o amor poético com que ele segue os seus generosos heróis, as suas belas mulheres nesses destinos fora da realidade. Depois, a sua fina sensibilidade, o seu idealismo um pouco convencional, mas de grande elan, os requintes de um gosto supremo – levam-no a dotar os seus personagens, e a acção em que eles se movem, de uma tal beleza espiritual, de uma tão alta nobreza de costumes, que os olhos enlevam-se, a imaginação namora-se desse mundo fictício, dessa humanidade de poema, onde nada existe de vulgar ou de baixo e onde brilham formas maravilhosas e transcendentes do pensar, do sentir e do viver.
Isto dá-lhe uma qualidade encantadora: é luminoso. Personagens, paisagens, interiores, o próprio movimento da aventura – tudo está banhado numa luz serena e graciosa. Pintando as coisas fora da verdade social, não tendo de lhe apresentar as sombras tristes, exclui dos seus vastos quadros tudo o que na vida é duro, brutal, feio, mau, estúpido – as formas várias da baixeza humana.
Escrevia para uma sociedade rica, nobre, literária, requintada – e mostra-lhe um mundo de ouro e cristal, girando numa bela harmonia, batido de uma luz cor-de-rosa…

Tenho insistido neste lado não real dos livros de Lord Beaconsfield. Todavia, um homem destes, antigo dândi, crítico, estadista, habituado a governar, observador por necessidade, não podia deixar de ter acumulado uma grande experiência dos caracteres e da sociedade; e essa experiência deveria necessariamente transparecer nas suas pinturas da vida. E lá está, com efeito. Por entre as suas grandes criações simbólicas, de indisciplinada imaginação (Tancredo, Lothair, Sibyl), move-se todo um mundo real, de uma vida exacta e forte, figuras de carne, postas de pé com um singular vigor de desenho e cor. São os seus personagens secundários, os seus políticos, os seus intrigantes, os seus homens de letras, as suas mulheres da moda, os seus lordes elegantes. Todos estes tipos foram copiados do natural, Londres conhecia-os, dava-lhes logo os nomes; e o escândalo destes retratos foi mesmo uma das grandes causas do sucesso de Lord Beaconsfield. Mas mesmo para quem não frequenta a sociedade de Londres e não conhece os originais, estes tipos interessam – porque vivem.
Ordinariamente são apenas esboços – mas magistrais; e aparecendo assim em destaque, ao lado de criações de pura imaginação, descomedidamente poéticas e de contornos flutuantes, esses tipos reais adquirem um relevo maior como perfis da verdadeira humanidade, mostrando-se por entre o nebuloso de uma mitologia.
São eles os que interessam, e da vasta galeria de Lord Beaconsfield só eles ficarão lembrados.

Seria impossível, neste estudo ao correr da pena, feito só de impressões – marcar todos os traços de uma individualidade tão complexa como a de Lord Beaconsfield.
Poucos homens têm produzido um tão curioso conflito de apreciações: diz-se dele que foi um grande homem de Estado e diz-se também que foi apenas um charlatão; a crítica tem-no apresentado como um romancista de génio – e como um mau alinhador de novelas! Homem de partido, sofreu em política e em literatura ora a idolatria, ora o rancor da parcialidade partidária. Uma coisa porém tinha a seu favor – é que todos os medíocres o detestavam.
É difícil, de resto, separar nele o político do romancista: fazia sempre política nas obras de arte, que se tomavam assim ressoantes manifestos das suas ideias de estadista – e fez romance no Governo, que parecia muitas vezes um cenário de drama, sobre o qual ele estava de pena na mão, combinando os lances de efeito. Seja como for, a Inglaterra perdeu nele um dos seus génios mais pitorescos e mais originais.
Individualmente foi um feliz. Tendo, em novo, lançado o plano da sua vida futura, como quem prepara um enredo de romance, realizou-o plenamente em todos os pontos, num contínuo triunfo. Foi formoso, foi amado, foi rico, teve a melhor esposa de Inglaterra (como ele dizia), deixou uma vasta obra literária, foi o confidente escolhido da sua rainha, governou a sua pátria, pesou nos destinos do mundo e findou numa apoteose. Foi então absolutamente, ininterrompidamente, ditoso? Não. Este homem triunfante viveu acompanhado de um secreto, de um pequenino, de um ridículo desgosto – nunca pôde falar bem francês!.

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